sexta-feira, 17 de abril de 2015

Este querer intenso com que te abriguei em mim


A força imensa com que te desejo arquitecta recantos para onde eu vou namorar contigo…
E tece de beijos todos os instantes.
O tempo todo e todos os lugares que nascem em mim revestem-se assim da eternidade imune aos humanos cansaços, e tu, meu amor, és meu e só meu, por entre um intenso aroma de infinito, irmão daquele que nasce das flores mais viçosas dos campos regados pela primavera nas chuvas generosas de Abril.
E eu apago as distâncias quando o pensamento te resgata seja de onde for só para vires até aqui afagar-me a mão com doces beliscos; e eu incendeio os sentidos quando elevo os meus braços cansados e pousados sobre o velho sofá, até ao desenho sonhado do mais perfeito e mais quente abraço.
Não há ruas que não sejam nossas, não há árvores que não sejam berços de sombras para o eco doce das nossas histórias, não há palavras ditadas pela alma que permaneçam órfãs, se todas se soltam para irem a correr abraçar-te tal qual os meus braços.
Porque jamais a realidade poderá alguma vez superar o querer de um poeta; este querer intenso com que te abriguei em mim.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Eu sou desta noite onde te espreito numa tela que se confunde com o horizonte


A hora avança cumprindo o irreversível destino do tempo, e há uma cortina escura que cala o sol e o empurra para lá do horizonte numa despedida lenta ornada de laranja, púrpura, lilás e uma infinidade de outras cores.
Caiu a noite sobre a planície.
As luzes do carro imitam-me o pensamento e fazem incidir sobre a estrada a claridade que indica o caminho.
O pensamento projecta a nossa história, que é a nossa vida; e a minha viagem nocturna pelo Alentejo é a imersão numa imensa sala onde brilham as imagens alinhadas pelas mãos mestras do melhor realizador do universo.
Eu vejo-me e vejo-te na tela com a dimensão completa de todos os meus sentidos.
E há beijos por entre uma infinita festa, que não apenas no final feliz de um “cinema” que é ele próprio, o paraíso.
Uma festa que não acaba nunca porque mesmo quando os dias sabem a ponto final é por faltarem as palavras para descrever com verdade um amor assim.
É só questão de descansar um pouco num abraço como quem muda de parágrafo… e seguimos pelas palavras novas e pela poesia.
Sem nunca deixar que termine… o romance e a película.
Caiu a noite sobre a planície…
Nós somos filhos da terra onde somos felizes, e por isso eu sou dos teus braços; berço dos sorrisos, do desatinar dos sentidos que alimentam os melhores beijos.
Por isso eu sou desta noite onde te espreito numa tela que se confunde com o horizonte.  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Dia Internacional de Qualquer Coisa


Eu comprador de flores confesso aqui publicamente que o momento que mais detesto é aquele em após uma guerra com o/a florista para o/a impedir de colocar papel celofane ou plissado de cores inenarráveis a envolver as ditas flores, a criatura me pergunta qual o autocolante que deve anexar ao ramo.
“Rápidas melhoras”, “Felicidades”, “Parabéns”, “Amo-te muito”, “Eterna saudade”, “Sentidos Pêsames”…
Tudo existe na forma de corações e outras, e impressas em papéis onde predominam os tons dourado ou prateado.
- Não quero nada.
É que para além de não ter que dar conhecimento a estranhos do objectivo de uma compra de natureza tantas vezes íntima, as flores já falam por si em todos os enquadramentos em que as queiramos oferecer.
Por exemplo, não será preciso um autocolante para que num velório percebam que não estamos ali com flores para desejar “Rápidas melhoras”.
E mesmo em situações em que seja necessário acrescentar algumas palavras à oferta, digo-as eu.
Ora vem isto a propósito das sucessivas comemorações atribuídas aos dias, todas de cariz internacional. Esta semana já houve o “Dia Internacional dos Irmãos”, o “Dia Internacional do Beijo” e o “Dia Internacional do Café”.
Os dias são como as flores e “falam” por si na expressão da nossa vontade e da nossa liberdade; dispensam rótulos.
Dou beijos todos os dias, bebo café todos os dias (é aliás uma das primeiras coisas que faço pela manhã na companhia insubstituível da minha colega Carla Antunes) e gosto e lembro-me do meu irmão todos os dias.
Por este andar eu já não estranharei se surgir o “Dia Internacional da Sogra”, o “Dia Internacional da Mordidela Sensual na Orelha Esquerda” ou o até, e porque não, o “Dia Internacional do Arroz de Lampreia”.
Há que ser razoável e deixar os dias para que cada um os preencha com o que lhes sai da real gana e com aquilo que o faça feliz.
Se a febre persistir, estarei tentado a propor a existência de um “Dia Internacional Livre de Evocação e Comemoração Internacional”.


terça-feira, 14 de abril de 2015

"Auf wiedersehen"


O Bayern de Munique já está no Porto e arrastou com ele uma multidão de Alemães. Comprovei isso no hotel ao pequeno-almoço e mais tarde pelo centro da cidade.

Meio-dia.

