sexta-feira, 5 de junho de 2015

A coerência de voar



Quando conversámos ao telefone no início desta semana acabámos a partilhar a memória que guardamos do vento frio das noites de Natal em Vila Viçosa, quando após a consoada os nossos pais nos traziam abraçados a eles desde a casa dos avós até às nossas onde iríamos dormir.
O vento que sopra forte ao alto da Praça na esquina de São Bartolomeu... e os braços dos nossos pais de onde bebemos a genética do melhor que somos.
E tanta vida guardamos desses dias que nos moldaram pelo amor que transbordava.
Guardo na memória uma outra conversa nossa, mas esta de há muitos anos, em que me confidenciavas que o melhor que já tinhas sonhado era voar sobre Vila Viçosa. Fomos pelas palavras novamente até ao Carrascal para me descreveres como era bom abordar a Praça de braços abertos ao jeito de asas, voando por sobre as árvores, o Henrique Pousão, a fonte...
A ambição de voar e a coerência dos sonhos no atravessar de qualquer idade, tal qual a amizade que nos une, os aromas de todas as estações, do verão... e o capilé feito pela tua mãe para os teus lanches de aniversário e para os do Pedro, será sempre a melhor bebida do mundo para nos refrescarmos.
Tu cumpres hoje cinquenta anos, mas isso pouco importa; o passado é apenas a nossa história e guarda-se nos baús da memória, arejando-se às vezes nos serões das conversas de amigos.
E não fora a saudade desses dias em que nos apoiávamos nos braços que foram ramos do melhor tronco que nos fez fruto...
O que nos define a idade é tudo aquilo que queremos e sonhamos viver; e para nós é ainda muito mais do que o muito que já vivemos.
Continuamos rapazes a saltar entre os bancos de pedra da Praça, ou então a escondermos o rosto entre as mãos apoiadas no tronco da árvore onde prendiam o cartaz do cinema, na placa central e quase em frente à casa do Manuel, para que todos os outros desaparecessem no jogo das escondidas em que o último poderia "salvar tudo", ou seja todos aqueles que tinham sido apanhados pela visão de quem fizera a contagem até vinte.
Continuamos rapazes por entre as gargalhadas, as histórias, as cumplicidades, as memórias, os cheiros de todas as estações…
Seremos sempre novos na coerência de ousarmos voar por sobre as praças todas do universo.
E não fora a saudade…
João Paulo, muitos parabéns.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Que venha o mundo inteiro e lute contra mim…


Nunca existirá nada ao qual possamos tão legitimamente chamar nosso, do que aquilo que guardamos no coração.
Que venham “monstros”, super-heróis, “piratas” que ataquem nas “baías” dos dias e pela calada da noite; que a propriedade manter-se-á nossa, não deixando ruir jamais aqueles corredores discretos e íntimos entre nós e alma, os espaços de sofás e flores onde nos sentamos no silêncio para “namorar”.
Só nós gerimos, admitindo ou expulsando aquilo e quem “habita” semelhante recanto da alma, em processos indiferentes ao tempo: podem passar anos ou então ser tudo tão rápido…
E é sempre o nosso coração que tem o privilégio de oferecer o estatuto de eternidade.
O coração, onde sempre se guarda a verdade mais verdadeira, é também o melhor refúgio para os segredos, e não fora a tentação de bastas vezes eles espreitarem às janelas da face e de pincelarem os gestos que fazemos, e também poderíamos afirmar que era o “esconderijo” mais eficaz.
E o coração dói naqueles instantes em que persistimos em manter ligado às máquinas e numa muito íntima “Unidade de Cuidados Intensivos Emocionais”, todos aqueles que sabemos já estarem afectivamente mortos, e que se mantêm ali por pura persistência e ilusão da nossa parte.
No silêncio da noite passada e espreitando o luar pela janela aqui de casa, sentei-me contigo num daqueles sofás de namorar que existem no corredor entre mim e o coração; sentados os dois sem mais nada do que apenas nós.
Dali víamos o mar, e entre palavras e lembranças, na perfeição de um beijo pressenti a eternidade.
Que venha o mundo inteiro e lute contra mim…   

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Esta noite não parei de sonhar


Nos recantos mais secretos que a noite esconde em si e por entre os mistérios que só o luar às vezes revela, vive num palácio de janelas altas rasgadas por glicínias e palavras, um príncipe Celta encarregue de guardar o céu no seu olhar; todos os dias e após o pôr-do-sol.  
Herói e guardião do universo, há noites em que abandona o palácio levando sempre o céu consigo, e bate à porta de um pobre e humano pastor, entrando e sentando-se para conversar.
Diz o pastor que estas visitas se chamam sorte, e diz o príncipe que é muito bom ter com quem partilhar o céu.
Cúmplices de tanta vida, conversam longas horas à luz de um chá de camomila e de torradas barradas a compota de nêsperas ou cerejas colhidas na serra, provando que é demasiado ténue a fronteira entre a humana condição e a divindade dos heróis. Basta tão-só um quase imperceptível toque ao de leve na porta, de alguém que pede para entrar.
Um príncipe nas noites temperadas de lua e por entre uma história que marca a vida… ao jeito de uma lenda Celta.
Depois, quando a noite já se faz longa, o príncipe olha para o relógio e parte após dar um beijo ao pastor, muito a tempo de entregar o céu ao dia que se prepara para nascer.
O pastor descansa um pouco mais até sentir que clareou.
Depois levanta-se e corre para a rua para ir trabalhar, sempre com a tez sorridente dos apaixonados.
Diz quem o ouve que ele bendiz a sorte e não se cansa de repetir:
- Esta noite eu não parei de sonhar.


