quarta-feira, 26 de agosto de 2015

UNIÃO


Sentado sozinho na esplanada, apercebo-me que há um homem próximo de mim que assobia num tom dolente de suspiro, um airoso modo de disfarce para as palavras que guarda e não pode dizer a ninguém.
Ofereço-lhe por momentos o olhar, e vejo como o tom asa de corvo do seu cabelo não cumpre nem de perto nem de longe, o objectivo de calar o tempo.
E devolvo-me ao bloco onde escrevo.
Algures pelos finais dos anos setenta, o Dr. Manuel Inácio Pestana vai dar uma conferência no salão da Sociedade Artística Calipolense; um serão diferente a que eu e os meus amigos não faltamos de bloco de apontamentos e caneta, não vá o prelector revelar localizações de subterrâneos que guardem tesouros capazes de nos tornar tão famosos quanto os cinco da Enyd Blyton.
Já na viragem para os anos oitenta, a Vila pára à hora da telenovela, e nós, já adolescentes da "Turma do Clerasil", encontramo-nos na Corredora, na garagem da Casa Paroquial para as reuniões de um grupo que baptizámos de "Sementes de Esperança".
Cruzamos os anos oitenta em sítios diversos; e por entre sebentas, croissants e o Cartão Jovem, escrevemos cartas uns aos outros.
Na viragem para os anos noventa escutamos os Madredeus e começamos a usar gravatas de riscas, cornucópias e bonecos da Disney; para trabalhar e também para os fins-de-semana dos casamentos. Seis bodas em 1992, o Ano de Barcelona.
Viajamos pelos anos noventa, no país e no estrangeiro, compramos telemóveis, tornamo-nos mais próximos pelas virtudes de falar também com os dedos, e passamos para os anos de 2000 a pensar que a Europa jamais voltará a ter muros, sendo Portugal uma imensa e eterna Expo.
Na primeira década do Século XXI fomos para o Marquês festejar as defesas do Ricardo no jogo contra a Inglaterra, e começámos a encontrar-nos informalmente na solidão da partida de tantos daqueles que nos fizeram assim felizes.
Na segunda década pagamos a Troika, falamos no Facebook, convocamo-nos por SMS e já damos boleia aos filhos uns dos outros porque quase todos já estão na universidade.
As conferências são sempre em Vila Viçosa, não na Sociedade Artística mas no Café Restauração. Também já não levamos bloco e caneta, e não é por termos telemóvel e iPad; é que os tesouros, aprendemos a registá-los no coração e com a tinta indelével dos afectos.
Temos cabelos brancos porque adoramos o tempo que vivemos e nunca precisaremos de assobiar para espantar a solidão porque nos temos sempre presentes.
União...
Na hora de escrever este tema achei que só o poderia fazer a pensar nos meus amigos de Vila Viçosa, únicos e eternos, como tantos outros fantásticos que entretanto foram chegando e unindo-se a mim sem equívocos para ficarem”.
Por todos e pelo incansável toque dos afectos, jamais andaremos pelas esplanadas a camuflar a solidão.
E para que conste e pedindo desculpa se me esqueci de alguém, aqui ficam os nomes que guardo no “Mural da União” desse tempo em que fomos crescendo juntos entre a Porta dos Nós e a Quinta Augusta, entre a Lapa e os Capuchos:
Manuel Almas, João Paulo Silva, Paulo Geadas, Paulo Quinteiro, Pedro Silva, Manuela Silvério, Rosa Silvério, José Maria Barreiros, Zinha Duarte, São Duarte, Lurdes Duarte, Céu Duarte, Fernando Duarte, Rui Duarte, Madalena Barros, Mena Rosa, Célia Costa, Béquim Saúde, Gina Barradas, Jesus Simões, Palmira Calado, São Aurélio, Clara Fonseca, Manuela Baptista, Jorge Lopes, Paulo Serrano, Paulo Ratado, Tina Cravo, Maria José Ramalho, Luísa Valente, Margarida Paulino, Maria José Bexiga, Bela Toscano, Jesus Rosa, Paula Dias, Catarina Dias, São Cravo, Helena Pereira, Joana Pinto, Maria João Nogueira, Ana Cristina Almas, Pedro Pinto, Filipe Bacalhau, Mena Espiguinha, São Ramalho Casco, João Casco, São Penetra, São Toscano, Zé Toscano, Ana Isabel Rocha da Silva, Elsa Grácio, Manuela Caeiro, Manuela Cordeiro, Graciete Reia, Paula Paulino, Paula Almas e, claro, o meu irmão, José Artur Barreiros.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 26 / Letra U / Tema proposto por Eduardo Santos)

