quarta-feira, 24 de junho de 2015

A revolta dos joanetes


Chegou finalmente o verão, e por estes dias quentes e longos, a moda de 2015 não se fez esperar e chegou intensa, radiosa e... rasteira.
De um momento para o outro reparei que as minhas colegas que antes tinham crescido 10 a 15cm (na altura) se devolviam agora ao seu tamanho original; o de sempre, na ressurreição do ditado que as aproxima da sardinha e da petinga (“a mulher e a sardinha quer-se pequenina”).
Intrigado, fui à procura dos sapatos compensados ao estilo Drag Queen em noite de “Lugar às Novas” no Finalmente Club, e já não os encontrei.
No lugar destas plataformas andantes patrocinadoras do “doping da altura” que aproximou as Portuguesas às Suecas, encontrei umas rasteiras sandálias parecidas com as dos penitentes das procissões da Semana Santa de Sevilha, o que num grupo mais ou menos considerável de mulheres fica a parecer uma concentração de figurantes para uma reinvenção do Ben Hur.
Com saias compridas, também temos a sensação de que a Dulce Pontes sofreu um processo de multiplicação e está em todo o lado pronta a cantar descalça a “Canção do Mar”; ou então de que aquela boneca da Feira Popular que dizia “cinco tostões na mão da Dora que a Dora diz tudo”, se soltou por aí a ler as sinas à malta em ano de eleições.
De facto, foi o “25 de Abril” dos joanetes.
As mulheres Portuguesas fazem dos pés um compêndio aberto de ortopedia e revelam-nos a pujança dos artelhos, dos joanetes, das calosidades, dos dedos mais ou menos encavalitados… ou seja, de tudo aquilo que durante anos viveu nos seus “calcantes” mas de um modo abafado no silêncio discreto dos seus sapatos.
E algumas bem que poderiam continuar a mantê-los em silêncio…
Assim, ganham as pedicuras que têm mais dez unhas como aliadas para ganharem o pão, e ganham os joanetes que se libertam definitivamente de apertos.
Uma vitória dos ditos por goleada sobre nós e sobre o bom gosto numa revolta que em vez de cravos traz unhas (algumas com resquícios de onicomicoses), mas também em geral encarnadas, como manda a tradição.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Procurem-me sempre entre as palavras que escrevo…


Eu sou todas as palavras que escrevo, muito mais do que algo que de mim se possa ver.
Porque se é verdade que o poeta é um fingidor e realmente finge, também é verdade que nunca o faz na alma de onde bebe as palavras e o seu sentido, fá-lo por entre os biombos que os dias tantas vezes lhe impõem.
Por isso eu sou todo o amor que canto...
O amor por ti e só por ti; tu, o único que entendes o sentido de cada letra e o único que pode reconhecer-lhe a verdade.
Não há disfarces e camuflagens para aquilo que se sente e sobre o qual fala o pensamento; e é a essência que nos define, muito mais do que a forma.
Porque também há beijos que são traições, e até os ateus sabem apontar os braços para o Céu.
Por isso as minhas mãos são de quem lhes semeou desejo infinito, muito mais do que de quem lhe possa entrelaçar os dedos nos instantes que o mundo vê. Por isso o meu abraço é infinitamente teu mesmo que às vezes eu chore de saudade estendendo os braços aparentemente vazios, ao silêncio de uma noite de luar em que não estás aqui.
Eu sou todas as palavras que escrevo…
E tendo-te guardado na essência de onde elas nascem, posso dizer que entre nós se calaram as fronteiras; e hoje eu sou o perfume do teu amor sobre todos os dias.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Notas à solta num caderno sem cor

O Primeiro-ministro diz que é um mito urbano, o seu suposto convite à emigração. As mensagens não necessitam ser passadas pelos próprios e o desemprego é tão eficaz a mandar estes recados.

A gente do PS está em choque com o facto das sondagens lhes atribuírem votos em número idêntico ao da coligação do governo. Se estivessem atentos às estatísticas que revelam que em Portugal apenas 1% da população sofre de demência talvez não se espantassem tanto.


No passado 10 de Junho, o Presidente da República condecorou o costureiro da mulher. Aguardo com expectativa o dia em que a minha mãe receberá condecoração pois sendo modista de profissão e estando habituada a fazer saias para mesas redondas de diâmetros avantajados...

O líder do PS diz que nenhum dos seus ministros permanecerá em funções se estiver envolvido em suspeitas de corrupção. Pois... mas gostaríamos que ele dissesse que sobre nenhum dos seus ministros recairiam alguma vez suspeitas de corrupção. Que grande confiança no grupo de potenciais ministeriáveis...

Passos Coelho disse que precisamos de colocar a poesia na nossa vida. À excepção da trasladação do corpo do Eusébio para junto da campa de Sophia, no Panteão, sinceramente não me recordo de qualquer outra aproximação do povo à poesia que ele tenha promovido.

A ex-Ministra da Cultura, a última, afirmou que ao rejeitar a pulseira electrónica, José Sócrates não estava a vitimizar-se, pois estava apenas a pretender ficar numa situação pior. Quem se vitimiza costuma querer apresentar-se numa situação melhor? Parece que Ministério da Cultura já não existe há quatro anos mas o Ministro da Cultura já não existe há muito mais tempo.

Em relação a José Sócrates há quem continue a confundir "Preso Político" com "Político Preso". E os outdoors espalhados pelo país são cá de um respeito pela justiça...

