terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A liberdade, a traição à liberdade e o retirar da roupa


Desço a Avenida da Liberdade de braço dado com os meus pais em direcção ao Parque de Estacionamento do Parque Mayer, cruzando-nos com uma carrinha da polícia que faz a troca do agente que garante segurança à porta da Embaixada de Espanha; e vemos passar à nossa frente, uma metralhadora com um ar muito desagradavelmente sofisticado.
Já no interior do Parque, os meus pais recordam, teatro a teatro, as revistas que viam por ali quando vinham de visita a Lisboa, e invariavelmente acabam a falar de uma célebre, “Mostra-me a tua piscina”, a que assistiram no Capitólio num tempo em que a revolução de Abril tinha permitido retirar “oficialmente” a roupa das coristas, e ninguém levava a mal os borrifos de água que chegavam à plateia sempre que elas mergulhavam numa piscina montada no palco.
Já conheço a história que eles temperam de um misto de espanto, algum escândalo e muito riso, mas também já espero que eles a contem sempre que passamos por ali como “gravura” de um tempo em que Lisboa se “vestiu” de uma liberdade que dava mais sentido do que nunca ao nome da vizinha Avenida.
Montamo-nos agora no carro, faz frio e sabe bem o ar condicionado.
Saímos do Parque e seguimos até à Praça da Alegria onde um “stop” à entrada nos deixa ao lado de quatro homens que remexem em dois contentores do lixo abrindo sacos de plástico em busca de comida.
Faz frio agora dentro do carro e o riso rende-se ao silêncio.
A Alegria é apenas nome de Praça na traição à liberdade que voltou a tirar sentido ao nome da Avenida.
E da traição à liberdade nasceu este retirar da roupa e da dignidade da gente num espectáculo degradante para o qual não pagamos bilhete e para onde temos visão aberta em todas as esquinas da cidade.
As esquinas guardadas pelas metralhadoras e onde a dor nos borrifa sem pudor por entre a falta que nos faz uma revolução.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Eu amo-te com a infinita convicção de que jamais te deixarei partir


Revejo-me na foto que está em cima da cómoda da casa da Tia Carlota e do Tio Joaquim. Foi tirada no dia do casamento deles, 1 de Outubro de 1972, e eu estou de mão dada com o meu irmão junto aos noivos no altar da Senhora da Conceição, em Vila Viçosa.
Eu tinha seis anos, a foto é a preto e branco mas eu recordo-me que os meus calções de veludo eram da cor do laço de cetim com uma pérola que levava sobre a camisa branca, e eram num tom bordeaux.
Pela memória, e muito mais pela vontade, nós insistimos e pomos cor sobre o preto e o branco de muitos dias, na forma de uma muito marcada esperança com que enfrentamos o que nos dizem ser as inevitabilidades da vida; e hoje eu acredito que o Tio Joaquim irá melhorar e tento que ele também acredite pela forma como lhe sorrio.
Mais tarde, quando o dia segue pela coerência de um triste tom de cinza, eu viajo no carro com os meus pais. Vamos de regresso a casa e de encontro a um chá que nos aqueça, conversando e sobrepondo os planos das férias de verão ao tom da tarde.
Viver é semear o futuro não assumindo quaisquer pontos finais na “história” que escrevemos para nós próprios.
E não tarda quase nada até ao momento em que tu chegas e me ofereces o azul no olhar aceso que me fala de amor com mais verdade do que todos os poetas do universo.
Na parede do fundo da pastelaria onde conversamos, a televisão passa os golos do Benfica; mas eu troco todos os golos do Glorioso pelo teu olhar.
Lá fora chove no início de uma noite escura, mas o que importa?
A minha noite faz-se da cor da minha vontade: eu amo-te com a infinita convicção de que jamais te deixarei partir.
Tu és a chegada definitiva ao melhor de mim, mesmo por entre domingos (cinzentos) que são tecidos à escala da própria vida. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Basta uma só palavra para matar todos os silêncios do universo