terça-feira, 25 de agosto de 2015

TRAVESSEIRO


Na cama dos nossos pais existia um travesseiro a toda a largura da cabeceira, em cima do qual se colocavam depois duas pequenas almofadas individuais que davam uma identidade a cada um dos lados do leito; se bem que a identidade que se impunha era essa indiscutível cumplicidade denunciada por essa muito comprida estrutura cheia de esponja muito colorida e esquartejada em pedaços.
E quando pensávamos que um dia iriamos ser felizes ao lado de alguém, sempre acreditávamos que sim, a vida dar-nos-ia a pessoa ideal do outro lado dessa longuíssima almofada que por vezes ajudávamos a nossa mãe a enfronhar na hora de fazer a cama.
Enfronhar, uma tarefa que não era objectivamente fácil.
Também existiam travesseiros nas camas dos nossos avós e dos nossos tios, e nós também os conhecíamos bem dessas noites que eram especiais porque ficávamos em suas casas para que os nossos pais pudessem ir a alguma festa ou a algum baile, e pudessem regressar depois mais tarde a casa.
Tal como os das camas dos nossos pais, para onde saltávamos a voar nos domingos de manhã, esses travesseiros também eram cúmplices das histórias que nos eram contadas por ali num objectivo que cruzava a distracção com o embalo para mais uns minutos de sono.
E quando já ficávamos donos e senhores dessas camas, então o travesseiro moldava-se por cima da nossa cabeça para sermos um genérico da esfinge, e, garanto-vos eu que um travesseiro bem colocado à esquina de uma cama de ferro forjado resulta num magnífico fosso de orquestra no palco da Eurovisão para que possamos cantar com garra o “Aprés Toi” da Vicky Leandros.
Por tudo o que partilho convosco, é por serem polvilhados de açúcar que os bolos da Periquita, em Sintra, têm toda a legitimidade para se chamarem “Travesseiros”, muito mais até do que pela forma enrolada e comprida da sua massa folhada estaladiça, perfeita ainda morna e que me faz aguentar horas na fila para os degustar.
O açúcar das doces memórias.
Quem me propôs este tema foi o Carlos Trindade, o tal amigo que um dia me ofereceu um caderno vermelho que eu uso para tirar notas e escrever poemas. O Carlos é uma pessoa extraordinária e desde logo ser seu amigo é um privilégio, mas há mais, é que sentados à mesa do café, acabamos sempre a geminar informalmente Vila Viçosa e Beja através das nossas histórias tão iguais.
E eu não tenho a certeza, mas quase que juro que um dia falámos dos travesseiros nas camas dos nossos pais e destas manhãs perfeitas de domingo, quando pela casa já existia um intenso cheiro a “brinhol”.
  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 25 / Letra T / Tema proposto por Carlos Trindade)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

SER


Eu sou a semente acendida na terra rasgada pela coragem dos meus avós, sou a raiz envolta pela esperança que choveu da ousadia e do querer de muita gente.
Eu sou a voz e a palavra à solta por entre o eco de uma manhã de liberdade, sou o poema rebelde e doce tecido por um olhar cúmplice de todos os mares; e também pelas mãos "ásperas" que não se cansam nunca de me segredar o amor maior.
Eu sou o passo certo e o incerto, o previsível, a diferença, sou o dia e a noite, sou água, vinho, riso, sou mágoa, sou poente, nascente, o instante, a eternidade; sou o nada e sou tudo no tudo da minha vontade.
Eu sou um rio buscando o mar que abraça, sou barco, às vezes só jangada, e sou uma ilha, um Gama buscando as “Índias” que o seu querer lhe traça.
Eu sou o grito que rasga os silêncios que doem, o abraço na morte da solidão, a gargalhada, a piada, sou o sim, o não que muda o tempo, a coragem, a paz, a festa; e às vezes… uma revolução.
Eu sou o beijo que não mente, doce, ousado, rebelde, mas muito meu e coerente; sou o gesto e a esperança no entoar de um salmo sem letras nascido do louvor da alma de um Homem crente.
Eu sou o hoje e todos os amanhãs…
E por muitos dias que passem e que o espelho insista em devolver-me um rosto diferente, com a barba cheia de cãs; eu resisto, e não consigo deixar de me sentir um eterno Quim, que até nem é má pessoa, tem piada fácil e é um rapaz (quase) sempre contente.

