segunda-feira, 16 de março de 2015

Os aromas todos…


Em Belém há um mosteiro com nós marinheiros esculpidos entre os santos da fachada, heróis do céu e do mar congregados na memória das caravelas que deram novos mundos ao mundo e que dobraram tormentas pelo império, por glória, açafrão e canela.
E mais acima, iluminada e a sobressair do casario da Ajuda, uma cúpula guarda a memória do Marquês e de uma cidade reconstruida por sobre os escombros do terramoto.
Tudo isto, nós conseguimos observar desde o jardim enfeitado a buxo recortado e a altos ciprestes, onde uma fonte nos entretém na ilusão da água ter cores, porque, formas… o vento agreste da noite e do Tejo destrói-as todas sem dó nem piedade.
Há pouco, quando tentávamos fazer uma foto, sentimos os salpicos da água nas nossas faces e devolvemo-nos a correr para o carro onde nos sentámos e onde as nossas mãos se colaram instintivamente.
Todo eu repouso por entre o desejo mais doce quando sinto a minha pele entrelaçada na tua pele, uma permuta incessante onde nenhum dos poros se demite de beijar o outro e de lhe contar segredos.
Tu belisca-me entre os dedos enquanto as palavras que a noite tece nos envolvem no futuro feito de tantos planos.
E o teu olhar que tem o tom do céu…
Sob esta noite, sob nós repousarão as memórias e tantos escombros; porque nascem impérios que calam adamastores e ressuscitam a glória dos sentidos.
Açafrão, canela…
Os aromas todos na rota do mais perfeito dos amores.

domingo, 15 de março de 2015

Meninas ao palco


Depois do Estádio da Luz e dos golos do Benfica ao Sporting de Braga, depois da bifana com mostarda ingerida à sombra da roulotte situado por debaixo do viaduto da Segunda Circular, ir ao Casino Lisboa para ver uma peça sobre o universo feminino na década dos quarenta e representada por três actrizes, faz com que a “roleta da sorte” nos coloque rodeados por “ondas” de descendentes da eterna Eva.
E por todos os lados numa sala completamente cheia…
Na fila de cima senta-se um grupo de tias, mas das ilegítimas porque são daquelas que falam alto para toda a gente ouvir, e a conversa é “supé intessante”:
- Mas você gosta dela?
- Agora sim mas antes fiquei aterrada, tá a ver? Pedi “pa” ela me escadear o cabelo e quando a vi cortar tanto… fiquei aterrada. Mas depois ficou bem. Não vê?
- Sim…
O sim foi dito num ar tão cínico que até eu me virei para trás e bisbilhotar o cabelo da outra.
Na fila da frente senta-se um grupo mas em dois tempos pois a líder da segunda metade e que enverga um colete de pêlo que parece ter sido herdado do avô da Heidi, confessa ter tido alguma dificuldade para estacionar.
Dão dois beijos e percebe-se que estas não vieram de Cascais pela A5 e devem ter vindo pela A8 e das faldas de Loures. Aliás, a forma como gesticulam e gritam e o tom de framboesa do Báton comprovam como o Carnaval de Torres é como o Natal e é quando uma mulher quiser.
Entretanto em cima…
- Não querida, eu não desisti da ideia do segundo furo na orelha mas já agora segui o seu conselho e faço só depois das férias da neve “po” causa do incómodo do capacete.
Ao meu lado senta-se entretanto um casal de homem e mulher em que ela tem um ar mais másculo do que ele. O primeiro comentário desta quando vê uma frisa de sapatos no palco à frente da cortina.
- Olha que estupidez.
Ah macho…
Em baixo continua o desfile de Carnaval e percebe-se pelas gargalhadas que a malta não quer perder a noite de alforria:
- Ficaram para lá a emborcar. Afoguem-se em vinho…
E pelos tons do cabelo vê-se que estes foram pintados à pressa com tintas genéricas.
Em cima…
- O pior é ao fim-de-semana por causa das unhas.
- Ah pois é…
- Sabe “couto” dia vi lá o Ricardinho a fazer a depilação?
- Ah sim?
- Fingiu que não me reconheceu.
Ao meu lado…
- Dá-me ideia que isto é estupidez de gajas.
- Querida, pode ser que não.
- Se for saímos a meio.
Em baixo continua a festa das “vaginas unidas jamais serão vencidas”…
- Eu deixei-lhes lá uma tachada de arroz de marisco… e com gambas descascadas.
- Depois do teatro ainda vamos às bifanas de Vendas Novas?
- E até a Mizé vai beber uma imperial.
- Ah, ah, ah…
As luzes começam a apagar-se e parece que vai começar o teatro.
Agora no palco.
E a “machona” do lado saiu a meio e levou com ela o Nelo… digo, o marido contrariado.    

