domingo, 21 de junho de 2015

"NÓS" em Vila Viçosa


Voltarei sempre aqui à minha eterna casa onde a alma se faz maior e transborda de palavras em instantes onde acontece a poesia.

Voltarei e trarei comigo colado aos pés e ao ser, o mundo inteiro que tomei por vontade e ousadia, para me sentar quiçá à sombra de uma laranjeira da Praça e sentir-me perder no tempo e na consciência daquilo que é passado e do que existe e é presente; se tudo isso eu sou em cada instante.

Voltarei para juntar afectos, todos os perpétuos amores, e celebrá-los por entre o abraço terno e constante dos olhares que para mim têm nome e uma história entrançada na minha própria história.

Voltarei para restaurar memórias nas noite quentes do solstício de Junho, beber da paz da água que corre em cada fonte, fazer o olhar tomar cor das sardinheiras que a mãe pôs na varanda e que brilham por sobre o tom alvo da cal...

Voltarei por entre o estio e a calma, mais feliz e completo do que nunca por entre a festa do encontro do berço com o melhor destino.

Voltarei...

sábado, 20 de junho de 2015

Há tanto tempo...



A noite quente denuncia a traição do tempo: já é verão.

Não tardará o solstício, mas este chão em brasa, o forno que o sol todo o dia incendiou, antecipou-se e tem marca indelével de Alentejo e estio.

Conheço-me destas noites e sigo com a mãe e o pai tentando caçar o fresco na esperança das esquinas da próxima rua.

Paramos de vez em quando para dois dedos de conversa; porque nos cruzamos com caçadores de brisa iguais a nós ou então porque os grupos sentados à porta reclamam um beijo enfeitado de palavras.

E tudo começa sempre com um "há tanto tempo".

A Maria aprendeu... ou melhor, tentou aprender a costurar lá em casa quando a minha mãe fazia vestidos, saias e blusas na casa da Rua de Três às clientes que escolhiam modelos de roupa folheando a elegância de uma Burda ou outros figurinos.

- Há tanto tempo... a tua mãe pedia para eu te ir adormecer e tu nunca querias dormir. Eu punha os meus dedos sobre os teus olhos, forçava-te a dormir, mas tu acabavas sempre a abri-los e a falar.

Pois...

Também me reconheço nisto.

Depois paramos os três junto à Fonte Pequena porque o som da água a correr parece que também refresca.

Deixamo-nos estar por ali à conversa.

Os três numa conversa que nunca saberei se é eterna ou se tem a minha idade, porque estas palavras, estas pausas e estes sorrisos... são tão meus quanto o sangue que me percorre carregado da genética daquilo que sou.

E regressamos a casa.

A noite dispensa lençóis, mantas, pijama... e já deitado sobre a velha cama eu escrevo para ti palavras de amor.

Resisto aos dedos fortes do cansaço e mantenho os olhos abertos.

Há tanto tempo...

Eu esperava que chegasses e fui compondo palavras que guardei para ti.

Ao ritmo de uma noite de verão, da minha história, deste estio e deste luar, ao som das fontes... palavras tão minhas quanto as da genética do meu ser.

E nem me recordo do instante em que adormeci.

Ao lado, sobre a mesa de cabeceira há um poema que só hoje escrevi para ti mas com palavras de há tanto tempo.


Falam de amor.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

“O que espero da vida é nascer”


Gosto de temperar o silêncio com a sombra. Deixo acesa a luz do corredor, apago todas as da sala, e reclino-me no sofá para ir escrevendo como se o i-Pad fosse um muito privado écran de cinema onde eu teço histórias usando palavras.
O silêncio dá-me o tempo todo para te ouvir e falar contigo; a sombra apaga o meu espaço real e traz-me todo o universo onde os meus sonhos te veem e te sentem.
E assim não há serão que eu não passe contigo.
Hoje escrevo para ti no mesmo instante em que chega uma mensagem tua. Escutas "Corações sentidos corações" do Fausto e pensaste em mim.
Em 1985 fui com uns colegas de Faculdade comprar isqueiros descartáveis para irmos juntos à Reitoria a um concerto do Fausto e do seu "Despertar dos Alquimistas". Não queimámos os dedos e não consigo recordar-me se fizemos chama na altura da música que escutas agora, e que a determinada altura afirma que "o que espero da vida é nascer".
As tuas palavras chegaram perfeitas na voz de Fausto, e sobrepuseram-se a todos os sonhos com que a minha saudade povoava o silêncio desta noite reservada para pensar em ti.
As tuas palavras...
E eu nasço e renasço em cada confissão de amor.
Tudo faz sentido.
E o que espero da vida?
Continuar a nascer contigo todos os dias.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