Paro para tomar um café na altura exacta em que o relógio e os sinos do "altar" barroco mais fantástico do país, a torre de Nicolau Nasoni, sinalizam a hora nos Clérigos, através das badaladas e o Ave de Fátima.

Os turistas Alemães param, puxam das câmaras e filmam o momento.

"Sobre os braços da azinheira..."

A música puxa pela memória e traz a letra.

Desconheço se os Alemães conhecem a história por detrás desta música e a existência há 98 anos de uma mensagem relativa a uma guerra por eles patrocinada e que rasgou trincheiras pela Europa fora.

Presumo que não façam a mínima ideia, embora desse imenso jeito que o fizessem para que tal pudesse ajudar a ganharem consciência de quão imbecil é a recorrente ambição de esmagar a liberdade dos outros, condenando-os por ataques mais ou menos bélicos às trincheiras num destino de fome e sede.

"Wie schön ist diese".

Mais bonito seria ainda se a Europa toda cantasse a liberdade desde o cimo de todas as suas torres.

Regresso à minha bica...

Na televisão passa um anúncio da Opel e a modelo Cláudia Schiffer conclui com um:

"Tinha de ser Alemão".

Acabo de beber, pago e saio.

Valha-me a Senhora de Fátima, estamos rodeados e por todos os lados.

"Auf wiedersehen".



segunda-feira, 13 de abril de 2015

Se eu pudesse afogava todas as Segundas-feiras


Se eu pudesse afogava todas as Segundas-feiras, preferencialmente no oceano de beijos de um passeio de Domingo à tarde; daqueles que às vezes as semanas nos oferecem.
Calávamos o despertador, adiávamos docemente o pequeno-almoço, virávamo-nos e revirávamo-nos para todos os lados do quarto às escuras, e deixávamo-nos ficar todas as vinte e quatro horas no condomínio fechado e secreto onde os sentidos se soltam livremente.
Sempre sem hora marcada para o duche de água tépida que se constitui como a última etapa no processo de acordar.
Fazendo um drible irreverente às refeições e às horas em que habitualmente acontecem.
Depois eu escreveria sentado à mesa junto à janela, tu lerias o teu livro num canto do sofá que a minha vista pudesse alcançar, e só faríamos pausas para um beijo ou um café que nos perfumasse as horas.
E quando o dia já estivesse para terminar e a Terça-feira se aproximasse timidamente como se fosse Segunda, nós conspiraríamos e chegaríamos a um consenso sobre a estratégia mais eficaz para também a conseguirmos afogar…
Quiçá novamente nos beijos de um domingo à tarde. 

domingo, 12 de abril de 2015

O amor desenha traços sobre as paredes vazias


O amor desenha traços sobre as paredes vazias, traços coloridos como astrolábios e balsas na rota para os dias que queremos muito e ousamos viver.
E nos serões passados em casa e alumiados de forma ténue por um pequeníssimo candeeiro, libertamos do mundo o olhar, quiçá de um livro, da poesia... e fixando-nos nas paredes à nossa frente, deixamo-nos ir colhendo vida ao jeito de quem apanha maçãs maduras num pomar, tomando coordenadas de instantes de onde invariavelmente nascem flores… porque os sonhámos intensamente.
Flores, pequenas e azuis, aquelas que não se vêem mas que se sentem.
Flores inscritas nas paredes... mas iguais às que levamos tatuadas em nós nesta viagem feita tantas vezes com a cumplicidade terna da luz de qualquer lua.
Porque o amor desenha traços… em nós.
E as paredes e o mundo são apenas espelhos que tomam do nosso olhar o tudo perfeito que o amor nos dá.
Nesses dias que queremos muito e ousamos viver.

sábado, 11 de abril de 2015

Fui-te procurando por entre todas as horas e todas as árvores


Alguém gritou na rua:
- Olha o sol.
E de facto, pelas sete as nuvens dissiparam-se e a tarde abriu um céu de muitas cores.
A primavera também já vestiu de folhas as árvores até aqui despidas de Lisboa, e da mesa onde espero por ti sentado no café consigo entreter-me agora a “beber” as histórias que as sombras desenham sobre um soalho intemporal.
Mar fora, um barco leva de uma cidade a memória da paixão de dois amantes que na cumplicidade das águas de um rio se sentam para namorar.
E o vento, que toma o aroma dos seus abraços, eleva as águas e as mágoas ao céu, impondo-as ao sol em algumas tardes de primavera.
Tu anuncias que estás a chegar… e não tardas.
Os teus passos esmagam então as sombras sobre o soalho e o teu beijo subtrai definitivamente a mágoa a esta tarde.
As sombras que nós vemos pressupõem sempre que o sol está algures a brilhar; é só uma questão de sair e ir procurá-lo por entre as árvores e os telhados de Lisboa.
Procurar o sol ao jeito de quem te beija.
E as mágoas, aquelas que o vento às vezes eleva ao céu, são apenas detalhes de uma espera…
Quando não estás comigo e mesmo quando não anuncias que já não tardas, eu sei que tu irás sempre chegar.
Fui-te procurando por entre todas as horas e todas as árvores.