terça-feira, 21 de abril de 2015

Morremos… mas apenas demos mais um passo


Tudo parece pequeno perante a fome que persiste e que sentimos nos arranca a vida; e até o mar é um lago que se pode fazer nosso à mercê de uma pobre balsa.
Morremos…
Mas apenas demos mais um passo, um pequeníssimo passo num destino inevitável.
Arriscámos tão pouco perante a morte que sentíamos chegar nesta aridez onde o nada, o é em absoluto e tão demasiado cruel.
Nós morremos aqui à superfície deste mar onde as praias ousam beijar oliveiras.
E a paz?
Sentimo-la nós enquanto subimos para enfeitar o céu nas noites longas e doces, e nos cruzamos com a dignidade dos Homens que se afunda com a Jangada da Vergonha que nos ofereceram como passo, numa triste ilusão de liberdade.
Ontem à tarde o jornal Espanhol El país publicava na sua edição online a seguinte notícia:
“Paquete de luxo com 700 turistas europeus afunda-se ao largo da ilha de Malta e provoca a morte de todos os passageiros”.
E seguindo o link chegávamos à noticia cujo primeiro parágrafo era:
“Esta notícia é falsa, mas se fosse verdadeira durante quantos dias e quantas horas falaríamos sobre esta tragédia?”.
Morreram 900 pessoas num naufrágio no Mediterrâneo, imigrantes ilegais que buscavam o sonho da Europa.
O mundo faz o escrutínio entre vidas de primeira e de segunda perante o verdadeiro naufrágio: o da dignidade do Homem.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A tarde adoptou-nos, calou a orfandade das palavras de amor e passeou connosco por entre a gente e o riso de um domingo de primavera.


A tarde adoptou-nos, calou a orfandade das palavras de amor e passeou connosco por entre a gente e o riso de um domingo de primavera.
A tarde fez-se tempo perfeito para namorar…
E por mais que eu tente e faça apelo à mestra mão das ninfas que inspiram os poetas, jamais conseguirei ser justo para com a vida que me oferece o teu abraço.
É tão maior do que todos os superlativos daquilo que se pode dizer.
Numa última tentativa… resgato da banca uma flor que pago à pressa, ali algures numa esquina onde o Tejo nos espreita cúmplice no seu azul.
Peço-lhe que seja ela a falar por mim em canto tom púrpura sobre o chão de Abril e Lisboa, a pátria mãe da liberdade.
Tu sorris.
Depois acendemos uma mesa com dois copos de cidra e tu embalas-me contando cada detalhe de uma história que leste há pouco; e eu deixo-me caminhar de regresso ao tempo de menino indo pelas palavras que tu vais ilustrando com o olhar.
A flor está ali em baixo dentro de um saco e encostada ao pé da mesa, as palavras de ambos andam em volta de uma história que não é a nossa…
A tarde pegou-nos pela mão e trouxe-nos devagar até esta noite…
E não é preciso dizer mais nada, o amor está aqui, explicito e à solta no espaço perfeito deste eterno abraço.

domingo, 19 de abril de 2015

Empresta-me o teu olhar, esta tarde eu quero ver Lisboa vestida de primavera


Empresta-me o teu olhar, esta tarde eu quero ver Lisboa vestida de primavera.
Oferece-me casa e repouso num abraço, e deixa que eu escancare as janelas quando as minhas mãos se sentarem pelos parapeitos doces da tua pele.
Janelas com vista para o rio e abertas a todos os sentidos.
Esses parapeitos que tu sabes serem mote do meu desejo.
Coze os meus passos aos teus com linha tom de azul de infinito e eternidade, e trepemos juntos as colinas enfeitando-as de beijos, semeando palavras de amor que florirão por entre as sardinheiras e os jacarandás.
Empresta-me o teu olhar...
Preciso que ele veja e confirme ao meu como são perfeitos os dias alinhados com o sonho.
Nunca nada expressará tanta verdade de nós quanto aquilo que sonhamos.
E há tantos anos que eu esperava por ti para uma tarde em Lisboa, só nossa, um recanto da primavera que usamos para namorar.

sábado, 18 de abril de 2015

O amor é este fluir de vida por entre a liberdade


Existiu um papagaio que pertencia ao vizinho Ezequiel, que estava numa janela mesmo em frente à nossa da Rua de Três e que me ensinou a dizer a minha primeira palavra: olá; mas a razão mais profunda para eu gostar tanto de falar será a genética e toda a herança que por ela recebi do meu pai.
Não será portanto de estranhar que nem um segundo de silêncio existiu no espaço do meu carro quando viajámos de Évora para Vila Viçosa num fim de tarde desta semana.
Sob um céu de um tom negro que descarregou chuva quando já estávamos entre o Alandroal e Pardais, acho que não houve tema que deixássemos órfão até que chegámos, e nem sei por qual caminho, aos namoros de antigamente.
- Eu comecei a namorar a mãe num baile ao ar livre no casão do “Cai nessas”.
As alcunhas alentejanas dão cabo de nós.
Continua o pai…
- Eu tinha uma namorada de Bencatel que estava zangada comigo e não queria dançar, e eu fui à procura da rapariga mais bonita que havia por ali para lhe fazer inveja. Encontrei a mãe.
Fiquei eu então com vontade de ir procurar a tal senhora de Bencatel para lhe enviar um ramo de rosas em sinal de agradecimento.
- E deu logo em namoro?
Perguntei.
- Não porque ela fez-se difícil. Mas já viste como nasceu um amor que já tem mais de 56 anos.
Um filho comove-se quando o seu pai com mais de setenta anos lhe fala de um amor que persiste; e a família é essencialmente este espaço onde os afectos fluem livremente e sem travões, a genética de um amor sobreposta a todas as outras… até ao vício de falar muito.
Os meus pais lêem avidamente o que publico, e num outro dia em que estavam aqui por casa e eu tive de sair, deixei-os com quinze poemas que publiquei numa colectânea. Todos falam de amor.
Quando cheguei perguntei-lhes se tinham gostado. A minha mãe antecipou-se a responder, e por entre elogios que me fizeram corar e sem que alguma vez caísse na banalidade de me perguntar a quem se destinavam tais palavras, disse-me:
- São todos muito bonitos e eu fico muito vaidosa; é que sendo tu a escrevê-los, fui também eu que os escrevi.
E o amor é este fluir de vida por entre a liberdade.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Este querer intenso com que te abriguei em mim


