sexta-feira, 24 de julho de 2015

Lá fora chove... mas é verão.


Há dias de Julho em que as nuvens e a chuva parecem trair o verão, mas no fundo e afinal, são apenas frescos repousos, fontes de um incansável fôlego para que não se nos escape nem um só detalhe dos dias de sol que estão a chegar.

Uma pedra no caminho pode ser um banco para nos sentarmos a descansar, uma montanha difícil de subir aproxima-nos definitivamente do "céu" e dá-nos melhores horizontes, uma palavra feia dá lustro de valor às palavras de amor, a saudade faz-nos tão próximos do amor, um silêncio amplifica a música que se liberta de um beijo ou de um abraço...

E os dias da dor são breves passagens para os momentos pelos quais nascemos, são troços da rota para o mar que nos espera sempre por entre uma imensa festa de azul.

Escrevo este texto numa das salas de espera do IPO de Coimbra, e faço-o como quem responde a duas senhoras à minha frente que me "beijaram" com o seu olhar algures entre o triste e a esperança.

Escrevo estas palavras que talvez nunca lerão, porque acredito que enquanto o faço, o meu olhar as vá projectar até elas num beijo doce que lhes avive a esperança.

Lá fora chove... mas é verão.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

“Já viste a lua"?


Por entre a maior cumplicidade e quase ao bater da meia-noite, os poetas mandam mensagens uns aos outros:
“Já viste a lua"?
Estranhas coisas e manias que têm os excêntricos e os loucos?
Não.
Talvez apenas pequeníssimos e naturais detalhes de quem durante o dia falou da vida e dos seus amores, de quem se encontrou na esquina da ousadia com a vontade, o ponto de encontro daqueles que não sabem e não querem frenar nunca os sentimentos, porque jamais se demitirão de si próprios.
Os poetas, vivos e como nunca, sem a restrição de um clube qualquer e da prudência, porque deles será sempre o universo inteiro.
E eu por acaso não vi a lua.
Adormeci cedo com o patrocínio de um cansaço a que não ofereci resistência, embalado e impelido que estava também pela vontade de sonhar e me deixar voar até ao tempo desenhado a cores, um calendário tecido da poesia solta das mãos de quem eu amo com a cumplicidade de todas as luas.
Soube hoje de manhã:
“A lua estava fantástica, a crescer e com um sorriso fantástico”.
Eu não a vi imperial, a crescer e a sorrir no céu estrelado de Julho, mas senti-a inteira e minha em tudo aquilo que a noite me deu; o amor que se abraça a nós e nos segue no instante de acordar; quando passamos pelo espelho e nos apercebemos:
- Olha, estou a sorrir.  
Mandamos uma mensagem de amor a quem nos traça assim um tempo a cores…
E depois manda-se um beijo ao poeta; que ele nunca deixe de partilhar comigo os detalhes que vê na lua.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

"Atão"...


Se "a minha pátria é a Língua Portuguesa", e quem sou eu para contrariar Fernando Pessoa; direi que nesta "ditosa pátria minha amada", assumindo também inteiramente a partilha deste sentimento com Luís de Camões, o meu mais íntimo recanto é a fala do sul com um claro sotaque Alentejano.
Numa das salas de espera do Hospital de Évora, enquanto Julho quase puxava a temperatura para os quarenta graus, a D. Joaquina falava dos benefícios de um "capacho" (gaspacho), e eu a começar a sentir-me irremediavelmente na intimidade do meu lar pátrio.
A D. Antónia tem um problema com o feminino, fala na "genra" (nora) e na "canzinha" (cadela), mas disserta de forma escorreita sobre a utilização dos sacos com água na soleira das portas "por mor" (por mercê/por causa) das moscas.
“A modes” (parece) que é uma engenheira.
O Sr. Joaquim tem um problema no "estâmago" (estômago) e não se cansa de dizer que "o Maneli queria vir cómigo".
Eu estou definitivamente em casa e até esta do "cómigo" é cobrança frequente do meu sobrinho João quando a utilizamos no fulgor de uma estadia em Vila Viçosa; para já não falar das ditas cobranças relativas à "mantêga" que pomos nas torradas.
A D. Antónia está morta por meter conversa e resolve perguntar-me finalmente:
- "Atã foi cê pai?"
- Sim. Respondi eu mas já com o contágio a provocar um resvalar para o "simmm".
Assim mesmo, ao ritmo dos quarenta graus: lentamente.
Ninguém disse, mas poderia ter dito que ia "à da nha'avó"; fosse inverno e alguém por certo diria que estava à espera que "escampasse" (parar de chover); existisse por ali uma barraca de feira e alguém sairia para comprar "brinhol" (farturas); quiçá alguém fosse "aventar" (deitar fora) alguma coisa.
E eu sempre a sentir-me em casa até ao momento em que uma voz feminina diz aos microfones:
- Pede-se às pessoas que "estã" na sala de espera o favor de fazerem menos barulho para poderem ouvir chamar “p’los númaros” e “p’los nomiis”.
A D. Antónia ainda me diz num tom baixo:
- "Atão (então)? Tal tá a moenga. Esta hoje acordou com os péiis de fora do camalho (cama). Desde que cheguei aqui que só a vejo andar numa fona (atarefada)"
Eu sorrio e pisco-lhe o olho.
Mas a D. Joaquina tem outra opinião:
- Ai a ver se se calam “q’ê” tenho a cabeça “esvecida” (esvaída). Até parece que levei “c’ um bajoulo” (pedra).
Mas a D. Antónia quer ter a última palavra:
- Oraaa… vamos indo com o que vamos engolindo.
Eu continuo a fingir que leio a entrevista do Schauble ao Diário de Notícias.
Ah ditosa pátria...
E que bom que é estar em casa.

