quarta-feira, 29 de julho de 2015

O nome das estradas

Uma estrada ganha sempre o nome do sítio de onde nos trouxe ou para onde nos leva, indiferente aos detalhes que se entrelaçam aos nossos passos enquanto caminhamos por ela.

E a memória dos quilómetros que até podem ser muitos e longos, apaga-se sempre no instante em que chegamos ao abraço doce que sacode a poeira, as adversidades, e até o cansaço da jornada mais ou menos difícil que nos levou ali.

Porque toda a História, mesmo quando tecida pelas feridas de duras batalhas, ganha uma doce marca de sucesso e orna-se das coroas de louros típicas dos heróis, quando desemboca nas latitudes da nossa vontade por impulso do ar que nos beija as asas no usufruto da mais perfeita liberdade.

Não importa o número de vezes que tivemos de parar para descansar, reganhar forças e consultar os mapas e as bússolas de que nos muniu o sonho.

Não importa quais as pedras ou as ervas que me adornam os passos; eu hoje venho de ti e sigo para ti.

As estradas...

São como os meus dias.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Um Portugal dos Pequenitos à beira mar


No topo da encosta há um "altar" envolto pela sombra de um toldo branco onde duas "sacerdotisas" de ancas generosas e vestidas do mesmo tom alvo, aplicam as mãos e massajam os corpos da gente deitada sobre lençóis que esvoaçam.

Os prazeres da antiga Roma sob o sol intenso da Lusitânia no meio de um dia do Século XXI.

À mesma hora na piscina do hotel, um Português de rosto redondo explica as técnicas do mergulho a aplicados Ingleses que devidamente equipados se propõem ir conhecer o mar em tudo e até nas suas profundezas.

O herdeiro da Escola de Sagres ensina a respirar algures no mesmo barlavento mas numa piscina com as marcas organolépticas do nosso tempo... uma piscina pejada de cloro.

Na mesa ao meu lado um grupo de estrangeiros come "green cabagge soup" em malga de barro, um Caldo Verde até com direito a rodelas de chouriço.

A sopa mais Portuguesa de Portugal arrefecida pelos sopros soltos entre "yes's" e "hello's".

Cada uma das Espanholas garridas que gritam no fundo da esplanada, tem um ar de "Lola Flores em versão genérica", ou quiçá de travesti da "Pantoja" à porta do "Finalmente Club", e não fosse lá por coisas, e eu em nome do meu amigo Nuno Zé ia lá declará-las património do Carnaval de Torres Vedras.

Não falta uma mulher para quem as férias só são boas para poder brilhar de bronze na repartição quando voltar, a prometer um par de estalos à filha que grita inspirada na buzina do quartel de bombeiros; e um homem com andar de Hércules patrocinado pelos calções comprados nos saldos da Saccor mas já nos últimos dias e só a disponibilidade de tamanhos abaixo do seu...

Há cartazes espalhados a anunciar para as 19.30 horas de hoje, um "barbecue" com sardinhas assadas e acompanhamento por um Rancho Folclórico especialista em Corridinho, a "dance" mais "folk" da região.

Aqui onde escrevo e me vou inspirando coçando a barba grisalha em pausas para olhar o mar e escutar as gaivotas, todos estes de quem falo poderão dizer que eu sou uma caricatura insuflada e cabeçuda do Pessoa à porta de uma qualquer "Brasileira". Bica à minha frente e um ar entre o sisudo e o misterioso.

Só as ondas do mar parecem indiferentes a tudo isto mas mesmo assim continuam salgadas com as nossas lágrimas, como diz "A mensagem".

Um dia de praia...

"Portugal dos Pequenitos", um parque temático para estrangeiros num hotel perto de si.




segunda-feira, 27 de julho de 2015

Gaivotas



Tenho saudades de um abraço, de um beijo... mas nunca deixa de ser céu esta distância que nos separa.
Há entre nós uma eterna coerência de azul e de infinito; no desejo, no céu tantas vezes tecido apenas pelas palavras com que voamos no sonho e pela liberdade, o infinito tesouro dos sentidos que se esconde nos mil beijos que me escreves por entre a palavra amor.
Sim, somos gaivotas de asas soltas bebendo do vento o impulso de chegar até onde a vontade nos pede que cheguemos, e por entre o rodopiar doce com que moldamos os dias, nós paramos pousando junto ao mar provando-lhe o sal e a poesia que só as ondas sabem cantar, indiferentes aos ruídos sinistros das cavernas que o tempo teceu nas entranhas da Terra.
Paramos pousando junto ao mar…
É quando matamos a fome dos beijos e dos abraços.

domingo, 26 de julho de 2015

São definitivamente azuis os dias do Atlântico

São definitivamente azuis os dias do Atlântico, quando o silêncio se apaga no fulgor das ondas contra a rocha, no terno e prolongado beijo do mar à areia, e também no intenso ruído das gaivotas que nos rasgam o céu no irrequieto e irregular voo das suas asas.

E ao sul, olhando o infinito...

Colhe-se deste azul um espelho que nos devolve o tanto que o pensamento lhe oferece.

Foi pelas saudades que tenho de ti que o mar se revestiu de sal.

Fui eu quem semeou o nome que o mar me canta por entre o bramir das suas ondas; o teu nome.

Sou eu quem faz do pensamento um imenso barco de papel e se deixa ir por ele e pelas ondas até ao destino que alma lhe impõe; o teu abraço.

