segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Rua do Ouro


O comboio chegou há pouco a Santa Apolónia e nem foi preciso buscar a porta de saída da estação, deixei-me caminhar pelo impulso da multidão que desceu comigo para o cais, aqui e ali em slalom por entre abraços ou o carregar difícil de uma mala mais pesada que sai pela janela.
Depois, o átrio, as falas da gente, os pregões dos vendedores, o andar das pessoas que se cruzam apressadas… e aquela inédita luz.
Lisboa oferece luz e um aroma de entre rio e mar na brisa do seu primeiro beijo, e eu deslumbrado deixo-me ir caminhando até ao Terreiro do Paço, mão esquerda dada ao Tejo que me namora desde o primeiro olhar.
Sigo pela irracionalidade da ausência de qualquer mapa, guiado apenas por esta paixão que aos poucos me vai tomando os passos; o instinto doce e rebelde dos apaixonados.
Sigo entre a gente; uma mochila pequena, jeans e a camisa num tom azul forte, os sapatos moldados por amor; sigo com uma história colada às mãos e à alma, a terra fresca e molhada abraçada aos pés descalços nas tardes de verão, o beijo do meu pai, os sonhos maiores do que todas as calçadas da minha cidade…     
Os sonhos e as asas como estas das gaivotas que penteiam o Terreiro no meio dia de Lisboa quando eu sigo pela luz da cidade e espreito ao longe a ponte para lá da curva do abraço que Alcântara oferece ao Tejo.
Paro, respiro fundo, e de mãos nos bolsos sigo depois até à Rua do Ouro subindo-a ao jeito de quem busca o Rossio.
Passam os autocarros, os eléctricos que enfeitam de um amarelo garrido a Rua da Conceição e a Calçada de São Francisco, os táxis que apitam no primeiro segundo de um semáforo verde, os vendedores de cautelas e de jornais, os triciclos carregados de fruta madura pronta a ir para casa em cartuxos de papel pardo…
E esta luz de Lisboa… sempre esta luz.
Ajeito novamente as mãos nos bolsos e não consigo evitar sorrir colocando o meu olhar em rima perfeita com o céu da Cidade Branca… hoje apagou-se o eco de todos os meus velhos amores e cheguei à casa de onde jamais irei partir.
Eu e Lisboa há milénios que esperávamos por este nosso abraço.
Nós nascemos e somos de todos os momentos que nos alinham com o destino que expressa a nossa liberdade.
E continuo a subir a Rua do Ouro.
Lisboa 1982.

domingo, 19 de julho de 2015

Eu, a nossa casa.


Enfeito o meu caminho com uma música das minhas muitas estradas, abraço-me com força ao pensamento e vazo da tarde o impossível, sentando-te ao meu lado no carro que cruza a charneca por entre o calor de Julho.
Agora somos dois e uma velha canção... e de repente o dia vestiu-se de liberdade.
Eu sou cúmplice dos pássaros que correm entre os sobreiros despidos e a giesta que repousa depois da festa do ouro da sua primavera, eu sou do mesmo tom rosado e rubro maduro das ameixas que debruam o muro baixo e cravejado de musgo de uma velha quinta, eu sou como a casa simples e branca com rodapé num tom azul alinhado com o céu...
Eu sou essa casa construída pelo tempo, com os tijolos e as telhas da minha vontade, e onde sentado à soleira passei meia vida à espera que chegasses e outra meia a sonhar contigo; a casa que construí para ti e onde vivemos agora.
Eu, a nossa casa.
Às vezes e por instantes, solto do volante a mão direita e procuro-te no lugar fisicamente vazio. Pela força com que te quero e o pensamento te faz presente, até o meu corpo acredita que estás mesmo ali e que te pode tocar na seda perfeita que te envolve a pele.
A pele do toque que tatua em mim o maior e mais absoluto desejo.
Depois, sem se importar, a mão regressa ao volante e seguimos estrada fora.
Ela sabe que és meu e nunca tardas.
Seguimos…
Eu, tu, e uma tarde perfeita e de liberdade, mas debruada com as saudades de um beijo.
Freddie Mercury continua a cantar:
Every drop of rain that falls in Sahara Desert says it all. It's a miracle”.
A liberdade e a morte dos impossíveis na aparência de um milagre, mas sou apenas eu, tu… e a nossa casa.