 (“Um mês A GOSTO” / Dia 24 / Tema proposto por Maria São Rodrigues)

domingo, 23 de agosto de 2015

RAMAGEM


Junto à porta da casa do forno colocaram há pouco os ramos já secos da esteva colhida pelos montes. O sol não apagou totalmente a sua resina e é intenso o aroma que se liberta pelo ar ou quando lhe tocamos mesmo que ao de leve na hora de nos escondermos enquanto brincamos.
Não tardará muito e este mesmo aroma passará para o pão, e também para os bolos fintos que a mãe amassou e que esperam em grandes tabuleiros negros de metal, a sua vez de entrarem no forno.
É santa esta quinta-feira de Abril, e daí até Junho será um curtíssimo salto no tempo.
A nossa rua irá como sempre comemorar o São Pedro, e os serões que vão desde aqui até à véspera da festa serão passados no rés-do-chão da casa da D. Mariana Emilia a cortar e a enrolar papel que depois da ajuda de um arame muito maleável, tomará a forma de flores que oferecerão à rua um tecto colorido na hora de passar a procissão com o andor da imagem que sairá da igreja da Misericórdia.
Mas antes, algum vizinho se encarregará de ir ao campo buscar fectos e rosmaninho que espalharemos pelo chão; um informal "incenso" da planície para saudar a fé que passeia connosco.
E o passo da gente esmaga as plantas que incansáveis perfumam o ar durante toda a noite.
Mas Junho às vezes também é mês de despedidas…
Acabaram as aulas e o Padre Armando vai deixar Vila Viçosa para regressar a Proença-a-Nova.
No grupo onde muito iremos sentir a sua falta preparámos uma festa de despedida; e porque ele um dia nos contou que na sua meninice na Beira Baixa fazia sucesso na hora do mês de Maria, porque apanhava umas fantásticas e muito campestres flores amarelas, nós andámos toda a tarde pelo campo a recolher tudo aquilo que de amarelo a primavera tinha feito crescer ao redor de Vila Viçosa.
Enchemos a sala do Lar Juvenil onde sempre nos reunimos, com uma imensidão de flores amarelas.
O Padre Armando adorou a surpresa, elogiou-nos o esforço, mas confessou que não tínhamos conseguido encontrar as "suas flores".
Entre o pão, o divino e a amizade...
Os dias carregam infinitos aromas, na sua mais perfeita informalidade.
Por mais que nos apliquemos ao serão e façamos umas farfalhudas hortênsias, jamais as flores que penduramos e que foram talhadas pelas nossas mãos terão o cheiro que vive à solta pelos montes na bravura daquilo que nem foi semeado.
Mesmo quando não encontramos as “flores” que buscamos, há casas cheias de muitas outras que nos permitem viver a festa.
E eu jamais deixarei de me lembrar do Padre Armando quando passo e vejo flores amarelas algures pelo campo; ele por certo sorrirá desde o Céu e por entre o perfume da minha história e das pessoas que nela se eternizaram em mim.
  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 23 / Tema proposto por Rui Pereira)

sábado, 22 de agosto de 2015

SIMPLICIDADE


“Olhai os lírios do campo”.
Quem já leu o Sermão da Montanha, e também o livro inspirado do escritor Brasileiro Érico Verissimo que dele tomou título através exactamente desta frase, entende que a vida se tece pela escolha contínua entre o simples e o sofisticado, a autenticidade e os mantos e as segundas peles que nos calam a essência a favor da imagem com que nos “vendemos” aos outros.
De forma consciente, eu “votarei” sempre na primeira opção.
Quero ser um lírio ao sol temperando de roxo e de todas as minhas cores, o verde tom dos campos de Abril e primavera; quero “tomar” sem biombos, restrições ou barreiras, a poesia que o vento colhe das estevas e dos trigais para depois segredar ao ouvido de quem abraça a liberdade…
Quero ser eu num lírio que ofereça brilho à semente que o criou e que cante glórias à chuva de tantos beijos que o fizeram assim… que me fizeram assim.
A simplicidade…
A mais divina simplicidade ou a opção por tão só sermos nós e sermos grandes por essa única via.
Quem se nega a si para envergar as vestes que o mundo lhe pede, o sofisticado veludo das “burkas sociais”, é uma máscara ridícula a vaguear por um imenso Carnaval.
E a vida vira um corso.
“Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.”

