sábado, 3 de janeiro de 2015

Uma manhã e tanta coisa entre mim e o sol


É sábado e eu saio de casa um pouco depois das nove da manhã.
Numa mesa da esplanada da pastelaria minha vizinha está um homem sentado sozinho, e com uma garrafa de cerveja entre ele e o sol que brilha com intensidade desde o seu espreguiçar ali para os lados do Cristo-rei.
Cruzamos os olhares e eu visto a minha assumida faceta rural quando lhe desejo um bom dia. Ele rompe também a regra do anonimato urbano de pessoas que fingem nem se ver, e retribui o cumprimento por entre dois goles da cerveja que em breve ajudará a apagar aquele tremor que oferece à garrafa um estranho movimento.
Talvez a voz deste homem esteja mais perto do Céu do que a minha e o seu desejo para mim se concretize muito mais facilmente do que o bom dia que lhe desejei…
Nesta manhã, há tanta coisa entre mim e o sol… muito mais do que apenas uma garrafa mini de cerveja.
Não tardarei a ter comigo um caderno Moliskine de capas vermelhas e folhas imaculadas que esperam pelas palavras que relatam olhares, passeios junto ao Tejo, beijos, sentires…
Não me consigo esquecer da festa do Luís quando ontem viu o bolo de aniversário “Trash Wheels” que o Rui lhe fez, e a forma como instintivamente cantou os parabéns para ele próprio.
Relembro a cara muito séria do João quando lhe entreguei a estampa de São João Baptista que me “saiu” como Santo Protector de 2015, e ele fez promessa solene de a guardar para que a nós os dois nada possa faltar durante o ano que agora começa.
Há tanto, mas tanto que levo comigo e não se vê.
No rádio do carro, a música soa não para preencher silêncios mas porque eu quero cantar com ela.
Sigo na rota do bom dia e sinto-me com infinita sorte.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O trevo e a sorte


Na manhã do último dia de 2014, e enquanto procurava poiso para as palavras de amor que me assaltavam à alma, mais do que ao pensamento; reencontrei entre as páginas em branco de um velho caderno que “mora” à minha cabeceira, um trevo de quatro folhas que um dia me foi oferecido pela minha querida amiga e colega Júlia Lameira.
Já não me lembrava dele, mas depois de o rever, foi fácil recordar-me que o coloquei ali precisamente pela garantia de que mais cedo ou mais tarde o iria reencontrar por entre o tanto de bulício que carrega a vida.
Eu sei que a sorte é tecida por nós na forma de sins e nãos com que vamos enchendo os dias, e de que nunca se colherá passivamente de um canteiro ou de um prado que albergue uma planta que fuja à normalidade e trivialidade de três folhas…
Mas não pude deixar de sorrir vendo o trevo ali seguro entre as páginas de um caderno onde jamais supus poder escrever palavras tão felizes nascidas de um mágico e inédito sentir.
Quando ali o coloquei, eu ainda não sabia o que era a sorte.
Sei-o hoje por mérito de um sim completo que nasceu de mim quando no apeadeiro mais improvável do tempo te descobri nesse olhar que “grita” céu e nesses braços que herdaram do granito a força imortal que insufla vida até ao mais recôndito do ser.
Um sim tão fácil perante o perfeito que tu és.
O trevo…
Saiu do caderno e viverá em 2015 nas páginas de um livro com poemas de Sophia.
Agora que sei o que é a sorte, agora que sei que tu és a minha sorte, peço à vida o cumprir de um imenso desejo: que sejas eterno como a poesia… como o mar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

