sexta-feira, 7 de agosto de 2015

FLORBELA

Silenciado o impossível pelas asas soltas que tomarei do mais imponente condor, chegarei à tardinha quando a planície já repousar do fogo intenso, do dia em brasa ateado pelo sol do estio.
À tardinha… essa hora dos “mágicos cansaços”.
As árvores que todo o dia estiveram em prece sobre o canto dolente do ceifeiro sentem já o aroma do beijo do luar; de açucenas, de flor, do mesmo tom alvo da cal do monte que coroa a charneca.
Minha irmã de berço, liberdade e destino, eu saúdo-te no beijo por entre a cumplicidade rubra dos poetas, essa “casa” onde a alma emerge do opaco e negro tom dos dominós, da segunda pele que o mundo nos oferece e que nós despimos na ousadia e na suprema glória da coerência de nós mesmos; quando cumprimos aquilo que de nosso mais verdadeiramente existe: o desejo.
Aqui, somos loucos mendigos vagueando sob o olhar previsível dos Homens, que o nosso reino é de muito além-mundo, na pátria que só o sonho alcança.
Florbela...
Da alma, do destemido sentido de cumprir a vontade expressa por todos os poros, o amar que não cessa e se vive como quem respira… perdidamente, da única forma capaz de saciar a inquietude da nossa genética, cumprindo a vida.
E é tanta a vida que temos, que jamais caberá nos dias dos Homens...
Talvez seja preciso que partamos um pouco mais cedo, quando chegar Dezembro e o frio revestir a brisa de todas as praias.
Talvez a morte, senhora de braços ternos de um veludo suave, seja o único amparo para o soluçar triste que a demais gente não entende.
Que os nossos corpos se apaguem matando a fome às rosas para que a alma possa voar finalmente livre do cárcere da carne e de qualquer mundano detalhe, e possa voar; voar sobre a charneca e sobre o trigo, sobre o mar... na mais suprema liberdade.


("Um mês A GOSTO" / Dia 7 / Letra F / Proposta de José Falcão)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

SE


Se o céu não se vestisse de azul e alguma vez pudesse tardar a aurora, eu pegaria num lápis da cor da minha vontade, e desenharia com ele um imenso e luminoso sol que incendiasse a Terra de uma inesquecível madrugada… de liberdade e do mesmo tom do teu olhar…
Se Lisboa não tivesse jamais acontecido, eu inventaria para nós uma cidade tecida pelo sonho de navegar, a proa de uma nau na rota de novos mundos, da fé, de canela e açafrão…
Se nós não tivéssemos um rio, eu daria as mãos ao barro da montanha para escavar um Tejo de águas calmas, uma fonte directa ao mar envolta por todas as nossas palavras de amor…
Se os nossos passos fossem órfãos de um caminho, eu desenharia ruas na esquadria que nos dita o desejo, e teceria sob os nossos pés, um imenso tapete de pedras brancas e negras alinhadas no contar de uma história feita de ondas e flores...
Se eu não fosse poeta, tomaria de uma gaivota as asas e rasgaria o céu num voo ousado e louco, tatuando assim no infinito, todas as palavras com que te abraço nas tardes convocadas pela sorte.
Viveríamos então juntos numa casa de janelas altas, travando a aceleração do tempo com a eternidade do nosso amor.
E mesmo se alguma vez fosse necessário partir e eu sentisse saudades tuas, pegaria nos segundos em que penso em ti, e com eles teceria uma estrada que abraçasse a Terra; depois seguiria por ela para ir ter contigo e dar-te um beijo.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 6 / Tema proposto por Bruno Silva)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

ENCICLOPÉDIA


O Nando da Amareleja
Homem alegre
Do campo
E estudioso
Fala sobre tudo o que quer que seja

E por ser tão sapiente
Tão sábio e curioso
É conhecido entre os amigos pelo Nando Enciclopédia

Perante tal fenómeno paranormal
Há gente na vila que garante
Que numa noite de lua cheia
Ele assaltou a carrinha
E engoliu todos os livros da Biblioteca Itinerante

Às vezes no Café Central
Entre uma bica cheia
E um cálice de aguardente
Alguém dá o mote e o Nando…
Zás
Surpreende toda a gente

Vem a Tia Zulmira com o seu avental
E o Enciclopédia começa…

Avental
Maçonaria
Sociedade secreta
Iniciática
Ritualística
Gente que nunca se avista
Mas que pelo poder anda sempre à conquista