Ontem depois do jantar e aqui na mesa da sala, eu e o meu sobrinho João fizemos uma sementeira de coentros, colocando as sementes num cartuxo próprio e sofisticado que a minha amiga Teresa Lopes me ofereceu como presente de Natal.
Regámos e esperamos agora que junto à janela da cozinha possam nascer os temperos que acompanharão os alhos na festa das nossas açordas.
Depois, mais tarde, adormeci ao som da chuva a bater forte na vidraça com o impulso de um vento de uivos prolongados e intensos de onde às vezes a imaginação consegue retirar palavras que contam histórias.
Mas a noite levou o vento e está muito calma a manhã que trouxe com ela um nevoeiro que não deixa ver quase nada para lá da vidraça; não há árvores, verde, o mar ao longe, e a janela é agora um enorme espelho onde me vejo a mim e vejo tudo o que o pensamento permite, que essa é a vantagem que colhemos dos instantes em que os olhos vêem pouco.
E a revisitar papéis, cedo esta manhã, encontrei algo escrito por mim em Maio de 2013.
Fala sobre o silêncio:
Quem atira as suas palavras para o silêncio
Vê-as morrer
Como o inevitável destino de um papel no fogo que arde

Porque o silêncio é sempre o silêncio

Por mais que queiramos que o não seja
Por mais que imaginemos que o não é
Por muito que acreditemos que o deixará de ser mais cedo ou mais tarde  
Não consigo lembrar-me do contexto em que escrevi isto, mas acredito que possa ter sido quiçá numa manhã em que todas as janelas me devolveram a minha imagem, muito mais do que qualquer outra coisa.
Com uma diferença em relação a hoje…
Na mensagem que me enviaste ontem antes de adormecer dizias que me adoras, e a janela e o nevoeiro hoje mostram-me o mundo todo no detalhe do brilho intenso do meu olhar; sem espaço para o silêncio, pois brotam de mim palavras como do pequeno saco castanho da sementeira de ontem um dia nascerão as viçosas as plantas, das quais prometi ir mandando registo fotográfico para o João.
O silêncio poderá ser sempre o silêncio…
Mas basta uma só palavra para matar todos os silêncios do universo.  
E quando dizes que me adoras… 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Com compras, sem preços de saldo, enervado, a baixar o volume do telemóvel… e com vontade de fazer “ensaladilla de gambas” para o almoço de amanhã


