terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Um Alentejano na noite de Londres a jantar num restaurante Libanês...


Um Alentejano na noite de Londres a jantar num restaurante Libanês...
Dos comensais do género masculino que estão presentes na sala, 90% são morenos e têm barba como eu; a sopa de galinha vem acompanhada com limão, o que me faz lembrar o velho hábito que o meu pai herdou da avó Natividade e que consiste em espremer o dito citrino para a canja; tal como na minha terra, servem-me pão para acompanhar a refeição; a grelhada mista de cordeiro e de frango proporciona-me um sabor algo pascal quando os pedaços do borrego são misturados com as ervas aromáticas que colhemos do campo; entre pratos tenho à minha frente um recipiente com vegetais crus e aproveito para comer cenoura e rabanetes, lembrando-me do meu avô Francisco que era grande consumidor destes últimos; também tenho um recipiente com azeitonas temperadas segundo a “receita” da tia Maria; o sumo de melancia que me é recomendado para acompanhar a refeição, devolve-me a cada gole ao estio fantástico do meu Alentejo ou aos fins de tarde na esplanada de uma praia; o café é idêntico ao que sempre bebi na Turquia e faz lembrar a famosa cevada que a minha avó Francisca preparava como ninguém.
Na mesa ao lado da minha há um grupo grande de amigos que comemoram o aniversário de um deles. Um dos que está mais próximo de mim mete conversa, julgando de início que eu era Italiano, e vou tendo palavras durante a minha refeição.
Acabamos os dois a falar do “Ensaio sobre a cegueira” do José Saramago, e este grupo de Libaneses que vivem em Londres poderia perfeitamente ser o meu grupo de amigos num dos inúmeros jantares de Vila Viçosa.
Quando não estou a comer e não estou à conversa com o meu vizinho de mesa, aproveito e escrevo um poema de amor que registo no Bloco de Notas do i-Phone; porque as palavras escritas aliam-se ao pensamento e trazem para a nossa mesa o olhar de quem nos conforta, e está ausente.
Depois, pago, aceno um adeus ao meu “vizinho”, despeço-me do empregado que me acompanha à porta, e lá caminho para o hotel dando graças a Deus por não me ter esquecido do gorro.
Um Alentejano na noite de Londres a jantar num restaurante Libanês e a escrever poemas de amor...
Eu e a prova de que quando a gente quer não há lugares nem gente estranha.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Pela vida que me dás tu merecias uma espera de mil anos


Espero por ti debaixo das árvores do Camões despidas pelo inverno.
Encosto-me ao varandim que mira a Rua das Flores, e sinto sem qualquer tom de tragédia, que a hora inteira que tenho de esperar por ti, é tempo ganho. Esta hora é já parte integrante do abraço da tua chegada, e prolonga-o assim, como quem estende o mais que pode, o saborear intenso de um doce perfeito.
Há gente sentada na esplanada do Quiosque dos Refrescos que hoje só parece vender chá quente; que muito fresco vai o entardecer depois do sol ter deixado de debruar a laranja a nesga do Castelo que consigo espreitar para lá da Rua Garrett.
É desse mesmo lado que depois vejo chegar a lua, primeiro de um modo tímido, e depois intenso sob o céu onde algumas nuvens insistem em “calar” as estrelas.
Não resisto e tiro uma foto.
Ouço a gente e as vozes de muitas línguas, o passo do eléctrico nas calhas metálicas assentes sobre o asfalto, os sinos que chamam para a missa, a buzina dos impacientes na transfiguração verde de um semáforo… e assobio mesmo com o frio a tolher-me ligeiramente os músculos da face.
Mãos nos bolsos do sobretudo, e o assobio é o canto alegre dos solitários que só o são na sua aparência.
Depois tu chegas e eu fecho finalmente os braços apertando-te a mim, como se todo o meu corpo fizesse questão de entregar-se ao teu, mimetizando o que a alma há muito já sente.
Gosto do teu cheiro.
O nosso abraço abriu-me a porta de casa e o caminhar contigo sob as árvores despidas dos Camões, e do Chiado, é agora um perfeito momento de intimidade num sofá daqueles que têm vista para o perfeito que elegemos como o nosso destino.
E quando as nossas mãos se encontram algures pelo caminho, quando as palavras que trocamos são sinónimos de querer, e quando os nossos olhares se despem de preconceitos e se entregam não renegando jamais um desejo imenso; a lua já vai alta, seguem os ruídos pelo Chiado, passa por nós o eléctrico 28, e eu sinto que foi tão curta a hora em que esperei por ti…
Pela vida que me dás tu merecias uma espera de mil anos. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Nós a sorrimos por sobre a dor, tal qual as mimosas por sobre a chuva e o frio de Fevereiro.