2015 - O futuro é de quem ousa cumprir os sonhos e seguir-se a si mesmo


O calendário assinala hoje um novo ano.
Novo?
Só será o tempo que soubermos fazer nosso, alimentando-o de esperança e de tudo o que carregamos de sonhos e vontade.
Por isso, sejamos heróis cavalgando rumo ao melhor e mais perfeito de nós mesmos.
Matemos os fados mais tristes, rasguemos horizontes e ousemos “tomar” todos os minutos, como se cada instante fosse a chave secreta para aquele desejo persistente e essencial tão nosso como qualquer outro detalhe genético.
Vivamos intensamente e com urgência…
Que nenhuma gargalhada permaneça amordaçada por imperativo de qualquer bem parecer, que nenhuns lábios fiquem órfãos de beijos, que nenhumas palavras de amor sequem em nós sem serem ditas, que os braços cumpram o destino de todos os abraços, que as mãos se entreguem às carícias inscritas na alma, que a madrugada nunca cale a noite sem que cumpramos todos os secretos desejos inscritos no luar…
Não traíamos nunca os sins e os nãos que nos crescem no ser, e não neguemos nada daquilo que nos faz a fé, nada do que nos torna diferentes e únicos.
Ousados, e sempre sem temer as indistintas vozes que na esquina de um dia qualquer nos alcunham de loucos.
A felicidade mora sempre para lá da mediania e da previsibilidade.
O futuro é de quem ousa cumprir os sonhos e seguir-se a si mesmo.
Saboreemos 2015, um ano único e irrepetível.
Feliz ano novo.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A amar-te como nunca e a olhar Lisboa


O calendário assinala hoje a mudança de um ano velho para outro que chega e se faz novo.
Acredito…
Mas perdi-me na contagem do tempo no exacto momento em que chegaste; que não importa mais a história feita de esperar por ti, e o presente nunca terá nome, número ou sigla, é tão só a vida, algo inacessível a adjectivos e contagens.
Porém, às vezes sentimos as estações a passar por nós, palpando-as no frio ou no calor, nos aromas… em tudo o que se vai incorporando na aragem do Tejo, o rio que nos oferece as margens para namorar.
A brisa que passa por nós e pelos nossos beijos para depois ir perfumar Lisboa com a poesia de um grande amor.
Já se sentia a primavera quando os meus braços palparam pela primeira vez o toque e o calor dos teus, e aquele não sei quê que existe em nós e nos tece em tudo e nos lábios, a palavra amor; deu um definitivo sinal de si.
O sinal de um definitivo amor, o tal amor que sobrevoa as calçadas desenhadas a preto e branco da velha Olisipo.
E entrançámos as nossas histórias na primavera lilás dos jacarandás, sonhámos e tecemos os dias à luz de um pôr-do-sol de verão, partilhámos vontades por entre as castanhas compradas numa banca que o Outono trouxe ao Rossio, ensaiámos passos e abraços à chuva dos entardeceres de inverno, voámos juntos por sobre o próprio tempo quando nos demos um beijo a ver tão pequeno o Chiado e o Carmo do alto do Elevador de Eiffel…
Nunca saberei dizer o tudo que me diz o teu olhar, o azul que rasgou em mim janelas para uma desconhecida mas muito sonhada forma de seu eu.
Jamais a minha pele conhecerá a fórmula ou quaisquer detalhes químicos dessa magia do encontro com a tua.
E as minhas mãos que te adoram...
Amo-te.
Sim.
Desde aquele primeiro abraço mas muito mais hoje que te fui descobrindo na margem direita do Tejo e da vida.
Por isso…
O calendário assinala hoje a mudança de um ano velho para outro que chega e se faz novo…
Mas eu jamais partirei ou te deixarei partir nas mãos de um tempo qualquer que passa por nós e que às vezes voa.
Quando morrer quero estar de mão dada contigo a sentir o Tejo, a amar-te como nunca e a olhar Lisboa.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2014


Cumpre-se a tradição e o Pomar das Laranjeiras atribui as suas “laranjas” relativas à colheita do ano que agora termina, classificando-as de acordo com os seus justos atributos.
As “laranjas” no ano das selfies em que o “Espírito Santo” se apagou em vícios velhos que nem o “Novo” disfarça:

LARANJA DOCE – O motor de arranque para uma justiça que se exige?
Em Portugal há finalmente poderosos e famosos condenados e presos por corrupção (ou suspeita de).
Apesar de alguns preocupantes e incompreensíveis arquivamentos, parece que arranca o motor para o fim de uma certa impunidade por detrás da pérfida avalanche do “vale tudo”.
A ver vamos…

