sexta-feira, 21 de agosto de 2015

QUADRO


Sobre o quadro negro muito salpicado pelo pó do giz, o professor Lima Martins pendurou uma paisagem que retirou há pouco e ao acaso de uma lata, um paralelepípedo gigante que está sempre encostado à parede oposta à das três enormes janelas.
Vejo um riacho, uma árvore, ao longe, uma montanha… e começo a escrever a “Redacção”.
Estou na quarta classe e escrevo como quem põe palavras naquilo que sonha.
É um sábado de manhã e o Rijksmuseum está cheio de gente que quer despachar-se para ir ao Museu van Gogh, ou então gente cansada porque já veio de lá. Como no banco de uma movimentada estação de metro, sento-me e tenho a “Ronda da noite” só para mim, o privilégio do melhor jogo de sombras que conheço.
E van Gogh…
Também o espreito em Amesterdão mas prefiro vê-lo em Paris no Museu de Orsay. “A noite estrelada sobre o Ródano”, e tantos reflexos e palavras se soltam por entre o aroma a café que tomo depois no bar por detrás do enorme relógio da velha gare nas margens do Sena.
Aponto as notas num caderno que comprei ainda agora na loja do museu.
“Eu e a aldeia” parece um título estranho para Nova Iorque; mas é milagre de Chagall numa das paredes do MoMa. “Eu e a aldeia”, e um pouco de pressa porque o Juan Blas espera por mim ali perto no Instituto Cervantes para irmos almoçar juntos.
Vejo o El Greco a olhar para mim e para o João Paulo em “O enterro do Conde de Orgaz”, na igreja de São Tomé, em Toledo; e também escuto a guerra nos gritos da “Guernica”, de Pablo Picasso, nas paredes de um antigo hospital de Madrid, o Centro Reina Sofia, ali tão demasiado próximo das dores de Março na Estação de Atocha.
E confesso…
Às vezes quando estou pelo Porto e tenho de almoçar próximo do Hospital de Santo António, faço-o na cafetaria do Museu Soares dos Reis, não sem antes ir matar saudades das “Casas brancas de Capri”, do meu conterrâneo Henrique Pousão.
Na redacção que entreguei há pouco ao professor Lima Martins há um homem sentado à beira do riacho e na sombra da árvore, um homem de barbas que escreve as histórias que vai colhendo das sombras que as nuvens e o sol vão oferecendo à montanha que está à sua frente.
Sou eu e o mundo que se me revela, a vida, os meus quadros preferidos e todas as “gravuras” que os mestres e os dias me vão colocando sobre o negro…
E eu desenho sobre eles as minhas palavras… sempre como quem sonha.

 (“Um mês A GOSTO” / Dia 21 / Letra Q / Tema proposto por Miguel Quesada)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

PERMANECER


Com a força com que te quero, escavei a terra e abri valas muito profundas, coloquei uma estrutura em ferro, cimento, e construí os alicerces mais fortes de que há memória; da magia das palavras e dos gestos que me ofereces colhi a inspiração e desenhei as paredes, o telhado, as portas e as janelas, todas com uma vista desafogada para o melhor que a alma pode guardar; pintei de branco a fachada e também lhe ofereci um rodapé azul da cor do Tejo; decorei os recantos ao sabor do desejo, plantei árvores, fiz um jardim com canteiros e centenas de flores; e de seguida, convidei-te a morar no condomínio dos afectos que guardo em mim, nesta casa que é só tua.
Moram aqui todos aqueles que contam para o todo que eu sou, e vivem em casas únicas e intransmissíveis; a tua fica situada na rua que baptizei de Rua da Verdade; uma via principal que cruza com a Rua da Ousadia e a da Liberdade.
Aqui, todas as ruas são largas e permitem dançar à vontade enquanto se caminha ao sabor do riso; os passeios têm bancos de madeira à sombra de uma fé gigante, bancos como fontes onde se descansa, se bebe a paz, e se sonha sem o beliscão de quaisquer fronteiras.
As ruas todas onde passeio contigo, a fé, e os bancos onde nos sentamos nos dias de namorar.
Um condomínio fechado?
Entre a festa e a paz de te sentir a viver aqui, há muitos instantes em que se me despenteia o ar sério ou sisudo, os olhos revelam o endereço deste bairro, e o sorriso denuncia na minha face, o tempo perfeito que vivemos os dois.
Os dias que o futuro multiplicará ao infinito nesta festa de permaneceres em mim, do jeito que só permanecem aqueles que nos constroem.