terça-feira, 2 de junho de 2015

Sente-se a brisa fresca do entardecer…


As cadeiras e a mesa de metal à esquina da praça acenam ao nosso cansaço e oferecem-nos repouso.
Não resistimos mais…
Sentamo-nos finalmente; ali algures entre o poeta e o eléctrico que acelera e passa cortando o vento.
Aos poucos, vamos enchendo a mesa com palavras, mas daquelas que nunca voam; as palavras que contam a história que fazemos juntos entrelaçando vontades.
O Sporting ganhou a Taça, o Benfica foi Campeão, juntámos as nossas camisolas num abraço e fizemos um país; Portugal, tal qual a nossa história.
O sol já partiu e sente-se a brisa fresca do anoitecer. Sinto-o particularmente nos braços descobertos enquanto escuto o seu sopro nas tílias que nos oferecem um tecto informal naquele instante.
Tu adivinhas-me o frio, fazes-me uma carícia, e quando te olho nos olhos percebo que já não há poeta, eléctrico ou mais alguém ou qualquer coisa; o teu olhar é o meu mundo na tarde de Lisboa.
Então, ajeito-me com as palavras e repouso deixando entrar um sonho grande, sem sequer fechar os olhos e adormecer.
O cansaço já partiu, levou com ele o desconforto e o frio.
E entre um sonho e outro sonho vou regressando ao teu olhar... para me aquecer.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A coerência de um só céu



O nosso beijo preserva o eco rubro das cerejas maduras, o canto doce que a terra tomou do sol nas manhãs de primavera, enquanto se espreguiçava a alvas flores na encosta íngreme que parece querer beijar o céu.
E este canto veio connosco até à beira mar, trouxemo-lo até aqui aonde as asas abertas das gaivotas rasgam o infinito, o tecto da casa perfeita que construímos para namorar; enquanto nos espreguiçamos a beijos nas tardes brancas de Lisboa.
A coerência de um só céu a cobrir terra e mar, e o nosso beijo transversal a latitudes, à longitude e ao tempo... compondo a poesia e convocando intermináveis as palavras...
Como cerejas por entre o rubro detalhe de um quase verão.

domingo, 31 de maio de 2015

A tomada do tempo segundo os heróis da Livraria Escolar


Os dias pareciam maiores nesses verões de Vila Viçosa porque não existia tempo que não fosse nosso.
Nem a televisão nos tomava minutos ou nos prendia, a não ser nos serões especiais dos Jogos sem Fronteiras.
Vivíamos de portas abertas e o ar circulava connosco nos corredores das casas entrando pela porta da rua e saindo pela do quintal, ou vice-versa.
Tu chegavas sempre no verão e ias ter connosco à Livraria Escolar da D. Joana Ruivo para juntos tomarmos a Corredora ali no passeio entre a loja do Senhor Domingos e o Café do Senhor Cândido.
Conhecíamos toda a gente e até os donos dos poucos carros que passavam. Já sabíamos a que horas chegavam os jornais da tarde à papelaria do Senhor Tibério e também quem passava por ali todos os dias para ir ler "A capital" na Sociedade Artística. Sabíamos que as "Manas Catatuas" chegavam sempre em Agosto para subirem a rua de braço dado, e a não ser que a sirene dos bombeiros nos desinquietasse a tarde, até a previsibilidade acrescentava tempo aos nossos dias.
Depois crescemos e um dia trocámos: eu vim viver para Lisboa e tu para o Alentejo. Fomo-nos vendo ocasionalmente quando os dias já eram muito mais curtos pela intensidade com que os vivíamos.
E as palavras... as mesmas dos livros da D. Joana voltaram a juntar-nos quase diariamente à sombra do Pomar das Laranjeiras. Tu és das leitoras mais assíduas das minhas partilhas.
Inexplicavelmente parece que não passaram por nós algumas décadas porque de cada vez que nos encontramos é como se eu ainda estivesse com o João Paulo e o Pedro atrás do balcão da Livraria e tu chegasses a sorrir cruzando uma das duas portas pintadas de vermelho, as portas que no verão estavam sempre abertas.
Tu cumpres hoje cinquenta anos, o João Paulo na próxima Sexta-feira e eu lá mais para o ano que vem.
Na vertigem destes anos pensarás por certo como eu que estamos demasiado longe de nos sentirmos com a idade de meio século; e sentimos isso pelo infinito que ainda queremos viver e pela intensidade com que o sonhamos...
Tomando o tempo todo para nós, tal qual nas tardes quentes da Corredora que só terminavam quando uma das mães nos chamava à janela para lembrar que chegara a hora do jantar.
Lena, muitos parabéns.

sábado, 30 de maio de 2015

Num beijo que me dás por entre a magia do fim da tarde


A terra é do Homem que a beija descalço, muito mais do que de quem a assinala com cercas, grades e muros com portões dourados…
O mar é da simplicidade do pescador que trata as ondas por tu e que o abraça no instante de puxar as redes, muito mais do que do Homem que o vê do alto do seu castelo nas varandas ricas adornadas de flores…
A vitória é daquele que corre para chegar à meta e nunca do outro que vive sentado na meta, confortável e feliz, vendo passar o tempo num cronómetro vazio de quaisquer ambições…
A fé é património do Homem que espera e luta para ser maior, muito mais do que daquele que se sente grande…
O sol é do olhar mais simples que o contempla na magia de um poente…
O sonho é de todos e a poesia é dos ousados e destemidos que não calam jamais o que alma sente…
E o amor…
O amor é tudo isso; a terra, o mar, a vitória, a fé, o sol, o sonho, a poesia…e a liberdade, tudo colhido no breve instante de um simples beijo.
Num beijo que me dás por entre a magia do fim da tarde.