sábado, 24 de janeiro de 2015

Nós somos da idade do que queremos viver, muito mais do que daquilo que já vivemos


Nós somos da idade do que queremos viver, muito mais do que daquilo que já vivemos.
É novo quem ambiciona e se entrega a um futuro longo e completo, é velho e morre quem não o sonha e não se dispõe a vive-lo assim; e eu nasci na tarde de primavera em que te dei um abraço e tomei desse instante uma vontade infinita de prolongar ao impossível todos os dias que a vida generosamente me oferecer.
E a infinito sabem todos os instantes em que te encontro e me coloco à sombra do teu olhar, esse infinito impenetrável onde as palavras não contam e nem sequer conseguem dar justiça ao que se sente.
Uma Bola de Berlim é o pretexto para uma mesa acesa para dois num corredor onde o chá nos aquece, as mãos e os lábios se namoram…
E eu não me canso nunca de te olhar.
Sim, eu sou da idade desta inédita paz e descubro em mim as forças para viver intensamente, voar por sobre tudo e calcorrear contigo todos os mais ínfimos recantos do universo, na morte dos relógios; que o tempo é nosso e as horas colho-as de ti nesta enorme vontade de jamais querer morrer.
Eu já fui tão mais velho do que sou hoje…  

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Perdi-me tantas vezes em tantos abraços até te encontrar…


Há um não sei quê de irresistível que colho deste instante e tece em mim a vontade de querer voltar sempre aqui.
Há um rio que a noite tinge de negro e abandona à mercê do luar; sente-se a brisa fresca no aroma do vento que terno nos abraça; faz-se de luz o horizonte nas terras do sul, as terras de para lá da ponte e do Cristo-Rei; há o passo dolente e iluminado dos navios que levarão de Lisboa as lembranças da mais perfeita das cidades…
Mas é por ti que se me faz adicto este momento que esboça o abraço terno e eterno do maior amor; este estar em que todo o teu corpo cumpre os mais ínfimos desejos do meu, e se faz a minha sorte.
Perdi-me tantas vezes em tantos abraços até te encontrar…
Mas agora aqui olhando um rio e tomando-lhe a brisa que o denuncia num inevitável destino de mar, eu sou um homem parado no cais onde desembarca o seu destino por entre uma festa de rosas e de aromas, das fanfarras, dos bombos, do fogo… e eu sinto na brisa entre barbas e no nosso respirar, a denúncia de que este é mais do que um instante, é o irresistível e eterno destino de te amar. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Acho que todos os opositores à adopção por casais de pessoas do mesmo sexo por entenderem que tal impossibilita o desenvolvimento equilibrado do individuo, deveriam hoje explicar o porquê dos concorrentes à “Casa dos Segredos” serem na quase totalidade oriundos de famílias formadas por casais heterossexuais


À porta do IPO de Coimbra estão a três homens à conversa, e discutem questões de fé.
Confesso que o sítio é logo à partida verdadeiramente atentatório para as mais convictas e enraizadas crenças.
Sem me poder parar só consigo ouvir um deles a afirmar que uma das provas da não existência de Deus é o facto de haver guerras. Se Ele existisse viria cá acabar com elas.
Para este homem Deus é pois incompatível com a sua liberdade: seria Deus a mandar de forma absoluta e ditatorial, vindo de vez em quando cá “abaixo” dar um valente par de “sopapos” nos beligerantes ao jeito de “acabou o Carnaval de Ovar”.
Sigo.
Daí a pouco estou sentado na pastelaria que tem a televisão ligada num canal de notícias sem que quase não se escute o que a jornalista diz, abafadas as palavras pelo tilintar das meias de leite, dos galões e afins. No entanto, passa um destaque em rodapé e uma senhora sentada atrás de mim e tão atenta quanto eu ao ecrã, emite um suspiro profundo quando se apercebe que o tema é a discussão na Assembleia da República da adopção por casais homossexuais.
E não resiste a um desabafo:
- Ai credo, onde já se viu tamanha pouca vergonha… e com tanta gente a morrer à fome.
O “credo” dá um toque religioso, a “pouca vergonha” puxa a moral para o assunto… e a ligação com as mortes à fome eu não entendo bem até porque quem é adoptado irá para uma casa onde possa beneficiar de comida, com independência do género das pessoas que o recebam…
Mas fixo-me no “credo” e na “pouca vergonha” para mais uma vez assinalar que Deus é “humanizado” na forma que mais nos convém. No caso desta senhora e por certo de muita gente, Deus é amor, mas só se o amor cumprir escrupulosamente as regras rígidas de uma certa moral que fica bem levarem à igreja com o fato novo.
E em pouco mais de uma hora tenho duas vertentes de Deus: o ditador e o moralista.
Por acaso até são dois conceitos que matam o próprio Deus, mas vá lá esta gente entender que a expressão da sua fé resulta na morte do Divino.
Antes de me levantar e pagar a conta confesso que tive vontade de perguntar à senhora se tinha a noção de que os concorrentes da “Casa dos Segredos” são quase todos oriundos de famílias formadas por casais heterossexuais, por certo abençoados pela Santa Madre Igreja no dia do casamento, sendo a prova de quão importante é ter um modelo feminino e masculino dentro da “casa” onde se cresce para se ser equilibrado e assaz perfeito.
Também a poderia lembrar da violência doméstica, da educação esmeradíssima e do civismo dos jovens com quem ela se cruza todos os dias…
Mas ela já não vai a tempo de aprender.
Paguei e saí.
Valha-nos Deus.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O amor é um eterno abraço sem pausas para a solidão


