sexta-feira, 19 de junho de 2015

“O que espero da vida é nascer”


Gosto de temperar o silêncio com a sombra. Deixo acesa a luz do corredor, apago todas as da sala, e reclino-me no sofá para ir escrevendo como se o i-Pad fosse um muito privado écran de cinema onde eu teço histórias usando palavras.
O silêncio dá-me o tempo todo para te ouvir e falar contigo; a sombra apaga o meu espaço real e traz-me todo o universo onde os meus sonhos te veem e te sentem.
E assim não há serão que eu não passe contigo.
Hoje escrevo para ti no mesmo instante em que chega uma mensagem tua. Escutas "Corações sentidos corações" do Fausto e pensaste em mim.
Em 1985 fui com uns colegas de Faculdade comprar isqueiros descartáveis para irmos juntos à Reitoria a um concerto do Fausto e do seu "Despertar dos Alquimistas". Não queimámos os dedos e não consigo recordar-me se fizemos chama na altura da música que escutas agora, e que a determinada altura afirma que "o que espero da vida é nascer".
As tuas palavras chegaram perfeitas na voz de Fausto, e sobrepuseram-se a todos os sonhos com que a minha saudade povoava o silêncio desta noite reservada para pensar em ti.
As tuas palavras...
E eu nasço e renasço em cada confissão de amor.
Tudo faz sentido.
E o que espero da vida?
Continuar a nascer contigo todos os dias.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

As Montanhas Russas e as Alentejanas


O meu sobrinho João concluiu com êxito o quarto ano de escolaridade, e com apenas nove anos experimentou a sua primeira viagem de finalistas; um passeio de autocarro que o levou até Tavira e Sevilha juntamente com os colegas de escola.
Munido de um pequeno bloco Moleskine fez das suas folhas um "livro de bordo" que partilhou comigo num destes serões.
Entre outras coisas, fiquei a saber que um colega queria instituir o Dia Internacional da Directa para que ninguém pudesse dormir, que um outro se perdeu de amores pela paisagem e que uma colega ficou com fama de medrosa por ter chorado numa Montanha Russa da Isla Mágica.
Trouxe trabalho de casa numa encomenda literária que inclua uma aventura com os heróis João, Guilherme e Lourenço, e uma praia do Algarve com vestígios de Vikings.
Fará por estes dias trinta e nove anos que eu concluí o quarto ano, então quarta classe, e fui numa viagem de finalistas à Serra D' Ossa, nessa estonteante distância de vinte quilómetros de Vila Viçosa.
Cada um tem direito à sua montanha e se a colega do João teve a Russa, eu tive a Alentejana; com a vantagem de não ter medo e de beneficiar do fresco infinito das fontes.
Saímos cedo pela manhã e fizemos uma paragem no Redondo para visitarmos uma olaria e a fábrica dos Refrigerantes Botas; depois fomos até à zona do convento e fizemos por lá um piquenique com o que levávamos de casa.
Regressámos ao fim da tarde com o Dia Internacional da Directa a ser comemorado com uma camioneta directa a Vila Viçosa.
Terei feito uma redacção no dia a seguir onde por certo falei da Zarita ter destruído o fundo de uma assadeira de barro que ainda não tinha ido ao forno, que me deram uma garrafa de laranjada, que o Paulo Ratado tinha sido operado ao apêndice e não podia correr, que a avó Chica me tinha oferecido vinte escudos e eu tinha comprado uma chávena de barro que ainda lá está por casa... e que na merenda levava folhados de carne preparados pela minha mãe.
O Manuel não foi porque a professora dele não alinhou na aventura, e ficou triste. Também não sei se a Zinha e a Tina se recordam deste dia…
Perdi o rasto à redacção, por certo afogada entre as folhas de algum Caderno Diário, mas guardei os detalhes na lembrança e ressuscitei-os ao ler o caderno do João.
E para não perder tempo já comecei a pôr mãos à obra e a escrever algo da história da aventura algarvia, apercebendo-me que não conhecendo em detalhe os companheiros de aventura do meu sobrinho, me puxei a mim e aos meus colegas para dentro dela.
A fantasia das crianças é eterna cruzando os tempos todos, e nós tomamos o elixir da eternidade quando deixamos que ela sobreviva em nós, não a deixando vergar ao peso dos anos que passam.
No serão da casa do onze nos Olivais fiquei com a sensação de que só a saudade me denuncia nesse propósito de continuar a sentir-me criança.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Os instantes


