terça-feira, 23 de junho de 2015

Procurem-me sempre entre as palavras que escrevo…


Eu sou todas as palavras que escrevo, muito mais do que algo que de mim se possa ver.
Porque se é verdade que o poeta é um fingidor e realmente finge, também é verdade que nunca o faz na alma de onde bebe as palavras e o seu sentido, fá-lo por entre os biombos que os dias tantas vezes lhe impõem.
Por isso eu sou todo o amor que canto...
O amor por ti e só por ti; tu, o único que entendes o sentido de cada letra e o único que pode reconhecer-lhe a verdade.
Não há disfarces e camuflagens para aquilo que se sente e sobre o qual fala o pensamento; e é a essência que nos define, muito mais do que a forma.
Porque também há beijos que são traições, e até os ateus sabem apontar os braços para o Céu.
Por isso as minhas mãos são de quem lhes semeou desejo infinito, muito mais do que de quem lhe possa entrelaçar os dedos nos instantes que o mundo vê. Por isso o meu abraço é infinitamente teu mesmo que às vezes eu chore de saudade estendendo os braços aparentemente vazios, ao silêncio de uma noite de luar em que não estás aqui.
Eu sou todas as palavras que escrevo…
E tendo-te guardado na essência de onde elas nascem, posso dizer que entre nós se calaram as fronteiras; e hoje eu sou o perfume do teu amor sobre todos os dias.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Notas à solta num caderno sem cor

O Primeiro-ministro diz que é um mito urbano, o seu suposto convite à emigração. As mensagens não necessitam ser passadas pelos próprios e o desemprego é tão eficaz a mandar estes recados.

A gente do PS está em choque com o facto das sondagens lhes atribuírem votos em número idêntico ao da coligação do governo. Se estivessem atentos às estatísticas que revelam que em Portugal apenas 1% da população sofre de demência talvez não se espantassem tanto.


No passado 10 de Junho, o Presidente da República condecorou o costureiro da mulher. Aguardo com expectativa o dia em que a minha mãe receberá condecoração pois sendo modista de profissão e estando habituada a fazer saias para mesas redondas de diâmetros avantajados...

O líder do PS diz que nenhum dos seus ministros permanecerá em funções se estiver envolvido em suspeitas de corrupção. Pois... mas gostaríamos que ele dissesse que sobre nenhum dos seus ministros recairiam alguma vez suspeitas de corrupção. Que grande confiança no grupo de potenciais ministeriáveis...

Passos Coelho disse que precisamos de colocar a poesia na nossa vida. À excepção da trasladação do corpo do Eusébio para junto da campa de Sophia, no Panteão, sinceramente não me recordo de qualquer outra aproximação do povo à poesia que ele tenha promovido.

A ex-Ministra da Cultura, a última, afirmou que ao rejeitar a pulseira electrónica, José Sócrates não estava a vitimizar-se, pois estava apenas a pretender ficar numa situação pior. Quem se vitimiza costuma querer apresentar-se numa situação melhor? Parece que Ministério da Cultura já não existe há quatro anos mas o Ministro da Cultura já não existe há muito mais tempo.

Em relação a José Sócrates há quem continue a confundir "Preso Político" com "Político Preso". E os outdoors espalhados pelo país são cá de um respeito pela justiça...

Uma tenda e a nossa casa


No cimo do monte de onde se avistam os campanários, onde os pássaros quase nos beijam no voo das suas asas, e de onde à noite os cachos de luz revelam a geografia que nos rodeia aquém e para lá do Guadiana; construímos uma tenda em lugar seguro.
Sobre o chão da História, por entre as lendas criadas pelo tempo e as árvores que eu conheço de brincar, uma tenda envolta nos aromas das estações do meu calendário de criança.
Depois acendemos archotes para nos alumiarem nas noites mais escuras em que não se sinta a lua, e com a sua chama oferecemos eco e sombra ao abraço eterno e envolto em beijos, que será sempre a nossa forma de lá morar.
A nossa tenda em tons de azul tal qual o céu que se vê nos dias claros e perfeitos.
E que venham tormentas, raios e ventos, que soltem sobre nós ferozes Adamastores em todos os cabos e no dobrar dos dias...
Que venham e nos chamem loucos, infelizes e insensatos.
Resistiremos sempre agarrados à raiz de um amor assim perfeito e eterno.
Até o vento será uma sinfonia.
Esta tenda… este abraço será para sempre a nossa casa.

domingo, 21 de junho de 2015

"NÓS" em Vila Viçosa


Voltarei sempre aqui à minha eterna casa onde a alma se faz maior e transborda de palavras em instantes onde acontece a poesia.

