terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Hoje eu sei que o teu amor semeou em mim um tesouro …


Os teus abraços têm o dom de me colocar irreversivelmente na rota do melhor sonho, aquele caminho onde as árvores, as flores e toda a gente, testemunham o sorriso de quem segue feliz, fazendo valer a pena o tempo que a vida lhe dá.
O sorriso e a música.
Por entre um céu que tempera de azul a água da generosidade das ribeiras e das fontes, os teus abraços e os teus beijos são o meu caminho e também o alimento e o condimento de que a alma precisa…
E por ti, eu gosto muito mais de mim.
Muito mais do que apenas gostar de alguém, o amor é gostarmos imensamente de nós próprios por entre o doce abraço desse alguém cujo nome só a alma nos segreda.
Hoje eu sei que o teu amor semeou em mim um tesouro, e nestes dias que cumprem o veloz ciclo do tempo, eu apago e pago todos os medos com essa riqueza que há tanto tempo esperava pelo toque de Midas dos teus abraços… e dos teus beijos.
Esperava por ti para a confiança que mata todas as máscaras na festa de ser eu, a festa de muito mais de três dias, a música que nunca cessa nas cinzas de uma qualquer quarta-feira.
Esperava por ti para a liberdade de poder voar por sobre o mundo, as máscaras e os falsos reis monos das carroças de todos os carnavais.
Esperava por ti…
Porque assim envoltos os dois neste amor profundo, nós sabemos que os dias, tal qual as árvores, as flores e as fontes do caminho, mesmo que tenham detalhes de inverno, têm a eterna essência da melhor e mais eterna primavera…
E da liberdade.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Parque temático em versão genérico sem bioequivalência


Num processo de pulverização de qualquer parque temático infantil em versão genérico sem bioequivalência produzido em vão de escada na Índia, o Carnaval semeia pelas nossas ruas uma prole de figuras estranhas e medonhas.
Já não falo das crianças que para estes dias prepararam uma invasão de Violettas, princesas ou Invizimals; e eu na Sexta-feira de manhã fui desde logo atacado no elevador por uma menina envolta em cor-de-rosa, com tiara de plástico prateado na cabeça e um casaco de penas por cima do vestido algo amarrotado, e também por um guerreiro medieval com espada a condizer com uns óculos “super fashion” transparentes…
Mas falo dos adultos.
Assim, na peixaria do Pingo Doce fui atendido por uma senhora que envergava uma bandolete de Coelhinha da Playboy, o que juntamente com o seu avental de borracha ensanguentado pelos Robalos, e também o buço mal aparado, lhe dava um ar de fugir.
Ela própria naquele estado parece ter fugido de algum hospital psiquiátrico onde tratava de uma profundíssima paranóia.
Fugi mas na caixa tive de optar por um rapaz de chapéu de Cowboy e uma senhora tão pintada que mais parecia ter assaltado o equipamento de maquilhagem da mãe. Optei pela segunda e vi jeitos de ela chegar a uma altura em que não conseguia ver os artigos, tal o risco de os olhos ficarem colados pela quantidade industrial de rimmel.
O que ela se esforçava para manter os olhos abertos…
E o Cowboy ali ao lado com o seu chapéu de JR Ewing parecia o neto ilegítimo de algum dissidente dos Village People.
Vou comprar o jornal…
Na banca está uma menina a comprar adereços da Violetta e a ser assessorada pelas avós que mais parecem as bruxas da Branca-de-Neve. Os artigos a que associam os melhores adjectivos são pura violência sobre as crianças; juro que são piores e mais feios do que um par de açoites.
Não aguento.
Vou até à pastelaria para tomar café em sossego e reparo que os empregados envergam perucas e andam a servir às mesas em passe de samba embalados por uma aparelhagem em volume altamente proibitivo.
Só me faltava ter de beber a bica ao som do “meu amigo Charlie” num sambódromo genérico com vista para a Serra de Sintra e entre folhados, Queques e Bolas de Berlim.
E a consciência do ridículo é por estes dias um conjunto vazio.
Voo imediatamente para casa porque um dia de folga do trabalho não pode ser desperdiçado assim.
Entro no elevador do prédio não sem que antes saia de lá um Ninja envergando uma espada fluorescente, uma criatura verde que deve ter aprendido a gritar com a buzina do Farol do Cabo Espichel.
Bolas…
Carnaval?
A quaresma já e em força.
E nem vou dormir a sesta porque com o andamento que isto leva tenho a sensação de que ainda me poderá aparecer a Angela Merkel em bikini à boleia de um pesadelo aterrador.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Desembrulhei o teu presente quando cheguei a casa e depois espreitei para o melhor de mim