Depois o Chico diz bom dia
E confessa ir pôr DDT nas oliveiras…

DDT
Dicloro Difenil Triclorometilmetano
Cloro
Dois grupos aromáticos
O primeiro pesticida moderno
Garante uma boa azeitona lá para o fim do ano

O Zeca Taberneiro lamenta-se das dores e diz ir fazer uma TAC…

TAC
Tomografia Axial Computorizada
Método eficaz de diagnóstico clínico
Um recurso para averiguar o mal que afecta a gente mais azarada

E entre geografia
Botânica
Física
Química
E Filosofia
O Nando fala de tudo
E toda a gente diz que na Amareleja…

Mesmo antes da Internet
Já o Google existia

Conheceu a Beatriz que é carioca
Que muito se lhe agarrou ao pescoço
E numa certa noite quente de verão
Aconteceu
Ele virou Enciclopédia de Bolso

Da brasileira
Claro está
Agora mãe da sua filha Carlota
Que um dia rumou a Beja e é enfermeira
E que por ter os pais que tem
Ganhou a alcunha de Enciclopédia Luso-Brasileira

Mas aconteceu que ainda há pouco
Quando entrou no café a Jaquina da Pepita
Ela com voz esganiçada de quem canta no rancho
Lhe pergunta

Olha lá ò Enciclas
Onde é que fica o botão?

E o Nando de pronto debita

Butão
Muito bem perguntas tu
Reino do sul da Ásia
No extremo leste dos himalaias
Faz fronteira com a China e a capital é Thimbu

Aqui está um problema de homofonia
Que deixa em ira a Jaquina
Confundiram o “o” com o “u”

Tu estás parvo ó Enciclas?
É o botão da telefonia

O Nando nem quer acreditar
Quase lhe sobem as tensões

Mas a verdade é que uma Enciclopédia
Pode sempre virar Manual de Instruções


(“Um mês A GOSTO” / Dia 5 / Letra E / Tema proposto por Ezequiel Coelho)

terça-feira, 4 de agosto de 2015

DESTINO


A sombra do tecto denso oferecido pelas árvores do caminho não consegue disfarçar o calor deste verão de 2025; sente-se em tudo e na brisa que nos beija o rosto enquanto nos oferecemos a oportunidade de subir desde a Estação de Vila Nova até à quinta, o caminho percorrido por Eça acabado de chegar de Paris, o mesmo de Jacinto na ficção que rebaptizou esta terra como Tormes.
“A cidade e as serras”, o romance que tu trazes debaixo do braço e que abres de vez em quando como se de um guia de viagem se tratasse e tu buscasses nele as coordenadas exactas do nosso trajecto. 
Caminhamos como sempre, tu à minha direita, e de vez em quando, nas pausas para retomar o fôlego, damo-nos um discreto abraço que pode ou não ser coroado com um beijo.
Um gole de água, sorrisos, muitas palavras…
E finalmente a casa de granito que a hera foi tingindo de verde à medida que trepava pelas paredes com aspecto idêntico ao da muralha de uma fortaleza intransponível.  
Respiramos fundo e dirigimo-nos de imediato para a mesa que nos puseram debaixo da parreira e na varanda com uma vista privilegiada para o vale do Douro que espreita azul lá em baixo.
Daqui a muito pouco o empregado fará chegar até nós, e sucessivamente, a Canja de Galinha, o Frango Corado com Arroz de Favas, e o Leite Creme caseiro queimado na hora. Durante toda a refeição brilhará nos copos um fresquíssimo Vinho Verde, e imitaremos assim e na íntegra, a primeira refeição que aqui tomou Eça de Queiroz… e também Jacinto.
Eu trouxe comigo um exemplar de “A fortuna perigosa” de Ken Follett que coloco na cadeira vazia ao nosso lado. Tu espreitas e sorris:
- Porquê Follett aqui no universo de Eça?
- Por ti. Tu ofereceste-me este livro há dez anos na véspera de ter estado aqui com os meus pais a caminho do Gerês, quando te jurei que um dia viria aqui contigo. Tardou dez anos mas estamos cá.
E reforço:
- Ainda estão por estas páginas as duas fotos tuas que então me ofereceste.
Não resistes a espreitar... e dizes baixinho como se de um segredo se tratasse:
- Parece que os nossos mundos confluíram para este instante em tudo perfeito. Achas que foi o destino?
- Fomos nós muito mais do que qualquer acaso ou congeminação de natureza cósmica ou divina… porque quisemos muito e porque nos quisemos e queremos muito.
- E o destino?
- É desculpa para quem se rende passivamente ao “lugar” para onde o tempo e os outros o empurraram. Somos nós quem desenha o seu próprio caminho, às vezes por entre muitas pedras; outras vezes cruzando o improvável e o inédito, como Follet e Eça, que para nós fazem todo o sentido aqui juntos.
E continuo:
- Chamemos Saramago também a esta mesa para que ele nos diga que “o destino desconhece uma linha recta”.
Sorris.
A brisa continua a beijar-nos intensamente mas finalmente consegue vislumbrar-se algum fresco do tom de pinho do alto da serra.
Pego-te na mão direita, dou-te um beijo e acrescento ainda:
- Mas também há quem chame destino ao ponto ideal e bom para onde a sua vontade o conduziu…
- E então…
- Então, tu és e serás sempre o meu destino.
E pelo beijo que me dás de seguida concluo que eu também sou definitivamente o teu, aqui entre as serras… e entre todas as cidades que a vida nos der.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 4 / Letra D / Tema proposto por Andreia Maia)



