sábado, 17 de janeiro de 2015

Com compras, sem preços de saldo, enervado, a baixar o volume do telemóvel… e com vontade de fazer “ensaladilla de gambas” para o almoço de amanhã


Sair do trabalho às 15 horas de uma Sexta-feira e ir fazer compras para o El Corte Ingles para aproveitar os saldos é definitivamente uma doce ilusão.
Em primeiro lugar porque os saldos são uma festa que as lojas organizam para juntar anorécticos e obesos, e em que nós, os dos tamanhos médios (e perdoem-me a relatividade e o bom gosto da expressão… e nem sequer vale rir), ficamos à porta sem direito a constar nas “guest lists”; agarrados às prateleiras e aos preços sem descontos e pré-depressão da “Nova colecção”.
Já não estando muito bem-disposto por esta descoberta, pior fiquei quando descobri que eu por ali e àquela hora resultava numa combinação demasiado contra-natura; é como entrar num mundo que por estas horas não nos pertence, dominado que está pelos reformados e idosos, que à falta de bilhetes para irem assistir às gravações dos programas do Fernando Mendes e da Júlia Pinheiro, foram para ali passar a tarde.
Todos os sítios servem para as suas tertúlias…
À frente das caixas multibanco estacionam a discutir códigos e saldos, e mesmo depois de nós termos manifestado a nossa impaciência com um ligeiro sopro e o cartão a bater ferozmente na carteira, ainda ajeitam as notas e os talões nas suas carteiras com toda a calma do mundo, procurando depois o melhor sítio da mala ou do bolso para só depois então saírem, ainda hesitando se saem pela direita ou pela esquerda, discutindo uns com os outros sobre as vantagens de um e outro lado.
Não há funcionários disponíveis pois estão todos ocupados a responderem às listas infinitas de dúvidas que acodem a esta gente. Primeiro que consigamos que eles nos respondam “46 de calças só na nova colecção”, é de morrer.
E depois há o item “toque do telemóvel”.
Com a surdez que a idade vai promovendo, os toques são num volume para lá de amanhã e com conteúdos tão sugestivos como bebés a chorarem ou cavalos a relincharem num estábulo da Praça de Touros da Moita.
Acho que definitivamente devem patrocinar uma revisão dos ditados populares e decretarem o “diz-me como toca o teu telemóvel e dir-te-ei quem és”.
No fim da saga de compras e estando num território que quase se pode considerar uma embaixada de Espanha, identifiquei no corpo uma vontade louca e algo interessante de “ensaladilla de gambas com una caña y unos picos”.
Em vão. O balcão de Tapas está fechado a estas horas (claro) e tive de ir para um outro com chás, cafés e pastelaria variada.
Onde estava quem?
Exactamente.
Todos os membros inscritos na Associação Portuguesa de Universidades Seniores em passeio anual e excursão ao El Corte Ingles de Lisboa, com lanche incluído.
Confesso que estive para perguntar a três senhoras à minha frente, daquelas que têm más relações com as cabeleireiras e usam cores indefinidas nos cabelos, ali entre o cinzento e o roxo; se não queriam que eu fosse buscar uns banquinhos para estarem mais confortáveis.
É que tanto tempo por ali em pé a discutir esse assunto de crucial importância que é o Pastel de Nata com ou sem canela…
Mas não, contive-me até ao meu chá de camomila com uma empada lusitana que definitivamente não apagou a fome de “ensaladilla”, e saí do parque de estacionamento passado algum tempo, e ainda a tempo de ver os polícias em São Sebastião a controlarem as matrículas dos carros mais antigos e que agora não podem circular na cidade com risco de a Câmara ter de pagar uma taxa à União Europeia por excesso de Monóxido de Carbono.
Não é este Presidente de Câmara que diz querer ser Primeiro-Ministro para ir “bater o pé” e renegociar dívidas?
Pois…
E cheguei a casa à hora a que chego todos os dias.
Com compras, sem preços de saldo, enervado, a baixar o volume do telemóvel… e com vontade de fazer “ensaladilla de gambas” para o almoço de amanhã. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Benefícios de um poeta em contramão na madrugada de um dia em que não te verei


