sábado, 7 de fevereiro de 2015

Eu diria Desejo… muito mais do que outro nome qualquer


Uma mesa no canto mais discreto do bar
A música de Elis Regina
E estas noites em que só a cerveja parece matar-nos a sede

Como te chamas?

Eu diria Desejo
Muito mais do que outro nome qualquer

Digo-o abertamente…
E sem rede

E entre um gole de cerveja
Uma fava seca e salgada
Um amendoim...

As minhas mãos não se cansam de falar ti

Sei que será assim até de madrugada

Tocando-te rebeldes no final das nossas tardes de passeio
Elas conhecem-te bem melhor do que qualquer outra parte de mim

Agora fez-se silêncio
A cantora foi descansar
E a sede pede-me um gin

As minhas mãos
Donas do céu
Muito mais do que tudo o que vi...
Ou vejo

Vou continuar pelo bar
Acho que um sítio mais quente não se arranja

E quero continuar por aqui a pensar em ti
Meu querido Desejo  

Ah claro
E amanhã vou ter de acordar num sumo de laranja 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Hoje sinto-me invencível… e já não vou precisar de me espreguiçar


Amo-te com a convicção de jamais deixar de te oferecer o primeiro pensamento no despertar de todos os dias.
Quando o sol irrompe timidamente pelas frestas da persiana entreaberta e o relógio acabou de tocar e de me arrancar do sono, espreguiço-me como que procurando-te por ali, como quem te quer abraçar… e penso em ti.
Depois o duche quente oferece-me alento, acaba o prolongado processo do despertar e cria uma acústica perfeita para eu cantar de John Grant:
I must have felt invincible in your arms
Like I could take the whole world on
It’s easier”, é sempre tudo tão mais fácil quando o mundo parece ser nosso num abraço.
Hoje sinto-me invencível… e penso em ti, quase jurando ver-te a sorrir do outro lado das gotículas de água quente que me beijam nesta manhã.
Da minha janela espreito o Atlântico por entre o gosto de um café e o pão do Alentejo, o gosto áureo do trigo nascido da terra de onde sou; eu, discípulo na reverência a um Deus maior por onde sempre consigo ver-te espreitar.
Depois, a estrada paralela ao mar…
Ser Português é caminhar paralelo ao mar, que mesmo estando mais além onde o campo luso se encosta a Espanha, duzentos quilómetros são um ínfimo passo na incalculável dimensão do universo.
A estrada, o eterno mar, a gente, o destino que mora em Lisboa… e ali tão próxima aquela pastelaria onde no outro dia tomámos um chá mas com saudades dos jesuítas que já não havia.
Sorrio…
E esta manhã onde o sol se faz meu cúmplice e cala o frio, é um retábulo de instantes desenhados no tom que me oferece o pensamento, que traz de ti, o nome, o olhar, os abraços… tudo.
Num destes dias caminharei de braço dado contigo num jardim onde as camélias de todas as cores rasgaram ruas só para nós. Talvez paremos para um beijo por entre as palavras de amor que a alma possa deixar transpirar.
Será tudo tão perfeito e tão igual a estas manhãs em que penso em ti…
Talvez só exista uma diferença que é uma enorme vantagem: já não vou precisar de me espreguiçar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

“Custe o que custar”


O Primeiro-ministro de Portugal afirmou ontem a propósito da morte de uma cidadã que não beneficiou de todas as opções de tratamento disponíveis para a patologia que a atingia, que “os Estados devem fazer tudo o que está ao seu alcance para salvar vidas humanas, mas não custe o que custar”.
Nós sabemos que os recursos disponíveis não são ilimitados, mas há prioridades; afinal de contas a vida de uma mulher ainda vale mais do que um outdoor das campanhas eleitorais que o Estado vai patrocinar muito em breve, e só para dar um exemplo.
Porque quando se trata da vida de alguém, é mesmo “custe o que custar”, digo eu.
Digo eu e esperaria eu que o dissessem os deputados dos partidos que apoiam esta maioria e que gritaram a defesa da vida sempre que o parlamento discutiu a interrupção voluntária da gravidez, por exemplo. Onde estão essas vozes?
Onde está o Professor João César das Neves e os movimentos que fazem vigílias à porta da Clínica dos Arcos nas Amoreiras?
Já alguém se manifestou em Massamá?
O que disse a Conferência Episcopal Portuguesa a propósito destas declarações?
Acaso a expressão de vida de um feto no seu contexto intra-uterino seja mais relevante do que a de uma mulher com cinquenta anos?
Ou será que encontrámos no desequilíbrio orçamental uma justificação para assumirmos e legalizarmos a eutanásia?
Onde está a coerência?
Será que ela é tão ténue que não consegue vencer os ícones imbecis do que se convencionou chamar esquerda ou direita no desenhar de um espectro politico onde o cidadão só conta para o financiamento e para uma cruz num boletim que dá acesso ao poder?
O respeito pela vida deve ser transversal a todas as suas dimensões e expressões; e os heróis, os que ficam com nome inscrito na História dos povos são os que se guiaram pelo “custe o que custar” que tantas vezes lhes “custou” a própria vida para que a dos outros pudesse emergir da dor da morte anunciada.
A vida deve ser o mote supremo no guião de quem comanda um Estado, e eu… não gosto e nem voto em quem pensa e diz o contrário.

