sexta-feira, 22 de maio de 2015

O Olimpo dos dias simples


O teu sorriso acode-me à lembrança na hora de adormecer. Já pousei o livro de poemas de Eugénio de Andrade e apaguei a luz; nos lábios um padre-nosso que quase nunca acaba…
Há uma estrada íngreme que contorna e revela os segredos da montanha; nós seguimos juntos pela sua rota.
Como quem passeia, subimos sem que saibamos se o caminho nos fez romper o céu, ou se o céu é ele próprio este passo lento entre o rubor das cerejas maduras, aqui e ali interrompido por um beijo à beira de uma fonte.
E a água assim bebida dos teus lábios tem sina de ambrósia e néctar dos deuses, enquanto tudo à volta tomou do sol e de Apolo as qualidades; e os grilos e as cigarras, o fulgor do vento entre as árvores, são o toque da lira, o canto das musas e a dança das cárites neste Olimpo sagrado com que tu vestes a montanha.
A casa de Zeus e Hera, e a eternidade perfeita entre os cristais e os doze deuses do monte sagrado que se eleva do mar Egeu.
Acordo sem que a noite e o sonho me tenham desmontado a lembrança; contínuo a ver o teu sorriso.
E enquanto ando descalço sentindo o fresco do chão da casa, e quando abro a janela, respiro a brisa das sete horas e sinto que a manhã me beija, eu nunca sei se o Olimpo e o céu são os sonhos de um poeta adormecido ou se são estes dias simples que aparentam quase nada mas que têm tudo e o teu rosto que sorri.
Mas aposto que são os dias.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Eu sou o reflexo do teu amor sobre os meus dias


Ao cruzar a Ponte da Arrábida rumo ao sul, abdico da Foz e olho à esquerda, vendo de relance e enquanto conduzo, as curvas do abraço do Porto ao seu rio.
Há um deleite que se vê de ouro na cidade, tal qual nas águas que tão justo nome tomaram por baptismo.
E pressinto-te então comigo num abraço cúmplice deste e eterno como o Porto, a pátria do Amor de Perdição de Simão e Teresa... como de Camilo e Ana.
Não tardam cinco minutos e no bom dia que me mandas vem um "regaço de beijos de amor".
Não consigo deixar de sorrir fazendo-me à estrada rumo a Lisboa.
Sinto o vento a soprar forte e um tímido sol de primavera.
Muitos quilómetros à frente, um pouco depois de Santarém, uma ave de rapina cruza a auto-estrada em voo imponente. Vejo-lhe as asas e atento no reflexo gigante que as mesmas desenham sobre o asfalto à minha frente.
"Um regaço de beijos de amor"...
Eu sou o reflexo do teu amor sobre os meus dias.
E os meus sorrisos são as curvas deste abraço eterno e perfeito.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

“Tira a mãozinha daí…”