O drama do poeta é o abismo imenso entre o amor que o tempo permite que vá sonhando e desenhando em si, e a realidade amarga das muitas noites em que só a almofada do outro lado da cama parece querer atenuar-lhe a solidão.
O benefício do poeta é o convívio tão próximo, despudorado e tão íntimo com este amor perfeito, que quando um dia ele finalmente chega e se concretiza dando nome e rosto ao outro lado da cama, não são necessárias averiguações extra ou mesmo quaisquer apresentações.
Chegou.
E os poemas são palavras que como coloridos pedaços de linha de seda preenchem o desenho dos dias passados quase sempre algures entre o drama e o usufruto do benefício, ao ritmo das vantagens de um e outro na expressão real do que é afinal viver.
O dia hoje amanheceu de chuva, mas por ti e apesar da saudade, eu não hesitei nunca em pintá-lo com as palavras que fui buscar ao recanto da minha paleta que tem as melhores e mais intensas cores.
Eu e o céu que tomou de mim a vontade e desenhou um arco-íris.
Benefícios de poeta na madrugada de um dia em que não te verei, mas um dia em que te sentirei aqui muito perto.
Por insistir e te querer assim…
Que os poetas não temem nunca assumir o seu amor perfeito e a contramão na hora de desrespeitar e matar a distância que é fruto da má sorte.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Um beijo e essa casa que faz nossas todas as estrelas que brilham na noite em que o luar generoso não se cansa de nos alumiar


Na história de todos os nós, há instantes que rasgam socalcos, degraus gigantes de uma escada informal e inesperada que nos permite chegar ao cimo da mais alta montanha, aquela que tantas vezes e de longe apelidámos de impossível.
Socalcos como canteiros generosos enfeitados de flores, cores e aromas, para que a subida seja toda ela um prefácio da festa maior de chegar ao topo.
E há fontes de onde jorram palavras, tal qual água fresca para o alento de jamais sequer pensar voltar atrás.
E há o teu corpo como um perfeito bordão.
E há lençóis tecidos de abraços, como relva à sombra de árvores de folhas generosas onde podemos descansar e nem sequer temer algum tropeção maior que nos perturbe o caminho.
Na história de todos nós…
Haverá um abraço inesperado como o nosso na timidez de uma tarde entre palavras escritas, um instante apenas e de quase primavera de onde nasceu a rota feita de socalcos por onde sigo pelos dias, e contigo, montanha acima.
A alegria de nunca me sentir só.
A ousadia.
A paixão certa mas tranquila.
E de tão grande e tão doce, às vezes sabe a completa ilusão esta festa de nos vermos chegar ao cimo… lá onde só existe céu no todo à nossa volta e em rima com o teu olhar; e quando um beijo nos oferece a casa para ficarmos eternamente por ali como coroados reis no mais perfeito e recorrente de todos os sonhos.
Um beijo e essa casa que faz nossas todas as estrelas que brilham na noite em que só luar generoso nos alumia.
Um beijo e uma jura de amor eterno numa casa para dois que vivem como quem sonha um só sonho.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Olhar para trás e… sorrir ou “matar”


