domingo, 7 de junho de 2015

Era uma vez uma princesa mais bonita que o sol


Era uma vez…
Uma princesa mais bonita que o sol e sempre envolta num intenso gosto a sal.
O seu olhar doce contrariava esse destino e esse aroma, e o seu querer insistia em suster o tempo que parecia empenhado em acelerar e chegar rápido ao fim da história.
Como se a respiração viesse limitada pela força ténue de uns pulmões cansados e cada inspiração e expiração não oferecessem mais um segundo para viver, mas tirassem um precioso e raro instante.
Mas os milagres acontecem na vida de quem os procura e conquista, e Deus exprime-se na excelência do melhor que têm os Homens.
A princesa um dia adormeceu, e tal como a outra bela das histórias de encantar, acordou semanas mais tarde com todo o tempo do mundo para viver.
O relógio passara finalmente a ser seu fiel companheiro e ela viverá assim feliz para sempre.
Há 23 anos que sou amigo da mãe da Alexandra, a princesa de que vos falo e que tinha quatro anos nessa altura em que a conheci.
Como a outra, a mãe da coragem de Brecht, não existiram "carroças" que lhe despenteassem o sorriso e desmanchassem a esperança. É definitivamente minha irmã e um exemplo nessa forma de olhar o mundo de frente e sem receios.
Ontem, no calor intenso de uma tarde de Junho, eu fui de propósito à Feira do Livro para autografar um "Nós" à minha amiga que chegou dizendo trazer-me um presente; a Alexandra, um pouco mais de um ano após o transplante de pulmão.
Acabámos os três em festa ao redor de uma mesa a beber café e águas frescas. A festa de quem sabe ter derrotado a inevitabilidade de dias tristes.
Lá ao longe e sempre, o meu Tejo.
A Alexandra foi folheando o livro durante a conversa, adorou as fotos do Ângelo e foi comentando uma a uma.
Fiquei com a sensação de que nem que fosse só para ela, este livro teria de ser feito assim; um tributo ao doce de uma eterna princesa.
O seu olhar impôs-se definitivamente ao destino triste de sal.
E quando saía do Parque e descia a Avenida lembrei-me que há precisamente um ano neste mesmo dia, choveu copiosamente aqui nesta Feira sobre um especial abraço que me mudou a vida.
Não me perguntem qual era a música, mas fui a assobiar feliz até ao Rossio.
Mãos nos bolsos… e a banda sonora informal dos dias que nasceram para nos fazer acreditar.

sábado, 6 de junho de 2015

A nossa história


O tempo mandou instalar uma mesa para dois na mesma esquina onde um dia a História mudou numa longínqua tarde de Fevereiro.
Mataram o rei.
Viva a República!
E na tarde quente deste Junho, só o Terreiro e o Tejo parecem iguais, abraçando-nos o olhar nos seus respectivos tons de ocre e azul, ao jeito de quem diz:
- Há tanto tempo que esperávamos aqui por vós.
Sim.
Eu também há muito que pedia à sorte para me fazer chegar aqui e a este instante, a esta esquina que parece ter nascido para mudar a História e a história de cada um.
O teu olhar acendido pela brisa quente já devolveu ao panteão as cinzas fúnebres das ilusões que coroaram todos os falsos amores.
O teu olhar é a estrada da minha mais do que segura e verdadeira rota.
Viva o futuro.
E quando já deixávamos a nossa mesa e me deste um beijo que ainda sabia a café, eu senti-me abraçado à história para a qual nasci.
Feliz, olhei de relance para o Tejo e para o Terreiro; sorriam comigo.
E deixei-os então por ali a guardarem por nós as memórias da mais bonita história de amor: a nossa.
Depois subi contigo a Rua Augusta num passo matizado de abraços, os dois beijando a calçada que um dia foi de Mastroianni:
“O segredo a descobrir está fechado em nós
O tesouro brilha aqui, embala o coração
Mas está escondido nas palavras e nas mãos ardentes
Na doçura de chorar nas carícias quentes”



