segunda-feira, 24 de agosto de 2015

SER


Eu sou a semente acendida na terra rasgada pela coragem dos meus avós, sou a raiz envolta pela esperança que choveu da ousadia e do querer de muita gente.
Eu sou a voz e a palavra à solta por entre o eco de uma manhã de liberdade, sou o poema rebelde e doce tecido por um olhar cúmplice de todos os mares; e também pelas mãos "ásperas" que não se cansam nunca de me segredar o amor maior.
Eu sou o passo certo e o incerto, o previsível, a diferença, sou o dia e a noite, sou água, vinho, riso, sou mágoa, sou poente, nascente, o instante, a eternidade; sou o nada e sou tudo no tudo da minha vontade.
Eu sou um rio buscando o mar que abraça, sou barco, às vezes só jangada, e sou uma ilha, um Gama buscando as “Índias” que o seu querer lhe traça.
Eu sou o grito que rasga os silêncios que doem, o abraço na morte da solidão, a gargalhada, a piada, sou o sim, o não que muda o tempo, a coragem, a paz, a festa; e às vezes… uma revolução.
Eu sou o beijo que não mente, doce, ousado, rebelde, mas muito meu e coerente; sou o gesto e a esperança no entoar de um salmo sem letras nascido do louvor da alma de um Homem crente.
Eu sou o hoje e todos os amanhãs…
E por muitos dias que passem e que o espelho insista em devolver-me um rosto diferente, com a barba cheia de cãs; eu resisto, e não consigo deixar de me sentir um eterno Quim, que até nem é má pessoa, tem piada fácil e é um rapaz (quase) sempre contente.

 (“Um mês A GOSTO” / Dia 24 / Tema proposto por Maria São Rodrigues)

domingo, 23 de agosto de 2015

RAMAGEM


Junto à porta da casa do forno colocaram há pouco os ramos já secos da esteva colhida pelos montes. O sol não apagou totalmente a sua resina e é intenso o aroma que se liberta pelo ar ou quando lhe tocamos mesmo que ao de leve na hora de nos escondermos enquanto brincamos.
Não tardará muito e este mesmo aroma passará para o pão, e também para os bolos fintos que a mãe amassou e que esperam em grandes tabuleiros negros de metal, a sua vez de entrarem no forno.
É santa esta quinta-feira de Abril, e daí até Junho será um curtíssimo salto no tempo.
A nossa rua irá como sempre comemorar o São Pedro, e os serões que vão desde aqui até à véspera da festa serão passados no rés-do-chão da casa da D. Mariana Emilia a cortar e a enrolar papel que depois da ajuda de um arame muito maleável, tomará a forma de flores que oferecerão à rua um tecto colorido na hora de passar a procissão com o andor da imagem que sairá da igreja da Misericórdia.
Mas antes, algum vizinho se encarregará de ir ao campo buscar fectos e rosmaninho que espalharemos pelo chão; um informal "incenso" da planície para saudar a fé que passeia connosco.
E o passo da gente esmaga as plantas que incansáveis perfumam o ar durante toda a noite.
Mas Junho às vezes também é mês de despedidas…
Acabaram as aulas e o Padre Armando vai deixar Vila Viçosa para regressar a Proença-a-Nova.
No grupo onde muito iremos sentir a sua falta preparámos uma festa de despedida; e porque ele um dia nos contou que na sua meninice na Beira Baixa fazia sucesso na hora do mês de Maria, porque apanhava umas fantásticas e muito campestres flores amarelas, nós andámos toda a tarde pelo campo a recolher tudo aquilo que de amarelo a primavera tinha feito crescer ao redor de Vila Viçosa.
Enchemos a sala do Lar Juvenil onde sempre nos reunimos, com uma imensidão de flores amarelas.
O Padre Armando adorou a surpresa, elogiou-nos o esforço, mas confessou que não tínhamos conseguido encontrar as "suas flores".
Entre o pão, o divino e a amizade...
Os dias carregam infinitos aromas, na sua mais perfeita informalidade.
Por mais que nos apliquemos ao serão e façamos umas farfalhudas hortênsias, jamais as flores que penduramos e que foram talhadas pelas nossas mãos terão o cheiro que vive à solta pelos montes na bravura daquilo que nem foi semeado.
Mesmo quando não encontramos as “flores” que buscamos, há casas cheias de muitas outras que nos permitem viver a festa.
E eu jamais deixarei de me lembrar do Padre Armando quando passo e vejo flores amarelas algures pelo campo; ele por certo sorrirá desde o Céu e por entre o perfume da minha história e das pessoas que nela se eternizaram em mim.
  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 23 / Tema proposto por Rui Pereira)