Parado num semáforo vermelho à entrada de Lisboa, eu dou conta que no carro à minha frente há um condutor que aproveita aqueles segundos de descanso para se virar e brincar com uma criança sentada na cadeira colocada no banco por detrás dele e da qual eu só consigo ver a parte superior do encosto.
Sorrio inevitavelmente pelo impacto da imagem que tenho à minha frente e os nossos olhares acabam por se cruzar, o meu e o do homem que reparando que eu estou assim a sorrir, me responde com o acenar de um olá.
O semáforo passa depois a verde, nós arrancamos em direcção aos destinos que nos colocaram ali naquela tarde da cidade; e no rádio do meu carro escuto Amália à conversa com João Ferreira Rosa antes de interpretar o fantástico “Foi Deus”.
Às vezes o nosso nervoso miudinho induzido pelo trânsito, o mau humor de horas com quilómetros de filas, “tropeça” assim em gestos que resultam em sorrisos e nos adoçam o humor feito de tantos pensamentos e tantas palavras com elevado grau de uma corrosiva acidez.
Com o benefício da ajuda de uma banda sonora de excelência.
Na missa das seis e meia na Basílica dos Mártires, ao Chiado, estou sentado no último banco e tenho ao meu lado um casal de jovens Japoneses com uma criança que terá uns dois anos e que aproveita o espaço entre bancos para circular de pai para mãe, e vice-versa, e aproveita a acústica do templo para emitir uns sons algo agudos mas para mim completamente imperceptíveis.
Ali à volta quase todos sorrimos para ela e para os seus progenitores, até para lhes passarmos algum conforto que atenue o desconforto que já manifestam pelo facto de a filha estar a aproveitar o momento para aquela performance num misto de canto e ginástica.
Todos, excepto uma senhora que sentada no banco imediatamente à frente e com um gorro de lã enfiado na cabeça já com aspecto de septuagenária, olha para trás com um olhar feroz, daqueles que matam os próprios e os que estão nas redondezas, que é o meu caso.
O padre fala do baptismo de Jesus e das águas do Rio Jordão, do Homem novo, mas a “velha” não o escuta e continua a olhar até ao momento em que eu resolvo intervir e lhe faço uma careta pondo a língua de fora.
Talvez a senhora tenha chegado a casa alguns minutos depois a falar de um psicopata e louco barbudo que lhe pôs a língua de fora na missa… Pois sim.
Às vezes as circunstâncias onde pensamos ir beber paz servem-nos “guerra” e uma desagradável sensação de desconforto.
Essa tão atractiva imprevisibilidade da vida.
E Deus, muito mais do que entre os altares barrocos de uma basílica, mora entre bancos de um automóvel parado num semáforo à entrada da cidade… e na voz de Amália, claro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Imbatíveis… Sim!


Num destes dias correrei veloz em paralelo a todas as linhas que a vontade me desenhar nos dias, e cruzarei para ti num passe teleguiado que voará sobre todos os “adversários” e obstáculos, acabando por cumprir o objectivo de nos pôr a festejar como que por entre o eco inesquecível de milhões que gritam “golo”.
No final, o resultado será goleada a nosso favor e seremos coroados campeões do mundo, recebendo um prémio que terá o valor inesquecível de uma Terra em tons de ouro, enquanto as orquestras afinam hinos e a História inscreve os nossos nomes na galeria dos imortais.
E neste jogo não se cruzam só esféricos, cruzam-se sonhos, amores, palavras, vontades…
Que de tudo isso se compõe a vida.
E os “golos” às vezes são só um sorriso ou um abraço.
Cristiano Ronaldo foi ontem eleito pela terceira vez o melhor jogador de futebol do mundo, do mundo da bola, provando que ter arte, querer e trabalhar muito são os ingredientes perfeitos para ter sucesso.
Falou em Português para agradecer à família e aos colegas, e para dizer que está obviamente satisfeito e quer mais bolas de ouro. Acho que tem toda a legitimidade para as querer e creio que sim, irá vencê-las.
Quanto ao Português e à família, é assim mesmo: um campeão que seja simultaneamente um Homem grande não perde a sua essência e não corta raízes.
Nós ficamos satisfeitos por ele, copiamos-lhe o modelo e importamos a vontade e a garra para o nosso mundo, que é o que mais nos importa e aquele onde decisivamente nos é pedido que sejamos campeões e sejamos os melhores. Não porque os outros, os “adversários”, sejam realmente maus ou por nos termos esforçado por passar a imagem de que o são; eles são óptimos mas nós somos… imbatíveis.
SIM!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Like a virgin…