terça-feira, 21 de julho de 2015

A estrada e uma ponte que tem a minha idade

As estradas são como veias, ilustres patrocinadoras de um vai-vem que é raiz da vida e daquilo que a compõe.

O despertador tocou hoje muito cedo e a tempo de ver o sol nascer por detrás do Cristo Rei enquanto atravessava a ponte.

Uma bola de fogo entre o amarelo e o laranja, e lá em baixo, o Tejo; atrás de mim, Lisboa.

A mesma estrada...

Quando Julho se aproximava do fim, eu vinha com a Avó Dade e o Avô Chico passar uns dias de férias a casa da Tia Lucinda.

Vínhamos no autocarro da Setubalense, onde eu me sentava nuns bancos de cor verde depois de pagar meio bilhete, e recordo-me que parávamos sempre em Vila Nogueira de Azeitão numa garagem que ficava mesmo em frente do portão de uma quinta em que a vegetação frondosa galgava os muros.

E depois...

Almada, onde às vezes parávamos para ir visitar a Prima Naíca, que fumava muito e fazia bases para as panelas com as pratas dos cigarros da marca "Porto"... e sempre a ponte e o Cristo Rei.

A ponte também era novidade para os meus avós que nunca perdiam a oportunidade de recordar:

- A ponte é um mês mais nova do que tu. Foi inaugurada no dia em que foste baptizado: 6 de Agosto de 1966.

E enquanto a avó se benzia, eu punha-me em pé para ver aquela estrutura imensa pintada de vermelho e não conseguia deixar de pensar que voava sobre o rio.

E por entre o prazer de quem liga as margens, eu jurava à sorte que um dia iria conhecer todas as ruas da cidade imensa à minha frente.

Na mesma ponte do nascer do sol de hoje. 


Passaram bem mais de quarenta anos, vou ao volante do meu carro, busco a Alentejo e tomarei o pequeno-almoço com os meus pais e comendo o pão igual ao que antes trazíamos nas bolsas de pano... e ainda não consigo deixar de pensar que voo por sobre o Tejo.

As estradas, a ponte, o vai-vem que nos determina a vida, os percursos que alimentam a nossa história, e essa persistência e coerência de voar e unir as margens  enquanto o sol sobe no horizonte e me vai ditando palavras de amor.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Rua do Ouro


O comboio chegou há pouco a Santa Apolónia e nem foi preciso buscar a porta de saída da estação, deixei-me caminhar pelo impulso da multidão que desceu comigo para o cais, aqui e ali em slalom por entre abraços ou o carregar difícil de uma mala mais pesada que sai pela janela.
Depois, o átrio, as falas da gente, os pregões dos vendedores, o andar das pessoas que se cruzam apressadas… e aquela inédita luz.
Lisboa oferece luz e um aroma de entre rio e mar na brisa do seu primeiro beijo, e eu deslumbrado deixo-me ir caminhando até ao Terreiro do Paço, mão esquerda dada ao Tejo que me namora desde o primeiro olhar.
Sigo pela irracionalidade da ausência de qualquer mapa, guiado apenas por esta paixão que aos poucos me vai tomando os passos; o instinto doce e rebelde dos apaixonados.
Sigo entre a gente; uma mochila pequena, jeans e a camisa num tom azul forte, os sapatos moldados por amor; sigo com uma história colada às mãos e à alma, a terra fresca e molhada abraçada aos pés descalços nas tardes de verão, o beijo do meu pai, os sonhos maiores do que todas as calçadas da minha cidade…     
Os sonhos e as asas como estas das gaivotas que penteiam o Terreiro no meio dia de Lisboa quando eu sigo pela luz da cidade e espreito ao longe a ponte para lá da curva do abraço que Alcântara oferece ao Tejo.
Paro, respiro fundo, e de mãos nos bolsos sigo depois até à Rua do Ouro subindo-a ao jeito de quem busca o Rossio.
Passam os autocarros, os eléctricos que enfeitam de um amarelo garrido a Rua da Conceição e a Calçada de São Francisco, os táxis que apitam no primeiro segundo de um semáforo verde, os vendedores de cautelas e de jornais, os triciclos carregados de fruta madura pronta a ir para casa em cartuxos de papel pardo…
E esta luz de Lisboa… sempre esta luz.
Ajeito novamente as mãos nos bolsos e não consigo evitar sorrir colocando o meu olhar em rima perfeita com o céu da Cidade Branca… hoje apagou-se o eco de todos os meus velhos amores e cheguei à casa de onde jamais irei partir.
Eu e Lisboa há milénios que esperávamos por este nosso abraço.
Nós nascemos e somos de todos os momentos que nos alinham com o destino que expressa a nossa liberdade.
E continuo a subir a Rua do Ouro.
Lisboa 1982.

domingo, 19 de julho de 2015

Eu, a nossa casa.