sexta-feira, 5 de junho de 2015

A coerência de voar



Quando conversámos ao telefone no início desta semana acabámos a partilhar a memória que guardamos do vento frio das noites de Natal em Vila Viçosa, quando após a consoada os nossos pais nos traziam abraçados a eles desde a casa dos avós até às nossas onde iríamos dormir.
O vento que sopra forte ao alto da Praça na esquina de São Bartolomeu... e os braços dos nossos pais de onde bebemos a genética do melhor que somos.
E tanta vida guardamos desses dias que nos moldaram pelo amor que transbordava.
Guardo na memória uma outra conversa nossa, mas esta de há muitos anos, em que me confidenciavas que o melhor que já tinhas sonhado era voar sobre Vila Viçosa. Fomos pelas palavras novamente até ao Carrascal para me descreveres como era bom abordar a Praça de braços abertos ao jeito de asas, voando por sobre as árvores, o Henrique Pousão, a fonte...
A ambição de voar e a coerência dos sonhos no atravessar de qualquer idade, tal qual a amizade que nos une, os aromas de todas as estações, do verão... e o capilé feito pela tua mãe para os teus lanches de aniversário e para os do Pedro, será sempre a melhor bebida do mundo para nos refrescarmos.
Tu cumpres hoje cinquenta anos, mas isso pouco importa; o passado é apenas a nossa história e guarda-se nos baús da memória, arejando-se às vezes nos serões das conversas de amigos.
E não fora a saudade desses dias em que nos apoiávamos nos braços que foram ramos do melhor tronco que nos fez fruto...
O que nos define a idade é tudo aquilo que queremos e sonhamos viver; e para nós é ainda muito mais do que o muito que já vivemos.
Continuamos rapazes a saltar entre os bancos de pedra da Praça, ou então a escondermos o rosto entre as mãos apoiadas no tronco da árvore onde prendiam o cartaz do cinema, na placa central e quase em frente à casa do Manuel, para que todos os outros desaparecessem no jogo das escondidas em que o último poderia "salvar tudo", ou seja todos aqueles que tinham sido apanhados pela visão de quem fizera a contagem até vinte.
Continuamos rapazes por entre as gargalhadas, as histórias, as cumplicidades, as memórias, os cheiros de todas as estações…
Seremos sempre novos na coerência de ousarmos voar por sobre as praças todas do universo.
E não fora a saudade…
João Paulo, muitos parabéns.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Que venha o mundo inteiro e lute contra mim…


Nunca existirá nada ao qual possamos tão legitimamente chamar nosso, do que aquilo que guardamos no coração.
Que venham “monstros”, super-heróis, “piratas” que ataquem nas “baías” dos dias e pela calada da noite; que a propriedade manter-se-á nossa, não deixando ruir jamais aqueles corredores discretos e íntimos entre nós e alma, os espaços de sofás e flores onde nos sentamos no silêncio para “namorar”.
Só nós gerimos, admitindo ou expulsando aquilo e quem “habita” semelhante recanto da alma, em processos indiferentes ao tempo: podem passar anos ou então ser tudo tão rápido…
E é sempre o nosso coração que tem o privilégio de oferecer o estatuto de eternidade.
O coração, onde sempre se guarda a verdade mais verdadeira, é também o melhor refúgio para os segredos, e não fora a tentação de bastas vezes eles espreitarem às janelas da face e de pincelarem os gestos que fazemos, e também poderíamos afirmar que era o “esconderijo” mais eficaz.
E o coração dói naqueles instantes em que persistimos em manter ligado às máquinas e numa muito íntima “Unidade de Cuidados Intensivos Emocionais”, todos aqueles que sabemos já estarem afectivamente mortos, e que se mantêm ali por pura persistência e ilusão da nossa parte.
No silêncio da noite passada e espreitando o luar pela janela aqui de casa, sentei-me contigo num daqueles sofás de namorar que existem no corredor entre mim e o coração; sentados os dois sem mais nada do que apenas nós.
Dali víamos o mar, e entre palavras e lembranças, na perfeição de um beijo pressenti a eternidade.
Que venha o mundo inteiro e lute contra mim…   

