sábado, 21 de fevereiro de 2015

Eu, irmão de Lisboa.


O Tejo saiu para ir visitar o mar, e no Terreiro, bem junto às colunas do cais, há uma nesga de areal a que não resistimos e entregamos os nossos passos.
E o cais é hoje e assim, um chão que Lisboa atapetou de areia para o regresso do seu amado rio que num só e primeiro abraço a cobrirá dos aromas e de tudo o que o mar tem.
A noite caiu há pouco...
Mas entre a lua e o candeeiro eu encontro a luz que alumia a carta que escrevi para ti e te leio agora.
Um tapete tecido de letras alinhadas para dizer que te amo, ao jeito da areia de Lisboa.
No final damo-nos um beijo por entre um longo abraço.
E o poeta colhe desse instante os aromas e tudo aquilo que a vida tem.
Eu, irmão de Lisboa.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

“Há ou à”


Há janelas no teu prédio
Mas à janela tu não estás
Vem cá buscar um remédio
Para esta “coisa” dos “á’s”?

Há couves frescas na praça
Que à panela vão parar
Há a fome que nunca passa
Até à hora de almoçar

À hora de ponta no Chiado
Ali à porta da Brasileira
Há gente por todo o lado
A tomar café “à maneira”

Há que ter sorte para pousar
Numa foto à beira do Pessoa
Há sempre gente a passar
Ah que bom ver-te assim Lisboa

Se tem algo leva agá
O mesmo no imperativo
Se não tem nada vai só o “a”
Com ar solene e altivo

E se já há tempo, com jeito,
Não te esqueças, tu és capaz
Para quê repetir o conceito
E acrescentar que foi atrás?

Não é nada complicado
E nunca mais te vais esquecer
Com agá, verbo haver conjugado
Não tem nada que saber

Um fado maior…


Sobe o pano, acendem-se as luzes, soa o primeiro acorde da guitarra… mas o fado é sentir-te aqui tão perto matizando o meu perfume com os aromas todos e perfeitos que carregas em ti.
Um fado maior…
O melhor fado num tom colhido directamente do sonho mais persistente em mim.
E há tantos fados que eu esperava que viesses…
Tristes fados que eu tanto insisti temperar de esperança.
A minha perna já namora com a tua e as duas seguem o ritmo da guitarra quando a voz do cantor solta as primeiras palavras, as letras alinhadas no testemunho de uma intensa paixão; mas já há muito a poesia se soltara livre e louca da tua mão no instante em que procurou e se colou à minha.
A rima de pele com pele, a poesia dos versos sem letras que têm o mesmo toque de todos os nossos beijos, a nossa paixão.
Não tardará o momento em que o público se rende, entregando-se a um grande aplauso.
A noite trouxe-nos hoje ao Coliseu para ouvir o fado, mas por entre toda esta gente, aqui sentados e envoltos neste amor; somos nós…
Sim, meu amor somos nós a mais inspirada canção.
E a vida, se é assim como um concerto e esta noite, jamais será para nós um palco com um cantor a falar de paixão e a fazer-nos chorar por entre a tristeza de uma enorme plateia onde nos vemos sós.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Começou a terceira guerra mundial ou a segunda ainda não acabou?


