terça-feira, 24 de março de 2015

Viagens ao redor de ti





Quem ama até no sopro do vento consegue ouvir as estrofes de uma cantiga; e deixa-se embalar pelo serão esperando que o sono chegue depressa enquanto escuta o repetido som que desce pela chaminé e traz o nome do ser por quem lhe bate o coração.

Todo o serão e toda a noite escutei o teu nome por entre aquele estar só que não tem nada de solidão, e nem me recordo do instante em que pousei o livro, apaguei a luz e me predispus a adormecer.

Sonhei contigo e em intervalos vi as horas no relógio da mesinha de cabeceira...

Ainda faltam quatro, ainda faltam três, ainda faltam duas, já só falta uma hora...

E acordei deste "Doce" "Bem bom"  pelas seis da manhã.

Lá fora seguia o vento...

A barba aparada, o duche, os comprimidos, o pequeno-almoço, a mala já feita...

Lisboa desperta e espreguiça-se languidamente enquanto passo para o aeroporto. O sol parece querer beijá-la.

O avião, "Almeida Garrett", "Viagens na minha terra" sempre ao redor de ti, mando-te uma mensagem, as asas que abanam, espreito o Tejo cá de cima e depois...

As nuvens que do chão vemos negras são alvas como algodão vistas assim do lado do céu.

E já não escuto o vento...

O teu nome...

Escuto-o agora nas saudades imensas de ti.

Para quem ama não há sítio onde não consiga ouvir as estrofes de uma cantiga...

E eu escuto o teu nome.

segunda-feira, 23 de março de 2015

O tempo


Ofereço-me um tempo tecido de abraços, a roda de vozes e olhares onde as palavras se soltam por entre sorrisos e a solidão se apaga às mãos do amor-perfeito baptizado com nome de amizade.
As palavras têm sempre um imenso sabor a mel e rimam com todos os aromas de flor que à nossa volta denunciam a paz que a alma sente.
A paz, a força, a coragem, a imensa fé que é a fogueira acesa que nos aquece e alumia tempo fora…
E todos juntos, assim, somos bem maiores e bem mais do que a simples soma de quantos somos.
Somos imbatíveis tomando o tempo, fazendo-o nosso e povoando-o do calor da festa deste amor que nos convocou e que nos une.
Somos imbatíveis tomando o tempo… e dando a todos os segundos do futuro, a cor dos sonhos maiores que trazemos em nós. 

Uma amiga pediu-me um texto sobre o tempo e eu escrevi-o à volta da amizade.
Um beijo, um abraço e um bom dia para todos.

domingo, 22 de março de 2015

Os filhos que mataram a herança da mãe madrugada


Por muito que as flores insistam em perfumar os campos, que as andorinhas regressem para povoar os beirais ou o sol se imponha ao rigor gelado do inverno, as primaveras nunca serão todas iguais.
Somos nós Homens os verdadeiros artífices da primavera, povoando as manhãs de Março… e de Abril, de Maio… com a esperança que sempre encerra em si a liberdade.
Por muito que se chame à liça o acaso e o destino, é o Homem que define e molda um tempo novo por onde o futuro se sente melhor.
No meu país há gente a esgravatar pão no lixo para trincar ao relento entre o ténue conforto de papelões; na minha cidade, a modernidade pedida ao traço de Calatrava, virou casa e dormitório formal com lotação esgotada para quem não tem outro abrigo; os velhos morrem como antes, os jovens partem também como antes…
Mas o cofre do Estado parece que está cheio… também como antes.
Porque definitivamente o Estado deixou de ser aquilo que é, o povo, para voltar a ser uma elite, por ora muito tosca e bacoca
Os “filhos da madrugada”, aqueles, os “Chicos” e espertos, enfiaram no dedo os “cachuchos” comprados à pressa e com os quais disfarçaram a sua incompetência e tomaram o poder, matando a herança da sua mãe, a liberdade.
Porque um povo sem pão, sem tecto e sem futuro será sempre um povo amordaçado.
Cigarras sem escrúpulos no seu canto eterno alimentado pela escravidão das formigas nos carreiros apontados como inevitáveis, estes “filhos da madrugada” até poderiam ser chamados de “filhos de uma senhora de moral duvidosa e que vende o corpo”, se nós não soubéssemos que vieram como nós do berço de uma madrugada de primavera e de liberdade.
Venderam os quinhões da herança, as relíquias do palacete que ficou como fachada portadora de janelas por onde nos acenam a nós, filhos da mesma mãe, a madrugada, e formigas cansadas do seu canto de cigarra e tanto de cisne.
Talvez haja ainda poucas prisões para tanta mediocridade que anda à solta; 44, outras capicuas e todos os números… Encerrem-nos bem longe de nós para que por sobre o seu choro sem escrúpulos, sem memória e mentiroso possamos acender cravos e devolver a Março… e a Abril… as manhãs doces de primavera.

sábado, 21 de março de 2015

A poesia é o perfume perfeito que se colhe de cada momento que vivemos intensamente pelo prazer de sermos nós


