segunda-feira, 6 de julho de 2015

Eu nasço em todos os instantes em que me abraço à minha liberdade


Eu nasço em todos os instantes em que me abraço à minha liberdade.
O chão de milénios e as ruinas dos palácios de outrora enfeitam os jardins por onde ecoa perpétuo o grito dos heróis. Há gambiarras que rasgam a noite e projectam de nós sombras disformes enquanto buscamos o recanto de uma velha fonte que se rendeu ao tempo e desistiu da água.
Lá muito em baixo, ao fundo e nas margens do rio, soa uma música que fala de amor e de navegar. Trovas do tempo em que crescemos.
E a fonte parece ter sido esculpida para nos acolher nesta noite quente de verão varrida pelo vento, muito mais do que para soltar a água num caudal generoso e sem fim.
Então, nós calamos o proibido, matamos as convenções e entregamo-nos a um abraço sem nos importarmos qual a sombra que dele projectam os focos e as gambiarras; sem queremos saber daquilo que dele se possa ver ou contar. 
Somos nós.
Eu estou abraçado a ti, e por ti à minha liberdade.
Junto ao rio soltam fogo colorido e fazem festa.
E eu por aqui sinto que nasci.    

domingo, 5 de julho de 2015

O dia dos meus anos



Muito dobrada e gasta pelo tempo, guardo no álbum uma foto do dia do meu terceiro aniversário. Um fato azul por certo costurado pela mãe, e uma pose de bem comportado, que toda a gente que me conheceu na altura é unânime em dizer que me assentava bem.
De sonso, diria eu.
Porque desde cortar o meu próprio cabelo com uma tesoura, de usar uma extensão eléctrica como microfone e ter queimado o queixo quando a liguei à corrente, para além de ser o maior consumidor de Mercurocromo da reserva que a minha saudosa vizinha Irmã Madalena tinha no hospital; de tudo fiz.
Adorava contar histórias que eu inventava e de as escutar, aproveitando os serões de inverno para me abraçar às minhas tias e às minhas avós que usavam uns xailes fantásticos, macios e quentes.
E gostava muito de rir.
Hoje é dia 5 de Julho e cumpro 49 anos tendo passado já quarenta e seis anos desde a estreia do fato azul.
Hoje já não cortei o cabelo, mas aparei a barba grisalha, cantei sem acesso a qualquer tomada e pus o creme habitual dispensando o Mercurocromo.
Escrevi um poema de amor da mais bonita história e vou a correr dar um beijo e um abraço aos meus pais; não ao serão mas ao almoço.
Sem xaile, porque é verão, mas jamais haverá calor igual àquele que os seus olhos me oferecem quando me dizem que jamais alguém me amará assim dessa forma tão completa.
Talvez também cante no carro enquanto cruzo a planície, pensando por certo no meu irmão, no João, no Luís, na Fátima, na família e nos amigos todos que me oferecem os dias felizes; pensarei na pessoa mais bonita do universo que chegou para me ensinar que o amor pode ser tudo o que sonhamos; e rezarei o terço como o faço em viagem, por entre a fé que me assiste e que é muito maior do que qualquer convenção estabelecida pelos Homens.
E rir-me-ei muito... por tudo e pela alegria imensa de gostar e de me orgulhar de mim no previsível e nas diferenças.
Sozinho, sigo naquele estado que aos mais distraídos até pode parecer solidão; como se quem ama assim não tivesse sempre o mundo inteiro nos seus braços.
E sigo indiferente ao tempo e à idade, porque os dias todos que chegarem só os quero para ser feliz… contigo.
Um abraço do Quim para todos.

sábado, 4 de julho de 2015

Rimas e bolos, um texto para não diabéticos


O meu amigo Daniel Espanca ficou encantado porque o poema “Vivo contigo”, que faz parte do livro NÓS que eu e o Ângelo Rodrigues lançámos recentemente, fala de Bolas de Berlim. Durante a sessão de lançamento em Vila Viçosa pediu-me poesia com mais variedade de bolos e eu hoje faço-lhe a vontade:
A história que vou contar
É do tempo da minha avó
Eterna como o “Folar”
Doce como o “Pão-de-ló”
Lá para os lados da linha
Existia uma tia bem “Queque”
“Babá” era o nome que tinha
Dama de “Suspiros” e leque
“D. Rodrigo” era seu marido
Partilhava o seu “Travesseiro”
Um “Russo” algo delambido
“Pampilho” muito matreiro
Já ia “Torta” aquela união
Quando por quase nada
Irrompe uma discussão
E ele leva com uma “Queijada”
Ela ouviu das boas
Um “Jesuíta” foi chamado pela criada
E enquanto se queimavam as “Broas”
Acabaram à “Tigelada”
Todo sujo na honra e na gravata
Disse-lhe ele com uma raiva sem sim
- Querias ser um “Pastel de Nata”
Mas és gorda, uma “Bola de Berlim”
Incrédula, ela disse: hannn?
- Tu comigo estás tramado
Pensas que és um “Croissant”
Mas nem chegas a um “Bom bocado”
E o divórcio não tardou
“Guardanapos” e “Lençóis” divididos
“Mil folhas” que o juiz lavrou
Impropérios jamais ouvidos
Assim se vê como a vida é um teste
Aquilo que às vezes o amor é
Ele hoje bebe Vodka lá no leste
Ela come “Brioches” na Garrett

