quinta-feira, 23 de abril de 2015

O passeio nocturno das crianças invisíveis


Caminho por entre a aragem calma de um início de noite de primavera em Lisboa.
As casas com jardim, uma nespereira que galga os muros e nos oferece um tecto de frutos ao breve instante de três passos, a gente que corre, aquela outra que passeia os cães e brinca com eles nos relvados e nos passeios…
Estou algures por Alvalade e acabei de dar um abraço a um amigo que perdeu o pai; levo a sensação de que o choro dessa perda é feito por nós e pela consciência dos dias que jamais terão a presença de quem nos faz sentir crianças.
Continuo…
Tenho o carro estacionado na rua paralela à linha do comboio e enquanto caminho cruzo-me com uma família que chega a casa após o dia de trabalho e escola.
- Amanhã é o dia da mãe.
Grita o filho mais novo que vai às cavalitas do pai.
Cruzamo-nos e já não consigo escutar mais nada para lá do início da explicação do pai de que esse dia está para breve mas ainda não é amanhã.
Chego ao carro, ponho-o em marcha, no rádio toca um CD com a Orquestra Sinfónica de Londres a interpretar o “Here there and everywhere” dos Beatles…
Estou à porta do antigo cinema King e vem-me à cabeça “All the invisible children” com as histórias de Kusturica e amigos. Vi-o por aqui há alguns anos.
No carro já soa o “Yesterday”.
As imagens e as memórias de um homem que caminha só pela cidade.
Ontem?
Sempre.
Aqui, ali e em todos os lugares.
Sim…
Eu também sou uma das invisíveis crianças que viaja à boleia da alma de um homem.
Eternamente às cavalitas da heróica e eterna herança do pai, na busca incessante pelos dias da mãe e os beijos doces que eles contêm…
E com uma incrível tentação de colher aquela nêspera que passou tão perto da minha cabeça.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

É tão fácil descobrir a primavera por entre tudo o que nos acontece


Na janela da cozinha está um vaso de cartão de onde brotam viçosos coentros. O “kit” composto por vaso, sementes e terra foi-me oferecido no Natal pela minha querida amida Teresa Lopes e a “sementeira” ocorreu durante um pós-jantar de família lá em casa, com o meu sobrinho João muito entusiasmado pelo facto da actividade agrícola ter lugar sobre a mesa da sala, ainda que devidamente protegida.
Já me estreei a comer uma Alentejaníssima açorda preparada com os ditos coentros.
Sempre que saio de casa pela manhã trago no bolso um guardanapo de papel com migalhas de pão do pequeno-almoço. Um melro muito simpático espera por mim no relvado de acesso ao parque de estacionamento e eu partilho com ele a primeira refeição do dia.
Já se aproxima a menos de um metro e eu até o baptizei com o mesmo nome da pessoa que por via do pensamento toma o pequeno-almoço comigo todas as manhãs. Chamo-lhe…
Na estrada entre Leião e Porto Salvo, onde eu passo todos os dias, há um campo que por esta altura é leito para uma seara de trigo que cresce a olhos vistos e que eu já vejo bailar ao sol todas as manhãs.
Sinto-a como uma privada nesga de Alentejo que veio até aqui para me abraçar.
E é tão bom ver o Alentejo e lá ao fundo o amor a tingir o horizonte.
A noite passada, como em todas as noites, adormeci ao som das palavras que me mandaste escritas numa mensagem e que li em voz alta como cantiga do privilégio de um ninar que eu sei jamais ter fim.   
E adormeci sem me lembrar de absolutamente mais nada; só me recordo que sorria.
A sorrir…
Da mesma forma que acordo, rego os vasos, falo com o melro e me entrego ao abraço da seara de trigo.
Quando nós amamos e nos sentimos amados, é tão fácil descobrir a primavera por entre tudo o que nos acontece.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Morremos… mas apenas demos mais um passo


Tudo parece pequeno perante a fome que persiste e que sentimos nos arranca a vida; e até o mar é um lago que se pode fazer nosso à mercê de uma pobre balsa.
Morremos…
Mas apenas demos mais um passo, um pequeníssimo passo num destino inevitável.
Arriscámos tão pouco perante a morte que sentíamos chegar nesta aridez onde o nada, o é em absoluto e tão demasiado cruel.
Nós morremos aqui à superfície deste mar onde as praias ousam beijar oliveiras.
E a paz?
Sentimo-la nós enquanto subimos para enfeitar o céu nas noites longas e doces, e nos cruzamos com a dignidade dos Homens que se afunda com a Jangada da Vergonha que nos ofereceram como passo, numa triste ilusão de liberdade.
Ontem à tarde o jornal Espanhol El país publicava na sua edição online a seguinte notícia:
“Paquete de luxo com 700 turistas europeus afunda-se ao largo da ilha de Malta e provoca a morte de todos os passageiros”.
E seguindo o link chegávamos à noticia cujo primeiro parágrafo era:
“Esta notícia é falsa, mas se fosse verdadeira durante quantos dias e quantas horas falaríamos sobre esta tragédia?”.
Morreram 900 pessoas num naufrágio no Mediterrâneo, imigrantes ilegais que buscavam o sonho da Europa.
O mundo faz o escrutínio entre vidas de primeira e de segunda perante o verdadeiro naufrágio: o da dignidade do Homem.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A tarde adoptou-nos, calou a orfandade das palavras de amor e passeou connosco por entre a gente e o riso de um domingo de primavera.