Desembrulhei o teu presente quando cheguei a casa, com muito cuidado para não rasgar o papel, tal qual me recomendaste um pouco antes do "até já".
O perfume ficará guardado na gaveta onde tenho as relíquias da minha história e os meus segredos, lado a lado com o fantástico papel de embrulho onde no verso escreveste uma mensagem de amor.
Palavras escritas iguais às que toda a tarde senti soltarem-se do teu olhar, junto a uma das fontes do Rossio, na Rua Augusta, na Casa dos Cafés, no Tejo, na Ribeira... no abraço sob o chapéu-de-chuva com que subimos a Rua do Alecrim.
Eu nunca te saberei dizer àquilo a que sabem os teus beijos.
Mas talvez se somares todas as letras dos meus versos consigas espreitar por entre esta vida que me dás, e perceber que os teus beijos, como o demais que é teu, são e sabem à própria vida.
A minha vida feliz.
Destapo o perfume, releio amor no papel de embrulho, vejo a selfie que tirámos os dois e a que chamo o paraíso, acaricio os lábios que ainda trazem o aroma dos teus usando estas mesmas minhas mãos aonde ainda há pouco semeastes força e audácia, o amor mais profundo...
E sou eu agora quem se espreita no melhor da vida; eu por sobre a campa rasa onde sepultei os silêncios e os resquícios da caridade pobre de todos os falsos amores.
A chuva bate forte na vidraça, eu já sinto saudades tuas, muitas, mas hoje sou definitivamente o homem mais feliz do mundo.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Há manhãs de onde colhemos as palavras e o perfume para uma carta de amor


Meu querido amor,
Sinto aromas infinitos de indecifráveis flores por entre este instante em que penso em ti, e em que busco em vão palavras, por certo entre as mais doces, para te fazer o retrato escrito do homem mais feliz do universo, aquele que só tu soubeste criar em mim.
Serão rosas?
Muitas por certo, rubras de paixão; mas há tulipas, cravos, margaridas, alecrim, rosmaninho… e narcisos amarelos que nos lembram as tardes tristes da solidão.
As tardes que partiram de mim na intimidade desse primeiro abraço; eu, um náufrago sem “Sexta-feira” descoberto pelo navio rei de todos os mares, a nau de todos os meus sonhos e mestra de todos os destinos.
Depois…
O primeiro beijo com a cumplicidade lilás dos jacarandás na primavera, as mãos e as palavras trocadas no banco solitário de um jardim de Lisboa, o Tejo, os poemas, os livros, as cartas, os tesouros para o cofre, as colecções, os jantares por sobre os telhados da nossa cidade, as gargalhadas, as palavras, as Bolas de Berlim, os Bolos Fintos, mais beijos; tantos beijos e tantos abraços…
Tantos e tão poucos comparados com os que eu te queria dar; e a vida toda a soltar-se de tudo aquilo que de mais simples os dias carregam em si.
Os dias… e também as noites, perfeitas porque ao serão chega sempre uma mensagem com mil beijos e a magia de me chamares de “meu amor”.
Sim, ganhamos a mais doce das identidades quando perdemos o nome para passarmos a ser o “meu amor” dessa mesma pessoa a quem também nós trocámos o nome pelo sentimento.
Meu amor…
Sei que um dia a casa da D. João V será nossa, tomada pelos beijos que iremos dar nos dias todos em que o Tejo nos sorrirá azul; mas um pouco menos azul que o teu olhar.
Talvez então os nossos rostos estejam muito mais grisalhos do que hoje; mas que importa isso, se todos os anos que entretanto passarem, os vivermos juntos, assim, apaixonados e a namorar.
Por entre este intenso cheiro a flores, dou-te mil beijos, meu amor querido.
Teu,
Francisco

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Mas que bem-me-quer a minha sorte


Pudesse o malmequer responder ao desespero de um apaixonado
E por entre o irreversível despentear da sua coroa por certo perguntaria:
- O que terão as minhas pétalas a ver com o sentir do teu namorado?

Nada mesmo
Direi eu

Que as pétalas já lá estão
São em número certo
E o final sempre depende do começo
Na flor
Tal qual no amor

Bem…
Malmequer
Etecetera e tal…

Eu no dia em que te encontrei
Quando te prendi no primeiro abraço
Desde logo percebi

Sim
Tu irias ser tudo aquilo que o meu sonho tanto quer
Chegaste para ser um longo e feliz final

Percepção?
Experiência?

Estas coisas do amor não têm nada de ciência

É algo que se sente

Aonde?

Onde haveria de ser?
No peito de toda a gente

E hoje pela manhã
Espreitando à janela e vendo o algodão que a noite semeou sobre os malmequeres
Franzo o olhar para melhor enfrentar o sol
O seu reflexo
E tentar ver alguma nesga do azul que sempre me oferece o mar

Sinto-me bem
Até assobio
Sinto-te tão no meu peito
Tão meu
Tão ao meu jeito

Sinto-me forte

Sexta-feira treze?

Enquanto bebo o café e penso em ti
Sorrio
E não resisto a pensar...