sábado, 14 de março de 2015

Há tanto mundo em mim… e uma noite com o Cante nas margens do Tejo


Esperei por ti tomando a fé de um sobreiro que a planície tinge de sombra ao romper da aurora que chamamos bela, pelo tom de fogo que sempre oferece ao horizonte.
Tomei alento da água da fonte que corre na mesma toada de paixão de quem a procura para namorar, e oferece beijos nas mãos em concha que dispensam o velho cocho que alguém por ali deixou pendurado num prego já enferrujado pelo tempo.
Colhi a azeitona numa manhã de inverno por entre os ramos gelados do olival e fiz dela a luz da candeia com que te escrevi versos ao luar.
Senti o canto chão dos homens na tasca mal alumiada, rimas de amor a ressoarem entre as talhas já cheias do vinho novo, e a ressoarem em mim, que toda a vida sonhei contigo.
Trago em mim a rebeldia das papoilas numa seara madura embalada pelo vento, e o perfume do rosmaninho sinto-o na alma junto ao prazer perfeito de viver contigo.
Há tanto Alentejo em mim...
E hoje, aqui de braço dado contigo nas margens do Tejo que nos juntou, escutando as vozes minhas irmãs que cantam como eu, a toada que me oferece casa e abrigo; eu sinto meu amor que muito mais do que o Alentejo que comigo nasceu...
Há tanto mundo em mim por namorar contigo.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Os dias da gripe


Importante e forte, eu?
Se até um vírus tão comum me derrota desta forma…
Suei toda a noite por mérito dos anti-piréticos e anti-inflamatórios, não me reconheço no aroma do pijama e o despertar clama pela urgência de um banho.
Água morna, gel, uma lentidão confrangedora, o esfregar o corpo como se estivesse a passar a escova e sabão azul e branco todo o Terreiro do Paço, a toalha, o roupão...
Uma pausa para respirar fundo e tomar coragem entre cada pequeno gesto.
Doem-me os músculos da barriga pelo esforço de tanto tossir quando me dobro para calçar umas botas de lã.
Foram tricotadas pela minha avó Natividade, que partiu em 1998 mas deixou cá estas relíquias e este privilégio que eu poupo e que ofereço a mim próprio apenas nestes dias que não são nada fáceis.
Depois sento-me no sofá para descansar e ganhar coragem para ir preparar o pequeno-almoço.
Descansar de uma noite de sono e o vírus a deixar-me totalmente à mercê daquilo que as anedotas contam de nós, os Alentejanos.
Passaram dez minutos e aí estou eu a arrastar-me para a cozinha, mais pela necessidade de fazer lastro no estômago aos medicamentos do que por vontade de comer.
E retirar-me o apetite…
Leite, café, pão com queijo, biscoitos sem açúcar... e valha-me a generosidade das minhas queridas Mina e Natália que tantas laranjas me deram no fim‑de‑semana.
Depois mais sofá e e-mails.
O meu pai ligou e é curioso que acha sempre estranho quando digo estar doente pois é como se o convívio diário com os medicamentos activasse automaticamente em nós farmacêuticos, uma importante e decisiva profilaxia contra todos os males:
- “Atão mas tu tás doenti”
- “Nam pai. Tou brincando”.
Ligo a televisão, passo pelos canais todos e acabo na RTP Memória a ver um programa em que a Teresa Guilherme e o Manuel Luis Goucha (ainda de bigode) entrevistam o Eusébio.
Não resisto a este momento "prefácio de panteão" e muito menos à promoção de umas esfregonas "inteligentes” algures no intervalo.
Vá lá alguém saber como pode uma esfregona ser inteligente...
O meu estado é tal que fico cansado só de ver a esfregona a mexer em ritmo “Melga & Mike”.
Desligo a televisão, escrevo, leio mais e-mails, como mais biscoitos...
E sempre a respirar fundo no sofá entre cada actividade.
Aproxima-se o almoço e novo momento de cozinha no bailado frigorífico, microondas e mesa.
Mais repouso, televisão nem vê-la...
Tento ler mas dói-me a cabeça...
Tento escrever e parece que estou a escrever guiões para uma novela Mexicana...
Mais repouso.
Adormeço.
Não tarda nada e terei de ir preparar o jantar... antes de ir descansar.
E depois dormir, suar, banho...
E quem é que disse que os Alentejanos nunca se cansam do sofá?
Vou trabalhar! 