(“Um mês A GOSTO” / Dia 22 / Tema proposto por Augusto Castro)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

QUADRO


Sobre o quadro negro muito salpicado pelo pó do giz, o professor Lima Martins pendurou uma paisagem que retirou há pouco e ao acaso de uma lata, um paralelepípedo gigante que está sempre encostado à parede oposta à das três enormes janelas.
Vejo um riacho, uma árvore, ao longe, uma montanha… e começo a escrever a “Redacção”.
Estou na quarta classe e escrevo como quem põe palavras naquilo que sonha.
É um sábado de manhã e o Rijksmuseum está cheio de gente que quer despachar-se para ir ao Museu van Gogh, ou então gente cansada porque já veio de lá. Como no banco de uma movimentada estação de metro, sento-me e tenho a “Ronda da noite” só para mim, o privilégio do melhor jogo de sombras que conheço.
E van Gogh…
Também o espreito em Amesterdão mas prefiro vê-lo em Paris no Museu de Orsay. “A noite estrelada sobre o Ródano”, e tantos reflexos e palavras se soltam por entre o aroma a café que tomo depois no bar por detrás do enorme relógio da velha gare nas margens do Sena.
Aponto as notas num caderno que comprei ainda agora na loja do museu.
“Eu e a aldeia” parece um título estranho para Nova Iorque; mas é milagre de Chagall numa das paredes do MoMa. “Eu e a aldeia”, e um pouco de pressa porque o Juan Blas espera por mim ali perto no Instituto Cervantes para irmos almoçar juntos.
Vejo o El Greco a olhar para mim e para o João Paulo em “O enterro do Conde de Orgaz”, na igreja de São Tomé, em Toledo; e também escuto a guerra nos gritos da “Guernica”, de Pablo Picasso, nas paredes de um antigo hospital de Madrid, o Centro Reina Sofia, ali tão demasiado próximo das dores de Março na Estação de Atocha.
E confesso…
Às vezes quando estou pelo Porto e tenho de almoçar próximo do Hospital de Santo António, faço-o na cafetaria do Museu Soares dos Reis, não sem antes ir matar saudades das “Casas brancas de Capri”, do meu conterrâneo Henrique Pousão.
Na redacção que entreguei há pouco ao professor Lima Martins há um homem sentado à beira do riacho e na sombra da árvore, um homem de barbas que escreve as histórias que vai colhendo das sombras que as nuvens e o sol vão oferecendo à montanha que está à sua frente.
Sou eu e o mundo que se me revela, a vida, os meus quadros preferidos e todas as “gravuras” que os mestres e os dias me vão colocando sobre o negro…
E eu desenho sobre eles as minhas palavras… sempre como quem sonha.

 (“Um mês A GOSTO” / Dia 21 / Letra Q / Tema proposto por Miguel Quesada)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

PERMANECER


Com a força com que te quero, escavei a terra e abri valas muito profundas, coloquei uma estrutura em ferro, cimento, e construí os alicerces mais fortes de que há memória; da magia das palavras e dos gestos que me ofereces colhi a inspiração e desenhei as paredes, o telhado, as portas e as janelas, todas com uma vista desafogada para o melhor que a alma pode guardar; pintei de branco a fachada e também lhe ofereci um rodapé azul da cor do Tejo; decorei os recantos ao sabor do desejo, plantei árvores, fiz um jardim com canteiros e centenas de flores; e de seguida, convidei-te a morar no condomínio dos afectos que guardo em mim, nesta casa que é só tua.
Moram aqui todos aqueles que contam para o todo que eu sou, e vivem em casas únicas e intransmissíveis; a tua fica situada na rua que baptizei de Rua da Verdade; uma via principal que cruza com a Rua da Ousadia e a da Liberdade.
Aqui, todas as ruas são largas e permitem dançar à vontade enquanto se caminha ao sabor do riso; os passeios têm bancos de madeira à sombra de uma fé gigante, bancos como fontes onde se descansa, se bebe a paz, e se sonha sem o beliscão de quaisquer fronteiras.
As ruas todas onde passeio contigo, a fé, e os bancos onde nos sentamos nos dias de namorar.
Um condomínio fechado?
Entre a festa e a paz de te sentir a viver aqui, há muitos instantes em que se me despenteia o ar sério ou sisudo, os olhos revelam o endereço deste bairro, e o sorriso denuncia na minha face, o tempo perfeito que vivemos os dois.
Os dias que o futuro multiplicará ao infinito nesta festa de permaneceres em mim, do jeito que só permanecem aqueles que nos constroem.


(“Um mês A GOSTO” / Dia 20 / Letra P / Tema proposto por Pedro António)