Seguindo pela Auto-estrada A1 e a poucos quilómetros do Porto vejo um outdoor que me diz ter chegado a casa. À primeira vista a mensagem parece-me simpática e adequada, até porque me sinto sempre no Porto como em casa; mas depois verifico que tal se refere ao Porto na vertente clube de futebol, e aí definitivamente e com todo o respeito, aqui não jogo em casa. Hoje até venho assim contente, bicampeão e de gravata vermelha.
Mais à frente vejo dois novos cartazes gigantes a anunciarem o disco de uma cantora chamada Maria Lisboa.
Com semelhante nome a querer vender discos no Porto?
Deve sentir-se por aqui tão em casa como eu no Dragão; apesar, e registo, o disco se chamar “Tenho fé em Deus”.
Pois… só mesmo com muita fé, já se vê.
Continuo a olhar para os oudoors e verifico que entrei na “Área Motel”. Há o “Silk” e o “Emoções”, e a avaliar pelos desenhos… saltos altos e champanhe serão coisas que não faltarão por lá a preços que vão desde os vinte e cinco Euros.
Depois da Maria Lisboa de mãos postas a expor as unhas de gel tratadas em algum corner de um Centro Comercial…
Não fora eu ter boa memória e poderia passar-me despercebido o facto desta cantora há já muitos anos, em tempos do saudoso top “Made in Portugal” que passava na RTP aos domingos à hora do almoço, ter tido um êxito chamado “Tira a mãozinha daí que eu sei que é bom mas não é para ti”.
E agora com a fé…
Bem pode dizer-se que não há assim tantas incompatibilidades históricas e há novas Madalenas a pairarem arrependidas sobre as emoções e a seda da mais objectiva e brejeira lascívia patrocinada a vinte cinco Euros… e com parque de estacionamento discreto.
Sigo…
Novo cartaz: “Alvaiázere, a Capital do Chícharo”.
Não sabia que tal leguminosa também tinha capital e anexo-a desde logo à minha lista das ditas onde consta, entre outras, a do Móvel, da Chanfana, da Pêra Rocha, do Cavalo, e até, imagine-se, a Capital do Palito, o Lorvão no Concelho de Penacova.
Outro cartaz muito bem situado, sobretudo se atentarmos que passámos perto de Alvaiázere há mais ou menos cento e vinte quilómetros e que depois de uma imersão em francesinhas e tripas, de volta ao sul dificilmente alguém se lembrará de sair da auto-estrada para ir comer aqueles primos direitos das ervilhas.
Vejo mais um cartaz do Continente (“O que rende…”) e depois e já no Porto, os outdoors da pré-campanha.
Também prometem “emoções” e “champanhe” para a nação, mas omitem naturalmente o preço, que é, e eu sei e sabemos todos, bem mais de vinte cinco Euros. Aposto que até o estacionamento será pago e muito pouco discreto pois terá a supervisão dos delegados da EMEL.
Avanço…
“Tenho fé…”…
Em Deus sim tenho, embora não faça cartazes de mãos postas e nem sequer tenha unhas de gel (e nem a unha do dedo mindinho crescida, ouviste Celso?).
Mas nesta gente não tenho fé nenhuma.
Confesso até que se pudesse fazia inversão de marcha e seguia o caminho contrário ao da Maria Lisboa, acabando a cantar “Tira a mãozinha daí que eu sei que é bom mas não é para ti”.
Sem lascívia mas com amor ao ordenado.
E já que fazia inversão de marcha talvez fosse a Alvaiázere comemorar com Chícharos o bicampeonato.
Com emoção.
As histórias contadas pelos outdoors da auto-estrada a um homem que viaja sozinho…

terça-feira, 19 de maio de 2015

Que importância tem o nome dos dias?


Que importância tem o nome das ruas se elas me oferecerem caminho na rota que o meu desejo escolheu?

De que importa o nome, o género, o filo... qualquer detalhe em latim que designe por baptismo uma flor lilás que brilha intensamente por entre os malmequeres e perfuma o jardim enquanto eu passo?

Que importância tem o nome dos dias se eles são todos nossos, meus e teus; e se juntos caminhamos por eles até aquela janela que é casa dos abraços, a casa onde sempre sonhámos morar?

E caminhamos por entre o aroma das flores lilases e de todas as mais perfumadas.

E caminhamos sabendo que sobre a mesa esperará por nós uma taça de rubras cerejas, o fruto mais cúmplice das palavras; de todas as palavras, mesmo as secretas e mudas palavras de amor que não hesitamos jamais em trocar por beijos.

Beijos também sem nome, mas perfeitos por serem nossos.





segunda-feira, 18 de maio de 2015

Entre o tempo e a poesia


Reinvento-me feliz à sombra do teu olhar.
Contigo a uma janela alta e enquanto luto contra o tempo que me arrasta inevitavelmente para o fim do serão e para o “beijo de até logo”, o primeiro segundo da saudade; vou tomando de ti a nova poesia, e alinho palavras sobre as linhas informais que me oferecem os telhados de Lisboa.
Subo e desço com o olhar ao ritmo do infinito perfeito que me ofereces viver, e da caligrafia ousada e louca dos poetas nascem versos sob o céu de um infinito luar.
Destemidas palavras de desejo.
Palavras e rimas como os beijos e como a vida que nos entrelaça; sem pontos finais e sem reticências.
Depois, pelas duas da manhã, estamos sentados frente a frente na Brasileira do Chiado.
Enquanto nos refrescamos na bênção de uma água tónica, eu tenho Pessoa atrás de mim, e tenho-te a ti à minha frente. Atrás de ti um relógio que parece ter nascido na mesma década daquelas paredes, um incansável corredor de fundo sem meta à vista na sua infinita maratona.
Estou feliz ali entre o tempo e a poesia.
Estou contigo entre o tempo e a poesia, e as palavras de amor e a eternidade são detalhes da vida perfeita que guardas em ti e que eu descubro sempre à sombra do teu olhar.