Eu vou definitivamente para ti na mais verdadeira consciência dos meus próprios passos


Passei pelo Harrods e comprei-te umas meias quentes e coloridas, um pouco antes de percorrer a pé algumas ruas de Londres e sentir na cara a aragem agreste de um dia que “semeou” neve em Hyde Park.
Sentado numa mesa junto à montra de um velho pub onde as pessoas se anunciam pelo tilintar de um espanta-espíritos estrategicamente colocado atrás da porta, vejo uma das abas do parque e entretenho-me a observar a azáfama da gente, enquanto me aqueço com o café servido numa caneca de tamanho gigante.
No mais completo anonimato e no silêncio que nos oferece o estarmos sós, gozamos desse inquestionável privilégio de sermos e estarmos com quem queremos, à boleia do pensamento.
Eu penso em ti.
E continuo a pensar em ti por entre aromas de café, algures por sobre a Biscaia e quando nem só uma luz vislumbro no breu que me oferece o lugar à janela do avião.
Depois adormeço… e quando acordo já vejo infinitos pontos de luz em tom dourado, e não tardo a sentir que descemos para Lisboa.
Reconheço a margem sul, o Cristo-rei… e a lua cheia temperou de prata a noite do Tejo que é hoje e como nunca, um abraço de água que me une a Lisboa.
E Lisboa és tu, muito mais do que qualquer detalhe em pedra que sobressaia do casario…
E o ar de Lisboa que respiro quando aterro é o mesmo ar que tu respiras… e por isso chamo a Lisboa a minha casa.
Depois sigo no carro.
Continuo e continuarei sempre a pensar em ti; e às vezes sinto que cada segundo, cada partícula de tempo é menos um quanto na distância que nos separa.
“Só vou por onde me levam meus próprios passos…”
O “Cântico negro”.
O avião onde hoje viajei chamava-se José Régio e na bagagem trouxe umas meias coloridas que te oferecerei num destes dias por entre beijos de amor.
Eu vou definitivamente para ti na mais verdadeira consciência dos meus próprios passos.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Um Alentejano na noite de Londres a jantar num restaurante Libanês...


Um Alentejano na noite de Londres a jantar num restaurante Libanês...
Dos comensais do género masculino que estão presentes na sala, 90% são morenos e têm barba como eu; a sopa de galinha vem acompanhada com limão, o que me faz lembrar o velho hábito que o meu pai herdou da avó Natividade e que consiste em espremer o dito citrino para a canja; tal como na minha terra, servem-me pão para acompanhar a refeição; a grelhada mista de cordeiro e de frango proporciona-me um sabor algo pascal quando os pedaços do borrego são misturados com as ervas aromáticas que colhemos do campo; entre pratos tenho à minha frente um recipiente com vegetais crus e aproveito para comer cenoura e rabanetes, lembrando-me do meu avô Francisco que era grande consumidor destes últimos; também tenho um recipiente com azeitonas temperadas segundo a “receita” da tia Maria; o sumo de melancia que me é recomendado para acompanhar a refeição, devolve-me a cada gole ao estio fantástico do meu Alentejo ou aos fins de tarde na esplanada de uma praia; o café é idêntico ao que sempre bebi na Turquia e faz lembrar a famosa cevada que a minha avó Francisca preparava como ninguém.
Na mesa ao lado da minha há um grupo grande de amigos que comemoram o aniversário de um deles. Um dos que está mais próximo de mim mete conversa, julgando de início que eu era Italiano, e vou tendo palavras durante a minha refeição.
Acabamos os dois a falar do “Ensaio sobre a cegueira” do José Saramago, e este grupo de Libaneses que vivem em Londres poderia perfeitamente ser o meu grupo de amigos num dos inúmeros jantares de Vila Viçosa.
Quando não estou a comer e não estou à conversa com o meu vizinho de mesa, aproveito e escrevo um poema de amor que registo no Bloco de Notas do i-Phone; porque as palavras escritas aliam-se ao pensamento e trazem para a nossa mesa o olhar de quem nos conforta, e está ausente.
Depois, pago, aceno um adeus ao meu “vizinho”, despeço-me do empregado que me acompanha à porta, e lá caminho para o hotel dando graças a Deus por não me ter esquecido do gorro.
Um Alentejano na noite de Londres a jantar num restaurante Libanês e a escrever poemas de amor...
Eu e a prova de que quando a gente quer não há lugares nem gente estranha.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Pela vida que me dás tu merecias uma espera de mil anos


