segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ZERO


Há dias com um triste gosto a nada, em que a vida parece ter sido multiplicada por zero; mas pelo contrário, há dias em que nos levantamos da cama ao ritmo de uma contagem em Cabo Canaveral… dez, nove… dois, um, zero… e mais ninguém nos segura por entre a energia de conquistar tudo, e até conseguimos chegar à lua.
Tudo sem que o zero deixe de ser zero e sem que a nossa vida também deixe de o ser.
Há dias em que nos sentimos um zero sentado à esquerda de qualquer coisa, anónimos e indiferentes personagens numa multidão que passa e para a qual não contamos absolutamente nada; mas há dias em que somos um zero à direita daquilo que ambicionamos, e então valemos por dez com força para mudarmos o mundo. E se for preciso ainda somamos mais zeros porque temos ganas de infinito.
E o zero é nada como pode ser o infinito…
Tal qual a vida, bastando que nos coloquemos sempre do lado correcto, do lado que nos faz maiores, que nos coloquemos onde, quando e com quem poderemos elevar-nos e elevar a nossa fé até ao infinito.
Assim termina “O mês A GOSTO”, o Zero no dia 31.
Mas como eu gosto do Zero à direita e como gosto de sentir a sua força propulsora, deixei que na lista de letras e temas faltasse propositadamente o “X”, a tal letra que pode ser tudo, quer falemos de uma equação, de uma pessoa, etc.
Em segredo pedi a uma série de amigos que me enviassem uma palavra começada por X, juntei-as e construí uma história que amanhã partilharei convosco.
Tudo porque nada do que é bom pode ter um fim e ser multiplicado por zero.
É bom estar convosco aqui no Pomar das Laranjeiras e que os X dias, muitos e infinitos das vossas vidas, vos tragam sempre aquilo que mais ambicionam.
Aquele abraço

(“Um mês A GOSTO” / Dia 31 / Letra Z / Tema proposto por Zinha Duarte)

domingo, 30 de agosto de 2015

YES


Gosto do sim que se pressente numa manhã solarenga e perfumada de Verão quando abro a janela depois de me ter despertado a trautear uma canção daquelas que não esqueço nunca, uma música com latitude e longitude no universo de tudo o que eu já vivi.
Gosto tanto do sabor que o sim da decisão deixa à solta na minha boca depois do passo em frente em direcção ao sonho e à minha vontade.
Gosto da coragem de um sim honesto e livre mas diferente, sobretudo quando seria expectável o fácil vazio do disfarce de um não.
Gosto do sim soletrado pelo eco de um poema que parece semear um canteiro de flores dentro de mim.
Gosto do sim expresso por uma rosa, por um entardecer na praia, por um poente… ao tanto da minha fé.
Gosto do sim de uma gargalhada, do sim de um copo de tinto, do sim do abraço de um amigo… para a festa de tornar felizes os dias de viver.
Gosto muito quando o sim espreita doce à janela do teu olhar e o instante que se segue traz com ele a dimensão perfeita de um beijo que há muito sonhei.
Gosto do sim solto pela tua mão quando procura a minha para um jogo de carícias que diz sim ao mais íntimo guardado no desejo que tem a minha idade.
Gosto do sim…
Como às vezes gosto do não, nas circunstâncias em que ele dá corpo à festa doce e perfeita que é a minha liberdade.


(“Um mês A GOSTO” / Dia 30 / Letra Y / Tema proposto por Manuela e José Barreiros)