Voltarei e trarei comigo colado aos pés e ao ser, o mundo inteiro que tomei por vontade e ousadia, para me sentar quiçá à sombra de uma laranjeira da Praça e sentir-me perder no tempo e na consciência daquilo que é passado e do que existe e é presente; se tudo isso eu sou em cada instante.

Voltarei para juntar afectos, todos os perpétuos amores, e celebrá-los por entre o abraço terno e constante dos olhares que para mim têm nome e uma história entrançada na minha própria história.

Voltarei para restaurar memórias nas noite quentes do solstício de Junho, beber da paz da água que corre em cada fonte, fazer o olhar tomar cor das sardinheiras que a mãe pôs na varanda e que brilham por sobre o tom alvo da cal...

Voltarei por entre o estio e a calma, mais feliz e completo do que nunca por entre a festa do encontro do berço com o melhor destino.

Voltarei...

sábado, 20 de junho de 2015

Há tanto tempo...



A noite quente denuncia a traição do tempo: já é verão.

Não tardará o solstício, mas este chão em brasa, o forno que o sol todo o dia incendiou, antecipou-se e tem marca indelével de Alentejo e estio.

Conheço-me destas noites e sigo com a mãe e o pai tentando caçar o fresco na esperança das esquinas da próxima rua.

Paramos de vez em quando para dois dedos de conversa; porque nos cruzamos com caçadores de brisa iguais a nós ou então porque os grupos sentados à porta reclamam um beijo enfeitado de palavras.

E tudo começa sempre com um "há tanto tempo".

A Maria aprendeu... ou melhor, tentou aprender a costurar lá em casa quando a minha mãe fazia vestidos, saias e blusas na casa da Rua de Três às clientes que escolhiam modelos de roupa folheando a elegância de uma Burda ou outros figurinos.

- Há tanto tempo... a tua mãe pedia para eu te ir adormecer e tu nunca querias dormir. Eu punha os meus dedos sobre os teus olhos, forçava-te a dormir, mas tu acabavas sempre a abri-los e a falar.

Pois...

Também me reconheço nisto.

Depois paramos os três junto à Fonte Pequena porque o som da água a correr parece que também refresca.

Deixamo-nos estar por ali à conversa.

Os três numa conversa que nunca saberei se é eterna ou se tem a minha idade, porque estas palavras, estas pausas e estes sorrisos... são tão meus quanto o sangue que me percorre carregado da genética daquilo que sou.

E regressamos a casa.

A noite dispensa lençóis, mantas, pijama... e já deitado sobre a velha cama eu escrevo para ti palavras de amor.

Resisto aos dedos fortes do cansaço e mantenho os olhos abertos.

Há tanto tempo...

Eu esperava que chegasses e fui compondo palavras que guardei para ti.

Ao ritmo de uma noite de verão, da minha história, deste estio e deste luar, ao som das fontes... palavras tão minhas quanto as da genética do meu ser.

E nem me recordo do instante em que adormeci.

Ao lado, sobre a mesa de cabeceira há um poema que só hoje escrevi para ti mas com palavras de há tanto tempo.