A noite traz-nos por vezes recantos perfeitos onde por entre a escassa luz partilhamos segredos.
Um afago, uma palavra, o fim do medo de sermos nós… e o deixar que a alma se entrelace na de alguém ao ritmo do assumir de todas as mais confortáveis cumplicidades.
E às vezes nesses recantos assistimos à morte de uma certa solidão, talvez no exacto momento em que as mãos já não sentem a distância de por quem choram, e os sentimentos expressos por palavras ajudaram a construir a casa onde iremos viver, e que é a casa onde mais queremos viver.
A casa onde nunca faltarão os bolos da nossa ilusão.
A casa com vista para a praia onde passearemos todas as manhãs e ao entardecer.
Ali, na praia, desenharemos passos lado-a-lado na areia e bem junto ao mar que os arrancará para si pela espuma e pelas algas que as ondas trazem consigo, fazendo deles um tesouro que percorrerá o mundo inteiro no maior esplendor de azul.
E existirão instantes em que não resistiremos a um abraço, a um beijo que cubra de intenso doce a brisa salgada que a praia interponha entre o nosso respirar.
E as palavras e juras de amor que se soltarão de entre os beijos…
Depois talvez nos deitemos na areia esperando o luar, contando histórias, fazendo planos, mas sempre num abraço; ou não fosse o amor um eterno abraço sem pausas para a solidão.
  

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A liberdade, a traição à liberdade e o retirar da roupa


Desço a Avenida da Liberdade de braço dado com os meus pais em direcção ao Parque de Estacionamento do Parque Mayer, cruzando-nos com uma carrinha da polícia que faz a troca do agente que garante segurança à porta da Embaixada de Espanha; e vemos passar à nossa frente, uma metralhadora com um ar muito desagradavelmente sofisticado.
Já no interior do Parque, os meus pais recordam, teatro a teatro, as revistas que viam por ali quando vinham de visita a Lisboa, e invariavelmente acabam a falar de uma célebre, “Mostra-me a tua piscina”, a que assistiram no Capitólio num tempo em que a revolução de Abril tinha permitido retirar “oficialmente” a roupa das coristas, e ninguém levava a mal os borrifos de água que chegavam à plateia sempre que elas mergulhavam numa piscina montada no palco.
Já conheço a história que eles temperam de um misto de espanto, algum escândalo e muito riso, mas também já espero que eles a contem sempre que passamos por ali como “gravura” de um tempo em que Lisboa se “vestiu” de uma liberdade que dava mais sentido do que nunca ao nome da vizinha Avenida.
Montamo-nos agora no carro, faz frio e sabe bem o ar condicionado.
Saímos do Parque e seguimos até à Praça da Alegria onde um “stop” à entrada nos deixa ao lado de quatro homens que remexem em dois contentores do lixo abrindo sacos de plástico em busca de comida.
Faz frio agora dentro do carro e o riso rende-se ao silêncio.
A Alegria é apenas nome de Praça na traição à liberdade que voltou a tirar sentido ao nome da Avenida.
E da traição à liberdade nasceu este retirar da roupa e da dignidade da gente num espectáculo degradante para o qual não pagamos bilhete e para onde temos visão aberta em todas as esquinas da cidade.
As esquinas guardadas pelas metralhadoras e onde a dor nos borrifa sem pudor por entre a falta que nos faz uma revolução.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Eu amo-te com a infinita convicção de que jamais te deixarei partir