quinta-feira, 12 de março de 2015

E são tuas todas as palavras


As palavras descem desse espaço comum formado pela memória, os desejos e os sonhos, o espaço a que chamam céu; adoçam-se nas sensações tomadas dos beijos ao pôr-do-sol, afinam-se na caligrafia perfeita inspirada nos traços do teu rosto... e vêm depois repousar na folha branca pousada na mesa onde escrevo para ti.
Eu jamais serei dono destas palavras de amor que aqui escrevo.
Guardião das lembranças e das vontades nascidas de um amor profundo, eu sou apenas o homem que empresta as mãos e desenha as letras das palavras todas que são tuas. As palavras "colhidas" de um céu que semeaste em mim e se renova de azul a cada amanhecer.
Prosa, poesia… e a vida que sempre ousei sonhar.
Há um aparente silêncio sobre este princípio de tarde, e eu gosto do silêncio pelo poder de o povoar daquilo que me apraz à alma.
Trepo-o agora pelas "lianas" do pensamento, e busco-te...
Não tardarei então a descer com as palavras que escrevo e logo te lerei envoltas no ar que cruza as nossas faces aparadas e iguais.
Será por certo em Lisboa.
Uma carta de amor, o prefácio de um beijo que me dás discretamente no espaço docemente exíguo de um abraço...
E sorriremos os dois.
Ambos sabemos que são tuas todas as palavras de amor.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Sim, para me encontrar.


Há um fio estreito de luz a rasgar a escuridão do quarto, uma espécie de linha traçada a diagonal sobre um tecto amplo e sem candeeiros; o sol terá nascido ainda há pouco.
Por entre a ténue claridade que me oferece a manhã consigo vislumbrar umas paredes pintadas de um tom claro, uma porta aberta para um compartimento contíguo a este onde me encontro, e um cortinado em tons de castanho, que por não estar devidamente unido no centro da janela, é o responsável por esta traição à escuridão que me terá embalado no sono durante toda a noite.
Um instante... e desconheço este quarto em que me desperto e onde nenhum ruído vem em meu auxílio oferecendo-me generosas coordenadas.
Coloco-me de barriga para cima, afago a barba, solto um bocejo, espreguiço-me ligeiramente... e é o teu rosto a primeira imagem que me ocorre na consciência de estar acordado.
Sorrio.
Ah, é verdade...
Solta-se mais um bocejo.
Sou eu. Troquei hoje momentaneamente o Tejo pelo Douro e estou a despertar-me num quarto de hotel no Porto.
Espreguiço-me mais um pouco.
Salto da cama, abro a cortina e alargo a linha de luz até à extensão do quarto, reconheço que a porta entreaberta dá para a casa de banho e corro para lá a pedir a agradável sensação da água quente de um duche.
Sorrio novamente.
Sim, sou eu; estou no Porto mas antes de me orientar no tempo e no espaço precisei de pensar em ti.
Eu navego pelos dias e há tanto de bússola nesta forma intensa de te querer.
Bússola?
Sim, para me encontrar.

terça-feira, 10 de março de 2015

Tu chegaste para vestir de açúcar todos os meus versos


Gosto de passear contigo e te ter ao meu lado, os dois envoltos pelo mais completo dos abraços.
Depois…
Entre os dias que insisto em recortar para que tomem as formas do teu rosto, e os papagaios de papel tecidos pelo meu querer e que sobrevoam eficazmente mesmo a mais intensa saudade; eu posso afirmar sem quaisquer dúvidas que vivo contigo todas as horas.
E sinto-me completo…
Talvez porque o amor seja o calar da solidão até mesmo quando estamos sós, seja uma fonte inesgotável de doces palavras mesmo quando nos envolve o silêncio, e seja o sentir do palpitar inscrito num beijo mesmo quando os teus lábios estão fisicamente muito longe dos meus.
Morrem todos os impossíveis e o que vale a distância perante o metafísico poder de um amor assim?
Um amor…
Tu chegaste para vestir de açúcar todos os meus versos.
Muito obrigado pelo melhor ano que eu já vivi.