quinta-feira, 7 de maio de 2015

Um beijo no instante em que te encontrei… quando voava sobre a seara


Trato a noite por tu; conheço-a há muito e até na intimidade desses recantos mais esconsos que parecem ter nascidos imunes ao luar.
Gosto da noite.
Sento-me com ela no sossego do sofá; a televisão desligada, uma música tímida e sem palavras, um chá de jasmim, o caderno de capas vermelhas que o Carlos me ofereceu no Natal…
E ali naquela intimidade e cumplicidade de amigos, eu e a noite vamos tecendo palavras que escrevo ao ritmo lento de quem dispensou o relógio e se espreguiça à vontade pelo tempo.
Já estou definitivamente em casa e não há quaisquer viagens para fazer.
Partilhamos segredos…
E a noite sabe há muito como te chamas, que o tanto que és e que eu amo, há muito mais tempo conhece dos sonhos que lhe fui contando.
Ontem, já depois de falar contigo, estava eu e a noite nesta costumeira tertúlia, mas com direito a biscoitos (doces mas sem açúcar), quando ela me contou uma história:
- Era uma vez um pássaro de asas soltas que vivia algures no cimo de uma árvore que benzia de sombras uma seara da planície. Saía todas as manhãs de primavera, cantava uma desgarrada com os grilos, dava os bons dias às papoilas… e fazia tudo isso ao jeito de quem vasculha o mais íntimo e melhor da vida para poder encontrar o seu grande amor.
Adormeci entretanto e já não ouvi o resto da história mas esta manhã acordei com a certeza de ter sonhado contigo e de te ter dado um beijo…
Um beijo no instante em que te encontrei… quando voava sobre a seara

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Cruzámos o impossível


O querer rasga veredas no impossível, e o lado de lá do previsível, a outra e desejada margem, fica à completa mercê dos nossos passos.

Passos acelerados tecidos pela pressa de chegar; passos... retalhos de conseguir sobre um chão que tomámos pelo alento e às vezes por uma imensa dor.

Olho a última foto que fizemos junto ao rio num passeio por Lisboa.

Revisito-a tantas vezes...

Tu ensinaste os meus lábios a beijar, perdidos que andavam por tantos rostos à espera de o conseguir.

Na foto estás a sorrir... estamos os dois assumidamente a sorrir.

Percebo olhando outra vez que há muito mudámos de margem e estamos naquela que sempre sonhámos.

Cruzámos o tempo e o impossível.

Rasgámos veredas.

Tu ensinaste-me a beijar...

Passos... retalhos de conseguir.

Cada beijo, um passo.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Há tanto de novo aqui... debaixo do sol

O despertador cumpre a sua função e acorda-me às cinco quebrando um sonho do qual esqueço o conteúdo diluído na irritação de sair da cama em hora contra-natura.

Tomo o duche com a sensação de que acordo o prédio todo, mesmo permanecendo em silêncio e não trauteando "O anzol" dos Rádio Macau, como é hábito pela manhã.

Depois...

Há sempre um vizinho que passeio um cão, a rádio tem programas estranhos a esta hora da manhã, a auto-estrada parece ter sido desenhada só para mim, Lisboa é a cidade que nunca apetece deixar, o aeroporto tomado pelo caos em dia de greve, o voo atrasado, o café, as colegas e os segredos para disfarçar olheiras, o tempo para escrever...

Agora.

Pedirei ao despertador que um dia me acorde sem me acordar; e sem ter de abandonar o sonho onde tu moras, tomaremos os dois a rota de todas as viagens que sonhamos e persistem na nossa vontade.

O café depois do duche, Lisboa a espreguiçar-se no amanhecer, os nossos sorrisos sem olheiras, e nós os dois envoltos numa música que trai deliberadamente os Rádio Macau: há tanto de novo aqui debaixo do sol.

Um beijo com a saudade de quem já viu no monitor o número da porta de embarque.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Jamais te deixarei morrer entre os silêncios


Jamais te deixarei morrer entre os silêncios, os vazios e calados instantes de onde sempre te resgatarei por força das palavras de amor que semeias em mim.
Essas mesmas palavras que acordam comigo em cada madrugada.
Abraçar-te-ei depois no velório do “mais ou menos”, a casa de onde ressuscitará a esperança mais fantástica e mágica do universo: a vida nova e boa que sonhamos.
Os dois, uma casa no campo debruada de amarelo, os castanheiros, as glicínias, as flores de todas as árvores que chegarão para enfeitarmos a primavera.
Os cucos que soltarão música do cimo de todas as árvores.
E a eternidade…
Quem goza de um amor com a marca de sempre despreza os dias e as horas; aqueles que como nós são “malta da eternidade” não se preocupam sequer com os incómodos e dores da saudade.
Há muito que tomámos o tempo, que o fizemos nosso.
E eu jamais te deixarei morrer.

