sábado, 21 de março de 2015

A poesia é o perfume perfeito que se colhe de cada momento que vivemos intensamente pelo prazer de sermos nós


Corro solto pelo cais entre tanta gente, e a minha liberdade é escolher as pedras do meu caminho, desenhar o meu próprio chão.
Há um rio que corre junto a mim, ao mesmo tempo e na perseverante busca do mar; um rio que me entende e me oferece alento.
Há olhares que me beijam de entre a gente, são os amigos; aqueles que se acercam e voam comigo em tantos e tão bons pedaços da jornada.
Aqui e ali um abraço, muitas palavras doces.
E eu sigo sempre pela rota de mim, pelos sentidos, a fé, o desejo…
Não me faltam nunca os nossos beijos, mesmo aqueles breves que desenhamos algures num instante à esquina do luar.
E quando tu dizes por entre os beijos num sussurro ao ouvido, que me amas como eu te amo a ti, bendigo as pedras todas que escolhi pisar no chão que me trouxe até aqui.
E canto por entre a liberdade.
E bendigo as madrugadas todas que te acercam a mim no mais perfeito pensamento.
Corro solto pelo cais…
Vou colhendo e alinhando palavras sem ter medo da insensatez atirada violentamente como seixos aos loucos que ousam romper os protocolos.
Poeta?
Talvez…
Mas apenas porque vivo, porque corro solto pelo tempo e não me demito de ser eu.
A poesia é o perfume perfeito que se colhe de cada momento que vivemos intensamente pelo prazer de sermos nós.
Viva a vida.
Viva a poesia.

sexta-feira, 20 de março de 2015

E há flores e beijos perfeitos no fim de todos os invernos


Podem as sombras insistir em tapar-nos o sol beliscando a intensidade com que ele brilha sobre as nossas manhãs, que nós nunca desistiremos de seguir pelo tempo até chegarmos à primavera.
O inverno ressuscitou as ribeiras e semeou erva farta pelo campo, aqui e ali enfeitada por milhões de malmequeres em tapetes que de perto nos beijam o passo e ao longe nos prendem o olhar.
Há papoilas rubras destemidas e ousadas entre o trigo por ora verde; as espigas, o prenúncio do pão que em ondas baila com o vento por sob o canto das planícies.
Na cidade, as nuvens partem como que fazendo-se substituir no céu pelas andorinhas e deixam que o Tejo namore o sol e se vista de um fantástico azul, o tom em rima com o teu olhar que me sorri em cada passeio, em cada beijo que suplanta a ideia errada do último ter sido a imbatível excelência e perfeição.
Sim, cada um dos teus beijos bate sucessivamente o record universal dos beijos de amor.
A noite nunca será triste por ser o início de uma nova madrugada.
O inverno…
Nunca será um tempo triste porque da chuva nascem flores e porque dos beijos nascem outros na festa maior dos sentidos. O canto flor onde o pudor já morreu.
Hoje, viva a primavera.
E mesmo que as sombras eclipsem o sol durante a manhã sabemos que tal só acontecerá por um brevíssimo instante porque a primavera é afinal como a vida: e há flores e beijos perfeitos no fim de todos os invernos.
E gritos de papoilas.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Somos os mesmos dois de sempre…


Peço a Deus que não falhe a genética, e a mão que pouso agora sobre a tua fronte possa ter tomado benefício da pele com que tantas vezes tatuaste indelével afecto na minha pele.
E os meus beijos que tenham herdado dos teus o respirado toque de quem sabe dizer generosamente amor por entre a dispensa de todas as palavras.
E o meu olhar...
Estamos os dois em silêncio...
Hoje como em tantos outros dias que foram tecendo connosco uma história de amor.
Somos os mesmos dois de sempre, a mesma terra, a mesma vontade, o mesmo sonho...
Mas o relógio cumpriu a inevitável sina do tempo, temperou de cãs a minha face e pediu-me que te tomasse no colo da mesma forma que tu um dia me ensinaste por entre o meu choro e os meus medos.
Aqui estamos os mesmos dois de sempre, e quem toma quem ao colo é coisa que pouco importa e nunca importará entre nós.
Eu a amar-te aqui mais do que nunca... pai.
E só choro às vezes por entre a saudade de ser menino.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Deixo-me estar num instante que sonhei

