segunda-feira, 17 de agosto de 2015

NÓS


O rolo de corda, os pedaços que vou cortando à medida, dobrando em dois e pendurando de uma argola branca de plástico que eu já pendurei no trinco de uma porta… três secções de quatro cordas cada, e posso começar a dar os nós.
Às vezes escuto a música guardada num LP qualquer: Duran Duran, Fischer Z, Simon & Garfunkel, um Polystar de um ano qualquer, Eurovisão 1978 com as Baccara a representarem o Luxemburgo…
Outras vezes deixo a “banda sonora” ao critério do rádio que vai tocando baixinho: Tina Turner, Sheena Easton, Olivia Newton John...
Se os nós forem feitos sempre no mesmo sentido, a teia de corda que dele resulta enrola; mas se pelo contrário eu alternar o sentido, a teia fica direita.
Vou deixando espaços sem nós entre cada uma destas teias.
Com as mãos assim ocupadas, com a música a deixar-me de vez em quando uma palavra como mote, é pelo pensamento que sigo, qual marinheiro numa nau cruzando os mares… ao sabor dos nós.
No final cruzo cordas de cada uma das três secções e faço uma rede que depois tranco em baixo; aparo algumas pontas mais irregulares e tenho um suporte para pendurar um vaso. Escolho aquela planta que melhor se possa sentir assim entrelaçada entre as cordas.
Não me recordo do número de suportes para vasos que fiz assim durante algumas férias de verão, mas acho que foram muitos, e alguns até os fiz por encomenda.
Sempre ao sabor do pensamento e a navegar.
Afinal, a vida tem tanto de um rolo de corda que espera por “nós”…
Para que sempre brilhem as flores.

  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 17 / Letra N / Tema proposto por Natália e Guilhermina Sousa)

domingo, 16 de agosto de 2015

MEU


Nunca nada me pertencerá tão completa e legitimamente do que aquilo ou quem eu amo.
Muito fala a gente sobre a posse daquilo que se adquire ou do que nos é oferecido. Serão coisas importantes ou não, serão muito ou pouco, bens móveis, imóveis, diamantes, tesouros… Cumpriremos todos os preceitos legais, não existirão dúvidas, exibiremos todos os comprovativos devidos em casos tais, tatuaremos os nomes nas fachadas; mas tudo permanecerá sempre como um satélite ao redor de nós.
Pelo contrário, tudo e todos os que amo são parte de mim, vivem comigo no mais íntimo, no pensamento, na alma, são raízes profundas dos sorrisos ou do choro triste.
Preciso deles para ser eu completo e inteiro, e cada pessoa que eu amo é uma célula indispensável para a construção do todo que eu sou. Sem ela…
E depois há o pensamento pelo qual existimos e essa mais pura intimidade que temos para connosco próprios.
Poderá existir algo tão ou mais intimamente meu do que o pensamento e tudo o que nele habita?
Por existires tão presente e tão nítido no meu pensamento, tu és tão meu quanto o meu braço direito, quanto todas as palavras que escrevo, quanto os meus beijos, os meus suspiros e os meus sonhos.
Quando nas tardes de domingo saio pela cidade e entrego o meu olhar ao rio, caudal das águas cúmplices dos desejos e do nosso abraço; chamo-te meu... meu amor...
Com legitimidade.
E às vezes até digo que o universo é todo meu, mas isso é porque contigo eu finalmente me deixo acontecer como sempre me imaginei.

  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 16 / Letra M / Tema proposto por Milton Alonso)

sábado, 15 de agosto de 2015

LIBERDADE


Decorria a primavera de 1992 e eu cumpria o Serviço Militar na Farmácia do Hospital Militar Principal, no edifício da Casa de Saúde, à Estrela.
Aspirante Oficial Miliciano, eu desempenhava com brio as funções de farmacêutico e preparava a medicação para os doentes dos diferentes Serviços Clínicos; entre eles um dos meus heróis e um dos maiores heróis do nosso tempo: Salgueiro Maia.
Porque em Abril tudo acontece, e porque é nas manhãs de Abril que se ganha a liberdade e a eternidade, o "Capitão" partiu sem nunca saber que as mãos que lhe preparavam os medicamentos tomaram de si e por si uma nova sorte, entre cravos vermelhos e inevitavelmente... na sua… na nossa manhã de Abril.
Os heróis marcam o tempo, rompem esquinas no previsível, cortam a História, e ali estávamos agora os dois com o Tejo ao fundo, ele o herói, e eu o filho do Artur que era barbeiro desde os dez anos e que um dia não pôde vir a Lisboa porque não tinha uns sapatos dignos para calçar.
A liberdade...
Num dia da última primavera passei pelo Carmo em busca das flores dos jacarandás, e entre o eco da revolução, dos gritos do povo, do megafone de Francisco Sousa Tavares, de Salgueiro Maia; talvez a liberdade não estivesse tão rubra quanto nas palavras de amor que soltei baixinho e ao jeito de um beijo soprado, no ouvido de quem me acompanhava.
Uma revolução; mas a coerência do coração no usufruto de uma herança de liberdade.
O herói partiu sem saber quem eu era, mas a “rua” que abriu na esquina de um tempo novo jamais ficará órfã dos meus passos.
Que as ruas se apagam em pó e ervas sempre que não beneficiam dos passos de alguém.
A liberdade…
A rua da minha liberdade.
  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 15 / Tema proposto por Lucinda Almeida)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