segunda-feira, 3 de agosto de 2015

CRESCER


Na casa dos meus bisavós Inácia e Filipe, pais do meu avô materno Joaquim, a escassez de recursos levou ao estabelecimento de uma regra muito especial na hora de comer sardinhas: só passaria de metade da dita para uma inteira, quem crescesse e conseguisse bater com a cabeça no pano da pequena cortina colocada horizontalmente a decorar a chaminé.
Contava o avô que o critério motivava infinitas piadas relativamente ao tio João, seu irmão mais velho mas com uma particularidade anatómica que lhe era totalmente desfavorável neste "negócio": era anão.
O tio João vivia com a tia Maria, sua irmã, numa casa de dois pisos na Rua de Santa Luzia, em Vila Viçosa, e tinha o ofício de sapateiro.
Numa sala com porta para o quintal que tinha um canteiro com um limoeiro que me oferecia os ramos para um balouço, as folhas para a sombra mais fresca e uns limões sumarentos e enormes para as melhores limonadas que alguma vez bebi, com os seus setenta anos arranjava o calçado de muitos clientes que passavam por lá para levarem consigo os sapatos muito engraxados e cheirosos.
Nesta sala havia um pássaro chamado Sarico, que cantava muito durante o dia e que imitava o som do pequeno martelo com que o tio João pregava os sapatos.
Enquanto a tia Maria se entretinha com a lida da casa, ficávamos por ali os três durante horas infinitas; o tio, o pássaro, e eu a construir cidades com as pequenas pedras que apanhava no quintal.
O sítio onde melhor se brinca é à sombra de quem nos ama.
E quem brinca a construir cidades treina-se a desenhar caminhos e aprende a crescer
Um dia o tio João fez-me umas sandálias, as únicas que tive desenhadas e construídas de propósito para mim, e que por certo usei nos passeios que dávamos os dois até à Mata nesse inédito privilégio da minha mão protegida pelas mãos do adulto que tinha o coração mais próximo do meu, e a face com os lábios de onde saíam histórias bonitas que me faziam sonhar e crescer.
Sim... crescer pelo amor que é o único cimento capaz de moldar os Homens, aprendendo que há muitos gigantes em corpos de anões.
O inverso também existirá mas essa é a gente que a memória não guarda e de quem não merece a pena falar.
Um dia o tio João adoeceu e uma das últimas palavras que disse antes de partir no Outono de 1977 foi Quim.
Eu já não cheguei a tempo de lhe dar um beijo de “até já” mas prometi a mim mesmo que por ele continuaria a construir caminhos e me faria crescer até à sua altura de gigante.
E por aí sigo com fé e com a esperança de me aproximar...
Pelo amor, porque crescer jamais será coisa de centímetros; e aquilo que é verdadeiramente grande é impossível de medir.
  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 3 / Letra C / Tema proposto por Celso dos Reis Lopes)

