segunda-feira, 2 de março de 2015

Eu, tu e Lisboa… um caso de eternidade


Desço um suave mas estirado degrau até ao rio, e faço desse instante o cais onde ascendo ao lugar que a minha vontade há muito desenhou para mim.
Tu estás ao meu lado; hoje aqui como no desenho rebelde de todos os sonhos, mesmo os mais ousados.
E hoje sei como te chamas, e vejo-te, toco-te, abraço-te… como quem quer sofregamente certificar-se que a perfeição existe e passeia comigo num domingo à tarde, e quando estou acordado.
Percorri o mundo e o tempo todo a procurar-te, revolveria novamente o universo inteiro se a sorte me devolvesse aos domingos de solidão passados junto ao Tejo; quando o degrau de hoje era tão-só um banco para eu descansar, e onde o rio bebia das minhas mágoas, provando do sal, um pouco antes de chegar até à sua inevitável condição de mar.
Agora…
Sinto-te tão perto que até o teu respirar me beija... e estou contigo na pátria que sonhei e de onde sou.
A minha vontade tomou as pedras irmãs e sem idade da cidade capital.
Eu, tu e Lisboa… um caso de eternidade.

domingo, 1 de março de 2015

O instante em que o mundo mudou


No dia em que te conheci
Algures em Março
O mundo mudou de repente

Eu…
Feliz como nunca
O mais feliz de entre toda a gente
E tudo por conta de um abraço

Nesse instante…

A Vénus de Milo bateu as palmas
A Gioconda não controlou uma gargalhada
E até o sol nasceu na Ronda da Noite por entre uma perfeita alvorada

O norte trocou com o sul
O equador virou meridiano de uma qualquer longitude
E até o céu por momentos deixou de ser azul

As ondas bateram ao contrário
O mar mudou a sua atitude
Subiu rios acima
E apaixonou-se irremediavelmente pelas neves da montanha

A hipocrisia morreu
A verdade superou as portas opacas de um armário

Os tristes vestiram sorrisos de uma festa tamanha
Daquelas onde o pranto vira canto
A solidão…
O calor de um coração
E a apatia se esbate e morre aos pés da fantasia

No dia em que te conheci…

Reparei depois do abraço
Que o mundo estava exactamente igual

Só eu tinha mudado

Algures em Março

Como nunca antes…

A querer-te
Por entre uma paixão imortal 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

E o tempo acelera…


Mesmo que o dia insista em pintar-se do tom cinzento de nuvens muito carregadas, nós sabemos que o tempo acelera já irreversivelmente para a primavera; e até Fevereiro trai e mata a previsível duração que têm os meses.
Por todo o inverno, a chuva semeou flores rebeldes que por estes dias rasgarão de amarelo, o verde intenso das ervas do caminho.
Até os choupos se despiram para que as águas chegassem mais depressa ao leito das ribeiras, fazendo com que estas ganhassem uma renovada voz e se revestissem de um intenso e indisfarçável aroma de poejo.
Por todo o inverno…
Senti a chuva a bater forte na vidraça da casa aonde moro, e me aqueci das lembranças dos beijos que de ti trago sempre comigo.
E tantas vezes adormeci escutando o vento, e decifrando no seu sopro as palavras de amor que por ti desejei sussurradas no íntimo mais íntimo do meu ouvido.
Hoje enquanto tomo o café e espreito lá fora o cinza de um dia de inverno em agonia, quase que tenho a certeza que o vaso de amores-perfeitos que comprámos juntos no mercado, já estará perto de dar flor.
E olho para o calendário…
Último dia de Fevereiro… e o tempo acelera.
Eu sigo com ele à boleia para os teus braços; é lá que na cidade eu sinto sempre o campo…
O perfume das flores e o canto sereno das ribeiras por estes dias em que chega a primavera.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

PORTO


Entre nós há um rio que de ti tomou nobreza e nome
E de mim a sina que faz correr para o azul
O tom que tu carregas nos olhos tal qual o mar...

Douro

E num degrau de granito que a cidade me oferece lá para os lados da Ribeira
Eu espero por ti ao pôr-do-sol entre todas as pontes
Sabendo que a vida é como o Porto

Um rio que fala de nós
Uma escada de granito que sobe ao Céu
Uma encruzilhada traçada pela sorte à esquina do tempo para que eu te encontrar
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Há muito me habituei a não desperdiçar quaisquer palavras…


Há muito me habituei a não desperdiçar quaisquer palavras, e se não estás à minha frente para que de viva voz as possa transmitir, registo-as e guardo-as escritas no caderno vermelho que anda sempre comigo e que um dia um querido amigo me ofereceu num pequeno-almoço no Chiado.
Sobre o restaurante paira em tom baixo, a banda sonora que acaba por resultar numa jangada ou bote salva-vidas para os solitários, salvação a que nos agarramos por pensamento para nos abstrairmos e sobrevivermos ao mar de gritos dos grupos de gente que estão sentados ao nosso lado.
E de repente por entre algumas melodias mais ou menos conhecidas e interpretações mais ou menos “de elevador”…
África Minha, um voo de Redford e Streep no Quénia enquanto dão corpo às palavras e à paixão de Karen Blixen; e aí estou eu indiferente às ruidosas gargalhadas que culminam as piadas da gente presente na sala, a voar contigo naqueles territórios tão generosos em palavras pela intensidade do que se sente.
O vento bate-me forte na face mas eu agradeço-o à sorte, tal o aroma de ti que ele me oferece; o voo acelera por entre as árvores e as aves de todas as cores e tem um toque marcado de perfeição, quando até as vertigens se apagaram porque todos os medos, excepto um, morrem quando eu estou contigo.
Esse um… o medo de te perder.
E a vida é como um serão de onde eu vou colhendo palavras que registo no caderno vermelho estrategicamente colocado do meu lado direito na mesa do jantar; os recados que guardarei para te transmitir quando te reencontrar, sem qualquer desperdício de palavras e de sentimentos.
De repente dou conta de que algures na zona das gargalhadas histriónicas, uma senhora me olha com ar espantado; acredito que seja por me ver sozinho, a escrever e a não conseguir travar o sorriso em alguns momentos; sorriso que não está alinhado com a cadência de piadas da sala.
Definitivamente não me entende; mas estivesse ela a viver uma paixão e a voar assim como eu o faço contigo...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A luta continua…