Enfeito o meu caminho com uma música das minhas muitas estradas, abraço-me com força ao pensamento e vazo da tarde o impossível, sentando-te ao meu lado no carro que cruza a charneca por entre o calor de Julho.
Agora somos dois e uma velha canção... e de repente o dia vestiu-se de liberdade.
Eu sou cúmplice dos pássaros que correm entre os sobreiros despidos e a giesta que repousa depois da festa do ouro da sua primavera, eu sou do mesmo tom rosado e rubro maduro das ameixas que debruam o muro baixo e cravejado de musgo de uma velha quinta, eu sou como a casa simples e branca com rodapé num tom azul alinhado com o céu...
Eu sou essa casa construída pelo tempo, com os tijolos e as telhas da minha vontade, e onde sentado à soleira passei meia vida à espera que chegasses e outra meia a sonhar contigo; a casa que construí para ti e onde vivemos agora.
Eu, a nossa casa.
Às vezes e por instantes, solto do volante a mão direita e procuro-te no lugar fisicamente vazio. Pela força com que te quero e o pensamento te faz presente, até o meu corpo acredita que estás mesmo ali e que te pode tocar na seda perfeita que te envolve a pele.
A pele do toque que tatua em mim o maior e mais absoluto desejo.
Depois, sem se importar, a mão regressa ao volante e seguimos estrada fora.
Ela sabe que és meu e nunca tardas.
Seguimos…
Eu, tu, e uma tarde perfeita e de liberdade, mas debruada com as saudades de um beijo.
Freddie Mercury continua a cantar:
Every drop of rain that falls in Sahara Desert says it all. It's a miracle”.
A liberdade e a morte dos impossíveis na aparência de um milagre, mas sou apenas eu, tu… e a nossa casa.

sábado, 18 de julho de 2015

A verdadeira história da “Ratazana de Caxinas”


Na carreira para Caxinas
Entre cantigas e gritos
Segue a Tóia da Vicência
De cognome “A Ratazana”
Que é também filha do Alcides
Um Mestre Capataz

Com salão de beleza aberto há pouco tempo
Cabeleireira por bênção das Novas Oportunidades
Desafia todas as regras…
O bom gosto
O charme
A decência...
Com os penteados arrojados que faz
Ataques de Farandol a cabeças de todas as idades

O seu marido
O "João Ratão"
Com quem anda sempre atrás
É polícia daqueles à paisana
Mas pelo bom ar que apresenta mais parece andar sempre disfarçado de ladrão

Galã das dúzias
Que isso tem inscrito nos genes
Dá de olhar arremelgado para a Micas Garoupa que por tão bem nadar Recebeu dos amigos o sobrenome de Phelps

Com a Ratazana atenta à música das Cocktail que escutava no seu MP3
O Ratão seguia na maior

Mas foram tantas as que fez
Que a mulher de repente se apercebe...

Oh meu grande vadio
E tu minha gata nadadora
Ponho-te as unhas de gel no pescoço e tu vais de vez

Ordinária
Gatafunho
Trabant sem uso e sem concerto
Passaporte fora de prazo

A atirar-se ao meu jeitoso…

Jeitoso?
Grita a outra

Oh filha fica com ele
Tão piroso

Avança então uma Brasileira
Loura e cliente da Ratazana
Mais o marido que vem a cambalear
E não acerta logo à primeira no intuito de à Phelps o cabelo puxar

Mas depois consegue e com muita força

A Micas saca então de uma Chaputa
Fresca e enrolada numa folha de jornal
E pegando no rabo do peixe dá com ele na cara da Paulista

Toma lá que assim já não vais mal

E de dentro do MP3
Continua a soltar-se música
Cocktail
Rita Ribeiro
"O que passou passou"
Mais outras do festival

O chefe do sindicato bate as palmas
Uma Ucraniana mostra o dente de ouro

O Ratão está bravo
Investe nas três que nem um touro

Enquanto a malta reclama
Isto vai atrasar-se
Nunca mais chegamos às Caxinas

O motorista faz uma travagem a fundo
E mete conversa com outro com quem se cruza

Vai aqui uma cena que nem tu imaginas

Coisas do fim do mundo?

Uma cena que já não se usa.

E grita para dentro do autocarro
Tudo para a rua

Grita a Ucraniana:
Estás parvooo o meuuu… Qual é a tua?

E a Phelps ainda com respirar cansado também grita do meio da cena

Eu só saio à porta das piscinas.

A Ratazana derrotada sai da cena amarga que nem o fel
Chora e grita para o marido

Estás a ver…
Por causa de ti estou toda desgrenhada e parti as unhas de gel