As Montanhas Russas e as Alentejanas


O meu sobrinho João concluiu com êxito o quarto ano de escolaridade, e com apenas nove anos experimentou a sua primeira viagem de finalistas; um passeio de autocarro que o levou até Tavira e Sevilha juntamente com os colegas de escola.
Munido de um pequeno bloco Moleskine fez das suas folhas um "livro de bordo" que partilhou comigo num destes serões.
Entre outras coisas, fiquei a saber que um colega queria instituir o Dia Internacional da Directa para que ninguém pudesse dormir, que um outro se perdeu de amores pela paisagem e que uma colega ficou com fama de medrosa por ter chorado numa Montanha Russa da Isla Mágica.
Trouxe trabalho de casa numa encomenda literária que inclua uma aventura com os heróis João, Guilherme e Lourenço, e uma praia do Algarve com vestígios de Vikings.
Fará por estes dias trinta e nove anos que eu concluí o quarto ano, então quarta classe, e fui numa viagem de finalistas à Serra D' Ossa, nessa estonteante distância de vinte quilómetros de Vila Viçosa.
Cada um tem direito à sua montanha e se a colega do João teve a Russa, eu tive a Alentejana; com a vantagem de não ter medo e de beneficiar do fresco infinito das fontes.
Saímos cedo pela manhã e fizemos uma paragem no Redondo para visitarmos uma olaria e a fábrica dos Refrigerantes Botas; depois fomos até à zona do convento e fizemos por lá um piquenique com o que levávamos de casa.
Regressámos ao fim da tarde com o Dia Internacional da Directa a ser comemorado com uma camioneta directa a Vila Viçosa.
Terei feito uma redacção no dia a seguir onde por certo falei da Zarita ter destruído o fundo de uma assadeira de barro que ainda não tinha ido ao forno, que me deram uma garrafa de laranjada, que o Paulo Ratado tinha sido operado ao apêndice e não podia correr, que a avó Chica me tinha oferecido vinte escudos e eu tinha comprado uma chávena de barro que ainda lá está por casa... e que na merenda levava folhados de carne preparados pela minha mãe.
O Manuel não foi porque a professora dele não alinhou na aventura, e ficou triste. Também não sei se a Zinha e a Tina se recordam deste dia…
Perdi o rasto à redacção, por certo afogada entre as folhas de algum Caderno Diário, mas guardei os detalhes na lembrança e ressuscitei-os ao ler o caderno do João.
E para não perder tempo já comecei a pôr mãos à obra e a escrever algo da história da aventura algarvia, apercebendo-me que não conhecendo em detalhe os companheiros de aventura do meu sobrinho, me puxei a mim e aos meus colegas para dentro dela.
A fantasia das crianças é eterna cruzando os tempos todos, e nós tomamos o elixir da eternidade quando deixamos que ela sobreviva em nós, não a deixando vergar ao peso dos anos que passam.
No serão da casa do onze nos Olivais fiquei com a sensação de que só a saudade me denuncia nesse propósito de continuar a sentir-me criança.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Os instantes