Sair do trabalho às 15 horas de uma Sexta-feira e ir fazer compras para o El Corte Ingles para aproveitar os saldos é definitivamente uma doce ilusão.
Em primeiro lugar porque os saldos são uma festa que as lojas organizam para juntar anorécticos e obesos, e em que nós, os dos tamanhos médios (e perdoem-me a relatividade e o bom gosto da expressão… e nem sequer vale rir), ficamos à porta sem direito a constar nas “guest lists”; agarrados às prateleiras e aos preços sem descontos e pré-depressão da “Nova colecção”.
Já não estando muito bem-disposto por esta descoberta, pior fiquei quando descobri que eu por ali e àquela hora resultava numa combinação demasiado contra-natura; é como entrar num mundo que por estas horas não nos pertence, dominado que está pelos reformados e idosos, que à falta de bilhetes para irem assistir às gravações dos programas do Fernando Mendes e da Júlia Pinheiro, foram para ali passar a tarde.
Todos os sítios servem para as suas tertúlias…
À frente das caixas multibanco estacionam a discutir códigos e saldos, e mesmo depois de nós termos manifestado a nossa impaciência com um ligeiro sopro e o cartão a bater ferozmente na carteira, ainda ajeitam as notas e os talões nas suas carteiras com toda a calma do mundo, procurando depois o melhor sítio da mala ou do bolso para só depois então saírem, ainda hesitando se saem pela direita ou pela esquerda, discutindo uns com os outros sobre as vantagens de um e outro lado.
Não há funcionários disponíveis pois estão todos ocupados a responderem às listas infinitas de dúvidas que acodem a esta gente. Primeiro que consigamos que eles nos respondam “46 de calças só na nova colecção”, é de morrer.
E depois há o item “toque do telemóvel”.
Com a surdez que a idade vai promovendo, os toques são num volume para lá de amanhã e com conteúdos tão sugestivos como bebés a chorarem ou cavalos a relincharem num estábulo da Praça de Touros da Moita.
Acho que definitivamente devem patrocinar uma revisão dos ditados populares e decretarem o “diz-me como toca o teu telemóvel e dir-te-ei quem és”.
No fim da saga de compras e estando num território que quase se pode considerar uma embaixada de Espanha, identifiquei no corpo uma vontade louca e algo interessante de “ensaladilla de gambas com una caña y unos picos”.
Em vão. O balcão de Tapas está fechado a estas horas (claro) e tive de ir para um outro com chás, cafés e pastelaria variada.
Onde estava quem?
Exactamente.
Todos os membros inscritos na Associação Portuguesa de Universidades Seniores em passeio anual e excursão ao El Corte Ingles de Lisboa, com lanche incluído.
Confesso que estive para perguntar a três senhoras à minha frente, daquelas que têm más relações com as cabeleireiras e usam cores indefinidas nos cabelos, ali entre o cinzento e o roxo; se não queriam que eu fosse buscar uns banquinhos para estarem mais confortáveis.
É que tanto tempo por ali em pé a discutir esse assunto de crucial importância que é o Pastel de Nata com ou sem canela…
Mas não, contive-me até ao meu chá de camomila com uma empada lusitana que definitivamente não apagou a fome de “ensaladilla”, e saí do parque de estacionamento passado algum tempo, e ainda a tempo de ver os polícias em São Sebastião a controlarem as matrículas dos carros mais antigos e que agora não podem circular na cidade com risco de a Câmara ter de pagar uma taxa à União Europeia por excesso de Monóxido de Carbono.
Não é este Presidente de Câmara que diz querer ser Primeiro-Ministro para ir “bater o pé” e renegociar dívidas?
Pois…
E cheguei a casa à hora a que chego todos os dias.
Com compras, sem preços de saldo, enervado, a baixar o volume do telemóvel… e com vontade de fazer “ensaladilla de gambas” para o almoço de amanhã. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Benefícios de um poeta em contramão na madrugada de um dia em que não te verei


O drama do poeta é o abismo imenso entre o amor que o tempo permite que vá sonhando e desenhando em si, e a realidade amarga das muitas noites em que só a almofada do outro lado da cama parece querer atenuar-lhe a solidão.
O benefício do poeta é o convívio tão próximo, despudorado e tão íntimo com este amor perfeito, que quando um dia ele finalmente chega e se concretiza dando nome e rosto ao outro lado da cama, não são necessárias averiguações extra ou mesmo quaisquer apresentações.
Chegou.
E os poemas são palavras que como coloridos pedaços de linha de seda preenchem o desenho dos dias passados quase sempre algures entre o drama e o usufruto do benefício, ao ritmo das vantagens de um e outro na expressão real do que é afinal viver.
O dia hoje amanheceu de chuva, mas por ti e apesar da saudade, eu não hesitei nunca em pintá-lo com as palavras que fui buscar ao recanto da minha paleta que tem as melhores e mais intensas cores.
Eu e o céu que tomou de mim a vontade e desenhou um arco-íris.
Benefícios de poeta na madrugada de um dia em que não te verei, mas um dia em que te sentirei aqui muito perto.
Por insistir e te querer assim…
Que os poetas não temem nunca assumir o seu amor perfeito e a contramão na hora de desrespeitar e matar a distância que é fruto da má sorte.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Um beijo e essa casa que faz nossas todas as estrelas que brilham na noite em que o luar generoso não se cansa de nos alumiar