LARANJA AMARGA – A corrupção
Operação Marquês com um ex-Primeiro-Ministro preso, os Vistos Gold, o Banco Espírito Santo, o BPN, os submarinos e os blindados…
Fica a clara sensação de que por debaixo da levíssima e aparente camada das públicas virtudes dos agentes políticos existe o charco pestoso dos mais pérfidos vícios de parcerias público-privadas, o esterco que suga a saúde dos contribuintes
O regime actual exige uma purga.
  
LARANJA SUMARENTA – Papa Francisco
As “exigências” do ser católico que são enunciadas diariamente pelo clero a partir dos púlpitos, transpostas agora para o seio da vida da própria Igreja num esforço do Papa para apagar a hipocrisia da oferta de salvação assente em tantos pecados.
E olha-se para a pessoa muito mais do que para as regras cegas.

SUMO GASEIFICADO DE LARANJA – Jorge Jesus
A super desenvolvida auto-estima do treinador do Benfica tem pouca tradução na regularidade de vitórias.
Pago a preço de sumo natural, é efectivamente uma imitação artificial e gasosa que de vez em quando e subitamente perde o gás.
Palavras e promessas à parte, “limpinho, limpinho” só mesmo o título que já lá vai.

SUMO NATURAL DE LARANJA – O Cante Alentejano é património da humanidade
O canto polifónico do sul de Portugal, a voz da minha terra, o meu canto, foi reconhecido pela UNESCO como património imaterial da humanidade.
Orgulho.

LARANJA SECA – Aníbal Cavaco Silva e Mário Soares
Uma nação sem referências por entre a senilidade daqueles que o poderiam ser.
O triste desfile do “Alzheimer” dos “mestres”.

LARANJA MECÂNICA – A explosão dos refugiados
Síria, Iraque, Palestina, Ucrânia...
As etnias e a religião a servirem de pretexto para fundamentar a “legitimidade” dos poderes absolutos e muito pouco democráticos.
A paz é hoje uma ilusão e a vida vale muito menos que os Rublos do temível Senhor Putin.  

VITAMINA C – Selecção Portuguesa de Ténis de Mesa
Marcos Freitas, Tiago Apolónia e João Monteiro.
Campeões da Europa após uma vitória por 3-1 sobre a toda poderosa Alemanha.

LARANJA PÔDRE – A Agonia do Estado Social
A Troika saiu mas há que confirmar se foi efectivamente uma saída ou um “até já” que eu vou ali e já venho.
Parece-me que o conceito Troika se enraizou à medida que as pessoas contam muito menos do que as percentagens expressas nas estatísticas capazes de enfeitar cartazes eleitorais.
E o péssimo estado da nação arrasta contamina a vertente social do Estado.

LARANJA CALIPOLENSE – Rádio Campanário
Não há acontecimento de âmbito local que não seja notícia na Rádio Campanário.
Agradecemos todos os calipolenses mas sobretudo aqueles que estamos longe de Vila Viçosa.

COMPOTA DE LARANJA – O ano de 2014 deixa para sempre a saudade de muitos, entre eles Eusébio, Mário Coluna, Lauren Bacall, Joe Cocker, Philip Seymour Hoffman, Robin Williams, Gabriel Garcia Marquez, o escritor Nobel que um dia escreveu:
“Não é verdade que as pessoas param de perseguir os sonhos porque estão a ficar velhas, elas estão a ficar velhas porque pararam de perseguir os sonhos”.
Da banda sonora de 2014 escolho a voz de António Zambujo e delicio-me com a arte de Miguel Gameiro em “O tempo” na voz de Mariza.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Os amigos ao jantar


Sopa de tomate com linguiça frita
Carne de porco
Açorda de marisco
Azeitona cordovil
Tinto Alentejano num jarro
A Tina que quer em garrafa… de marca
E quase se irrita