Tomo e faço minha sem hesitações ao primeiro olhar, a terra verde que esconde em si o repouso do vulcão adormecido sob a paz da água das lagoas.
Chão de basalto, estrada de flores em prenúncio de primavera, o tecto céu rasgado pelo voo planado dos pássaros...

Subo ao ponto mais alto, o topo onde o mar me espreita no deleite de quem se abraça à prometida terra da espera de mil anos.

Deixo-me estar num instante que sonhei...

Entro na roda com as nuvens que aqui e ali escondem o sol, e colho das sombras o tom e a forma das histórias que um dia te irei contar nas tardes que Lisboa nos oferecer para namorar.

O fogo, as furnas, os vales e o universo escondido entre os mistérios de sete... infinitas cidades com a cor que o dia, as sombras e as árvores lhes oferecem.

Trouxe-te comigo.

Abraço-te...

Visto-me de eternidade na terra que já perdeu a conta aos mil anos que contém.

A ti e a ela, reconheci-os dos sonhos e tomei-os fazendo-os meus ao primeiro olhar.

E contigo...deixo-me estar por aqui num instante que sonhei.



terça-feira, 17 de março de 2015

Eu irei sempre buscar-te do lado do mar


Saio para um corredor imenso.
De um lado, num dos topos, uma janela rasgada para a montanha verde por ora coroada de bruma, e do outro, do meu lado esquerdo, uma outra janela e o mar.
Estou mais ou menos equidistante de uma e outra janela, e saindo agora do meu quarto desta noite apercebo-me de como a cama me ofereceu cabeceira na montanha e me posicionou o corpo de frente para o mar.
O mesmo mar que ontem ao serão sobrevoei prata por mérito da lua e despertou azul comigo nesta manhã, epílogo de sonhos por certos envoltos em bruma e repletos das histórias tecidas pelos mistérios que escondem as lagoas.
Os encantos guardados no refúgio da eterna Atlântida.
Saio definitivamente para o corredor...
E viro instintivamente para o lado do mar mas na consciência de puxar e trazer comigo as lembranças de todas as montanhas...
E dos sonhos, e da bruma...
O café não tarda a fumegar na caneca que tem desenhado o mergulho de um cachalote; como bolo lêvedo com manteiga, um iogurte de ananás... e à minha frente, e sempre, a coerência do mar.
Escrevo-te um poema que vou publicar para ti nesta manhã enquanto só o Atlântico parece querer matar as saudades do teu olhar; e trago comigo os sonhos que colhi dos teus beijos por entre a bruma de tantos dias.
Os Açores...
As montanhas como almofadas e os dias que são como os corredores…
Eu irei sempre buscar-te do lado do mar.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Os aromas todos…


Em Belém há um mosteiro com nós marinheiros esculpidos entre os santos da fachada, heróis do céu e do mar congregados na memória das caravelas que deram novos mundos ao mundo e que dobraram tormentas pelo império, por glória, açafrão e canela.
E mais acima, iluminada e a sobressair do casario da Ajuda, uma cúpula guarda a memória do Marquês e de uma cidade reconstruida por sobre os escombros do terramoto.
Tudo isto, nós conseguimos observar desde o jardim enfeitado a buxo recortado e a altos ciprestes, onde uma fonte nos entretém na ilusão da água ter cores, porque, formas… o vento agreste da noite e do Tejo destrói-as todas sem dó nem piedade.
Há pouco, quando tentávamos fazer uma foto, sentimos os salpicos da água nas nossas faces e devolvemo-nos a correr para o carro onde nos sentámos e onde as nossas mãos se colaram instintivamente.
Todo eu repouso por entre o desejo mais doce quando sinto a minha pele entrelaçada na tua pele, uma permuta incessante onde nenhum dos poros se demite de beijar o outro e de lhe contar segredos.
Tu belisca-me entre os dedos enquanto as palavras que a noite tece nos envolvem no futuro feito de tantos planos.
E o teu olhar que tem o tom do céu…
Sob esta noite, sob nós repousarão as memórias e tantos escombros; porque nascem impérios que calam adamastores e ressuscitam a glória dos sentidos.
Açafrão, canela…
Os aromas todos na rota do mais perfeito dos amores.