sábado, 29 de agosto de 2015

WATER


No dia largo de um Julho ainda a começar, o sol a pique sobre as sete colinas, o repicar alegre dos sinos nas torres das igrejas e dos mosteiros, o burburinho da gente nos mercados da cidade, o pregão e a notícia que corre pelas esquinas…
Nós tomámos as naus em nossas mãos, e alinhando as águas e os ventos com a vontade, soltámos as velas, deixámos no cais o peito dos amores tolhidos pela mágoa, e contra a voz dos incrédulos, dos “velhos”, e por entre a tão lusa saudade, partimos do Restelo...
O Tejo, a barra, e finalmente o mar.
De Lisboa, a genética dos heróis inscrita na letra de um fado em tom maior, tão grande quanto a ambição que não cabe aqui; que um povo é do tamanho daquilo que a sua alma sonha, muito mais do que da terra inscrita entre as suas fronteiras.
Seguimos com Vasco da Gama; e com uma imensa garra, ao mar nos fazemos… pela fé, pela glória do império, por pimenta, gengibre, cravo, canela e açafrão.
Sem temores, desprezando mostrengos e adamastores, na cumplicidade do sol, das estrelas, um astrolábio, milhões de sonhos, e a bombordo...
Rio dos Bons Sinais, Baía de Santa Helena um pouco antes da Boa Esperança, Moçambique, Mombaça, Melinde... e finalmente Calecute.
Três continentes, dois mares, mas um só povo e a ambição de um rei, Manuel, a alma capaz de reinventar o mundo; Portugal, e nas velas como nas veias inscrita a nossa fé e a nossa vontade: a Cruz de Cristo.
Eu, marinheiro sem nome vim hoje à proa da nau, é novamente Julho e já sinto a brisa de Lisboa, parecendo que esta estrada de luz plantada pela lua, é afinal um tapete estendido pelo céu para que não nos percamos algures neste doce regresso ao Tejo.
Às vezes os heróis também choram e não há Português que não o faça de saudade; e aqui no navio fazendo versos espreitando o luar, não sei se o sal que provo é um doce beijo do Atlântico, ou se pelo contrário sou eu quem oferece hoje o sal ao mar.
Amanhã dar-te-ei um beijo, sei que estarás na praia para me ver chegar, oferecendo à mais marinheira das cidades, a velha Olisipo, o definitivo destino que Camões cantará como Ilha dos Amores, a terra sagrada da lusíada eternidade…
Eu, um marinheiro sem nome que conseguiu vislumbrar-te em todos os segundos no espelho imenso de navegar, nos infinitos dias azuis em que o mundo parece ser só água, e em que olhando as asas das gaivotas, o coração repetia:
- Quem me dera.
Navegar pelo império, pela fé, por gengibre…
Para me fazer herói para ti e por tanto te querer ver feliz no cais à minha espera.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 29 / Tema proposto por Ana e Manuel Almas)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

RESILIÊNCIA


Há dias assim, como hoje, manhãs envoltas por esta neblina que não me deixa ver o mar e apreciar-lhe o tom azul, sentir o sol; e depois quiçá avançar pela areia que sinto arrefecer à medida que me aproximo do abraço das ondas, para me oferecer a mim próprio um mergulho nas águas perfeitas do Atlântico.
Trouxe a mochila, o guarda-sol, a cadeira que se regula na inclinação das costas para que eu possa ler ou adormecer deitado, trouxe uma toalha colorida, um livro, um caderno, uma esferográfica, algumas maçãs e uma garrafa de água bem fresca.
Não desisto.
A areia está húmida por efeito de umas pequenas gotículas frescas que caem e eu sento-me na cadeira e debaixo do guarda-sol que para já me protege… da chuva.
Ofereci um ângulo de noventa graus às costas da cadeira relativamente ao assento, e estou em óptima posição para escrever. A toalha, pu-la a cobrir-me parte das pernas e a resguardar-me da aragem fria.
Puxo do bloco e da esferográfica enquanto reparo que está bandeira amarela.
A praia está quase deserta e por isso fico por ali mais tempo à conversa com o nadador-salvador e com o vendedor das Bolas de Berlim que entretanto passa, e que hoje trocou os gritos para a multidão por uma muito discreta frase quase ao meu ouvido:
- Então amigo, hoje vai uma bola?
- Vai sim, e com creme; que hoje o sol não patrocina bactérias no bendito bolo frito.
- Então compra uma e eu ofereço-lhe outra que fica aqui para mais logo.
- Obrigado.
Pago e fico por ali mais dez minutos à conversa. O rapaz é Alentejano como eu e tem este trabalho de verão há já dez anos. Ganha algum dinheiro extra e ajuda uma tia que vive na margem sul e se dedica a fazer bolos para fora.
Depois, confessa-me que ao fim da tarde vem sempre dar um mergulho, e que por isso e por fazê-lo sozinho, pode afirmar que esta praia é sua propriedade.
O rapaz vai-se embora e eu não tardo a comer a minha Bola de Berlim.
Tenho a outra ali ao lado perto das maçãs e recomeço a escrever…
Era uma vez um rapaz que passava os dias a namorar o mar mais azul do universo, e que depois já mais tarde e antes do anoitecer, vinha dar-lhe um abraço e um beijo deixando-se envolver com ele na perfeição do pôr-do-sol…
Escrevo sobre o mar azul, não o vejo mas “pintei-o” assim a partir da conversa com o rapaz que apregoa Bolas de Berlim.
Há dias assim, como hoje, manhãs envoltas por esta neblina…
Dias em que é preciso que nos reinventemos, conseguindo até tirar o cinza e substitui-lo pelo azul no tom do mar que vislumbramos algures por aí.
Dias únicos em que somos felizes mesmo sem conseguirmos dar um mergulho, mas aprendendo como se ganha uma praia só para nós.
Resiliência…
Uma montanha que se interponha entre nós e o mar sempre pode ser um degrau que subimos para ficar mais perto do céu.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 28 / Tema proposto por Marco António)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