sábado, 18 de julho de 2015

A verdadeira história da “Ratazana de Caxinas”


Na carreira para Caxinas
Entre cantigas e gritos
Segue a Tóia da Vicência
De cognome “A Ratazana”
Que é também filha do Alcides
Um Mestre Capataz

Com salão de beleza aberto há pouco tempo
Cabeleireira por bênção das Novas Oportunidades
Desafia todas as regras…
O bom gosto
O charme
A decência...
Com os penteados arrojados que faz
Ataques de Farandol a cabeças de todas as idades

O seu marido
O "João Ratão"
Com quem anda sempre atrás
É polícia daqueles à paisana
Mas pelo bom ar que apresenta mais parece andar sempre disfarçado de ladrão

Galã das dúzias
Que isso tem inscrito nos genes
Dá de olhar arremelgado para a Micas Garoupa que por tão bem nadar Recebeu dos amigos o sobrenome de Phelps

Com a Ratazana atenta à música das Cocktail que escutava no seu MP3
O Ratão seguia na maior

Mas foram tantas as que fez
Que a mulher de repente se apercebe...

Oh meu grande vadio
E tu minha gata nadadora
Ponho-te as unhas de gel no pescoço e tu vais de vez

Ordinária
Gatafunho
Trabant sem uso e sem concerto
Passaporte fora de prazo

A atirar-se ao meu jeitoso…

Jeitoso?
Grita a outra

Oh filha fica com ele
Tão piroso

Avança então uma Brasileira
Loura e cliente da Ratazana
Mais o marido que vem a cambalear
E não acerta logo à primeira no intuito de à Phelps o cabelo puxar

Mas depois consegue e com muita força

A Micas saca então de uma Chaputa
Fresca e enrolada numa folha de jornal
E pegando no rabo do peixe dá com ele na cara da Paulista

Toma lá que assim já não vais mal

E de dentro do MP3
Continua a soltar-se música
Cocktail
Rita Ribeiro
"O que passou passou"
Mais outras do festival

O chefe do sindicato bate as palmas
Uma Ucraniana mostra o dente de ouro

O Ratão está bravo
Investe nas três que nem um touro

Enquanto a malta reclama
Isto vai atrasar-se
Nunca mais chegamos às Caxinas

O motorista faz uma travagem a fundo
E mete conversa com outro com quem se cruza

Vai aqui uma cena que nem tu imaginas

Coisas do fim do mundo?

Uma cena que já não se usa.

E grita para dentro do autocarro
Tudo para a rua

Grita a Ucraniana:
Estás parvooo o meuuu… Qual é a tua?

E a Phelps ainda com respirar cansado também grita do meio da cena

Eu só saio à porta das piscinas.

A Ratazana derrotada sai da cena amarga que nem o fel
Chora e grita para o marido

Estás a ver…
Por causa de ti estou toda desgrenhada e parti as unhas de gel

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Porque um marinheiro nunca deixa envelhecer o seu amor pelo mar...


Como um velho marinheiro, olho o mar de frente sentindo-lhe o sal… e nas mãos pousadas sobre a rocha, sobrevive este tatuado rigor das cordas puxadas como quem chama para si o mundo inteiro.
A pele a denunciar a história de cada um.
Não há sombras para quem está assim sentado na praia, e o sol é meu e bebo-o a cada instante, todo, intenso, forte ao meio dia quando me tinge o olhar de lágrimas na minha persistência de saborear o azul com que desde a madrugada perfumou o mar.
Como um velho marinheiro…
Eu conheço de cor as marés e o tom de todas as luas, tão bem como conheço o coração que vai batendo lentamente enquanto as barbas se tingem de branco… e depois mais branco…
Como um velho marinheiro…
Jamais temerei o tempo mesmo sabendo que ele me encaminha para o ponto final que é destino de todos os Homens; porque o meu tempo, diz-me o coração, é a festa eterna de uma mão que me acaricia com pequenos beliscos, quando estás sentado ao meu lado na rocha enfrentando o mar e bebendo do sol toda a sua luz:
- Gosto tanto do toque da tua pele… do contraste das duas peles assim juntas.
As nossas histórias definitivamente cruzadas.
E eu respondo apenas com um beijo, que é como quem diz:
- Amo-te e amar-te-ei sempre, mesmo sob a possível sombra de qualquer dia.
Porque um marinheiro nunca deixa envelhecer o seu amor pelo mar. 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Por mais que canela e açafrão