Há instantes que fazem emergir a impotência das palavras na tradução da verdade daquilo que se sente.
Talvez os poetas se aproximem mais dessa verdade calando os tabus e matando as reservas na hora em que bebem inspiração da alma para a escolha e alinhamento das palavras certas…
São os instantes que nos fazem maiores, que mudam convicções, destroem convenções, sufocam impossíveis, saram feridas, apagam medos, restauram a fé, recarregam sorrisos; instantes que fazem emergir da vida as mais férreas e acesas vontades de lutar por tudo aquilo que mais se quer e que se sente.
São os instantes em que a alma se liberta das cartilhas e das sebentas que prendem os demissionários de si mesmos, os imbecis que afogam o rosto e a identidade, auto diluindo-se numa multidão apátrida e anónima onde jamais serão questionadas sobre o que quer que seja.
São os instantes da doce coerência entre a nossa génese e o caminho que fazemos.
No silêncio e no recato do carro, existiu um instante no domingo em que nos demos a mão e em que tu me foste dando beliscos suaves.
Desde então que busco as palavras certas para dar verdade ao que a alma me confidenciou nesse instante.
Ainda se ao menos eu fosse poeta…
Muito daquilo que já vivi fez sentido como vereda e viela para esse instante a que cheguei e de onde jamais irei partir.
Sim, venham os acusadores, os “Torquemada’s” em versão genérica, os indefectíveis da moral podre e bacoca…
Deus nunca poderá ter a expressão do amputar do amor verdadeiro que se sente.
E eu jamais apagarei esta força e esta crença.
Não me demito de mim.
E o que é que eu sou para lá desta forma de te amar assim…

terça-feira, 16 de junho de 2015

E apenas o desejo coerente e nosso


Da nossa tarde trouxe palavras infinitas que vou guardando em folhas brancas desenhadas a tinta de cor azul, e trouxe algumas fotos que tirámos e que eu vou revendo, sentindo às vezes por momentos, quase sempre que regresso do voo do pensamento, que as olho a sorrir.
Gosto particularmente daquela em que os nossos pés parecem beijar-se sobre o chão da beira Tejo, e sei bem do que falávamos por ali sentados enquanto um paquete dizia adeus a Lisboa, as ondas se entretinham esforçada e ruidosamente a calar a maré baixa e nós brincávamos com a elegância e a modernidade dos nossos sapatos.
Falávamos de futuro...
O mesmo futuro que nos fez caminhar depois mais um pouco de frente para o sol poente e nos ofereceu o instante de um abraço.
O espaço iluminado pelas paredes num tom lilás a lembrarem os campos da planície onde cresci a sonhar contigo...
O espaço que não consegue abafar o ruído estridente do eléctrico nos carris ousados de uma das curvas do Chiado, e que deixa vir até mim a Lisboa onde as ruas guardam grafitis tatuados pela minha solidão que chamava por ti...
E aquele abraço…
Nós e apenas o desejo coerente e nosso, na ausência total de “espaço” para as convenções e para as alfombras da moral.
Nós na verdade e na confluência vibrante de todos os sentidos.
Nós a voarmos, porque um Homem voa quando prende os braços a quem ama.
Não tive tempo de o dizer, pois breve dissemos o costumeiro até logo com que tentamos amenizar a despedida, e partimos por entre o cheiro a manjerico e a Santo António; mas digo-o agora assumindo-o inteiramente aqui: no domingo dei o melhor abraço de toda a minha existência.
Melhor, não dei, foste tu quem o ofereceu ao infinito desejo que durante toda a vida esperou que chegasses por entre um amor assim… perfeito.
O melhor abraço de sempre. Fica escrito para que sempre seja lembrado assim.
No regresso a casa, o volante já não estranha o gosto a sal que as minhas mãos lhe oferecem sempre que estou contigo. É que os olhos de tão entretidos a sorrir deixam escapar detalhes líquidos de uma alma que transborda felicidade.
E depois, até os meus pés têm saudades dos teus… e da beira Tejo. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Varandas inéditas



O teu amor abriu em mim novas varandas, generosos parapeitos rasgados e de primavera com vista para as cidades todas do universo.
Varandas, assentos privilegiados de onde o olhar se solta e voa sem temores ou cansaços trazendo-me a poesia na forma de mil palavras.
Sim, eu ganho o mundo inteiro nessas inéditas perspectivas iluminadas e viçosas que me ofereces em cada beijo, em cada abraço... no sossego infinito e doce de nunca estar só.
E os dias abrem-se de sol e a casa que sustenta este sentir tem sina e genética de Carmo e Trindade, imbatível e eterna colina de Lisboa à prova de dores, de terramotos e tormentas.
Por ti fico rés-vés com a sorte e agarro-a fazendo-a definitivamente minha.
Viverás para sempre aqui comigo na coerência do querer e da liberdade que semeia cravos em todos os amanheceres.
Novas varandas…
Cravos rubros, tal qual o sangue da torrente de um coração que é teu mas que bate em mim.