Corro solto pelo cais entre tanta gente, e a minha liberdade é escolher as pedras do meu caminho, desenhar o meu próprio chão.
Há um rio que corre junto a mim, ao mesmo tempo e na perseverante busca do mar; um rio que me entende e me oferece alento.
Há olhares que me beijam de entre a gente, são os amigos; aqueles que se acercam e voam comigo em tantos e tão bons pedaços da jornada.
Aqui e ali um abraço, muitas palavras doces.
E eu sigo sempre pela rota de mim, pelos sentidos, a fé, o desejo…
Não me faltam nunca os nossos beijos, mesmo aqueles breves que desenhamos algures num instante à esquina do luar.
E quando tu dizes por entre os beijos num sussurro ao ouvido, que me amas como eu te amo a ti, bendigo as pedras todas que escolhi pisar no chão que me trouxe até aqui.
E canto por entre a liberdade.
E bendigo as madrugadas todas que te acercam a mim no mais perfeito pensamento.
Corro solto pelo cais…
Vou colhendo e alinhando palavras sem ter medo da insensatez atirada violentamente como seixos aos loucos que ousam romper os protocolos.
Poeta?
Talvez…
Mas apenas porque vivo, porque corro solto pelo tempo e não me demito de ser eu.
A poesia é o perfume perfeito que se colhe de cada momento que vivemos intensamente pelo prazer de sermos nós.
Viva a vida.
Viva a poesia.

sexta-feira, 20 de março de 2015

E há flores e beijos perfeitos no fim de todos os invernos


Podem as sombras insistir em tapar-nos o sol beliscando a intensidade com que ele brilha sobre as nossas manhãs, que nós nunca desistiremos de seguir pelo tempo até chegarmos à primavera.
O inverno ressuscitou as ribeiras e semeou erva farta pelo campo, aqui e ali enfeitada por milhões de malmequeres em tapetes que de perto nos beijam o passo e ao longe nos prendem o olhar.
Há papoilas rubras destemidas e ousadas entre o trigo por ora verde; as espigas, o prenúncio do pão que em ondas baila com o vento por sob o canto das planícies.
Na cidade, as nuvens partem como que fazendo-se substituir no céu pelas andorinhas e deixam que o Tejo namore o sol e se vista de um fantástico azul, o tom em rima com o teu olhar que me sorri em cada passeio, em cada beijo que suplanta a ideia errada do último ter sido a imbatível excelência e perfeição.
Sim, cada um dos teus beijos bate sucessivamente o record universal dos beijos de amor.
A noite nunca será triste por ser o início de uma nova madrugada.
O inverno…
Nunca será um tempo triste porque da chuva nascem flores e porque dos beijos nascem outros na festa maior dos sentidos. O canto flor onde o pudor já morreu.
Hoje, viva a primavera.
E mesmo que as sombras eclipsem o sol durante a manhã sabemos que tal só acontecerá por um brevíssimo instante porque a primavera é afinal como a vida: e há flores e beijos perfeitos no fim de todos os invernos.
E gritos de papoilas.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Somos os mesmos dois de sempre…


Peço a Deus que não falhe a genética, e a mão que pouso agora sobre a tua fronte possa ter tomado benefício da pele com que tantas vezes tatuaste indelével afecto na minha pele.
E os meus beijos que tenham herdado dos teus o respirado toque de quem sabe dizer generosamente amor por entre a dispensa de todas as palavras.
E o meu olhar...
Estamos os dois em silêncio...
Hoje como em tantos outros dias que foram tecendo connosco uma história de amor.
Somos os mesmos dois de sempre, a mesma terra, a mesma vontade, o mesmo sonho...
Mas o relógio cumpriu a inevitável sina do tempo, temperou de cãs a minha face e pediu-me que te tomasse no colo da mesma forma que tu um dia me ensinaste por entre o meu choro e os meus medos.
Aqui estamos os mesmos dois de sempre, e quem toma quem ao colo é coisa que pouco importa e nunca importará entre nós.
Eu a amar-te aqui mais do que nunca... pai.
E só choro às vezes por entre a saudade de ser menino.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Deixo-me estar num instante que sonhei

Tomo e faço minha sem hesitações ao primeiro olhar, a terra verde que esconde em si o repouso do vulcão adormecido sob a paz da água das lagoas.
Chão de basalto, estrada de flores em prenúncio de primavera, o tecto céu rasgado pelo voo planado dos pássaros...

Subo ao ponto mais alto, o topo onde o mar me espreita no deleite de quem se abraça à prometida terra da espera de mil anos.

Deixo-me estar num instante que sonhei...

Entro na roda com as nuvens que aqui e ali escondem o sol, e colho das sombras o tom e a forma das histórias que um dia te irei contar nas tardes que Lisboa nos oferecer para namorar.

O fogo, as furnas, os vales e o universo escondido entre os mistérios de sete... infinitas cidades com a cor que o dia, as sombras e as árvores lhes oferecem.

Trouxe-te comigo.

Abraço-te...

Visto-me de eternidade na terra que já perdeu a conta aos mil anos que contém.

A ti e a ela, reconheci-os dos sonhos e tomei-os fazendo-os meus ao primeiro olhar.

E contigo...deixo-me estar por aqui num instante que sonhei.