Numa montra da Rua da Misericórdia, do lado esquerdo de quem desce para o Camões; entre almofadas em forma de sardinha, imagens de Santo António de todas as cores e ímans que representam os eléctricos amarelos da Carris, há uns chinelos de lã feitos à mão que nos apetece importar directamente para os nossos serões de inverno.
Do alto do restaurante ao cima da “sétima colina”, em São Pedro de Alcântara, desfruta-se de uma privilegiada vista para a Graça, a Sé, o Castelo, e para uma muito generosa nesga de Tejo…
A partir da aparelhagem do restaurante, o “Like a Virgin” da Madonna inunda toda a sala. Uma versão num tom mais intimista que a original mas que mesmo assim não impede que ressuscitemos a ousadia que herdámos desta música e dos eighties… a ousadia e os sonhos…
Enquanto escutamos a música tu lês uma carta de amor que te escrevi ainda hoje pela tarde, e eu olho-te para ver muito mais do que apenas Lisboa, para ver afinal o meu mundo, e o mundo inteiro que tu guardas em cada detalhe de ti…
Depois, mesmo estando do outro lado da mesa eu percebo que quando terminas a leitura e através da tuas palavras, me dás mil beijos, your heart beats next to mine.
E o meu próprio coração também não poderia estar agora a bater mais próximo do teu.
Apetece-me então dar um tiro no relógio e matar o tempo para que fiquemos eternamente aqui neste instante tecido de ousadia, de um sonho maior, e sobretudo de amor.
Um amor assim que tem a dimensão perfeita e intensa que o torna inédito como uma primeira vez, for the very first time; porque se nasce e renasce em cada amor.
E uma primeira vez que eu quero então tornar última e única com a duração da eternidade.
Sente-se uma certa corrente do frio de Janeiro que a climatização do restaurante não consegue disfarçar e eu ouso sonhar com uma casa de janelas viradas para o rio, e nós os dois de chinelos de lã devidamente calçados, a olharmos juntos cada mais pequeno detalhe das noites todas que a vida nos oferecer.
Os dois por entre o amor deste instante…
Sim, porque só o amor pode perdurar, cause only love can last

domingo, 11 de janeiro de 2015

O meu amor…


O meu amor mora entre os teus braços naquele exíguo espaço definido pelo eterno impulso de fundir o meu com o teu respirar…
O meu amor tem o aroma das palavras que se soltam entre as memórias do rosmaninho e dos juncos que colhemos nas tardes passadas à sombra das glicínias…
O meu amor tem os contornos perfeitos desenhados pelos nossos passos entrelaçados sempre que saímos juntos para namorar pelas ruas e calçadas de Lisboa…
O meu amor é da cor do Tejo naquele tom azul com que o incendeias ao sorrir, por bênção do teu olhar…
O meu amor tem o sabor doce dos beijos que colhemos da noite e de todos os instantes passados com a cumplicidade do luar…
O meu amor tem o toque suave da tua pele, da infinita festa que nasce do impulso de carícias a que se entregam os nossos dedos…
O meu amor não é longe, não é perto, não é tarde, não é cedo… o meu amor é o tempo todo no espaço perfeito e infinito da eternidade…
O meu amor é o côncavo e o convexo, o par e o ímpar, o branco e o preto, o sonho e a realidade, a esquerda e a direita, o sim e o não, o estio e a neve, a noite e a aurora, o tudo e o vazio, a frente e o reverso…
O meu amor é a música nascida das manhãs de onde se solta a poesia… mas o meu amor é também o silêncio onde o pensamento se permite ousar soletrar todas as palavras…
O meu amor tem os detalhes todos dos sonhos com que nos permitimos arquitectar juntos o futuro…
O meu amor…
És tu…
E terá sempre o teu nome.