domingo, 15 de março de 2015

Meninas ao palco


Depois do Estádio da Luz e dos golos do Benfica ao Sporting de Braga, depois da bifana com mostarda ingerida à sombra da roulotte situado por debaixo do viaduto da Segunda Circular, ir ao Casino Lisboa para ver uma peça sobre o universo feminino na década dos quarenta e representada por três actrizes, faz com que a “roleta da sorte” nos coloque rodeados por “ondas” de descendentes da eterna Eva.
E por todos os lados numa sala completamente cheia…
Na fila de cima senta-se um grupo de tias, mas das ilegítimas porque são daquelas que falam alto para toda a gente ouvir, e a conversa é “supé intessante”:
- Mas você gosta dela?
- Agora sim mas antes fiquei aterrada, tá a ver? Pedi “pa” ela me escadear o cabelo e quando a vi cortar tanto… fiquei aterrada. Mas depois ficou bem. Não vê?
- Sim…
O sim foi dito num ar tão cínico que até eu me virei para trás e bisbilhotar o cabelo da outra.
Na fila da frente senta-se um grupo mas em dois tempos pois a líder da segunda metade e que enverga um colete de pêlo que parece ter sido herdado do avô da Heidi, confessa ter tido alguma dificuldade para estacionar.
Dão dois beijos e percebe-se que estas não vieram de Cascais pela A5 e devem ter vindo pela A8 e das faldas de Loures. Aliás, a forma como gesticulam e gritam e o tom de framboesa do Báton comprovam como o Carnaval de Torres é como o Natal e é quando uma mulher quiser.
Entretanto em cima…
- Não querida, eu não desisti da ideia do segundo furo na orelha mas já agora segui o seu conselho e faço só depois das férias da neve “po” causa do incómodo do capacete.
Ao meu lado senta-se entretanto um casal de homem e mulher em que ela tem um ar mais másculo do que ele. O primeiro comentário desta quando vê uma frisa de sapatos no palco à frente da cortina.
- Olha que estupidez.
Ah macho…
Em baixo continua o desfile de Carnaval e percebe-se pelas gargalhadas que a malta não quer perder a noite de alforria:
- Ficaram para lá a emborcar. Afoguem-se em vinho…
E pelos tons do cabelo vê-se que estes foram pintados à pressa com tintas genéricas.
Em cima…
- O pior é ao fim-de-semana por causa das unhas.
- Ah pois é…
- Sabe “couto” dia vi lá o Ricardinho a fazer a depilação?
- Ah sim?
- Fingiu que não me reconheceu.
Ao meu lado…
- Dá-me ideia que isto é estupidez de gajas.
- Querida, pode ser que não.
- Se for saímos a meio.
Em baixo continua a festa das “vaginas unidas jamais serão vencidas”…
- Eu deixei-lhes lá uma tachada de arroz de marisco… e com gambas descascadas.
- Depois do teatro ainda vamos às bifanas de Vendas Novas?
- E até a Mizé vai beber uma imperial.
- Ah, ah, ah…
As luzes começam a apagar-se e parece que vai começar o teatro.
Agora no palco.
E a “machona” do lado saiu a meio e levou com ela o Nelo… digo, o marido contrariado.