(“Um mês A GOSTO” / Dia 20 / Letra P / Tema proposto por Pedro António)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

OPTIMISMO


Quem lamenta a “partida” do sol no final de cada tarde, talvez nunca se tenha predisposto a sentir os beijos que a lua oferece enquanto a noite nos envolve. Os beijos de onde nascem as mais inspiradas palavras de amor, que a alma é como as estrelas, e brilha de noite, à hora em que as guitarras choram de saudade e pedem a voz e a garra dos fadistas.
E dessas noites ficam sementes que apodrecem depois à chuva e ao sol dos dias, tão só para que delas possam brotar as flores e os frutos pelos quais o Homem anseia.
O Homem que se dobra para colher o trigo que lhe dá o pão e o faz caminhar de pé, o mesmo Homem que às vezes cai, e faz dessa queda uma pausa de repouso para retomar os seus dias com redobrada força.
Da intensidade da “queda”, ou chamada, depende a capacidade de um atleta voar para o record do mundo num salto em comprimento ou em altura.
Mas quem se fixar apenas na chamada dirá que um Homem caiu.
As pedras que ruíram de uma casa onde vivíamos são a oportunidade para a construção de um outro lar desenhado por nós e mais de acordo com a nossa vontade; um filho que chora e nos desperta durante a noite, é a oportunidade única para um beijo doce; as claras que ficam sobre a bancada depois de termos confeccionado ovos moles, não são um desperdício, são a base para umas igualmente doces e fabulosas farófias.
As lágrimas intensas com que choramos um amor estarão sempre condenadas ao ridículo quando nos reencontrarmos no abraço de um outro maior e melhor amor.
Optimismo…
A História faz-se mas não se conta no presente, e a semente que hoje está ressequida ou apodrece quase nunca consta na descrição da melhor maçã que alguma vez provámos.
Optimismo…
Sim, conheço-o dos meus genes.
  

(“Um mês A GOSTO” / Dia 19 / Letra O / Tema proposto por João Roque)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

UTOPIA


Vindo do Barreiro, o barco atracou há pouco na estação de Sul e Sueste, cumprindo essa nobre missão de oferecer um passo flutuante à gente que como eu tomou o comboio no Alentejo.
Atravesso a rua, nunca deixando de espreitar o Campo das Cebolas e a Casa dos Bicos, e paro no Terreiro do Paço, no lado nascente, na paragem da carreira 39, um autocarro de dois pisos que irá até São Bento e me deixará à porta de casa no Príncipe Real.
À minha frente a paragem dos eléctricos que virarão para a Rua do Arsenal, acelerando pelos carris para o Cais do Sodré e São Paulo.
O meu autocarro tarda...
Um dia, algures pelo futuro, mandarei instalar uma mesa aqui neste mesmo lugar onde me encontro agora, e num fim de tarde de nuvens que tinjam o céu de Lisboa com todas as cores, sentar-me-ei aqui a namorar com a criatura mais fantástica do universo.
Dois "Hayman's" com água tónica e um pequeno mar de frutos vermelhos, ajudarão por certo a incendiar a tarde de onde emergirão as mais doces promessas de amor.
Como num livro daqueles cuja história semeia nós pelas nossas gargantas.
Depois, levantar-nos-emos, daremos um abraço no centro da Praça e caminharemos seguindo o Tejo, mas sem nunca deixar de namorar.
O autocarro chega e eu subo; do piso superior terei melhor vista para a Baixa e todas as ruas que ficam no seu percurso. O revisor é Alentejano, como eu, e já me conhece; fica por ali à conversa, pernas nas escadas e o corpo ao nível do meu, que me encontro sentado. Falamos da Sopa de Tomate e do Benfica que está em crise após a saída de Erickson.
Estou em Outubro de 1984... e levo comigo o sonho.
Utopia?
A nossa vontade é o antídoto da utopia.
Depende de nós se os sonhos são idílicos momentos para nos entretermos nas esperas que a vida nos proporciona, ou se pelo contrário, são rotas por onde seguimos confiantes e com coragem até à realidade.
Recusar-me-ei sempre a cristalizar pela eternidade, os sonhos que nasçam de mim ou aqueles que persistem para que eu renasça mais forte e mais coerente com o que desejo.
Calar um sonho é adiarmo-nos.
Os dois “Hayman’s” com água tónica estavam frescos e deliciosos; a companhia conseguiu superar o sonho.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 18 / Tema proposto por Hélio Cândido)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