A chuva fria batida violentamente pelo vento forte consegue aumentar ainda mais a solidão na hora em que a morte tem irremediavelmente o ritmo de um adeus ao som do bater triste da terra sobre a madeira.
Na encosta do silêncio, atapetada de pedras rasgadas por letras de saudade, consigo ao longe vislumbrar uma mimosa que se prepara para explodir de flor neste início de Fevereiro.
Consigo sorrir às mimosas e também mais tarde aos golos do Benfica que me chegam pelo telemóvel. Sob a madeira, o Tio Joaquim adormeceu com o emblema do nosso Benfica na lapela e estará a sorrir algures por entre o “bruá” de festa que nasce da Luz.
Entretanto parou de chover e eu estou no Chiado.
Passeio com as mãos nos bolsos do sobretudo enquanto espero a Margarida.
 O destino hoje roubou-nos a bifana mas servir-nos-á um jantar tranquilo feito à conversa enquanto esperamos a Mousse de Chocolate do Pap’Açorda. Só mesmo nós para escolhermos um restaurante pela saudade de uma sobremesa.
Entre cumplicidades, amores, viagens, ambições, agonias patrocinadas pelo tempo, palavras, projectos, trabalho, gargalhadas… somos a mesa mais animada do restaurante e criamos esta certeza de que há jantares patrocinados pela amizade que se constituem como mimosas em flor que brilham sobre os dias até do mais profundo silêncio.
Depois damos um pequeno passeio, entramos numa loja e compramos um lápis cor-de-rosa que a Margarida vai usar para escrever quiçá o roteiro da próxima viagem a quatro, compramos um presépio que tem a dimensão de um feijão, e a miniatura de um eléctrico que alguém irá receber por estes dias algures na altura de um beijo dado nas margens do Tejo.
Chego a casa quando o relógio marca o primeiro minuto de Fevereiro.
Desaperto o cinto das calças e descalço os sapatos para me oferecer cinco minutos de sofá…
Por entre eles vislumbro um amigo e ficamos à conversa durante algum tempo, uma conversa com os dedos e feita de palavras escritas. Falamos da solidão, de amores e da urgência de viver.
Os olhos estão a fechar-se.
Levantei-me às seis da manhã para ir a Vila Viçosa buscar os meus pais.
Despeço-me com um beijo escrito e transporto-me para a cama, adormecendo sem que me lembre sequer de ter apagado a luz.
Os dias da morte pedem que convoquemos os amigos e os temperemos de vida na urgência que nos compromete com a vontade de jamais desperdiçar um segundo que seja nesta batalha por sermos felizes… e nos sentirmos vivos.
Nós a sorrimos por sobre a dor, tal qual as mimosas por sobre a chuva e o frio de Fevereiro.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Chuva… e silêncio