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Esta noite não parei de sonhar


Nos recantos mais secretos que a noite esconde em si e por entre os mistérios que só o luar às vezes revela, vive num palácio de janelas altas rasgadas por glicínias e palavras, um príncipe Celta encarregue de guardar o céu no seu olhar; todos os dias e após o pôr-do-sol.  
Herói e guardião do universo, há noites em que abandona o palácio levando sempre o céu consigo, e bate à porta de um pobre e humano pastor, entrando e sentando-se para conversar.
Diz o pastor que estas visitas se chamam sorte, e diz o príncipe que é muito bom ter com quem partilhar o céu.
Cúmplices de tanta vida, conversam longas horas à luz de um chá de camomila e de torradas barradas a compota de nêsperas ou cerejas colhidas na serra, provando que é demasiado ténue a fronteira entre a humana condição e a divindade dos heróis. Basta tão-só um quase imperceptível toque ao de leve na porta, de alguém que pede para entrar.
Um príncipe nas noites temperadas de lua e por entre uma história que marca a vida… ao jeito de uma lenda Celta.
Depois, quando a noite já se faz longa, o príncipe olha para o relógio e parte após dar um beijo ao pastor, muito a tempo de entregar o céu ao dia que se prepara para nascer.
O pastor descansa um pouco mais até sentir que clareou.
Depois levanta-se e corre para a rua para ir trabalhar, sempre com a tez sorridente dos apaixonados.
Diz quem o ouve que ele bendiz a sorte e não se cansa de repetir:
- Esta noite eu não parei de sonhar.


terça-feira, 2 de junho de 2015

Sente-se a brisa fresca do entardecer…


As cadeiras e a mesa de metal à esquina da praça acenam ao nosso cansaço e oferecem-nos repouso.
Não resistimos mais…
Sentamo-nos finalmente; ali algures entre o poeta e o eléctrico que acelera e passa cortando o vento.
Aos poucos, vamos enchendo a mesa com palavras, mas daquelas que nunca voam; as palavras que contam a história que fazemos juntos entrelaçando vontades.
O Sporting ganhou a Taça, o Benfica foi Campeão, juntámos as nossas camisolas num abraço e fizemos um país; Portugal, tal qual a nossa história.
O sol já partiu e sente-se a brisa fresca do anoitecer. Sinto-o particularmente nos braços descobertos enquanto escuto o seu sopro nas tílias que nos oferecem um tecto informal naquele instante.
Tu adivinhas-me o frio, fazes-me uma carícia, e quando te olho nos olhos percebo que já não há poeta, eléctrico ou mais alguém ou qualquer coisa; o teu olhar é o meu mundo na tarde de Lisboa.
Então, ajeito-me com as palavras e repouso deixando entrar um sonho grande, sem sequer fechar os olhos e adormecer.
O cansaço já partiu, levou com ele o desconforto e o frio.
E entre um sonho e outro sonho vou regressando ao teu olhar... para me aquecer.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A coerência de um só céu



O nosso beijo preserva o eco rubro das cerejas maduras, o canto doce que a terra tomou do sol nas manhãs de primavera, enquanto se espreguiçava a alvas flores na encosta íngreme que parece querer beijar o céu.
E este canto veio connosco até à beira mar, trouxemo-lo até aqui aonde as asas abertas das gaivotas rasgam o infinito, o tecto da casa perfeita que construímos para namorar; enquanto nos espreguiçamos a beijos nas tardes brancas de Lisboa.
A coerência de um só céu a cobrir terra e mar, e o nosso beijo transversal a latitudes, à longitude e ao tempo... compondo a poesia e convocando intermináveis as palavras...
Como cerejas por entre o rubro detalhe de um quase verão.