Mas que bem-me-quer a minha sorte

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Planetas em trânsito e adultérios anunciados à mesa da Bénard


Um chá e uma torrada na Bénard cumprindo a ambição de um lanche tranquilo que se esvai rapidamente quando descobrimos que na mesa ao lado da nossa está a decorrer uma consulta de astrologia.
E se a senhora consultada fala baixo, o astrólogo projecta a voz ao jeito de um actor num teatro romano, para que todos escutemos a sua opinião sobre os mais variados assuntos, quase todos ao redor da vida íntima da sua interlocutora.
É impossível não ir seguindo a conversa alheia, facto que me deixa perfeitamente à vontade e sem temor perante uma possível acusação de deficit de educação da minha parte.
"Eu falo alto nos locais públicos porque com dois anos de programas de rádio a colocação e o volume da minha voz já estão incontroláveis"
É uma pena que a voz se tenha associado ao cérebro no descontrolo de volume e colocação, se bem que no que toca ao volume do dito, e ao contrário da voz, o problema seja claramente por defeito.
E quem paga com tudo isto sou eu, é o meu chá e a minha torrada.
"Eu adoro incomodar as pessoas inteligentes. Já afrontei os astrónomos todos deste país e já dei resposta pública a alguns no Correio da Manhã"
A referência ao nome do jornal era perfeitamente dispensável.
Em relação ao incómodo, não é líquido que o inverso seja verdade e eu nem sequer sou astrónomo, mas dado que estou tão incomodado com o senhor, é bem possível que eu não seja completamente burro.
“Sou intolerante perante as pessoas que não crêem em Deus”.
E Deus deve apreciar imenso essa atitude.
E se assumirmos que Deus revela o futuro a algumas criaturas, eu acredito mesmo que Ele escolha este ser anoréctico montado num casaco colorido que parece um genérico dos do Manuel Luís Goucha.
"Nestes dias do final de Fevereiro prepare-se porque a sua vida vai mudar. Saturno e Vénus estão em trânsito (não sei se perdidos na A5 de onde vim), e essa mudança até pode implicar um novo companheiro"
“Ai que bom”, responde a mulher pedindo a repetição das datas em que tudo irá acontecer.
E perante o anunciado adultério a mulher sempre vai dizendo baixinho que o marido é esquizofrénico.
Pois...
Não vá o astrólogo ter razão e ela tenha de se justificar nalguns fóruns sociais. Assim já vai treinando.
Eu não sei de que doença do foro psiquiátrico ela padece, mas aqui assim sentada com este “cromo” e a dar-lhe ouvidos, não é de estranhar que a esquizofrenia possa ser também uma realidade.
“São ... Euros, mas veja lá se fica incomodada. Veja lá. Veja lá”.
O “valentão” só diz baixinho o que eu queria ouvir e que era o valor da consulta. Mas a avaliar pela insistência na questão sobre o possível incómodo, eu deduzo que o preço não seja acessível.
Mas a senhora ainda lhe paga mais qualquer coisa; o anúncio de um adultério é coisa muito cara.
Com a torrada e o chá já consumidos, eu pago e saio da Bénard um pouco antes do estranho “casal”.
Na rua há um homem que desenha imagens de Fernando Pessoa e me questiona:
- O cavalheiro não quer levar o Fernando Pessoa para casa?
Hoje não mais para além dos muitos livros com poemas que por lá tenho.
E que sendo ele dado também a astrologia…

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

E as palavras saltam em catadupa para a folha que já esqueceu o que é estar vazia


Na estrada às vezes longa que liga a solidão ao amor, que é o mesmo caminho que toma quem vem da lágrima triste até ao estar feliz; existe uma “área de serviço” um pouco antes da portagem, onde os amigos nos esperam à volta de uma mesa para nos mimarem e animarem.
Um chá, uns bolos, infinitas palavras, e aquela força que passa num abraço…
Porque a portagem às vezes é cara.
O inverno deixou sem folhas as árvores do campo à frente da minha janela, mas compensou-me pelo verde que semeou na erva farta que então cresceu. E sem a copa das árvores como densa e impenetrável cortina, o sol de inverno pôde beijar a terra e fazer desabrochar um tapete amarelo de infinitas Azedas que hoje me enfeita a vista.
No outro dia e depois de estacionar o carro, não resisti e colhi algumas para voltar a trinca-las e matar saudades do travo ácido que então nos acompanhava a caminho das aulas no velho liceu de Vila Viçosa.
Às vezes estamos mentalmente perante uma folha branca que espera as palavras nascidas do impulso de falar de amor, mas falta-nos aquela primeira que dá o mote e desbloqueia a poesia.
Chega então uma florista com papéis que publicitam a sua arte, e acabamos todos a falar de tulipas vermelhas e da forma como elas expressam a paixão.
E a tulipa dá-me o mote para o poema que escrevo ainda mentalmente enquanto a vendedora de flores se junta e toma um copo connosco na mesa confortável da “área de serviço” onde estamos à conversa.
Depois, dali até à portagem, o caminho goza de um infinito adorno amarelo e eu só tenho olhos para as Azedas.
Nem me lembro que é inverno e as árvores estão despidas de folhas, quando passo a portagem e dou por mim já estacionado no parque onde os sorrisos se soltam por entre o amor maior.
O sol entretanto já se pôs, a noite até está fria, mas eu não consigo calar o sorriso… e as palavras saltam em catadupa para a folha que já esqueceu o que é estar vazia.
A portagem… é claro, foi aquele beijo furtivo dado no brevíssimo instante que roubámos ao namoro intenso dos nossos olhares.