terça-feira, 7 de abril de 2015

Alguém hoje me perguntou se tu existes


Alguém hoje me perguntou se tu existes.
Não respondi.
As respostas dadas relativamente àquilo que é óbvio são ofensas à inteligência do receptor das mesmas; e longe de mim querer maltratar a pessoa que me questionou.
E o óbvio…
Eu jamais saberia falar de beijos que sabem a mel se não tivesse comigo os teus beijos; sou incapaz de escrever palavras de amor e limito-me a colhe-las das nossas tardes de Lisboa, tantas vezes junto ao Tejo, e das mensagens que trocamos ao luar ou ao amanhecer, as mensagens todas em que me tratas por meu amor…
Como poderia eu sem ti dizer que o meu mundo mora num abraço, que o meu céu é um olhar…
Como ousaria eu falar de desejo se não tivesse passado tanto tempo a saborear a tua pele perfeita ao toque das minhas mãos.
Jamais eu falaria de flores sobre dias que não tivessem o teu nome.
Se o poeta é um fingidor como dizia Pessoa, eu serei poeta mas apenas porque ouso pôr palavras em toda a vida perfeita que me dás.
Sem inventar nada, porque… sim; definitivamente, tu existes.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

MANUELA Um beijo a uma amiga que partiu na manhã de Páscoa


A Terra chama por mim por entre o verde da planície, os trigais que bailam ao vento na festa do beijo das papoilas e dos malmequeres; o sol pede-me o sorriso para cantar aleluia no brilho intenso do primeiro alvorecer de Páscoa…
E eu rendo-me à primavera e digo-lhes sim, partindo para a casa onde vivem os anjos e os poetas, a mansão dos que sonham a Terra e de onde o sol emana toda a sua claridade.
Não parto cansada.
Parto com a tranquilidade dos heróis e de quem não deixou sequer uma missão por cumprir.
Bebi aqui intensamente de tudo o que a vida me ofereceu, e deixo pétalas em forma de sorrisos, flores que semeei a beijos e que o meu olhar e as minhas mãos regaram de carícias em tantas tardes e noites.
Talvez tenha saudades.
Mas sei que poderei sempre espreitar as minhas flores por entre o brilho intenso do sol que me recebeu com mil abraços ou por entre as palavras dos poetas meus irmãos e o afago de alma da sua poesia.

domingo, 5 de abril de 2015

E apagaram-se para sempre as nuvens entre mim e todas as estrelas


A lua fita-me cheia desde um céu que esta não permitiu que as nuvens se interpusessem entre mim e todas as estrelas; e corre uma brisa ligeiramente fresca que se agradece.
Vão soltas as palavras no privilégio de uma mesa de amigos quando os sinos se soltam e cantam aleluia, sinal de águas novas e lume aceso num tempo que a fé renova a cada Páscoa.
Ressoam em mim os dois mil beijos que me escreveste ainda há pouco.
Trouxe-os comigo.
E de vez em quando por entre a saudade não resisto a invejar a lua e todas as estrelas: estarão a ver-te enquanto sorris.
Depois regresso a casa, e no silêncio que resgatei do serão escrevo-te versos como quem tece um tapete de flores para ter um leito e se deitar contigo.
Adormeço sobre estas palavras... e a desejar-te como nunca.
Sinto o desejo em tudo e no choro das minhas mãos perdidas tentando em vão beijar a tua pele perfeita que está longe e apenas à mercê da lua cheia.
É noite de Páscoa.
Há novos lumes acendidos sob os campanários das aleluias.
Eu renasço a cada instante em que penso em ti.
Amo-te muito para lá de onde chegam as palavras de todos os mais inspirados poetas...
E apagaram-se para sempre as nuvens entre mim e todas as estrelas.

sábado, 4 de abril de 2015

A casa dos poetas é o coração de quem os sente


O João não se esquece de nada, e quando ao princípio da noite vamos os dois em direcção ao Castelo e à igreja de Nossa Senhora para a procissão do enterro do Senhor, passando junto ao busto da Públia Hortênsia de Castro volta a um dos temas do passeio da tarde:
- Porque é que as mulheres não podiam estudar e falar em público como os homens?
Haja alguém, mesmo com nove anos, que tenha interiorizado tão bem a igualdade de género, a quem faça confusão a existência de um tempo, talvez não só passado, de desigualdades.
Seguimos os dois a falar da liberdade até ao sítio onde colocaram uma ombreira em mármore que assinala o suposto local da casa onde nasceu Florbela Espanca, um edifício na velha Rua de Angerino que foi destruído na intervenção dos anos quarenta do Século XX quando foi rasgada a Avenida dos Duques de Bragança.
A pergunta inevitável do João:
- Como é que eles têm a certeza de que era aqui no passeio e não ali no meio da estrada?
E seguimos os dois a falar de poesia explicando-lhe eu que a casa dos poetas é o coração de quem os sente nas palavras que nos deixam.
Pouco importa onde nasceram...
Um tema difícil mas apetecível numa noite quente de primavera em que se sente a festa das laranjeiras em flor.
Entramos no Castelo pela porta da Torre de Menagem e mostro ao João uma figueira que nasceu com raízes entre as pedras da parede alta da torre.
- Como é que podemos ir lá colher os frutos?
Eu nunca tinha pensado nisso por entre a "poesia" de ver uma árvore a inventar as suas próprias raízes; e em boa verdade também nunca vi figos a espreitarem lá do cimo...
E dali até à igreja fomos inventando uma história sobre a árvore.
- Estás a ver... já temos uma história, o que significa que já colhemos um "fruto" mesmo sem termos qualquer escada.
Depois...
A vela acesa, a matraca, o penitente, a Maria Madalena, a descida da cruz, porque é que mataram Jesus?
E seguimos os dois de mão dada pisando a terra dos nossos avós. À nossa frente e atrás caminhavam amigos da rua onde nasci num abraço doce que nunca nos faz sentir sós... até o som da banda filarmónica era familiar.
Ao sair do Castelo pelas Portas de Estremoz o João baixou-se para apanhar uma pequena pedra branca que colocou no bolso.
- Para que queres a pedra?
- Para amanhã me lembrar que estivemos aqui e assim não me esquecer de nada.
Sorrio.
Eu farei o mesmo, sem apanhar uma pedra mas escrevendo um texto para o Pomar, logo que chegue a casa.
Há lições nascidas de histórias e de instantes perfeitos que não se podem perder.
E escrevi a pensar no aroma das laranjeiras em flor.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Tu ficaste a Oeste… hoje vislumbro-te de entre os raios do sol