Revejo-me na foto que está em cima da cómoda da casa da Tia Carlota e do Tio Joaquim. Foi tirada no dia do casamento deles, 1 de Outubro de 1972, e eu estou de mão dada com o meu irmão junto aos noivos no altar da Senhora da Conceição, em Vila Viçosa.
Eu tinha seis anos, a foto é a preto e branco mas eu recordo-me que os meus calções de veludo eram da cor do laço de cetim com uma pérola que levava sobre a camisa branca, e eram num tom bordeaux.
Pela memória, e muito mais pela vontade, nós insistimos e pomos cor sobre o preto e o branco de muitos dias, na forma de uma muito marcada esperança com que enfrentamos o que nos dizem ser as inevitabilidades da vida; e hoje eu acredito que o Tio Joaquim irá melhorar e tento que ele também acredite pela forma como lhe sorrio.
Mais tarde, quando o dia segue pela coerência de um triste tom de cinza, eu viajo no carro com os meus pais. Vamos de regresso a casa e de encontro a um chá que nos aqueça, conversando e sobrepondo os planos das férias de verão ao tom da tarde.
Viver é semear o futuro não assumindo quaisquer pontos finais na “história” que escrevemos para nós próprios.
E não tarda quase nada até ao momento em que tu chegas e me ofereces o azul no olhar aceso que me fala de amor com mais verdade do que todos os poetas do universo.
Na parede do fundo da pastelaria onde conversamos, a televisão passa os golos do Benfica; mas eu troco todos os golos do Glorioso pelo teu olhar.
Lá fora chove no início de uma noite escura, mas o que importa?
A minha noite faz-se da cor da minha vontade: eu amo-te com a infinita convicção de que jamais te deixarei partir.
Tu és a chegada definitiva ao melhor de mim, mesmo por entre domingos (cinzentos) que são tecidos à escala da própria vida. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Basta uma só palavra para matar todos os silêncios do universo


Ontem depois do jantar e aqui na mesa da sala, eu e o meu sobrinho João fizemos uma sementeira de coentros, colocando as sementes num cartuxo próprio e sofisticado que a minha amiga Teresa Lopes me ofereceu como presente de Natal.
Regámos e esperamos agora que junto à janela da cozinha possam nascer os temperos que acompanharão os alhos na festa das nossas açordas.
Depois, mais tarde, adormeci ao som da chuva a bater forte na vidraça com o impulso de um vento de uivos prolongados e intensos de onde às vezes a imaginação consegue retirar palavras que contam histórias.
Mas a noite levou o vento e está muito calma a manhã que trouxe com ela um nevoeiro que não deixa ver quase nada para lá da vidraça; não há árvores, verde, o mar ao longe, e a janela é agora um enorme espelho onde me vejo a mim e vejo tudo o que o pensamento permite, que essa é a vantagem que colhemos dos instantes em que os olhos vêem pouco.
E a revisitar papéis, cedo esta manhã, encontrei algo escrito por mim em Maio de 2013.
Fala sobre o silêncio:
Quem atira as suas palavras para o silêncio
Vê-as morrer
Como o inevitável destino de um papel no fogo que arde

Porque o silêncio é sempre o silêncio

Por mais que queiramos que o não seja
Por mais que imaginemos que o não é
Por muito que acreditemos que o deixará de ser mais cedo ou mais tarde  
Não consigo lembrar-me do contexto em que escrevi isto, mas acredito que possa ter sido quiçá numa manhã em que todas as janelas me devolveram a minha imagem, muito mais do que qualquer outra coisa.
Com uma diferença em relação a hoje…
Na mensagem que me enviaste ontem antes de adormecer dizias que me adoras, e a janela e o nevoeiro hoje mostram-me o mundo todo no detalhe do brilho intenso do meu olhar; sem espaço para o silêncio, pois brotam de mim palavras como do pequeno saco castanho da sementeira de ontem um dia nascerão as viçosas as plantas, das quais prometi ir mandando registo fotográfico para o João.
O silêncio poderá ser sempre o silêncio…
Mas basta uma só palavra para matar todos os silêncios do universo.  
E quando dizes que me adoras…