DEUS


Jamais Te darei nome ou rosto, embora Te vislumbre na face mais perfeita e doce dos dias, Te sinta por entre o aroma das rosas e todas as flores, embora eu Te toque e abrace nos instantes todos em que a paz parece inundar-me o ser.
Jamais Te fecharei nas cadeias da sumptuosidade que dá lustro ao meu poder, o dourado dos zimbórios ou dos minaretes que servem vaidades, arquitéctónicos troféus de guerras falsamente feitas em Teu nome, as cruzadas vãs de quem te “embrulha” em humanas condições.
Jamais Te disfarçarei com as vestes da ilusão dourada de qualquer barroca moral que sirva os meus interesses e convicções; a moral que repele e confunde Pai com juiz, acolhimento com condenação, e confunde amor com a pérfida e triste submissão.
Mas falo contigo, rezo-Te na mudez das palavras e das fórmulas, aquela que faz aforar e cantar os gestos e as atitudes, rezo nos beijos e nas palavras que dou aos que passam pelo tempo e pelo meu espaço, canto-Te glórias quando celebro a liberdade, quando afogo a hipocrisia e vivo na festa de ser eu, tal qual me criasTe.
Comungo-Te no pão das searas que o vento beijou e o Homem ceifou sob o calor de Julho, na fruta madura, no vinho que pelo sol tomou de Ti a alegria na encosta que beija o rio, no sal do sabor que colho dos mares que o dia tinge de azul.
E nas águas límpidas e frescas das ribeiras, quando me dispo de pudores e iniquidade, tomo de Ti a força de quem renasce para a vida que importa.
Há uma profecia de liberdade nas asas soltas das gaivotas rasgando o céu das minhas tardes, uma profecia de paz na música do vento varrendo as árvores e o silêncio do campo ao meio dia, uma infinita premonição de vida no eco doce da palavra amor solta pela pessoa mais bonita do universo e que Tu sentaste ao meu lado pela via do coração.
Mas há uma realidade de indisfarçável dor tal e qual as cruzes erguidas nas tardes de tormenta do calvário, uma dor que cruzou milénios e que persiste na gente escravizada e explorada, no Homem faminto que come do lixo, na vítima de perseguição pelo que pensa e pelo que é, nas crianças que correm descalças sobre o chão duro semeado pelos senhores da guerra, na iliteracia, no Homem discriminado, no velho que morre sozinho, na floresta que arde nas chaminés dos interesses, no cão apedrejado…
Mas eu vejo-Te e sinto-Te nas profecias doces que por ti inundaram todas as horas…
E deixo que a minha esperança tenha laivos de aleluia como em Jerusalém numa manhã de primavera.
Jamais Te darei nome… pela fé chamar-Te-ei apenas vida, muito mais que Deus.
E o Teu rosto… é o rosto que anda nas vidas de toda a gente.      

(“Um mês A GOSTO” / Dia 14 / Tema proposto por Álvaro Coelho)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

KNOWLEDGE


A Micaela Vanessa, em 2010, Miss Praia Cova do Vapor, apanhou um dia o cacilheiro, acenou ao Cristo Rei, e desembarcou no Cais Sodré.
Depois…
Do alto dos tacões de quinze centímetros virou-se para o Duque da Terceira, e confessou:
- Vim à capital para mostrar o meu valor, agora vão ver como é que é.
E rematou:
- Queira o mundo ou não queira.
Subiu ao Chiado, desceu ao Rossio; e já com a alma em êxtase, o corpo a sentir um calafrio, confirmou a morada nas páginas da “Ana mais atrevida” e... chegou:

"BIMBY UNIVERSITY
Mesmo que o seu QI seja sinistro você sai daqui ministro"