Na história de todos os nós, há instantes que rasgam socalcos, degraus gigantes de uma escada informal e inesperada que nos permite chegar ao cimo da mais alta montanha, aquela que tantas vezes e de longe apelidámos de impossível.
Socalcos como canteiros generosos enfeitados de flores, cores e aromas, para que a subida seja toda ela um prefácio da festa maior de chegar ao topo.
E há fontes de onde jorram palavras, tal qual água fresca para o alento de jamais sequer pensar voltar atrás.
E há o teu corpo como um perfeito bordão.
E há lençóis tecidos de abraços, como relva à sombra de árvores de folhas generosas onde podemos descansar e nem sequer temer algum tropeção maior que nos perturbe o caminho.
Na história de todos nós…
Haverá um abraço inesperado como o nosso na timidez de uma tarde entre palavras escritas, um instante apenas e de quase primavera de onde nasceu a rota feita de socalcos por onde sigo pelos dias, e contigo, montanha acima.
A alegria de nunca me sentir só.
A ousadia.
A paixão certa mas tranquila.
E de tão grande e tão doce, às vezes sabe a completa ilusão esta festa de nos vermos chegar ao cimo… lá onde só existe céu no todo à nossa volta e em rima com o teu olhar; e quando um beijo nos oferece a casa para ficarmos eternamente por ali como coroados reis no mais perfeito e recorrente de todos os sonhos.
Um beijo e essa casa que faz nossas todas as estrelas que brilham na noite em que só luar generoso nos alumia.
Um beijo e uma jura de amor eterno numa casa para dois que vivem como quem sonha um só sonho.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Olhar para trás e… sorrir ou “matar”


Parado num semáforo vermelho à entrada de Lisboa, eu dou conta que no carro à minha frente há um condutor que aproveita aqueles segundos de descanso para se virar e brincar com uma criança sentada na cadeira colocada no banco por detrás dele e da qual eu só consigo ver a parte superior do encosto.
Sorrio inevitavelmente pelo impacto da imagem que tenho à minha frente e os nossos olhares acabam por se cruzar, o meu e o do homem que reparando que eu estou assim a sorrir, me responde com o acenar de um olá.
O semáforo passa depois a verde, nós arrancamos em direcção aos destinos que nos colocaram ali naquela tarde da cidade; e no rádio do meu carro escuto Amália à conversa com João Ferreira Rosa antes de interpretar o fantástico “Foi Deus”.
Às vezes o nosso nervoso miudinho induzido pelo trânsito, o mau humor de horas com quilómetros de filas, “tropeça” assim em gestos que resultam em sorrisos e nos adoçam o humor feito de tantos pensamentos e tantas palavras com elevado grau de uma corrosiva acidez.
Com o benefício da ajuda de uma banda sonora de excelência.
Na missa das seis e meia na Basílica dos Mártires, ao Chiado, estou sentado no último banco e tenho ao meu lado um casal de jovens Japoneses com uma criança que terá uns dois anos e que aproveita o espaço entre bancos para circular de pai para mãe, e vice-versa, e aproveita a acústica do templo para emitir uns sons algo agudos mas para mim completamente imperceptíveis.
Ali à volta quase todos sorrimos para ela e para os seus progenitores, até para lhes passarmos algum conforto que atenue o desconforto que já manifestam pelo facto de a filha estar a aproveitar o momento para aquela performance num misto de canto e ginástica.
Todos, excepto uma senhora que sentada no banco imediatamente à frente e com um gorro de lã enfiado na cabeça já com aspecto de septuagenária, olha para trás com um olhar feroz, daqueles que matam os próprios e os que estão nas redondezas, que é o meu caso.
O padre fala do baptismo de Jesus e das águas do Rio Jordão, do Homem novo, mas a “velha” não o escuta e continua a olhar até ao momento em que eu resolvo intervir e lhe faço uma careta pondo a língua de fora.
Talvez a senhora tenha chegado a casa alguns minutos depois a falar de um psicopata e louco barbudo que lhe pôs a língua de fora na missa… Pois sim.
Às vezes as circunstâncias onde pensamos ir beber paz servem-nos “guerra” e uma desagradável sensação de desconforto.
Essa tão atractiva imprevisibilidade da vida.
E Deus, muito mais do que entre os altares barrocos de uma basílica, mora entre bancos de um automóvel parado num semáforo à entrada da cidade… e na voz de Amália, claro.