Há dias em que o corpo nos pede e impõe o silêncio para que a alma tenha oportunidade de ressuscitar eficazmente as palavras, os gestos, os olhares… tudo aquilo que guardou de alguém, atenuando assim a saudade da sua partida ou da sua ausência.
E assim, em estátuas erigidas pelo pensamento, se eternizam aqueles que amamos, mesmo por entre a despedida de uma parte de nós que sempre morre com eles.
O Tio Joaquim perdeu a conta ao número de vezes que leu os dois livros de memórias que publiquei, e disse-me ter revivido com eles e pelas palavras, um tempo perfeito e bom de sol, afectos e Alentejo, lembranças que foram alento nos dias difíceis da sua longa doença.
Dedico-lhe todas essas palavras que por ele ganharam muito mais sentido, mandando-as agora envoltas num beijo directo ao Céu para onde partiu ontem num dia triste de chuva.
Chuva… e silêncio.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Um dia tão… “Correio da Manhã”


A manhã de Lisboa está húmida e a exigir impermeáveis e chapéus-de-chuva, estes últimos colocados num recipiente próprio existente à entrada da Pastelaria, para que possam pingar à vontade.
Entro, cumpro o ritual do chapéu-de chuva e busco um lugar ao fundo da sala comprida, ficando virado para a porta e para a montra que me revelam os jardins da Gulbenkian.
Surpresa…
Toda a gente virou costas à porta e está sentada de frente para mim que assim me sinto um verdadeiro maestro a dirigir uma orquestra formada por seis intérpretes femininas.
Depois de olhar para a televisão colocada na parede atrás de mim entendo o porquê desta situação: Correio da Manhã TV 6 – Jardins da Gulbenkian 1.
Perco por goleada.
Enquanto elas se actualizam relativamente ao conflito Bárbara / Carrilho, à guerra Marco Paulo / Kátia Aveiro e absorvem as últimas notícias que chegam da prisão de Évora, eu fico como que parado perante as páginas abertas de uma caderneta em que os cromos divergem pelo desenho e grau de aprumo das sobrancelhas, os tons impossíveis do cabelo, as unhas de gel que lutam contra as asas das pequenas chávenas do café, os fios e os adereços comprados com cheques pré-datados às vendedoras que passam pelas repartições…
E todas bocejam e emitem pragas sobre o trabalho que as espera, presumo que mais pelas horas que vão dali até dezoito do que propriamente pelo conteúdo do mesmo.
Entretanto, o empregado que assassina a discrição pois grita tudo o que se lhe pede:
- Sai uma sandes de fiambre em forma aparada sem manteiga e um abatanado… sás xafori.
Que é também o mesmo que grita as contas e diz “eirós” e “córenta” em vez de Euros e quarenta; tenta que a mais velha das senhoras, a Dona Elvira, baptizada com um nome que lhe assenta que nem uma luva dado que ela deve ter nascido no tempo em que os seus homónimos veículos ainda atravessavam a capital e os Jardins da Gulbenkian ainda eram terreno da antiga Feira Popular… decida o que vai comer ao almoço:
- Picanhazinha, chocos à algarvia, dobrada à moda da casa…
Mas a D. Elvira que tem uma cara que parece denunciar que ela está há meio ano a inalar os vapores de uma central de resíduos sólidos, nem se manifesta.
Eu tenho a certeza de que ela vai acabar por comer uma salada de alface com queijo fresco para ver se consegue drenar-se e ficar com a mesma cara da menina do Correio da Manhã.
Está na minha hora…
Levanto-me, pago a conta que o “Córenta” apregoou à malta.
Ainda recebo com um:
- O amigo por acaso não tem dez “cêntimezinhos”?
Tenho, facilito o troco e…
- Óbrigadinho amigo e um bom dia.
Dirijo-me à porta, retiro o meu chapéu-de-chuva discreto da amálgama de outros de cabos dourados e prateados que parecem adereços dos travestis do Conde de Redondo, e saio.
Ainda pisco os olhos aos Jardins da Gulbenkian.
Que bom ainda os ter por ali num dia tão… “Correio da Manhã”.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Choverão flores sobre nós nesses dias da primavera que esperamos