Entrou. Uma gorda loura atrás de um guichet sorriu mostrando os implantes
- Benvinda Micaela, a sua vida hoje mudou e nada será como antes.
E prosseguiu:
- Então qual é o curso que deseja? Temos direito, economia, relações internacionais, antropologia, gestão, farmácia... e alguns outros cursos mais.
- Prontos... então é assim... como eu sou Miss Praia, não tenho namorado, e na Cova do Vapor há cada vez mais estrangeiros... porque não um marido de fora?... quero Relações Internacionais.
- Boa escolha sim senhor. Podemos começar?
- Estou pronta.
- Aproveitamos e fazemos já a Prova de Aferição.
- Força.
- Assine o seu nome nesta linha.
- Humm... Ok... Já está!
- Fantástico. Prova brilhante. Admitida com distinção.
A Micaela bate palmas e a outra continua:
- Ainda tem um pouco de paciência? É que assim despachávamos já o Processo de Equivalência.
- Comecemos porque até me dá jeito.
- Do you speak English?
- Yes.
- OK. O Inglês está feito.
- Vai ao mercado com dez Euros e compra um repolho por dois, quantos Euros traz de volta para casa?
- Ora bem… deixe-me ver…dez, dois… acho que regresso com oito.
- Bravo. Está a ver como sabia. Também já despachámos a Economia. Podemos seguir?
- Sim.
- Se for apanhar um avião para a China, que documento de identificação levará consigo?
- O passaporte
- Politica Internacional concluída com distinção. Está a ver que sorte?
- A Serra da Estrela fica em que país? Angola, México ou Portugal?
- Portugal.
- Parabéns. Já fez Geografia Internacional.
- O Homem vem do macaco ou foi criado por magia?
- Do macaco.
- Muito bem. Aprovada em Antropologia. Cansada?
- Um pouco. É muita matéria, difícil e eu estou algo destreinada.
- Qual foi o último livro que leu?
- “Anita, uma nova aventura”.
- Boa, já fez Literatura.
- Uma pessoa deprimida canta ou chora?
- Chora… de agonia.
- Muito bem, passou a psicologia.
- Quando há eleições, a Micaela tem votado?
- Sempre.
- Excelente, assim já fica com a Organização do Estado.
- Ai que bom. Mas que tarde difícil.
- Pois, mas tenho boas notícias, com as cadeiras que fez já é doutora. A Micaela está licenciada.
- Ai que grande emoção. Eu, Miss e Doutora Micaela… o meu coração arde
- Está a ver… e tudo numa tarde.
- Pois é… vou já ligar à minha primeira Dama de Honor, afinal de contas é tão fácil ser doutor.
E prossegue a funcionária:
- Agora só tem de pagar vinte mil Euros por este curso mais dez mil para o diploma que levantará no dia da praxe. Convém trazer traje e saber tocar pandeireta.
- Assim farei e vou dizer bem da “Bimby University” em todo o lado.
- Obrigado. E sempre pode voltar para fazer o mestrado. Com esse seu ar tão astuto, é coisa para fazer apenas num minuto.
- Vou pensar nisso.
- Pense. “Knowledge is power”, ou em Português… “Conhecimento é poder”. Convém nunca esquecer.

 (“Um mês A GOSTO” / Dia 13 / Letra k / Tema proposto por Rita Almeida)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