O pensamento, irmão por vontade das asas irrequietas das gaivotas, o aliado do vento que nos arrasta à superfície das águas; nós, ousados marinheiros nos barcos de papel que construímos por não conseguirmos travar os sonhos.

São definitivamente azuis...

E eu não resisto e vou ter contigo navegando por estes dias do Atlântico.

Enquanto as gaivotas cantam o teu nome por entre o seu baile de céu e liberdade.

sábado, 25 de julho de 2015

Os mais de sessenta segundos da espera num semáforo nas margens do Mondego


O semáforo do Largo da Portagem para a Ponte de Santa Clara, em Coimbra, tem um contador de segundos com um tempo de espera que ultrapassa os sessenta de um minuto, dando-me tempo mais do que suficiente para me ver a atravessar a rua.

Fevereiro de 1981, estaria o Carlos Paião a dar os últimos acertos no Playback para vencer o Festival RTP a 7 de Março derrotando as minhas favoritas Doce com o Ali Babá.

Eu, o Manuel, a Zinha, o Paulo Ratado, a Zé Bexiga... fomos a Coimbra na visita de estudo, a primeira, quando frequentávamos o nono ano.

O autocarro ficou estacionado na margem esquerda do rio e nós atravessámos a ponte para ir jantar a um restaurante que ficava numa cave e tinha o nosso prato favorito: bitoque. 

Já tínhamos ido à fábrica das bolachas Nacional, onde atacámos as de chocolate; à fábrica da cerveja Sagres, ao Portugal dos Pequenitos, a Santa Clara a Velha, e vivíamos na emoção de ir a uma discoteca de nome "etc", numa altura em que qualquer bola de espelhos pendurada do mais simples tecto nos garantia uma definitiva proximidade à série "Fame" que víamos nos sábados à tarde.

Comprámos cigarros, mais pela atracção pelo proibido do que gosto por fumar, porque pelo menos na parte que me tocava jamais soube travar o fumo e limitei-me sempre a ser uma espécie de chaminé.

Vivíamos paixões secretas e nós rapazes já tínhamos a barba a despontar. O meu bigode / buço já era imponente.

Espreitámos o Hotel Astória e achámo-lo o mais chique do mundo, mas fomos dormir ao Seminário Maior na companhia de uma professora de Português com ar depressivo que tomava ampolas bebíveis na altura dos piqueniques e da partilha dos farnéis. Andámos em pijama pelos corredores à procura de fantasmas ou quiçá de tesouros pois a leitura dos livros de "Os cinco" não tinha ocorrido há tanto tempo assim.

E vi-nos passar cada um com o seu "Kispo" de cor garrida. Íamos a rir cumprindo um hábito que ainda hoje mantemos...

Depois o semáforo abriu e eu rumei a Lisboa.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Lá fora chove... mas é verão.


Há dias de Julho em que as nuvens e a chuva parecem trair o verão, mas no fundo e afinal, são apenas frescos repousos, fontes de um incansável fôlego para que não se nos escape nem um só detalhe dos dias de sol que estão a chegar.

Uma pedra no caminho pode ser um banco para nos sentarmos a descansar, uma montanha difícil de subir aproxima-nos definitivamente do "céu" e dá-nos melhores horizontes, uma palavra feia dá lustro de valor às palavras de amor, a saudade faz-nos tão próximos do amor, um silêncio amplifica a música que se liberta de um beijo ou de um abraço...

E os dias da dor são breves passagens para os momentos pelos quais nascemos, são troços da rota para o mar que nos espera sempre por entre uma imensa festa de azul.

Escrevo este texto numa das salas de espera do IPO de Coimbra, e faço-o como quem responde a duas senhoras à minha frente que me "beijaram" com o seu olhar algures entre o triste e a esperança.

Escrevo estas palavras que talvez nunca lerão, porque acredito que enquanto o faço, o meu olhar as vá projectar até elas num beijo doce que lhes avive a esperança.

Lá fora chove... mas é verão.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

“Já viste a lua"?


Por entre a maior cumplicidade e quase ao bater da meia-noite, os poetas mandam mensagens uns aos outros:
“Já viste a lua"?
Estranhas coisas e manias que têm os excêntricos e os loucos?
Não.
Talvez apenas pequeníssimos e naturais detalhes de quem durante o dia falou da vida e dos seus amores, de quem se encontrou na esquina da ousadia com a vontade, o ponto de encontro daqueles que não sabem e não querem frenar nunca os sentimentos, porque jamais se demitirão de si próprios.
Os poetas, vivos e como nunca, sem a restrição de um clube qualquer e da prudência, porque deles será sempre o universo inteiro.
E eu por acaso não vi a lua.
Adormeci cedo com o patrocínio de um cansaço a que não ofereci resistência, embalado e impelido que estava também pela vontade de sonhar e me deixar voar até ao tempo desenhado a cores, um calendário tecido da poesia solta das mãos de quem eu amo com a cumplicidade de todas as luas.
Soube hoje de manhã:
“A lua estava fantástica, a crescer e com um sorriso fantástico”.
Eu não a vi imperial, a crescer e a sorrir no céu estrelado de Julho, mas senti-a inteira e minha em tudo aquilo que a noite me deu; o amor que se abraça a nós e nos segue no instante de acordar; quando passamos pelo espelho e nos apercebemos:
- Olha, estou a sorrir.  
Mandamos uma mensagem de amor a quem nos traça assim um tempo a cores…
E depois manda-se um beijo ao poeta; que ele nunca deixe de partilhar comigo os detalhes que vê na lua.