O Homem é um ser competitivo e não há território que esteja isento de luta; reconheço-o desde que assistia às discussões entre as minhas tias-avós Maria e Joaquina relativamente ao estatuto de mais doente.
- Toda a semana me tem doído um dedo.
- Um dedo… A mim há meses que me dói um braço.
E aprendi desde cedo que a vida é uma competição…
Ainda na Escola Secundária de Vila Viçosa, e porque no 11º Ano e na disciplina de Socorrismo, tanto eu como os meus dois competidores para o título de melhor aluno, tínhamos vinte; disputávamos quem é que conseguia o vinte em menos tempo.
E um dia quando o primeiro acabou e o comunicou a toda a turma:
- Já acabei!
Ouviu-se:
- Puxa o autoclismo.
E hoje…
Assistimos quase diariamente às disputas entre pais ou entre avós relativamente às performances escolares dos filhos ou netos naquilo que parece a eleição do Mr. Einstein 2015; as mulheres competem relativamente à eficácia dos drenantes e outros produtos dietéticos que utilizam, dos efeitos dos cremes anti-estrias, disputam as roupas, as marcas das carteiras, as unhas de gel, o cabeleireiro… e até a simpatia e profissionalismo do ginecologista; as crianças fazem campeonatos informais sobre os brinquedos, as idas à Eurodisney, as festas de aniversário e os jogos da playstation; os povoadores de sacristia sobre a autoproclamada santidade que esmaga desde logo a devida humildade de um crente; os vizinhos dos prédios disputam o mês e o ano das matrículas das viaturas, para além das raças dos cães que passeiam de manhã, em roupão e entre remelas; as “bichas” discutem a qualidade do hotel em que ficaram alojados na Gran Canária durante o verão passado, para além do jeito especial para cozinharem Bacalhau Espiritual; os condutores competem por um lugar mais à frente na fila da ponte; os homens frequentadores de ginásio competem pela expressão dos seus músculos, e nos balneários e de forma informal, sobre outras inevitabilidades genéticos que se expressam em centímetros; os condóminos utilizam as reuniões para elegerem a habitante do prédio com estatuto de “mais badalhoca”; os supermercados competem supostamente pelo preço; os políticos disputam os votos pelos outdoors onde até é possível observar cartazes bilingues do Bloco de Esquerda em Alemão e Português, ou cartazes do Partido Socialista com a palavra “Confiança”, a lembrar-nos que há gente que nem “com fiança” consegue estar fora da prisão e ir a votos…
Ontem ao princípio da tarde partilhei elevador num edifício de Lisboa com dois indivíduos que disputavam as performances dos carros. A métrica era a aceleração na subida de Monsanto na A5. A minha presença ainda os espicaçou mais e quase vi jeitos de ter de intervir como árbitro de boxe. Quando a porta se abriu e saí antes deles fiquei claramente que ainda se iam pegar ao estalo.
Depois de me ter sentado numa esplanada e ter disputado o lugar na mesa com um casal, tomei um café e tomei estas notas.
A luta continua…
Ah… é verdade, no 11º ano fui eu que consegui o prémio para o melhor aluno uns meses depois de ter mandado puxar o autoclismo. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O que é a saudade de um beijo quando comparada com o mar de girassóis que tu semeias em todos os silêncios de uma noite escura?


A lua sulca veredas no breu da noite, e é hoje um imenso e prateado gomo de laranja entretida a brincar com as nuvens no céu por cima do meu caminho.
O rádio do carro emite palavras envoltas no toque de fado de uma lusa guitarra, mas esta noite pede-me silêncio para que dele possam emergir as minhas próprias palavras, as palavras todas que tu me ofereces.
Desligo o rádio.
Quase ao mesmo tempo a lua vence a cortina de nuvens, e assim nesta posição, parece sorrir-me sem o mínimo detalhe de pudor.
E o silêncio já é por esta altura, o campo imenso onde palavra a palavra, eu vejo brilhar girassóis, e onde numa clareira aberta à cumplicidade de uma fonte, eu te abraço à sombra de um choupo enquanto teço versos de amor.
A lua esconde-se novamente atrás do biombo que as nuvens lhe oferecem, talvez por não querer espreitar o momento em que eu não disfarço a saudade de um beijo.
Mas depois aparece de novo e vejo que continua a sorrir.
Eu também sorrio.
Afinal, o que é a saudade de um beijo quando comparada com o mar de girassóis que tu semeias em todos os silêncios de uma noite escura?
Em breve chegarei a casa e ainda e sempre a brincar com a lua.
Ela a sulcar veredas e eu a recitar versos de amor numa noite escura em que por não estares aqui, a saudade insiste sempre em espreitar.