sábado, 22 de agosto de 2015

SIMPLICIDADE


“Olhai os lírios do campo”.
Quem já leu o Sermão da Montanha, e também o livro inspirado do escritor Brasileiro Érico Verissimo que dele tomou título através exactamente desta frase, entende que a vida se tece pela escolha contínua entre o simples e o sofisticado, a autenticidade e os mantos e as segundas peles que nos calam a essência a favor da imagem com que nos “vendemos” aos outros.
De forma consciente, eu “votarei” sempre na primeira opção.
Quero ser um lírio ao sol temperando de roxo e de todas as minhas cores, o verde tom dos campos de Abril e primavera; quero “tomar” sem biombos, restrições ou barreiras, a poesia que o vento colhe das estevas e dos trigais para depois segredar ao ouvido de quem abraça a liberdade…
Quero ser eu num lírio que ofereça brilho à semente que o criou e que cante glórias à chuva de tantos beijos que o fizeram assim… que me fizeram assim.
A simplicidade…
A mais divina simplicidade ou a opção por tão só sermos nós e sermos grandes por essa única via.
Quem se nega a si para envergar as vestes que o mundo lhe pede, o sofisticado veludo das “burkas sociais”, é uma máscara ridícula a vaguear por um imenso Carnaval.
E a vida vira um corso.
“Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.”

(“Um mês A GOSTO” / Dia 22 / Tema proposto por Augusto Castro)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

QUADRO


Sobre o quadro negro muito salpicado pelo pó do giz, o professor Lima Martins pendurou uma paisagem que retirou há pouco e ao acaso de uma lata, um paralelepípedo gigante que está sempre encostado à parede oposta à das três enormes janelas.
Vejo um riacho, uma árvore, ao longe, uma montanha… e começo a escrever a “Redacção”.
Estou na quarta classe e escrevo como quem põe palavras naquilo que sonha.
É um sábado de manhã e o Rijksmuseum está cheio de gente que quer despachar-se para ir ao Museu van Gogh, ou então gente cansada porque já veio de lá. Como no banco de uma movimentada estação de metro, sento-me e tenho a “Ronda da noite” só para mim, o privilégio do melhor jogo de sombras que conheço.
E van Gogh…
Também o espreito em Amesterdão mas prefiro vê-lo em Paris no Museu de Orsay. “A noite estrelada sobre o Ródano”, e tantos reflexos e palavras se soltam por entre o aroma a café que tomo depois no bar por detrás do enorme relógio da velha gare nas margens do Sena.
Aponto as notas num caderno que comprei ainda agora na loja do museu.
“Eu e a aldeia” parece um título estranho para Nova Iorque; mas é milagre de Chagall numa das paredes do MoMa. “Eu e a aldeia”, e um pouco de pressa porque o Juan Blas espera por mim ali perto no Instituto Cervantes para irmos almoçar juntos.
Vejo o El Greco a olhar para mim e para o João Paulo em “O enterro do Conde de Orgaz”, na igreja de São Tomé, em Toledo; e também escuto a guerra nos gritos da “Guernica”, de Pablo Picasso, nas paredes de um antigo hospital de Madrid, o Centro Reina Sofia, ali tão demasiado próximo das dores de Março na Estação de Atocha.
E confesso…
Às vezes quando estou pelo Porto e tenho de almoçar próximo do Hospital de Santo António, faço-o na cafetaria do Museu Soares dos Reis, não sem antes ir matar saudades das “Casas brancas de Capri”, do meu conterrâneo Henrique Pousão.
Na redacção que entreguei há pouco ao professor Lima Martins há um homem sentado à beira do riacho e na sombra da árvore, um homem de barbas que escreve as histórias que vai colhendo das sombras que as nuvens e o sol vão oferecendo à montanha que está à sua frente.
Sou eu e o mundo que se me revela, a vida, os meus quadros preferidos e todas as “gravuras” que os mestres e os dias me vão colocando sobre o negro…
E eu desenho sobre eles as minhas palavras… sempre como quem sonha.

 (“Um mês A GOSTO” / Dia 21 / Letra Q / Tema proposto por Miguel Quesada)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

PERMANECER


Com a força com que te quero, escavei a terra e abri valas muito profundas, coloquei uma estrutura em ferro, cimento, e construí os alicerces mais fortes de que há memória; da magia das palavras e dos gestos que me ofereces colhi a inspiração e desenhei as paredes, o telhado, as portas e as janelas, todas com uma vista desafogada para o melhor que a alma pode guardar; pintei de branco a fachada e também lhe ofereci um rodapé azul da cor do Tejo; decorei os recantos ao sabor do desejo, plantei árvores, fiz um jardim com canteiros e centenas de flores; e de seguida, convidei-te a morar no condomínio dos afectos que guardo em mim, nesta casa que é só tua.
Moram aqui todos aqueles que contam para o todo que eu sou, e vivem em casas únicas e intransmissíveis; a tua fica situada na rua que baptizei de Rua da Verdade; uma via principal que cruza com a Rua da Ousadia e a da Liberdade.
Aqui, todas as ruas são largas e permitem dançar à vontade enquanto se caminha ao sabor do riso; os passeios têm bancos de madeira à sombra de uma fé gigante, bancos como fontes onde se descansa, se bebe a paz, e se sonha sem o beliscão de quaisquer fronteiras.
As ruas todas onde passeio contigo, a fé, e os bancos onde nos sentamos nos dias de namorar.
Um condomínio fechado?
Entre a festa e a paz de te sentir a viver aqui, há muitos instantes em que se me despenteia o ar sério ou sisudo, os olhos revelam o endereço deste bairro, e o sorriso denuncia na minha face, o tempo perfeito que vivemos os dois.
Os dias que o futuro multiplicará ao infinito nesta festa de permaneceres em mim, do jeito que só permanecem aqueles que nos constroem.