Legítimos herdeiros do imperador Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus e agarrados às suas liras enquanto “Roma” arde, os Portugueses divertem-se ao redor das cervejas Sagres e dos “frangos”, enquanto as Portuguesas sussurram entre amigas os segredos que as “Sombras de Grey” lhes revelaram relativamente ao inóspito universo guardado por detrás da sua genitália.
Eu avanço por entre eles, amigo do ambiente, com as mãos ocupadas pelas compras do supermercado e inspirado pela recusa em pagar dez cêntimos por cada saco de plástico.
“Roma” arde… e a Grécia também.
Quando os homens de Esparta chegaram a Tróia para resgatar Helena que fugira para lá na companhia de Páris, a batalha foi dura. Mas um certo dia os Troianos descobriram que o acampamento dos seus inimigos estava vazio e no meio dele brilhava um enorme cavalo de madeira que pensaram ser um presente.
Assumiram assim que a guerra estava ganha e empurraram o cavalo para dentro das suas muralhas sem saber que transportavam nele os homens de Esparta que saídos do dito animal gigante, os fizeram perder a guerra.
A ideia de Odisseu resultou e Helena fugiu.
Pensarão os Gregos e pensaremos nós que a história se repete, e de que há e sempre existiu veneno guardado na celebração de uma falsa unidade chamada Euro, num acampamento aparentemente vazio e de paz.
A austeridade que saiu de lá de dentro…
Vai dura a guerra, porque serão sempre duras as batalhas entre a “Kratia” (poder) do “Demos” (povo) e todas as “Kratia’s” de tantos interesses.
Começou a terceira guerra mundial ou a segunda ainda não acabou?
Não esteve aparentemente vazio “o acampamento” durante décadas para que os soldados se pudessem realinhar e camuflar?
A Europa e a Democracia ardem e são de cinza todas as sombras e não de Grey, com a agravante de a paz ir sucumbindo também aos “santos” argumentos das guerras entre militâncias nos Olimpos das religiões.
Tenho tanto medo quando os Homens assumem para si próprios a sobranceria que julgam morar nos seus Deuses.
Pouso as compras na mala do carro e ligo o rádio a tempo de à hora certa ouvir o Pontifex Maximus (o pontífice máximo), o político “espartano” na sua esquizofrenia anti-políticos, afirmar que os malandros dos Gregos já muitos “capitéis” montaram à nossa custa.
A amnésia segue sendo a arma preferida dos chefes (e dos não-políticos) de “Roma”.
E quem lhe pagou as vias todas onde inscreveu o nome em placas douradas juntamente com o dos seus “impolutos” soldados entretanto perdidos nas guerras sujas e mundanas do capital?
“Roma” arde por entre a orfandade de não ter líderes.
Até Juncker já diz que pecou contra a dignidade da Grécia… e de “Roma”.
Novo Cavalo de Tróia?
Chego a casa com as mãos ocupadas pelas compras e nem sequer ligo a televisão.
A Teresa Guilherme tem um insuportável toque de lira que me irrita por entre o estalido das chamas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A laje de onde varremos as cinzas é a mesma que servirá de chão ao lume aceso que nos aquece


Gosto deste abraço que me oferece o teu cheiro, deste informal repouso do meu olhar sobre o teu ombro, a escuridão com que pinto o mundo para melhor espreitar o melhor de mim.
Ficaria assim a vida inteira...
Mas há um som agudo que me desperta, o prenúncio do movimento de um comboio, e eu entrego-te as mãos para caminhar contigo; estas mesmas mãos, tantas vezes mães do gesto de um adeus
As mãos são como um cais e um cais é como qualquer dia.
O mesmo espaço, uma indefinida sina, um destino solto e à mercê do tempo.
A partida?
A chegada?
A laje de onde varremos as cinzas é a mesma que servirá de chão ao lume aceso que nos aquece.
O cais de onde parte um amor é o mesmo aonde chega outro bem maior e mais feliz.
A laje, o cais… e os dias.
Até as lágrimas parecem coerentes e sempre iguais; sendo afinal tão diferentes como parágrafos líquidos e sem letras na expressão de estar triste ou ser feliz.
Hoje…
Entrego-te as minhas mãos para caminhar contigo enquanto lentamente passa por nós o comboio que me trouxe até aqui.
Depois dou-te um abraço e caminho junto a ti pelo cais e por entre a certeza de que cheguei e não querer partir jamais.
O comboio é a sorte, sinto-o claramente depois de acordar cheio de saudades tuas para um daqueles dias em que é tão fácil escrever sobre o amor.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Hoje eu sei que o teu amor semeou em mim um tesouro …