domingo, 2 de agosto de 2015

BONDADE


Na Vila Viçosa da minha infância os "serões da morte" eram passados em casa. Desmanchava-se o mobiliário para abrir espaço no centro das salas e dos quartos, e pediam-se cadeiras pela vizinhança para depois serem colocadas ao redor do caixão que chegava sempre num carro de mão que tinha uma roda de ferro que emitia um som estridente no seu contacto com a calçada.
Os pais pediam-nos silêncio e nesse dia não brincávamos na rua, quanto muito espreitávamos à janela e víamos o vaivém de gente vestida de negro, intrigando-nos o que se passaria dentro dessas casas que permaneciam com a porta aberta mesmo durante a noite.
De lá só nos era permitido sentir o murmúrio, as ladainhas e o choro abafado das mulheres, que os homens permaneciam na soleira à conversa e a fumarem intermináveis cigarros.
Depois vinha o padre com vestes roxas, soavam os sinos, saía o funeral, íamos recolher as nossas cadeiras e tudo voltava ao normal.
Voltávamos a brincar na rua.
Os meus pais tinham casado há pouco e eu nem sequer tinha ainda nascido quando na nossa Rua de Três morreu um vizinho que deixava viúva e ninguém mais.
No apoio à pobre mulher, no entra e sai promovido pela amizade que unia a vizinhança, alguém se dá conta de que não há na casa desta pobre mulher um lençol que possa cobrir o corpo jazente do marido.
Pergunta-se quem poderá colmatar esta falta, e a minha mãe resolve então abrir a arca pintada de negro e decorada com pioneses dourados gigantes que o meu avô lhe preparara para o enxoval, e oferece um dos lençóis brancos que ela própria tinha bordado algures pelos serões que antecederam o seu casamento.
Confessa a mãe que o fez num impulso de vontade, mas com um certo receio pelo rótulo de "esbanjadora" e "exibicionista" que lhe poderia ser atribuído. Temendo uma reprimenda, só semanas mais tarde partilhou o facto com a minha Avó Francisca, sua mãe, uma santa alma que obviamente lhe louvou o gesto.
Esta história tem vivido sempre no sigilo do nosso restrito núcleo familiar e é evocada às vezes quando nos damos conta de que a nossa casa cresceu, acrescentámos-lhe muitas camas e muitos lençóis; e a minha mãe, sempre agradecida à vida, diz muitas vezes que esses muitos pedaços de pano que chegaram são pétalas que floresceram desse outro que ela um dia semeou no aconchego do coração de alguém.
Não sei se a minha mãe me perdoará por eu ter escrito e partilhado aqui esta história, mas o tema "Bondade" proposto pela minha amiga Margarida Borrega levou-me até ela e também à pessoa da minha mãe, indiscutivelmente a minha mestra neste propósito de conseguirmos ser maiores e melhores, de sermos “bons”.
E a bondade talvez não seja nada mais do que darmos de vontade aquilo que tecemos e temos guardado nos “baús” dos nossos tesouros, sem qualquer outra intenção que não seja afagar o "coração" de alguém.
A recompensa chegará sempre, mesmo que nunca pensemos nela.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 2 / Letra B / Tema proposto por Margarida Borrega)

sábado, 1 de agosto de 2015

AMOR


De repente e no dia que sentimos e antecipamos como o mais improvável… um segundo apenas ali pelo começo de um primeiro, tímido e muito breve olhar.
Um brevíssimo segundo mas com força para varrer mil anos; e já não importa o que antes vivemos, as décadas todas.
Perdemo-nos na idade por ganharmos uma nova História...
E nascemos nesse instante, o primeiro da vida que o tempo nos fez sonhar e querer muito; um segundo que nem o sangue quer perder, e por isso se achega à face para espreitar para dentro de um breve hiato que a memória se encarregará de tornar eterno.
O teu olhar, o mais doce recomeço...
Por entre o rubor, eu jamais saberei o porquê da minha pele vibrar como nunca ao mínimo toque da tua pele, dos meus lábios só sossegarem no beijo em tons de ouro que me dás, e do nosso abraço que tem aromas de urze e alecrim, ser a pátria e a casa de um inédito e completo prazer, o saciar perfeito do maior desejo.
Sentimos a vontade de multiplicar ao infinito, a vida toda que nasce e brota da génese breve desse novo tempo, desse tão breve segundo.
Dizem que é o coração que então nos fala, e que esse tão completo e feliz sentimento, quando o corpo estremece e a alma sossega, quando a vida se ganha por nos perdemos em tudo e no olhar de alguém; se designa por amor.
Amor será, digo eu que te descobri no olhar perfeito solto algures no breve segundo de uma tarde de quase primavera; mas o coração...
É muito pouco para o tanto que todo o meu corpo e a razão me confessam sobre ti:
- Tu és a raiz sem a qual eu não aconteço.
Definitivamente.
Amor…
Meu amor…
Sim, eu amo-te; e amar-te é afinal sentir que do tempo brotam flores, porque eu nasço e renasço contigo em todos os instantes, mesmo até nos mais breves e improváveis segundos.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 1 / Letra A / Tema proposto por Ângelo Rodrigues)