Uma tenda e a nossa casa


No cimo do monte de onde se avistam os campanários, onde os pássaros quase nos beijam no voo das suas asas, e de onde à noite os cachos de luz revelam a geografia que nos rodeia aquém e para lá do Guadiana; construímos uma tenda em lugar seguro.
Sobre o chão da História, por entre as lendas criadas pelo tempo e as árvores que eu conheço de brincar, uma tenda envolta nos aromas das estações do meu calendário de criança.
Depois acendemos archotes para nos alumiarem nas noites mais escuras em que não se sinta a lua, e com a sua chama oferecemos eco e sombra ao abraço eterno e envolto em beijos, que será sempre a nossa forma de lá morar.
A nossa tenda em tons de azul tal qual o céu que se vê nos dias claros e perfeitos.
E que venham tormentas, raios e ventos, que soltem sobre nós ferozes Adamastores em todos os cabos e no dobrar dos dias...
Que venham e nos chamem loucos, infelizes e insensatos.
Resistiremos sempre agarrados à raiz de um amor assim perfeito e eterno.
Até o vento será uma sinfonia.
Esta tenda… este abraço será para sempre a nossa casa.

domingo, 21 de junho de 2015

"NÓS" em Vila Viçosa


Voltarei sempre aqui à minha eterna casa onde a alma se faz maior e transborda de palavras em instantes onde acontece a poesia.

Voltarei e trarei comigo colado aos pés e ao ser, o mundo inteiro que tomei por vontade e ousadia, para me sentar quiçá à sombra de uma laranjeira da Praça e sentir-me perder no tempo e na consciência daquilo que é passado e do que existe e é presente; se tudo isso eu sou em cada instante.

Voltarei para juntar afectos, todos os perpétuos amores, e celebrá-los por entre o abraço terno e constante dos olhares que para mim têm nome e uma história entrançada na minha própria história.

Voltarei para restaurar memórias nas noite quentes do solstício de Junho, beber da paz da água que corre em cada fonte, fazer o olhar tomar cor das sardinheiras que a mãe pôs na varanda e que brilham por sobre o tom alvo da cal...

Voltarei por entre o estio e a calma, mais feliz e completo do que nunca por entre a festa do encontro do berço com o melhor destino.

Voltarei...

sábado, 20 de junho de 2015

Há tanto tempo...



A noite quente denuncia a traição do tempo: já é verão.

Não tardará o solstício, mas este chão em brasa, o forno que o sol todo o dia incendiou, antecipou-se e tem marca indelével de Alentejo e estio.

Conheço-me destas noites e sigo com a mãe e o pai tentando caçar o fresco na esperança das esquinas da próxima rua.

Paramos de vez em quando para dois dedos de conversa; porque nos cruzamos com caçadores de brisa iguais a nós ou então porque os grupos sentados à porta reclamam um beijo enfeitado de palavras.

E tudo começa sempre com um "há tanto tempo".

A Maria aprendeu... ou melhor, tentou aprender a costurar lá em casa quando a minha mãe fazia vestidos, saias e blusas na casa da Rua de Três às clientes que escolhiam modelos de roupa folheando a elegância de uma Burda ou outros figurinos.

- Há tanto tempo... a tua mãe pedia para eu te ir adormecer e tu nunca querias dormir. Eu punha os meus dedos sobre os teus olhos, forçava-te a dormir, mas tu acabavas sempre a abri-los e a falar.

Pois...

Também me reconheço nisto.

Depois paramos os três junto à Fonte Pequena porque o som da água a correr parece que também refresca.

Deixamo-nos estar por ali à conversa.

Os três numa conversa que nunca saberei se é eterna ou se tem a minha idade, porque estas palavras, estas pausas e estes sorrisos... são tão meus quanto o sangue que me percorre carregado da genética daquilo que sou.

E regressamos a casa.

A noite dispensa lençóis, mantas, pijama... e já deitado sobre a velha cama eu escrevo para ti palavras de amor.

Resisto aos dedos fortes do cansaço e mantenho os olhos abertos.

Há tanto tempo...

Eu esperava que chegasses e fui compondo palavras que guardei para ti.

Ao ritmo de uma noite de verão, da minha história, deste estio e deste luar, ao som das fontes... palavras tão minhas quanto as da genética do meu ser.

E nem me recordo do instante em que adormeci.

Ao lado, sobre a mesa de cabeceira há um poema que só hoje escrevi para ti mas com palavras de há tanto tempo.


Falam de amor.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

“O que espero da vida é nascer”


Gosto de temperar o silêncio com a sombra. Deixo acesa a luz do corredor, apago todas as da sala, e reclino-me no sofá para ir escrevendo como se o i-Pad fosse um muito privado écran de cinema onde eu teço histórias usando palavras.
O silêncio dá-me o tempo todo para te ouvir e falar contigo; a sombra apaga o meu espaço real e traz-me todo o universo onde os meus sonhos te veem e te sentem.
E assim não há serão que eu não passe contigo.
Hoje escrevo para ti no mesmo instante em que chega uma mensagem tua. Escutas "Corações sentidos corações" do Fausto e pensaste em mim.
Em 1985 fui com uns colegas de Faculdade comprar isqueiros descartáveis para irmos juntos à Reitoria a um concerto do Fausto e do seu "Despertar dos Alquimistas". Não queimámos os dedos e não consigo recordar-me se fizemos chama na altura da música que escutas agora, e que a determinada altura afirma que "o que espero da vida é nascer".
As tuas palavras chegaram perfeitas na voz de Fausto, e sobrepuseram-se a todos os sonhos com que a minha saudade povoava o silêncio desta noite reservada para pensar em ti.
As tuas palavras...
E eu nasço e renasço em cada confissão de amor.
Tudo faz sentido.
E o que espero da vida?
Continuar a nascer contigo todos os dias.