Tu ficaste a Oeste, de onde o sol brilha neste fim de tarde e me abraça iluminando os detalhes todos do caminho.
Eu ainda trago na boca o aroma doce e perfeito dos teus beijos...
E nesta estrada que é a rota de uma vida, só hoje consigo entender o que me envolve.
Esperava que chegasses...
Há oiro à solta na giesta que salpica intensamente o verde da planície; são braços em louvor ao céu, os ramos dos sobreiros que despiram as suas vestes, o fruto de uma longa espera; as casas brancas no cimo do monte são castelos e torres que amparam almas e guardam a poesia; há aroma de rosmaninho como incenso no altar da fé do pastor que distrai o tempo cantando as suas rimas que falam do amor e do sul...
O céu é azul porque em tudo eu vejo a cor do teu olhar.
Tu ficaste a oeste com o sol, e eu sinto o vosso abraço cúmplice na luz que por detrás de mim me ilumina em tudo e na lucidez sobre o caminho.
Eu rumo a leste e em breve chegarei a Vila Viçosa, a minha terra que a esta hora me recebe sob a lua que já brilha lá no alto do castelo.
É Páscoa. Quinta-feira santa.
Persiste em mim o aroma doce e perfeito dos teus beijos...
Persistirá sempre.
Há tanto que eu esperava que chegasses.
Paro o carro no Terreiro do Paço, desligo-o e respiro fundo.
Ainda consigo ver-me menino a passar por aqui a caminho do velho liceu à porta dos nós, e guardei desse tempo a imagem do sol  por esta hora a espreitar por detrás da velha nogueira colada à parede do Convento das Chagas.
Confirmo.
Mas hoje vislumbro-te de entre os raios do sol.
Não espreito o retrovisor mas sinto claramente que sorrio quando me apercebo de que tudo faz sentido.
Tu estarás em todas as Páscoas e eu sei que já não viverei qualquer uma sem que te ame assim.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

ECCE HOMO


Os dias têm fome e dores como pedras e pó tinham as ruas de Jerusalém no caminho para o lugar do Gólgota; e as horas pesam como cruzes sobre os ombros, pena e condenação à mercê da caridade de um qualquer Simão Cirineu que passe por perto.
Há mulheres que choram por sob a indiferença de muitos ou quase todos, e as excepções são generosas Verónicas que trazem um pano e limpam o suor e o sangue de uma caminho de e para a cruz.
Ecce Homo… eis o Homem coroado de espinhos e com uma cana como bastão, ridícula caricatura de um rei nascida da despenalizada culpa lavada a água que escorre pela mão dos donos do poder.
Dores, fome, perseguição, discriminação, violência, xenofobia, homofobia, exploração, pedofilia, racismo, corrupção…
Os dias de tantos como as ruas de Jerusalém.
Ecce Homo…
E o rosto jazente de Cristo que persiste e se perpetua no rosto dos Homens.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Mentira


Persistem beijos que escondem traições e condenam ao jeito de Iscariotes na primeira semana santa em Jerusalém; persistem burkas, segundas peles sobre as vidas e os rostos, camuflagens não talhadas de pano e que disfarçam as verdades vendidas a preço de saldo ao política e socialmente correcto…
Há espinhos que coroam dores e medos, as feridas dos trocados nãos e sins, autoflagelações impostas à verdade que o corpo e a alma carregam em si…
Há sumptuosos coruchéus sobre a fragilidade de torres construídas de cartas de um baralho de onde se espreita a má-sorte…
Há rostos de palhaços com risos desenhados a batom sobre lábios que acompanham as mágoas dos olhares no seu continuado choro…
Há festas que só existem da alma para fora, palavras que são ruido que disfarça silêncios, mãos dadas por cima de um amargo destino de solidão, os rotineiros gemidos como banda sonora de instantes vazios de qualquer prazer…
E a mentira é muito mais do que apenas um dia de Abril.
Hoje e na morte de todas as máscaras, com toda a verdade e do mais íntimo de mim confesso que te amo definitiva e infinitamente, tal qual Abril e o eterno amor às mil chuvas das suas manhãs que beijam de água o viço das mais preciosas flores da primavera.