Os teus abraços têm o dom de me colocar irreversivelmente na rota do melhor sonho, aquele caminho onde as árvores, as flores e toda a gente, testemunham o sorriso de quem segue feliz, fazendo valer a pena o tempo que a vida lhe dá.
O sorriso e a música.
Por entre um céu que tempera de azul a água da generosidade das ribeiras e das fontes, os teus abraços e os teus beijos são o meu caminho e também o alimento e o condimento de que a alma precisa…
E por ti, eu gosto muito mais de mim.
Muito mais do que apenas gostar de alguém, o amor é gostarmos imensamente de nós próprios por entre o doce abraço desse alguém cujo nome só a alma nos segreda.
Hoje eu sei que o teu amor semeou em mim um tesouro, e nestes dias que cumprem o veloz ciclo do tempo, eu apago e pago todos os medos com essa riqueza que há tanto tempo esperava pelo toque de Midas dos teus abraços… e dos teus beijos.
Esperava por ti para a confiança que mata todas as máscaras na festa de ser eu, a festa de muito mais de três dias, a música que nunca cessa nas cinzas de uma qualquer quarta-feira.
Esperava por ti para a liberdade de poder voar por sobre o mundo, as máscaras e os falsos reis monos das carroças de todos os carnavais.
Esperava por ti…
Porque assim envoltos os dois neste amor profundo, nós sabemos que os dias, tal qual as árvores, as flores e as fontes do caminho, mesmo que tenham detalhes de inverno, têm a eterna essência da melhor e mais eterna primavera…
E da liberdade.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Parque temático em versão genérico sem bioequivalência


Num processo de pulverização de qualquer parque temático infantil em versão genérico sem bioequivalência produzido em vão de escada na Índia, o Carnaval semeia pelas nossas ruas uma prole de figuras estranhas e medonhas.
Já não falo das crianças que para estes dias prepararam uma invasão de Violettas, princesas ou Invizimals; e eu na Sexta-feira de manhã fui desde logo atacado no elevador por uma menina envolta em cor-de-rosa, com tiara de plástico prateado na cabeça e um casaco de penas por cima do vestido algo amarrotado, e também por um guerreiro medieval com espada a condizer com uns óculos “super fashion” transparentes…
Mas falo dos adultos.
Assim, na peixaria do Pingo Doce fui atendido por uma senhora que envergava uma bandolete de Coelhinha da Playboy, o que juntamente com o seu avental de borracha ensanguentado pelos Robalos, e também o buço mal aparado, lhe dava um ar de fugir.
Ela própria naquele estado parece ter fugido de algum hospital psiquiátrico onde tratava de uma profundíssima paranóia.
Fugi mas na caixa tive de optar por um rapaz de chapéu de Cowboy e uma senhora tão pintada que mais parecia ter assaltado o equipamento de maquilhagem da mãe. Optei pela segunda e vi jeitos de ela chegar a uma altura em que não conseguia ver os artigos, tal o risco de os olhos ficarem colados pela quantidade industrial de rimmel.
O que ela se esforçava para manter os olhos abertos…
E o Cowboy ali ao lado com o seu chapéu de JR Ewing parecia o neto ilegítimo de algum dissidente dos Village People.
Vou comprar o jornal…
Na banca está uma menina a comprar adereços da Violetta e a ser assessorada pelas avós que mais parecem as bruxas da Branca-de-Neve. Os artigos a que associam os melhores adjectivos são pura violência sobre as crianças; juro que são piores e mais feios do que um par de açoites.
Não aguento.
Vou até à pastelaria para tomar café em sossego e reparo que os empregados envergam perucas e andam a servir às mesas em passe de samba embalados por uma aparelhagem em volume altamente proibitivo.
Só me faltava ter de beber a bica ao som do “meu amigo Charlie” num sambódromo genérico com vista para a Serra de Sintra e entre folhados, Queques e Bolas de Berlim.
E a consciência do ridículo é por estes dias um conjunto vazio.
Voo imediatamente para casa porque um dia de folga do trabalho não pode ser desperdiçado assim.
Entro no elevador do prédio não sem que antes saia de lá um Ninja envergando uma espada fluorescente, uma criatura verde que deve ter aprendido a gritar com a buzina do Farol do Cabo Espichel.
Bolas…
Carnaval?
A quaresma já e em força.
E nem vou dormir a sesta porque com o andamento que isto leva tenho a sensação de que ainda me poderá aparecer a Angela Merkel em bikini à boleia de um pesadelo aterrador.