(“Um mês A GOSTO” / Dia 20 / Letra P / Tema proposto por Pedro António)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

OPTIMISMO


Quem lamenta a “partida” do sol no final de cada tarde, talvez nunca se tenha predisposto a sentir os beijos que a lua oferece enquanto a noite nos envolve. Os beijos de onde nascem as mais inspiradas palavras de amor, que a alma é como as estrelas, e brilha de noite, à hora em que as guitarras choram de saudade e pedem a voz e a garra dos fadistas.
E dessas noites ficam sementes que apodrecem depois à chuva e ao sol dos dias, tão só para que delas possam brotar as flores e os frutos pelos quais o Homem anseia.
O Homem que se dobra para colher o trigo que lhe dá o pão e o faz caminhar de pé, o mesmo Homem que às vezes cai, e faz dessa queda uma pausa de repouso para retomar os seus dias com redobrada força.
Da intensidade da “queda”, ou chamada, depende a capacidade de um atleta voar para o record do mundo num salto em comprimento ou em altura.
Mas quem se fixar apenas na chamada dirá que um Homem caiu.
As pedras que ruíram de uma casa onde vivíamos são a oportunidade para a construção de um outro lar desenhado por nós e mais de acordo com a nossa vontade; um filho que chora e nos desperta durante a noite, é a oportunidade única para um beijo doce; as claras que ficam sobre a bancada depois de termos confeccionado ovos moles, não são um desperdício, são a base para umas igualmente doces e fabulosas farófias.
As lágrimas intensas com que choramos um amor estarão sempre condenadas ao ridículo quando nos reencontrarmos no abraço de um outro maior e melhor amor.
Optimismo…
A História faz-se mas não se conta no presente, e a semente que hoje está ressequida ou apodrece quase nunca consta na descrição da melhor maçã que alguma vez provámos.
Optimismo…
Sim, conheço-o dos meus genes.
  

(“Um mês A GOSTO” / Dia 19 / Letra O / Tema proposto por João Roque)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

UTOPIA


Vindo do Barreiro, o barco atracou há pouco na estação de Sul e Sueste, cumprindo essa nobre missão de oferecer um passo flutuante à gente que como eu tomou o comboio no Alentejo.
Atravesso a rua, nunca deixando de espreitar o Campo das Cebolas e a Casa dos Bicos, e paro no Terreiro do Paço, no lado nascente, na paragem da carreira 39, um autocarro de dois pisos que irá até São Bento e me deixará à porta de casa no Príncipe Real.
À minha frente a paragem dos eléctricos que virarão para a Rua do Arsenal, acelerando pelos carris para o Cais do Sodré e São Paulo.
O meu autocarro tarda...
Um dia, algures pelo futuro, mandarei instalar uma mesa aqui neste mesmo lugar onde me encontro agora, e num fim de tarde de nuvens que tinjam o céu de Lisboa com todas as cores, sentar-me-ei aqui a namorar com a criatura mais fantástica do universo.
Dois "Hayman's" com água tónica e um pequeno mar de frutos vermelhos, ajudarão por certo a incendiar a tarde de onde emergirão as mais doces promessas de amor.
Como num livro daqueles cuja história semeia nós pelas nossas gargantas.
Depois, levantar-nos-emos, daremos um abraço no centro da Praça e caminharemos seguindo o Tejo, mas sem nunca deixar de namorar.
O autocarro chega e eu subo; do piso superior terei melhor vista para a Baixa e todas as ruas que ficam no seu percurso. O revisor é Alentejano, como eu, e já me conhece; fica por ali à conversa, pernas nas escadas e o corpo ao nível do meu, que me encontro sentado. Falamos da Sopa de Tomate e do Benfica que está em crise após a saída de Erickson.
Estou em Outubro de 1984... e levo comigo o sonho.
Utopia?
A nossa vontade é o antídoto da utopia.
Depende de nós se os sonhos são idílicos momentos para nos entretermos nas esperas que a vida nos proporciona, ou se pelo contrário, são rotas por onde seguimos confiantes e com coragem até à realidade.
Recusar-me-ei sempre a cristalizar pela eternidade, os sonhos que nasçam de mim ou aqueles que persistem para que eu renasça mais forte e mais coerente com o que desejo.
Calar um sonho é adiarmo-nos.
Os dois “Hayman’s” com água tónica estavam frescos e deliciosos; a companhia conseguiu superar o sonho.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 18 / Tema proposto por Hélio Cândido)