A força imensa com que te desejo arquitecta recantos para onde eu vou namorar contigo…
E tece de beijos todos os instantes.
O tempo todo e todos os lugares que nascem em mim revestem-se assim da eternidade imune aos humanos cansaços, e tu, meu amor, és meu e só meu, por entre um intenso aroma de infinito, irmão daquele que nasce das flores mais viçosas dos campos regados pela primavera nas chuvas generosas de Abril.
E eu apago as distâncias quando o pensamento te resgata seja de onde for só para vires até aqui afagar-me a mão com doces beliscos; e eu incendeio os sentidos quando elevo os meus braços cansados e pousados sobre o velho sofá, até ao desenho sonhado do mais perfeito e mais quente abraço.
Não há ruas que não sejam nossas, não há árvores que não sejam berços de sombras para o eco doce das nossas histórias, não há palavras ditadas pela alma que permaneçam órfãs, se todas se soltam para irem a correr abraçar-te tal qual os meus braços.
Porque jamais a realidade poderá alguma vez superar o querer de um poeta; este querer intenso com que te abriguei em mim.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Eu sou desta noite onde te espreito numa tela que se confunde com o horizonte


A hora avança cumprindo o irreversível destino do tempo, e há uma cortina escura que cala o sol e o empurra para lá do horizonte numa despedida lenta ornada de laranja, púrpura, lilás e uma infinidade de outras cores.
Caiu a noite sobre a planície.
As luzes do carro imitam-me o pensamento e fazem incidir sobre a estrada a claridade que indica o caminho.
O pensamento projecta a nossa história, que é a nossa vida; e a minha viagem nocturna pelo Alentejo é a imersão numa imensa sala onde brilham as imagens alinhadas pelas mãos mestras do melhor realizador do universo.
Eu vejo-me e vejo-te na tela com a dimensão completa de todos os meus sentidos.
E há beijos por entre uma infinita festa, que não apenas no final feliz de um “cinema” que é ele próprio, o paraíso.
Uma festa que não acaba nunca porque mesmo quando os dias sabem a ponto final é por faltarem as palavras para descrever com verdade um amor assim.
É só questão de descansar um pouco num abraço como quem muda de parágrafo… e seguimos pelas palavras novas e pela poesia.
Sem nunca deixar que termine… o romance e a película.
Caiu a noite sobre a planície…
Nós somos filhos da terra onde somos felizes, e por isso eu sou dos teus braços; berço dos sorrisos, do desatinar dos sentidos que alimentam os melhores beijos.
Por isso eu sou desta noite onde te espreito numa tela que se confunde com o horizonte.  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Dia Internacional de Qualquer Coisa


Eu comprador de flores confesso aqui publicamente que o momento que mais detesto é aquele em após uma guerra com o/a florista para o/a impedir de colocar papel celofane ou plissado de cores inenarráveis a envolver as ditas flores, a criatura me pergunta qual o autocolante que deve anexar ao ramo.
“Rápidas melhoras”, “Felicidades”, “Parabéns”, “Amo-te muito”, “Eterna saudade”, “Sentidos Pêsames”…
Tudo existe na forma de corações e outras, e impressas em papéis onde predominam os tons dourado ou prateado.
- Não quero nada.
É que para além de não ter que dar conhecimento a estranhos do objectivo de uma compra de natureza tantas vezes íntima, as flores já falam por si em todos os enquadramentos em que as queiramos oferecer.
Por exemplo, não será preciso um autocolante para que num velório percebam que não estamos ali com flores para desejar “Rápidas melhoras”.
E mesmo em situações em que seja necessário acrescentar algumas palavras à oferta, digo-as eu.
Ora vem isto a propósito das sucessivas comemorações atribuídas aos dias, todas de cariz internacional. Esta semana já houve o “Dia Internacional dos Irmãos”, o “Dia Internacional do Beijo” e o “Dia Internacional do Café”.
Os dias são como as flores e “falam” por si na expressão da nossa vontade e da nossa liberdade; dispensam rótulos.
Dou beijos todos os dias, bebo café todos os dias (é aliás uma das primeiras coisas que faço pela manhã na companhia insubstituível da minha colega Carla Antunes) e gosto e lembro-me do meu irmão todos os dias.
Por este andar eu já não estranharei se surgir o “Dia Internacional da Sogra”, o “Dia Internacional da Mordidela Sensual na Orelha Esquerda” ou o até, e porque não, o “Dia Internacional do Arroz de Lampreia”.
Há que ser razoável e deixar os dias para que cada um os preencha com o que lhes sai da real gana e com aquilo que o faça feliz.
Se a febre persistir, estarei tentado a propor a existência de um “Dia Internacional Livre de Evocação e Comemoração Internacional”.