JÚBILO


No verão de 1984, acabado de completar 18 anos e em trânsito de Vila Viçosa para Lisboa, fui com a Augusta, a Marina e o Amândio, amigos de há muitos anos, para uma aldeia do concelho de Coruche, a Lamarosa, para “passarmos” uma semana de “Férias Missionárias”.
“Apóstolos” de calças de ganga e repletos de certezas, boas vontades e sonhos, bem dispostos… ficámos alojados numa vivenda ao lado da igreja, tomávamos banho de água fria pois tínhamos de ir buscar água ao poço de um vizinho, cozinhávamos iscas panadas com migas de tomate, telefonávamos de uma cabine telefónica que existia numa mercearia, recebíamos imensos alimentos que as pessoas nos ofereciam (nunca mais provei pêssegos tão bons), escondíamos os pijamas uns aos outros no sótão onde estava guardado um gramofone; e sobretudo, não dispensávamos uma só oportunidade para ficar à conversa com toda a gente dizendo ao que íamos.
E falávamos da fé no Deus que era resposta ao amor que buscávamos para a vida.
Ao princípio do serão rezávamos o terço na igreja com um grupo de pessoas que crescia em número de dia para dia, facto que nos deixava muito felizes.
Mas num dos dias, demasiado animados, achámos que tínhamos tudo para bater o record de participantes e decidimos que eu iria subir à torre para tocar o sino, coisa que faria pela primeira vez.
Não me demiti das funções que me tinham sido atribuídas e subi convictamente os degraus em caracol para uma “performance” que eu acreditei ter sido de júbilo e alegria. Jamais a lezíria seria igual depois daquele “concerto”; eu, uma espécie de “Jean Michel Barreiros Jarre” mas na versão de sacristia.
Pois…
As pessoas começaram a aparecer de facto em grande número mas não propriamente para participarem no terço, só queriam saber qual a desgraça que tinha atingido a aldeia àquela hora: era incêndio ou tinha morrido alguém?
E desta forma terminou prematuramente a minha carreira de sacristão e tocador de sino e carrilhões.
Lembrei-me de vos contar esta história porque no âmbito do desafio “Um mês A GOSTO”, pedi ao meu amigo José Fernandes que me desse um mote com a letra J e ele lembrou-se de Júbilo.
O José Fernandes é natural da Lamarosa e eu conheci-o nesses dias de 1984. Voltámos a encontrar-nos um par de vezes depois destas férias e ficámos quase trinta anos sem nos ver até que nos reencontrámos por mérito do Facebook à mesa de uma pastelaria do bairro onde ambos vivemos há muitos anos, sem que o soubéssemos antes da internet.
Penso que o Zé não se importará que eu diga que o tempo nestes trinta anos se encarregou de lhe concentrar no coração toda a vida que andava dispersa pelos sentidos, mormente na audição.
E nós encontramo-nos por aqui, eu estou a dever-lhe um livro “Nós” e ele “irrita-me” quando o Benfica perde; mas num destes dias lá iremos os dois tomar um café por entre uma conversa que às vezes vê as palavras ditas substituídas pelas escritas num guardanapo ou noutro papel que tenhamos mais à mão.
Júbilo?
Zé, muito bem escolhido.
O que se vê, ou aquilo que se escuta de nós à mesa do café ou no cimo da mais importante torre altaneira, jamais terá algo a ver com a vida que em nós pulsa.
O júbilo é coisa da alma, daquilo que se sente, como tudo o que trazes no coração.
   
 (“Um mês A GOSTO” / Dia 12 / Letra J / Tema proposto por José Fernandes)

terça-feira, 11 de agosto de 2015

IGUALDADE


No final de um dos filmes da minha vida, “Far from Heaven” (“Longe do paraíso”) de Todd Haynes, Cathy, a mulher perfeita dos anos cinquenta Americanos interpretada pela magnífica Julianne Moore, fica sozinha na estação vendo partir o comboio que leva o seu amor, Raymond (Dennis Haysbert).
Ela é branca e ele é negro, ela é mulher de um executivo e ele é o seu jardineiro que a determinada altura, e depois das perseguições raciais de que é vítima, lhe confessa:
- “Aprendi a minha lição acerca de misturar os nossos dois mundos”
Dois mundos…
E o maior pecado dos Homens será sempre a construção de muros mais ou menos invisíveis na separação deste mundo em vários pedaços; paredes erguidas pelo cimento da imbecilidade e constituídos por tijolos recolhidos a pretexto do género, da etnia, religião, nacionalidade, estatuto social, orientação sexual, poder económico…
Ficamos nós contra os outros no império do acessório que esmaga o nuclear, a essência.
“O importante é a rosa”.
O importante é o Homem.
E o invólucro e o tom de um qualquer pigmento na epiderme mata a genética das mãos e dos corpos nascidos para se encontrarem, os ícones afundam Deus e calam o clamor da fé da alma, o socialmente correcto esmaga a verdade que existe num beijo de amor, as fronteiras interrompem as estradas que ligam destinos, o poder destrói o riso, a autenticidade, a vida e o tempo; o “forte” e o “fraco” como sobrenomes e adjectivos de cada género, são traições à essência da verdadeira força.
A soberba na fome de “ser alguém” mata tantas vezes a nobreza de ser gente.
O “cais das estações” de todas as cidades onde vivemos com instinto de sobreviver, estão assim condenados a refúgios da solidão de corpos de mãos dolentes e vazias a acenarem na partida.
Partem “amores”, rasga-se o mundo em dois, trai-se a essência que nos fez iguais…
E matamos Deus em cada um desses instantes.

 (“Um mês A GOSTO” / Dia 11 / Letra I / Tema proposto por Zezinha Valinhas)