Há instantes que fazem emergir a impotência das palavras na tradução da verdade daquilo que se sente.
Talvez os poetas se aproximem mais dessa verdade calando os tabus e matando as reservas na hora em que bebem inspiração da alma para a escolha e alinhamento das palavras certas…
São os instantes que nos fazem maiores, que mudam convicções, destroem convenções, sufocam impossíveis, saram feridas, apagam medos, restauram a fé, recarregam sorrisos; instantes que fazem emergir da vida as mais férreas e acesas vontades de lutar por tudo aquilo que mais se quer e que se sente.
São os instantes em que a alma se liberta das cartilhas e das sebentas que prendem os demissionários de si mesmos, os imbecis que afogam o rosto e a identidade, auto diluindo-se numa multidão apátrida e anónima onde jamais serão questionadas sobre o que quer que seja.
São os instantes da doce coerência entre a nossa génese e o caminho que fazemos.
No silêncio e no recato do carro, existiu um instante no domingo em que nos demos a mão e em que tu me foste dando beliscos suaves.
Desde então que busco as palavras certas para dar verdade ao que a alma me confidenciou nesse instante.
Ainda se ao menos eu fosse poeta…
Muito daquilo que já vivi fez sentido como vereda e viela para esse instante a que cheguei e de onde jamais irei partir.
Sim, venham os acusadores, os “Torquemada’s” em versão genérica, os indefectíveis da moral podre e bacoca…
Deus nunca poderá ter a expressão do amputar do amor verdadeiro que se sente.
E eu jamais apagarei esta força e esta crença.
Não me demito de mim.
E o que é que eu sou para lá desta forma de te amar assim…

terça-feira, 16 de junho de 2015

E apenas o desejo coerente e nosso


Da nossa tarde trouxe palavras infinitas que vou guardando em folhas brancas desenhadas a tinta de cor azul, e trouxe algumas fotos que tirámos e que eu vou revendo, sentindo às vezes por momentos, quase sempre que regresso do voo do pensamento, que as olho a sorrir.
Gosto particularmente daquela em que os nossos pés parecem beijar-se sobre o chão da beira Tejo, e sei bem do que falávamos por ali sentados enquanto um paquete dizia adeus a Lisboa, as ondas se entretinham esforçada e ruidosamente a calar a maré baixa e nós brincávamos com a elegância e a modernidade dos nossos sapatos.
Falávamos de futuro...
O mesmo futuro que nos fez caminhar depois mais um pouco de frente para o sol poente e nos ofereceu o instante de um abraço.
O espaço iluminado pelas paredes num tom lilás a lembrarem os campos da planície onde cresci a sonhar contigo...
O espaço que não consegue abafar o ruído estridente do eléctrico nos carris ousados de uma das curvas do Chiado, e que deixa vir até mim a Lisboa onde as ruas guardam grafitis tatuados pela minha solidão que chamava por ti...
E aquele abraço…
Nós e apenas o desejo coerente e nosso, na ausência total de “espaço” para as convenções e para as alfombras da moral.
Nós na verdade e na confluência vibrante de todos os sentidos.
Nós a voarmos, porque um Homem voa quando prende os braços a quem ama.
Não tive tempo de o dizer, pois breve dissemos o costumeiro até logo com que tentamos amenizar a despedida, e partimos por entre o cheiro a manjerico e a Santo António; mas digo-o agora assumindo-o inteiramente aqui: no domingo dei o melhor abraço de toda a minha existência.
Melhor, não dei, foste tu quem o ofereceu ao infinito desejo que durante toda a vida esperou que chegasses por entre um amor assim… perfeito.
O melhor abraço de sempre. Fica escrito para que sempre seja lembrado assim.
No regresso a casa, o volante já não estranha o gosto a sal que as minhas mãos lhe oferecem sempre que estou contigo. É que os olhos de tão entretidos a sorrir deixam escapar detalhes líquidos de uma alma que transborda felicidade.
E depois, até os meus pés têm saudades dos teus… e da beira Tejo. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Varandas inéditas



O teu amor abriu em mim novas varandas, generosos parapeitos rasgados e de primavera com vista para as cidades todas do universo.
Varandas, assentos privilegiados de onde o olhar se solta e voa sem temores ou cansaços trazendo-me a poesia na forma de mil palavras.
Sim, eu ganho o mundo inteiro nessas inéditas perspectivas iluminadas e viçosas que me ofereces em cada beijo, em cada abraço... no sossego infinito e doce de nunca estar só.
E os dias abrem-se de sol e a casa que sustenta este sentir tem sina e genética de Carmo e Trindade, imbatível e eterna colina de Lisboa à prova de dores, de terramotos e tormentas.
Por ti fico rés-vés com a sorte e agarro-a fazendo-a definitivamente minha.
Viverás para sempre aqui comigo na coerência do querer e da liberdade que semeia cravos em todos os amanheceres.
Novas varandas…
Cravos rubros, tal qual o sangue da torrente de um coração que é teu mas que bate em mim.


domingo, 14 de junho de 2015

As manhãs...


Há manhãs tecidas pela genética dos encontros, dealbar da saudade que a noite descobriu e revelou intensa por entre a distância.

Há manhãs de Junho denunciadas apenas pelo grito rubro da taça de cerejas maduras que ilumina a mesa do pequeno-almoço tomado a uma hora tardia.

São as manhãs temperadas de vontade, as manhãs que soubemos inventar em nós e a que legitimamente chamamos nossas pela força com que as desejámos.