A tarde adoptou-nos, calou a orfandade das palavras de amor e passeou connosco por entre a gente e o riso de um domingo de primavera.
A tarde fez-se tempo perfeito para namorar…
E por mais que eu tente e faça apelo à mestra mão das ninfas que inspiram os poetas, jamais conseguirei ser justo para com a vida que me oferece o teu abraço.
É tão maior do que todos os superlativos daquilo que se pode dizer.
Numa última tentativa… resgato da banca uma flor que pago à pressa, ali algures numa esquina onde o Tejo nos espreita cúmplice no seu azul.
Peço-lhe que seja ela a falar por mim em canto tom púrpura sobre o chão de Abril e Lisboa, a pátria mãe da liberdade.
Tu sorris.
Depois acendemos uma mesa com dois copos de cidra e tu embalas-me contando cada detalhe de uma história que leste há pouco; e eu deixo-me caminhar de regresso ao tempo de menino indo pelas palavras que tu vais ilustrando com o olhar.
A flor está ali em baixo dentro de um saco e encostada ao pé da mesa, as palavras de ambos andam em volta de uma história que não é a nossa…
A tarde pegou-nos pela mão e trouxe-nos devagar até esta noite…
E não é preciso dizer mais nada, o amor está aqui, explicito e à solta no espaço perfeito deste eterno abraço.

domingo, 19 de abril de 2015

Empresta-me o teu olhar, esta tarde eu quero ver Lisboa vestida de primavera


Empresta-me o teu olhar, esta tarde eu quero ver Lisboa vestida de primavera.
Oferece-me casa e repouso num abraço, e deixa que eu escancare as janelas quando as minhas mãos se sentarem pelos parapeitos doces da tua pele.
Janelas com vista para o rio e abertas a todos os sentidos.
Esses parapeitos que tu sabes serem mote do meu desejo.
Coze os meus passos aos teus com linha tom de azul de infinito e eternidade, e trepemos juntos as colinas enfeitando-as de beijos, semeando palavras de amor que florirão por entre as sardinheiras e os jacarandás.
Empresta-me o teu olhar...
Preciso que ele veja e confirme ao meu como são perfeitos os dias alinhados com o sonho.
Nunca nada expressará tanta verdade de nós quanto aquilo que sonhamos.
E há tantos anos que eu esperava por ti para uma tarde em Lisboa, só nossa, um recanto da primavera que usamos para namorar.

sábado, 18 de abril de 2015

O amor é este fluir de vida por entre a liberdade


Existiu um papagaio que pertencia ao vizinho Ezequiel, que estava numa janela mesmo em frente à nossa da Rua de Três e que me ensinou a dizer a minha primeira palavra: olá; mas a razão mais profunda para eu gostar tanto de falar será a genética e toda a herança que por ela recebi do meu pai.
Não será portanto de estranhar que nem um segundo de silêncio existiu no espaço do meu carro quando viajámos de Évora para Vila Viçosa num fim de tarde desta semana.
Sob um céu de um tom negro que descarregou chuva quando já estávamos entre o Alandroal e Pardais, acho que não houve tema que deixássemos órfão até que chegámos, e nem sei por qual caminho, aos namoros de antigamente.
- Eu comecei a namorar a mãe num baile ao ar livre no casão do “Cai nessas”.
As alcunhas alentejanas dão cabo de nós.
Continua o pai…
- Eu tinha uma namorada de Bencatel que estava zangada comigo e não queria dançar, e eu fui à procura da rapariga mais bonita que havia por ali para lhe fazer inveja. Encontrei a mãe.
Fiquei eu então com vontade de ir procurar a tal senhora de Bencatel para lhe enviar um ramo de rosas em sinal de agradecimento.
- E deu logo em namoro?
Perguntei.
- Não porque ela fez-se difícil. Mas já viste como nasceu um amor que já tem mais de 56 anos.
Um filho comove-se quando o seu pai com mais de setenta anos lhe fala de um amor que persiste; e a família é essencialmente este espaço onde os afectos fluem livremente e sem travões, a genética de um amor sobreposta a todas as outras… até ao vício de falar muito.
Os meus pais lêem avidamente o que publico, e num outro dia em que estavam aqui por casa e eu tive de sair, deixei-os com quinze poemas que publiquei numa colectânea. Todos falam de amor.
Quando cheguei perguntei-lhes se tinham gostado. A minha mãe antecipou-se a responder, e por entre elogios que me fizeram corar e sem que alguma vez caísse na banalidade de me perguntar a quem se destinavam tais palavras, disse-me:
- São todos muito bonitos e eu fico muito vaidosa; é que sendo tu a escrevê-los, fui também eu que os escrevi.
E o amor é este fluir de vida por entre a liberdade.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Este querer intenso com que te abriguei em mim


A força imensa com que te desejo arquitecta recantos para onde eu vou namorar contigo…
E tece de beijos todos os instantes.
O tempo todo e todos os lugares que nascem em mim revestem-se assim da eternidade imune aos humanos cansaços, e tu, meu amor, és meu e só meu, por entre um intenso aroma de infinito, irmão daquele que nasce das flores mais viçosas dos campos regados pela primavera nas chuvas generosas de Abril.
E eu apago as distâncias quando o pensamento te resgata seja de onde for só para vires até aqui afagar-me a mão com doces beliscos; e eu incendeio os sentidos quando elevo os meus braços cansados e pousados sobre o velho sofá, até ao desenho sonhado do mais perfeito e mais quente abraço.
Não há ruas que não sejam nossas, não há árvores que não sejam berços de sombras para o eco doce das nossas histórias, não há palavras ditadas pela alma que permaneçam órfãs, se todas se soltam para irem a correr abraçar-te tal qual os meus braços.
Porque jamais a realidade poderá alguma vez superar o querer de um poeta; este querer intenso com que te abriguei em mim.