Espero por ti debaixo das árvores do Camões despidas pelo inverno.
Encosto-me ao varandim que mira a Rua das Flores, e sinto sem qualquer tom de tragédia, que a hora inteira que tenho de esperar por ti, é tempo ganho. Esta hora é já parte integrante do abraço da tua chegada, e prolonga-o assim, como quem estende o mais que pode, o saborear intenso de um doce perfeito.
Há gente sentada na esplanada do Quiosque dos Refrescos que hoje só parece vender chá quente; que muito fresco vai o entardecer depois do sol ter deixado de debruar a laranja a nesga do Castelo que consigo espreitar para lá da Rua Garrett.
É desse mesmo lado que depois vejo chegar a lua, primeiro de um modo tímido, e depois intenso sob o céu onde algumas nuvens insistem em “calar” as estrelas.
Não resisto e tiro uma foto.
Ouço a gente e as vozes de muitas línguas, o passo do eléctrico nas calhas metálicas assentes sobre o asfalto, os sinos que chamam para a missa, a buzina dos impacientes na transfiguração verde de um semáforo… e assobio mesmo com o frio a tolher-me ligeiramente os músculos da face.
Mãos nos bolsos do sobretudo, e o assobio é o canto alegre dos solitários que só o são na sua aparência.
Depois tu chegas e eu fecho finalmente os braços apertando-te a mim, como se todo o meu corpo fizesse questão de entregar-se ao teu, mimetizando o que a alma há muito já sente.
Gosto do teu cheiro.
O nosso abraço abriu-me a porta de casa e o caminhar contigo sob as árvores despidas dos Camões, e do Chiado, é agora um perfeito momento de intimidade num sofá daqueles que têm vista para o perfeito que elegemos como o nosso destino.
E quando as nossas mãos se encontram algures pelo caminho, quando as palavras que trocamos são sinónimos de querer, e quando os nossos olhares se despem de preconceitos e se entregam não renegando jamais um desejo imenso; a lua já vai alta, seguem os ruídos pelo Chiado, passa por nós o eléctrico 28, e eu sinto que foi tão curta a hora em que esperei por ti…
Pela vida que me dás tu merecias uma espera de mil anos. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Nós a sorrimos por sobre a dor, tal qual as mimosas por sobre a chuva e o frio de Fevereiro.


A chuva fria batida violentamente pelo vento forte consegue aumentar ainda mais a solidão na hora em que a morte tem irremediavelmente o ritmo de um adeus ao som do bater triste da terra sobre a madeira.
Na encosta do silêncio, atapetada de pedras rasgadas por letras de saudade, consigo ao longe vislumbrar uma mimosa que se prepara para explodir de flor neste início de Fevereiro.
Consigo sorrir às mimosas e também mais tarde aos golos do Benfica que me chegam pelo telemóvel. Sob a madeira, o Tio Joaquim adormeceu com o emblema do nosso Benfica na lapela e estará a sorrir algures por entre o “bruá” de festa que nasce da Luz.
Entretanto parou de chover e eu estou no Chiado.
Passeio com as mãos nos bolsos do sobretudo enquanto espero a Margarida.
 O destino hoje roubou-nos a bifana mas servir-nos-á um jantar tranquilo feito à conversa enquanto esperamos a Mousse de Chocolate do Pap’Açorda. Só mesmo nós para escolhermos um restaurante pela saudade de uma sobremesa.
Entre cumplicidades, amores, viagens, ambições, agonias patrocinadas pelo tempo, palavras, projectos, trabalho, gargalhadas… somos a mesa mais animada do restaurante e criamos esta certeza de que há jantares patrocinados pela amizade que se constituem como mimosas em flor que brilham sobre os dias até do mais profundo silêncio.
Depois damos um pequeno passeio, entramos numa loja e compramos um lápis cor-de-rosa que a Margarida vai usar para escrever quiçá o roteiro da próxima viagem a quatro, compramos um presépio que tem a dimensão de um feijão, e a miniatura de um eléctrico que alguém irá receber por estes dias algures na altura de um beijo dado nas margens do Tejo.
Chego a casa quando o relógio marca o primeiro minuto de Fevereiro.
Desaperto o cinto das calças e descalço os sapatos para me oferecer cinco minutos de sofá…
Por entre eles vislumbro um amigo e ficamos à conversa durante algum tempo, uma conversa com os dedos e feita de palavras escritas. Falamos da solidão, de amores e da urgência de viver.
Os olhos estão a fechar-se.
Levantei-me às seis da manhã para ir a Vila Viçosa buscar os meus pais.
Despeço-me com um beijo escrito e transporto-me para a cama, adormecendo sem que me lembre sequer de ter apagado a luz.
Os dias da morte pedem que convoquemos os amigos e os temperemos de vida na urgência que nos compromete com a vontade de jamais desperdiçar um segundo que seja nesta batalha por sermos felizes… e nos sentirmos vivos.
Nós a sorrimos por sobre a dor, tal qual as mimosas por sobre a chuva e o frio de Fevereiro.