E mesmo que o sol de Junho esteja oculto e o não possamos ver, entendemos que o céu vibra com a nossa festa e não resistiu a vir abraçar-nos de chuva.

O céu dos deuses, Olimpo da crença de todos os Homens e de todos os tempos alegra-se connosco e celebra com lágrimas férteis a alegria da madrugada que traz com ela a sina de um beijo.

Há manhãs que jamais deixarei morrer. 

Esta manhã.

sábado, 13 de junho de 2015

A noite de Santo António



São nove e meia da noite e a auto-estrada A5 a caminho de Lisboa vai tão cheia quanto nas manhãs dos dias de labor.
Ao chegar ao túnel nas Amoreiras, viro para Campolide e consigo estacionar no parque do Marquês de Pombal.
Saio para a Feira do Livro, vou até à banca do "Nós" e já de caminho para a Avenida não resisto e compro uma fartura.
Atravesso a rotunda sem trânsito e sem bicampeão a sacudir o açúcar que se aloja na barba juntamente com o gosto a canela, e ainda muito a tempo de ver o aquecimento da Bica na pré-descida da Avenida.
Eu desço pelo lado esquerdo e apercebo-me que já ninguém marcha. As trupes dos bairros dançam debaixo das luzes na zona das bancadas e entre actuações, aproveitam para fumar um cigarro, as raparigas aliviam os calcantes dos sapatos apertados e acode-se ao chamamento da família e dos amigos.
Continuo a descer e oferecem-me uma sardinha de cartão. Os meus sobrinhos irão deliciar-se com ela embora suspirem por um capacete de manjerico ou de sardinha que vemos na cabeça de muita gente.
Passa Alcântara com carteiros, cartas e marcos de correio. Ouço atrás de mim:
- Se isto é marcha... “ganda” porcaria.
Sentado junto ao gradeamento, um homem que cantou o tempo todo e sabia as letras "afina" e atira:
- Isto é moderno. “Nã” percebem nada.
E afinfa para a do contra:
- Ié, ié é é... Alcântara é que é.
Deixo-os a discutirem bravamente a estética “marchante” e sigo entre a multidão procurando um WC. Entro na Padaria Portuguesa e vejo uma fila enorme. Tento confirmar com a última da fila se a espera é necessária:
- Avance que isto é só para a das mulheres. A sua está vazia.
E não resiste ao desabafo para a colega do lado:
- Raios partam isto. Os gajos pelo menos mijam de pé e é só sacudirem e já está.
Ah grande noite de Santo António Lisboa que traz o povo até à Avenida, definitivamente.
Saio e apetece-me uma cerveja.
Os Restauradores estão impossíveis e tento a Rua das Portas de Santo Antão.
A malta veio toda comigo mas vislumbro uma mesa e sento-me:
- Venham imperiais e algo para comer… pica-pau, por exemplo.
O homem aponta-me para o tampo da mesa e para os desenhos do Kebab e das chamuças.
- Venham então as imperiais.
O café é Indiano, o homem será Hindu mas leva com um espontâneo “Feliz Santo António” quando me despeço já com a cerveja tomada. É a universalidade da festa de Lisboa e o homem sorri.
Vou em direcção à Praça da Figueira e tenho dificuldade em seguir na multidão acumulada sobretudo junto às portas das tascas de venda de ginja.
Chego e escolho um manjerico.
- Há de quatro, seis e dez Euros.
Diz-me a vendedora.
- Um de seis mas com um cravo encarnado.
Entre a liberdade e o Benfica…
Mas recomendo:
- Se a quadra falar do Jorge Jesus eu não quero.
- Qual quê… senhor. Hoje somos todos campeões.
E aproveita o balanço para o pregão:
- Olhó o manjerico. É regar e pôr ao “luariiiii”.
À esquina explico a um grupo de estrangeiros qual o caminho para o Intendente. Quando chegarem e se alguém acender um fósforo ao pé deles puxa-lhes fogo.
Já há marchas dentro de autocarros para regressarem aos respectivos bairros. Alfama vai aos gritos e como sardinha em lata.
Sigo…
Subo a Avenida pelo lado direito e passa Benfica.
Uma grita ali ao pé:
- Ié, ié é é... Benfica é que é.
Um ali ao lado avisa:
- Vê lá se te enganas?
- Não engano nada. Olha lá o Tó Mané. E olha a Vanessa que até vem deste lado.
Fujo.
Vejo uma tenda de sandes com presunto serrano e afinfo-lhe na dita com mais cerveja. Sempre é mais luso que a chamuça.
Passa o Alto do Pina com a madrinha Teresa Guilherme.
Esta vai ganhar.
Continuo a subir a Avenida e da Alexandre Herculano para cima é só brigadas de limpeza e carros de lavagem de rua.
Sento-me numa cadeira de uma bancada vazia antes de subir o resto e de passar pela banca das farturas e comer mais uma.
A A5 vai cheia de carros em direcção a Cascais e eu sigo com as barbas polvilhadas de açúcar e canela.
Viva o Santo António.