domingo, 17 de maio de 2015

Ao jeito dos poetas


Quando as partidas de Trivial Pursuit se prolongavam para lá da hora razoável de uma criança se deitar, e alguém dizia:
- Marta, tu tens que ir dormir porque estás com olhos de sono.
A filha dos meus amigos Manuela e José Maria respondia:
- Os meus olhos têm sono mas eu não tenho.
E os cafés que tomávamos nos sábados depois de almoço mereciam a presença da Marta quando eu estava em Vila Viçosa a passar o fim‑de‑semana com uma justificação muito lisonjeira para a minha pessoa:
- Hoje vou porque está lá o Quim e a conversa é interessante.
O interesse da conversa não era mais do que algum relato de viagem feito por mim; eu, baptizado pela Marta como "o amigo viajador", ou então algum exercício interessante de inventar Barbies:
- Para o Natal vou oferecer-te a Barbie Ceifeira ou a Barbie Deprimida. Qual preferes?
O tempo foi passando e nós fomos vivendo intensamente com ele...
Continuamos a conversar muito em viagens de carro que partilhamos entre Vila Viçosa e Lisboa, e segue interessante descobrir que há na Marta uma genética que eterniza o que foi e é a vida partilhada no contexto do meu grupo de amigos; o querer e a ousadia de sonhar.
Ontem apanhei um escaldão na testa porque o sol do meio-dia de Lisboa me atingiu durante a bênção dos finalistas na Alameda da Universidade. Vinte e seis anos depois de ter estado no Estádio Primeiro de Maio com as minhas fitas roxas fui ver a Marta a erguer as suas fitas amarelas e brancas de Medicina Dentária.
Por cima das nossas cabeças passavam aviões de três em três minutos, mas as asas criamo-las e alimentamo-las nós por sobre os sábados e todos os dias.
Destemidos e irreverentes a caminho do melhor destino: a coerência de sermos nós e sermos grandes.
E ali encostado à parede da Faculdade de Direito, entre o Senhor Patriarca que falava do “Sal da Terra” e uma vendedora que apregoava águas frescas a um Euro; eu tive a certeza de que por sobre quaisquer detalhes dos dias, entre a fé e a logística mais pragmática e objectiva, mesmo que os olhos a possam trair, a Marta sempre dirá com a alma:
- Os meus olhos têm sono mas eu não.
E seguiremos sempre amigos e de telemóveis na mão a tentar não desperdiçar o pôr-do-sol dos domingos de Lisboa enquanto cruzamos do sul pela Ponte Vasco da Gama.
Os dois ao jeito dos poetas.

sábado, 16 de maio de 2015

O infinito das coisas simples


O avô Joaquim tinha uma horta para onde nós íamos algumas vezes durante as férias e onde vibrávamos com a fertilidade da terra. O entusiasmo do meu irmão atingiu o ponto máximo numa altura em que resolveu contar o número de tomates e o anunciou; passava dos duzentos.

Algures num verão mais seco foi necessário pesquisar água. Depois de eleito o sítio, escavou-se, feriu-se uma veia do precioso líquido, e não tardou a que tivéssemos um pequeno poço.

Às vezes o avô Joaquim leva-nos até ao Colmeal da Silveirinha, íamos pelos Capuchos, Paraíso, o Carapiteiro, e depois sempre junto à parede da Tapada até cruzarmos para terras que já pertenciam ao concelho de Elvas. Uma caminhada longa que exigia o retemperar das forças com uma açorda.

Eu ia com o avô até às margens de uma ribeira e apanhávamos lá os poejos que usávamos depois na confecção da dita açorda que pela nossa fome ganhava estatuto de banquete requintado.

Esta semana e a propósito do livro NÓS alguém me falava da simplicidade das palavras que contam as minhas histórias.

É natural. 

Eu aprendi a contar histórias com o avô Joaquim e as minhas palavras têm de ser simples porque são "colhidas" da terra como a água ou os poejos que enfeitam de vida e aromas o estio da "planície rasa".

Um dia, teria eu uns treze anos, viemos a Fátima e o avô viu o mar pela primeira vez, alguns anos depois de mim que comecei a vê-lo desde muito cedo.

Não o senti impressionado pela majestade azul do oceano visto do Sítio na Nazaré. 

O que é realmente grande nesta vida arruma-se na alma, muito mais do que em qualquer espaço de memória que registe as bênçãos do olhar.

E quem acaricia a Terra e lhe toma a simplicidade nos seus mais pequenos detalhes, trata-a por tu, convive de perto com o infinito, jamais se intimidando com quaisquer horizontes.

Oxalá as minhas palavras sejam sempre simples e com aroma de poejo e eu nunca deixe de ser o Quim, o "mê gaiato".