domingo, 3 de maio de 2015

Maria Inácia


Há um instintivo não sei quê de coragem nas tuas mãos que ao primeiro afago me oferece alento e apaga todos os meus medos…
E por ti eu sou o mais forte e feliz de todos os Homens, um herói, sem deixar nunca de voar nas asas do menino que se aninha eternamente no teu colo para ouvir as histórias que tu inventas e que fazem superar o escuro do anoitecer… e todos os escuros guardados nas esquinas dos dias.
O teu abraço que nunca falha tem a paz e o sossego de estar em casa, na minha verdadeira casa…
E os teus beijos, o riso, os passos de dança que ensaiamos juntos, as palavras que o olhar dispensa que digamos, os gestos, os silêncios, as carícias, a fé… são detalhes perfeitos de um imenso e insuperável amor.
Sim, eu nasço em cada beijo que nos oferecemos.
E às vezes por me sentir tão bem nestes dias que por ti se enfeitam de flores e sabem a mel de urze, ouso pedir ao tempo que traia o seu ciclo inevitável e pare por aqui.
Que o tempo tome e imite a eternidade do nosso amor.
Um pedido de criança, do menino que serei sempre por ti e para ti, mãe.

sábado, 2 de maio de 2015

“Anita manda os políticos para Sete Rios”


Por muito que o Dr. Mário Soares afirme o contrário, compreenderá por certo o “pai” da nossa democracia que eu cumpra a essência da dita, e que, com base no principio de um Homem, uma opinião; eu não acredite na inocência de Sócrates.
Um político preso nem sempre é um preso político, sobretudo quando pesam sobre a criatura, suspeitas de corrupção; e como eu não acredito na honestidade de quem não trabalha e se dispõe a viver no luxo à custa dos amigos…
Entendo que os cravos atirados contra a prisão de Évora e as velas acesas são “cuspidelas” sobre a memória de Abril e de quem sonhou e construiu a liberdade.
E por muito que o Dr. Passos Coelho elogie o Dr. Dias Loureiro, eu jamais acreditarei na inocência de um dos homens do BPN, empreendedor por certo mas em proveito muito próprio, e por vias demasiado ilícitas que muitas e grandes facturas emitiram sobre os contribuintes.
Mas o homem que saltou do Conselho de Estado por indecente e má figura, continuará por certo a ser generoso na hora de financiar as campanhas partidárias, e só isso justificará estas estátuas de palavras erigidas nas rotundas da rota dos políticos da sua cor.
Palavras que são como pedras atiradas sobre a memória de Maio e da liberdade.
E assim no Dia do Trabalhador, com a simulação do IRS à minha frente e a evidência de que bem mais de cinquenta por cento dos meus rendimentos voou para financiar as PPP’s, os BPN’s e outras coisas que tais, eu contribuinte honesto da nação Portuguesa me sinto uma ilha no mar da imbecilidade.
Serão por certo os sintomas da orfandade política da classe média nacional.
Assalta-me aquela amarga sensação de Outubro estar muito próximo e ter no menu à minha frente o regresso à “Anita no país dos subsídios” e a “Anita vai à Alemanha e aprende a fazer contas”.
Ou as outras Anitas todas.
Valha-me continuar a acreditar na liberdade e em nome dela decretar tolerância zero aos políticos travestidos de heróis.
“Anita manda os políticos para Sete Rios”; para pentearem os macacos, claro.
E já agora façam-me um favor, não comentem este post a dizer quem são os menos maus pois não será por existir a Hepatite C que o Cancro do Cólon passa a ser algo simpático.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Abraçar-me-ei a ti nos dias em que o tempo se enfeitar de Maio


Abraçar-me-ei a ti nos dias em que o tempo se enfeitar de Maio, tomaremos do campo uma suave e doce rebeldia, e os dois correremos depois por entre papoilas e giesta para chegarmos às cidades que ousámos sonhar, e onde tomaremos as ruas e as praças levando connosco apenas uma só arma: a liberdade.
Dar-te-ei beijos como bandeiras erguidas sob o chão tingido pelas cinzas das amarras, detalhes de pó da história que os nossos passos cruzados elevarão e farão perde-se no céu, que jamais deixará a sua coerência em tons de azul.
E por entre os gritos da nossa gente em festa, talvez se acenda uma clareira para que nos chegue o toque de uma guitarra entregue ao dedilhar dos Verdes Anos.
Verde… o nosso tempo qualquer que ele seja, tingido da esperança e das vontades que colhemos e herdámos do campo nas manhãs de primavera.
E dar-te-ei mais um beijo, chamaremos “amor” um ao outro ao mesmo tempo, chamaremos eterno a este querer, e seguiremos depois com a multidão até ao rio.
Os nossos passos, a gente, os gritos, a festa, os beijos, a minha mão na tua mão tecida perfeita pela mestria que acariciou as vinhas e todas as flores …
Sabes que a tua pele tem para mim o toque perfeito das manhãs de Maio?
Sim, a tua pele…
A minha liberdade.