E agora e como diria a minha amiga Béquim nos tempos clandestinos da Rádio Campanário:
- Bom apetitiiii.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A viagem nocturna dos poetas


Dizem que os poetas entrelaçam o pensamento no luar e saem pelas noites cavalgando terras infinitas colhendo delas as palavras que desenham mais tarde sobre folhas brancas que ficarão eternamente tatuadas pelo perfume da rebeldia.
E nesses passeios imunes à neblina e ao impossível há pontes improváveis entre gente, lugares e instantes, há rosas irracionais a florescerem sem pudor em incansáveis primaveras, há a música dos dias que tomaram vida da raiz mais profunda da vontade…
Há um paraíso desenhado sobre o breu; que os poetas jamais se renderão e assumirão para si um irremediável destino negro de solidão.
Na noite de Julho que trouxe com ela a lua cheia e acendeu os luzeiros todos que o céu guarda, tomei a tua mão para que subíssemos juntos a serra até ao topo onde àquela hora o mar apenas se intui pela brisa salgada que corre veloz para nos envolver.
Chegados, fiz-te ainda mais perto num abraço que se dissolveu nas sombras dos milhares de troncos beijados pela lua, um abraço de onde se soltaram livres e rebeldes palavras de amor.
E deixámo-nos ficar por ali não sei durante quanto tempo, que por te querer eternamente qualquer hora passada contigo tem o brevíssimo sabor de um segundo.
Só dei conta de que já amanhecera quando vi espreguiçadas sobre uma folha branca as palavras de amor que reconheci dos segredos que trocámos durante toda a noite.
E por entre a rebeldia, reconheci-te em todas as palavras; entre as flores, os pêssegos e os corações de tudo quanto me ditas, estava escrita a história perfeita do nosso amor.
Com rebeldia e pela vontade… como quem sonha: a poesia.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Um estranho chá das cinco


Falta muito pouco para as cinco da tarde, eu já acabei o trabalho e mantém-se aquela humidade terrível que se nos cola à pele. Estando na terra da única plantação Europeia de chá e sendo eu conterrâneo de D. Catarina de Bragança, nada mais natural do que sentar-me numa esplanada de Ponta Delgada e pedir um chá verde da Gorreana, mas gelado.
O empregado responde com um não ao meu pedido, só tem Ice Tea engarrafado e com diferentes sabores, e eu tenho de lhe explicar que com um chá e um copo cheio de gelo eu próprio resolverei a situação.
Ele traz o que lhe peço e fica a olhar para mim tão incrédulo que quase me faz sentir um excêntrico Harry Potter em missão feiticeira, ou então quiçá apenas um farmacêutico a manipular algo num patrocinado regresso aos primeiros anos da minha profissão. Mas não se queda ali por muito pois breve corre para junto das colegas com o objectivo de discutir as agruras do horário de trabalho, que pelo tom de voz com que o fazem partilham com a esplanada e as adjacentes.
Como se o objectivo de quem se senta numa esplanada num dia quente de verão fosse a discussão das condições laborais dos funcionários num debate ao estilo “Arménio Carlos no Jornal da Noite da SIC Notícias”…
Entretanto apercebo-me que atrás de mim, um ancião grita ao telemóvel com tal intensidade que é impossível não me aperceber que regressou ontem à ilha e está a convocar os amigos, pelos vistos da sua idade:
- Tu ainda conduzes?
Vejo algo de profético nisto: eu a chegar a Vila Viçosa daqui a 40 anos e a telefonar ao Manuel depois de ter ido à Farmácia Monte comprar o “Corega” para a placa e ter ido comprar sacos para a algália.
- Pega no carro e aparece lá em Santana.
E depois desliga e liga a outro...
Do outro lado há um casal que assina um contrato de aluguer de uma viatura e a mulher, que tem as unhas pintadas de salmão fluorescente, também grita numa conversa com a rapariga da agência que traz uma T-shirt vermelha com um tamanho três números abaixo do indicado e que parece a “Dolly Parton Micaelense”:
- Eu quero ir ver tudo pois já conheço o mundo inteiro e nunca vi aos Açores. Ai meu Deus o que eu gosto das Caraíbas e de um hotel em que eu acordo, digo "bom dia mori" e depois mergulho pela janela. Porque  sabe, eu cá vivo na linha mas nunca paro em casa. Sempre a viajar como o meu marido.
Pelo tom de voz estridente da senhora que denuncia a sua afinidade com a Cristina Ferreira, pelas jeans que o marido veste e que parecem ter sido desenhadas pelo seu pior inimigo, pelo cordão que o mesmo senhor traz ao pescoço, pela classe da viatura que alugaram e porque as verdadeiras tias não dizem "não achas mori?"... eu concluo que esta tia é falsa.
E estridente.
Mais à frente tenho um grupo de turistas que falam em Inglês com sotaque Americano, e que, agarrados a um guia de viagem discutem quais os itens que lhes faltam para cumprirem as “Masterpieces” de Portugal, andando em busca do "Caldooo vêde", como se de Indiana Jones se tratassem.
Talvez fosse bom irem à procura de Cracas para Ponte de Lima…
Resta-me um último refúgio: as notícias no i-Phone.
"A minha prisão visa apenas impedir que o PS ganhe as próximas eleições", afirmou Sócrates.
Pois é...
Outro que não se cala e me grita aos ouvidos.
Nós, os Portugueses, até somos todos estúpidos e fáceis de enganar com manobras deste género.
Bem sei que não achamos o caminho da fortuna de forma tão hábil quanto ele, mas daí até concluir que somos burros...
Volto a pôr o i-Phone no bolso.
Paz é coisa que não tenho ali naquela Babel situada cinematograficamente entre o “Voando sobre um ninho de cucos” e as “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. Com o empregado a ter muito de “Nelo e Idália num concerto do Tony Carreira”.
Fico a um pequeno passo de gritar que "acabou o Carnaval de Ovar", mas resolvo sair discretamente não sem antes acabar de beber o chá; eu, o mudo naquele universo pimba.
Diz-se que a D. Catarina convocava o chá às 17 horas para assinalar quais as damas faltosas, aquelas que assim ficavam na linha da frente como supostas amantes do rei.
A avaliar pelo meu chá de hoje e seguindo o mesmo raciocínio de faltas, concluo que o Camões está em paz; quem o poderia ter ido chatear preferiu-me a mim.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Julho