NÓS


O rolo de corda, os pedaços que vou cortando à medida, dobrando em dois e pendurando de uma argola branca de plástico que eu já pendurei no trinco de uma porta… três secções de quatro cordas cada, e posso começar a dar os nós.
Às vezes escuto a música guardada num LP qualquer: Duran Duran, Fischer Z, Simon & Garfunkel, um Polystar de um ano qualquer, Eurovisão 1978 com as Baccara a representarem o Luxemburgo…
Outras vezes deixo a “banda sonora” ao critério do rádio que vai tocando baixinho: Tina Turner, Sheena Easton, Olivia Newton John...
Se os nós forem feitos sempre no mesmo sentido, a teia de corda que dele resulta enrola; mas se pelo contrário eu alternar o sentido, a teia fica direita.
Vou deixando espaços sem nós entre cada uma destas teias.
Com as mãos assim ocupadas, com a música a deixar-me de vez em quando uma palavra como mote, é pelo pensamento que sigo, qual marinheiro numa nau cruzando os mares… ao sabor dos nós.
No final cruzo cordas de cada uma das três secções e faço uma rede que depois tranco em baixo; aparo algumas pontas mais irregulares e tenho um suporte para pendurar um vaso. Escolho aquela planta que melhor se possa sentir assim entrelaçada entre as cordas.
Não me recordo do número de suportes para vasos que fiz assim durante algumas férias de verão, mas acho que foram muitos, e alguns até os fiz por encomenda.
Sempre ao sabor do pensamento e a navegar.
Afinal, a vida tem tanto de um rolo de corda que espera por “nós”…
Para que sempre brilhem as flores.

  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 17 / Letra N / Tema proposto por Natália e Guilhermina Sousa)

domingo, 16 de agosto de 2015

MEU


Nunca nada me pertencerá tão completa e legitimamente do que aquilo ou quem eu amo.
Muito fala a gente sobre a posse daquilo que se adquire ou do que nos é oferecido. Serão coisas importantes ou não, serão muito ou pouco, bens móveis, imóveis, diamantes, tesouros… Cumpriremos todos os preceitos legais, não existirão dúvidas, exibiremos todos os comprovativos devidos em casos tais, tatuaremos os nomes nas fachadas; mas tudo permanecerá sempre como um satélite ao redor de nós.
Pelo contrário, tudo e todos os que amo são parte de mim, vivem comigo no mais íntimo, no pensamento, na alma, são raízes profundas dos sorrisos ou do choro triste.
Preciso deles para ser eu completo e inteiro, e cada pessoa que eu amo é uma célula indispensável para a construção do todo que eu sou. Sem ela…
E depois há o pensamento pelo qual existimos e essa mais pura intimidade que temos para connosco próprios.
Poderá existir algo tão ou mais intimamente meu do que o pensamento e tudo o que nele habita?
Por existires tão presente e tão nítido no meu pensamento, tu és tão meu quanto o meu braço direito, quanto todas as palavras que escrevo, quanto os meus beijos, os meus suspiros e os meus sonhos.
Quando nas tardes de domingo saio pela cidade e entrego o meu olhar ao rio, caudal das águas cúmplices dos desejos e do nosso abraço; chamo-te meu... meu amor...
Com legitimidade.
E às vezes até digo que o universo é todo meu, mas isso é porque contigo eu finalmente me deixo acontecer como sempre me imaginei.

  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 16 / Letra M / Tema proposto por Milton Alonso)

sábado, 15 de agosto de 2015

LIBERDADE


Decorria a primavera de 1992 e eu cumpria o Serviço Militar na Farmácia do Hospital Militar Principal, no edifício da Casa de Saúde, à Estrela.
Aspirante Oficial Miliciano, eu desempenhava com brio as funções de farmacêutico e preparava a medicação para os doentes dos diferentes Serviços Clínicos; entre eles um dos meus heróis e um dos maiores heróis do nosso tempo: Salgueiro Maia.
Porque em Abril tudo acontece, e porque é nas manhãs de Abril que se ganha a liberdade e a eternidade, o "Capitão" partiu sem nunca saber que as mãos que lhe preparavam os medicamentos tomaram de si e por si uma nova sorte, entre cravos vermelhos e inevitavelmente... na sua… na nossa manhã de Abril.
Os heróis marcam o tempo, rompem esquinas no previsível, cortam a História, e ali estávamos agora os dois com o Tejo ao fundo, ele o herói, e eu o filho do Artur que era barbeiro desde os dez anos e que um dia não pôde vir a Lisboa porque não tinha uns sapatos dignos para calçar.
A liberdade...
Num dia da última primavera passei pelo Carmo em busca das flores dos jacarandás, e entre o eco da revolução, dos gritos do povo, do megafone de Francisco Sousa Tavares, de Salgueiro Maia; talvez a liberdade não estivesse tão rubra quanto nas palavras de amor que soltei baixinho e ao jeito de um beijo soprado, no ouvido de quem me acompanhava.
Uma revolução; mas a coerência do coração no usufruto de uma herança de liberdade.
O herói partiu sem saber quem eu era, mas a “rua” que abriu na esquina de um tempo novo jamais ficará órfã dos meus passos.
Que as ruas se apagam em pó e ervas sempre que não beneficiam dos passos de alguém.
A liberdade…
A rua da minha liberdade.
  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 15 / Tema proposto por Lucinda Almeida)