A chuva miudinha da manhã de Lisboa molha-nos a todos com independência do estatuto intelectual que assumamos ou nos atribuam; e como tudo o que existe tem sempre um lado positivo, até mesmo o mais negativo, as filas de trânsito que ela patrocina à entrada da cidade têm o condão de nos dar tempo suficiente para desfrutarmos dos detalhes que de outra maneira iriamos ignorar.
Vejo as árvores de Monsanto…
Estão verdes no benefício das folhas que nunca as abandonam, e em algumas das outras, aquelas que o inverno despiu, já floresceram pétalas entre o tom branco e o rosa, detalhes que lhes dão um ar de festa e nos lembram a primavera.
O mesmo tom rosa que brilha com o amarelo nas fachadas ainda mais viçosas depois da chuva que enegreceu o tom dos telhados que as encimam.
Percorro a cidade segundo a rota das obrigações, mas é impossível não desfrutar do que vejo, da chuva, e recolher da manhã a poesia da mais intensa das devoções.
Lisboa será sempre a minha cidade por ser a pátria mãe do meu amor.
Depois de descer a Rua de São Bento, de espreitar a casa de Amália, dou comigo a descer a Avenida D. Carlos I. Os jacarandás oferecem-me um tecto, por estes dias verde, nas folhas que brotaram dos troncos negros que na primavera serão o esqueleto e a fonte que sustentará a mais intensa explosão de lilás.
Choverão flores sobre nós nesses dias da primavera que esperamos.
E não tardo a chegar ao rio.
À minha direita passa acelerado, o comboio, e à esquerda vejo gente que corre em paralelo com as águas como num esforço último para impedir que elas se entreguem ao mar.
O Tejo que hoje está cinzento da cor da chuva.
E antes de deixar Lisboa, despeço-me do tom garrido das fachadas das casas que fazem a guarda de honra ao Mosteiro e a Belém.
A chuva miudinha persiste sobre mim; não são lágrimas, não são tristes, são beijos da cor do Tejo para que paremos um pouco o bulício da manhã e sintamos que já não tarda a primavera.
Os tais dias em que choverão flores na Lisboa que é a casa do meu... do nosso amor.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O sofá de um Homem enamorado é um parapeito de vistas infinitas e ilimitados horizontes


O sofá de um Homem enamorado é um parapeito de vistas infinitas e ilimitados horizontes; que o pensamento jamais se nega a tomar e a fazer suas, as mais ousadas e destemidas oníricas asas que o amor lhe “imponha”, e assim voar para longe.
Sem autocensura como privilégio, sem humanas e racionais “portagens” debitadas directamente na conta do bom senso, as noites de aparente silêncio são assim o berço de histórias que alinham o tempo com tudo o que está inscrito na nossa vontade.
E rompem qualquer espaço.
Às vezes enquanto voo, pego na caneta e no bloco de capa vermelha, e coloco as melhores palavras que conheço na história que nasce em mim, fazendo um Diário de Bordo onde os quilómetros são o caminho por onde me levam as sensações.
Bem mais importante do que qualquer outro registo diário; que aquilo que fazemos é o previsível que toda a gente vê, e aquilo que se sente é o que nos define e muito melhor fala de nós.
Numa destas noites olhei para a parede onde repousam os teus traços, abracei-me a ti na memória do teu cheiro e do toque da tua pele, e sentado no sofá com caneta e bloco, deixei-me levar pelo eco de uma inédita paz, pondo palavras numa viagem contigo.
Voámos os dois num beijo imenso, e na areia de uma praia deserta e sem nome, inscrevemos os passos num caminho desenhado em paralelo que o vento e o mar fizeram questão de guardar em si.
O vento fala destes passos e deste amor quando sopra ao jeito de um cantar que abraça as árvores e as montanhas, e o mar guarda deles o sal, porque tudo aquilo que é grande sempre acaba por nos fazer chorar.
A comoção dos amantes no caminho de areia, num abraço por entre o cantar do vento que quando nos beija sempre traz com ele o aroma que bebeu de uma qualquer flor.
E no final da noite, quando regressei a este tempo e sentado no sofá, continuava a olhar os teus traços na parede, e no caderno vermelho tinha palavras que eu não sei como escrevi…
Mas dizem que é um poema de amor.
É capaz.