Irromperei por Julho levando comigo o canto à solta de uma paixão que partilha casa com a minha alma, as palavras mais irreverentes e doces, mil beijos guardados no desejo que nos buscará sempre nas tardes perfeitas junto ao rio, os instantes em que as asas das gaivotas se interpõem entre nós e o céu... e voam connosco na dança dos mais inquietos e ousados poetas.

Seguirei, cúmplice da noite, no chão desenhado pela lua cheia sobre o mar e as suas sombras; sabendo que qualquer noite é apenas o breve hiato de um abraço desenhado para sonhar contigo.

Seguirei pelo doce das ameixas maduras, o fresco tom rubro da melancia, o aroma de um verão sem reservas e tecido por dias longos que se espreguiçam nos areais quando o pôr-do-sol aviva o tom de sal da brisa que vem do mar.

Seguirei pelo chão da vontade de todos os meus passos, pela liberdade.

Caminharei pelas histórias que colherei dos livros nos recantos das palavras que adoçarei com o fresco tom de um chá gelado.

Irromperei por Julho...

Seguindo contigo no conforto do eco das flores que a primavera nos deixou tatuado entre os dedos devotos de carícias.

Seguirei pelos beijos e a amar-te tão infinitamente numa casa com jardim e ares de paraíso, uma casa perfeita e inacessível às palavras.




terça-feira, 30 de junho de 2015

Diário de bordo


Os dois cálices de Porto desentorpecem e soltam as confidências, mas com muito pouco de novidade nas palavras, habituados que estamos os dois à linguagem dos olhares e dos gestos, os infalíveis fiéis à verdade incapazes de respeitarem quaisquer silêncios que lhes sejam sugeridos.
Eu amo-te, e o meu braço que te envolve inquieto desde o Chiado e a mão que te acaricia a cada minuto às vezes incompleto, não se têm cansado de o dizer.
Porque o amor que semeias em mim transborda, suplanta todos os poros e todas as expressões; sinto-o aqui nesta mesa onde estamos frente-a-frente à sombra de uma casa de Lisboa.
E entre nós, o néctar fresco da cor do ouro vai-se sumindo aos poucos nos tragos que enfeitam as palavras que falam de nós.
Vejo-te perfeito e faço-te uma foto.
Como se a minha memória pudesse alguma vez trair a eternidade guardada no teu olhar que abençoa este instante?
Depois voltamos a caminhar...
Não tardamos a sentar o nosso abraço à proa da cidade, olhando o rio e desfolhando uma história que hoje vem enfeitada pela flor de uma sardinheira lilás que atravessou comigo todos os verões.
Sentimos a brisa e sentimo-nos definitivamente heróis desta pátria dos sentidos conquistada após tanto navegar.
Enquanto os Cacilheiros desenham no Tejo uma estrada de espuma, nós damos um beijo e rogamos ao tempo que passe devagar; queremos sentir cada segundo destes quantos que nos levarão juntos até à noite.
A noite mãe de uma tenda que o luar coroa e onde nós entramos, a casa onde desdobramos a alma, decompomos os muros das reservas, e nos aconchegamos por entre a partilha de doces segredos.
Cada tijolo que cai revela-me de ti o desejo nascido em mim pela vontade, e oferece à nossa história todos os anos que eu já vivi.
Depois adormeço a pensar em ti… mas sempre à proa da cidade.