Chega a comida
Achamos sempre que é demasiado
Que há comida que nos aguente até ao entrudo…
Mas comemos tudo

Depois a conversa vai inevitavelmente para as desgraças…
O meio século
As hérnias
As cirurgias
As diarreias
As frieiras
As rugas
As dores de coluna
As azias
Os anti-inflamatórios
Reumatismo nas articulações da mão…
E urge uma piada porque isto está à beira da depressão

A Zinha dá uma das suas gargalhadas
Já tardava
E nem os temas
Sócrates
Maçonaria
Soares
Opus Dei
Nos privam de entrar na avaria

Eu digo que estamos todos melhor que o milho
Mas ninguém concorda e recebo apupos que quase dão sarilho

O Manuel declama o meu mais recente poema de amor
As confissões de um enamorado…
Mas lidas com a alma de quem lê uma lista de supermercado

Peço-lhe para pôr um tom sexy…
De matador
Mas não fosse a Zinha a lembrar-se de um poema que escreveu a um cipreste que ardeu há anos no Terreiro do Paço
E a Madalena a ter fotocópias da arte de Jorge de Sena
E o momento de poesia teria sido um fracasso
E seria uma pena

Passámos também pelos temas que nunca falham
As aulas no velho liceu
A “Morgadinha dos Canaviais”
Os teatros da catequese
Os signos
O equilíbrio dos Aquarianos
Um caranguejo fofinho que sou eu
As freiras
As maestrinas “epilépticas”
Os salmos entoadas pelo Manuel…

E muitas coisas mais

Depois a sobremesa
O café
Um presente que vem do ano passado e se pensa ser um presépio
E afinal até é

Beijos
Abraços
Mais umas conversas ao frio à porta do restaurante
As cumplicidades de sempre
As gargalhadas como dantes
E a promessa de voltar quando 2015 acabar

Os amigos e mais um jantar

domingo, 28 de dezembro de 2014

O olhar dos amigos será sempre a casa onde nos sentamos para sorrir


Após a centrífuga acção do tempo, resistentes a tudo e à erosão do muito viver, permanecem fiéis e ao redor dos nossos dias aqueles que são especiais e indispensáveis: os amigos.
São a nossa família eleita com base na mais pura genética do ser, um núcleo congregado pelos afectos e cumplicidades; laços por vezes bem mais verdadeiros e eficazes do que os derivados de qualquer outra inevitabilidade por herança de DNA.
Mestres das palavras que nos fazem bem e nos constroem, dispensam-nas tantas vezes por nos saberem ler os olhares, os semblantes, as poses os gestos…
Gente que está e a quem nunca necessitamos chamar… a gente que sorri instintivamente quando nos vê e sente sorrir…
E chora connosco.
Gente que é alento no caminho, antídoto de qualquer possível fraquejar, gente que nos rasga o desespero e faz sobressair o lado mais doce e solar.
A gente do sim e do não, gente que não ajuíza mas sabe cuidar, uma espécie de zeladores da felicidade, companheiros instituídos pela alma que às vezes até nos podem gritar sem que levemos a mal; tudo neles tem o tempero do coração.
Gente às vezes tão diferente de nós em tanta coisa e no pensar, detalhes que dão cor e nunca dividem, porque as raízes são as mesmas e alimentam de valores a nobreza do ser.
Estes dias de entre Natal e Ano Novo trazem-me muitas vezes à roda dos amigos. Quase que nem necessitamos combinar nada, conhecemos muito bem e de há muitos anos, as horas e os sítios que nos possibilitam estas tertúlias informais, quase sempre a pretexto de um café.
Os nossos dias cruzam-se da mesma forma que as nossas vidas estão entrecruzadas e se entregam juntas ao caminho desde a história até ao futuro que sonhamos grande e feliz.
Há sempre uma história…´
E entre gargalhadas, e apesar das queixas que por vezes já levam as conversas para as hérnias, depressões, dores na coluna, problemas digestivos, pontadas no fígado, alergias… sentimo-nos bem melhor.
O olhar dos amigos será sempre a casa onde nos sentamos para sorrir.