Falam de amor.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

“O que espero da vida é nascer”


Gosto de temperar o silêncio com a sombra. Deixo acesa a luz do corredor, apago todas as da sala, e reclino-me no sofá para ir escrevendo como se o i-Pad fosse um muito privado écran de cinema onde eu teço histórias usando palavras.
O silêncio dá-me o tempo todo para te ouvir e falar contigo; a sombra apaga o meu espaço real e traz-me todo o universo onde os meus sonhos te veem e te sentem.
E assim não há serão que eu não passe contigo.
Hoje escrevo para ti no mesmo instante em que chega uma mensagem tua. Escutas "Corações sentidos corações" do Fausto e pensaste em mim.
Em 1985 fui com uns colegas de Faculdade comprar isqueiros descartáveis para irmos juntos à Reitoria a um concerto do Fausto e do seu "Despertar dos Alquimistas". Não queimámos os dedos e não consigo recordar-me se fizemos chama na altura da música que escutas agora, e que a determinada altura afirma que "o que espero da vida é nascer".
As tuas palavras chegaram perfeitas na voz de Fausto, e sobrepuseram-se a todos os sonhos com que a minha saudade povoava o silêncio desta noite reservada para pensar em ti.
As tuas palavras...
E eu nasço e renasço em cada confissão de amor.
Tudo faz sentido.
E o que espero da vida?
Continuar a nascer contigo todos os dias.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

As Montanhas Russas e as Alentejanas


O meu sobrinho João concluiu com êxito o quarto ano de escolaridade, e com apenas nove anos experimentou a sua primeira viagem de finalistas; um passeio de autocarro que o levou até Tavira e Sevilha juntamente com os colegas de escola.
Munido de um pequeno bloco Moleskine fez das suas folhas um "livro de bordo" que partilhou comigo num destes serões.
Entre outras coisas, fiquei a saber que um colega queria instituir o Dia Internacional da Directa para que ninguém pudesse dormir, que um outro se perdeu de amores pela paisagem e que uma colega ficou com fama de medrosa por ter chorado numa Montanha Russa da Isla Mágica.
Trouxe trabalho de casa numa encomenda literária que inclua uma aventura com os heróis João, Guilherme e Lourenço, e uma praia do Algarve com vestígios de Vikings.
Fará por estes dias trinta e nove anos que eu concluí o quarto ano, então quarta classe, e fui numa viagem de finalistas à Serra D' Ossa, nessa estonteante distância de vinte quilómetros de Vila Viçosa.
Cada um tem direito à sua montanha e se a colega do João teve a Russa, eu tive a Alentejana; com a vantagem de não ter medo e de beneficiar do fresco infinito das fontes.
Saímos cedo pela manhã e fizemos uma paragem no Redondo para visitarmos uma olaria e a fábrica dos Refrigerantes Botas; depois fomos até à zona do convento e fizemos por lá um piquenique com o que levávamos de casa.
Regressámos ao fim da tarde com o Dia Internacional da Directa a ser comemorado com uma camioneta directa a Vila Viçosa.
Terei feito uma redacção no dia a seguir onde por certo falei da Zarita ter destruído o fundo de uma assadeira de barro que ainda não tinha ido ao forno, que me deram uma garrafa de laranjada, que o Paulo Ratado tinha sido operado ao apêndice e não podia correr, que a avó Chica me tinha oferecido vinte escudos e eu tinha comprado uma chávena de barro que ainda lá está por casa... e que na merenda levava folhados de carne preparados pela minha mãe.
O Manuel não foi porque a professora dele não alinhou na aventura, e ficou triste. Também não sei se a Zinha e a Tina se recordam deste dia…
Perdi o rasto à redacção, por certo afogada entre as folhas de algum Caderno Diário, mas guardei os detalhes na lembrança e ressuscitei-os ao ler o caderno do João.
E para não perder tempo já comecei a pôr mãos à obra e a escrever algo da história da aventura algarvia, apercebendo-me que não conhecendo em detalhe os companheiros de aventura do meu sobrinho, me puxei a mim e aos meus colegas para dentro dela.
A fantasia das crianças é eterna cruzando os tempos todos, e nós tomamos o elixir da eternidade quando deixamos que ela sobreviva em nós, não a deixando vergar ao peso dos anos que passam.
No serão da casa do onze nos Olivais fiquei com a sensação de que só a saudade me denuncia nesse propósito de continuar a sentir-me criança.