O verão acorda o vento em São Marcos numa recorrência e coerência que o tornam muito próximo e familiar, uma verdadeira e contínua banda sonora dos meus serões neste tempo de calor.
Tenho a noção de que por estar sempre presente, às vezes já nem dou por ele. Mas também é certo que nalguma pausa me paro para o ouvir e seguir pela imaginação no decifrar de algo que me possa dizer.
Fico à janela a escutar o vento e a ver ao longe o mar.
Este ano o condomínio resolveu pintar o prédio, e assim, tenho por estes dias um andaime e panos opacos entre mim e o Atlântico. As persianas agradecidas por não sofrerem os costumeiros abanões estão devidamente corridas até ao máximo da escuridão, por segurança e porque há muito pó no ar.
E parece que só o vento, a melancia do jantar e o ar quente parecem querer oferecer coerência a este mês de Julho.
Ontem, sentado à noite no sofá ao lado da lareira, tomei do vento um painel de sons que agrupei em palavras que tivessem nexo.
Adamastor ou Mostrengo, como respectivamente para Camões ou Pessoa, sonhei-o monstro mas tomei-lhe das tormentas a fé que restaura a boa esperança.
As palavras.
E vi o mar, não porque ele me aparecesse à janela, mas porque o sonhei tão intensamente que o fiz real.
Tal qual como na vida.
Só, mas com uma caravela, “voei” para Calecute para muito mais do que apenas Canela ou Açafrão.
Voei para ti nas palavras de amor que escrevi.
Que venha o mundo e que sopre o vento, eu seguirei pela boa esperança e por onde nada a alma teme.
E a ver o mar.
  

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Passa connosco no Rossio


O teu olhar já matou a imensa sede de beijos que eu trazia em mim, quando nos sentamos os dois à sombra do Castelo e pedimos ao Ginger Ale que nos refresque a tarde que ainda vai quente.
Uma bebida com palavras, muito mais do que com gelo; com o muito que o coração e a saudade nos pedem que digamos a prolongar o tempo até ao instante em que a bebida já se rendeu e colheu do sol o tom quente do verão, e não refresca nada.
E as palavras são pedaços de nós que se soltam, se entrelaçam no abraço que caminha depois pela cidade, na brisa e no tom do rio que se rende ao pôr-do-sol, no voo irrequieto das gaivotas, na cidade inteira que não nasceu para mais nada senão para ser a casa do amor perfeito que os dois lhe oferecemos no superlativo deste querer.
Um pastel de bacalhau, um naco de presunto e um gelado do Santini, um copo de cidra e um brinde à sorte; com o olhar ainda e sempre acendido nos beijos incansáveis que o desejo nos implora.
Regressamos.
A Rua Augusta tem o rendilhado de mil falas que sobrepõem uma Babel imensa aos desenhos a preto e branco da calçada; o Rossio, à sombra do Carmo, o altar da liberdade, canta afinado pelo riso imenso de quem passa…
Lisboa, um serão de Julho.
E o amor que passa por mim…
Passa connosco no Rossio. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Odisseia


Percorrerei quilómetros, a Terra, o universo inteiro... mas voltarei sempre aqui à proa da cidade, a Ítaca que almejo em tantas Odisseias que fiz minhas.

O horizonte colhido entre duas colunas, o Terreiro, Lisboa, o cais onde o Tejo nos beija, e tu, o céu perfeito que me abraça e me adopta, porta aberta para o Olimpo que é a casa dos loucos que ousam sonhar, muito mais do que dos deuses.

Abraço-me a ti, dou-te um beijo que traz com ele os aromas todos do verão da eterna Olisipo, os morangos e os figos maduros na pátria eterna dos amores cantados em todos os fados.

Quero ficar para sempre aqui onde as palavras me acodem aos lábios, as palavras que tu me vais ditando à alma em cada passo, em cada olhar...

Quero ficar para sempre aqui a oferecer ao rio o reflexo do mais perfeito abraço: eu e tu.

Ou quando Lisboa sorri ao entardecer, vaidosa por ser a casa do mais completo dos amores.