VIVER


Vivo por tanto e tão pouco por respirar.
Vivo no sim e no não que amordaçam a sensaboria morna de um talvez ou de uma decisão eternamente adiada.
Vivo nas páginas de um livro que me traz o mundo, ou então numa viagem para perto ou para longe, mas que me leva sempre até tantos e novos mundos.
Vivo nas asas de pássaros de um poema de Pessoa, no mar de Sophia; nos contornos impossíveis da voz de Amália, no timbre e no mel de Bethânia e Caetano, num filme de Almodovar, numa gargalhada do Herman, num passe do Ronaldo, num golo do Benfica.
Vivo nos contornos todos do abraço de um amigo, na melodia de um beijo, numa conversa de esplanada, no café com gelo tomado à beira mar, numa pausa à sombra de um sobreiro, na água bebida com as mãos em concha na bênção de uma fonte, nos pés imersos no fresco correr de um rio, numa foto, nas palavras que descubro por entre a magia e os mistérios de um poente.
Vivo num serão "ao colo" dos meus pais, no pequeno-almoço à mesa com a família toda, nos desenhos do Luís, nas histórias do João, nas cumplicidades todas nascidas da festa de ter o melhor dos irmãos.
Vivo quando rezo, quando acredito, quando me proponho ser maior.
Vivo nos sorrisos libertos pelas palavras de amor, nas linhas irregulares traçadas pelas tuas mãos no momento de uma carícia, nos passeios por Lisboa, no prazer de tantas pequenas coisas que o amor torna gigantes.
Vivo quando me deixo acontecer, vivo nas minhas diferenças, quando sou eu e a liberdade num caso com todos os laivos de perfeição e eternidade.
Vivo por tanto...
E respirar?
É apenas um pequeníssimo e quase irrelevante detalhe.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 27 / Letra V / Tema proposto por Vítor Rodrigues)

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

UNIÃO


Sentado sozinho na esplanada, apercebo-me que há um homem próximo de mim que assobia num tom dolente de suspiro, um airoso modo de disfarce para as palavras que guarda e não pode dizer a ninguém.
Ofereço-lhe por momentos o olhar, e vejo como o tom asa de corvo do seu cabelo não cumpre nem de perto nem de longe, o objectivo de calar o tempo.
E devolvo-me ao bloco onde escrevo.
Algures pelos finais dos anos setenta, o Dr. Manuel Inácio Pestana vai dar uma conferência no salão da Sociedade Artística Calipolense; um serão diferente a que eu e os meus amigos não faltamos de bloco de apontamentos e caneta, não vá o prelector revelar localizações de subterrâneos que guardem tesouros capazes de nos tornar tão famosos quanto os cinco da Enyd Blyton.
Já na viragem para os anos oitenta, a Vila pára à hora da telenovela, e nós, já adolescentes da "Turma do Clerasil", encontramo-nos na Corredora, na garagem da Casa Paroquial para as reuniões de um grupo que baptizámos de "Sementes de Esperança".
Cruzamos os anos oitenta em sítios diversos; e por entre sebentas, croissants e o Cartão Jovem, escrevemos cartas uns aos outros.
Na viragem para os anos noventa escutamos os Madredeus e começamos a usar gravatas de riscas, cornucópias e bonecos da Disney; para trabalhar e também para os fins-de-semana dos casamentos. Seis bodas em 1992, o Ano de Barcelona.
Viajamos pelos anos noventa, no país e no estrangeiro, compramos telemóveis, tornamo-nos mais próximos pelas virtudes de falar também com os dedos, e passamos para os anos de 2000 a pensar que a Europa jamais voltará a ter muros, sendo Portugal uma imensa e eterna Expo.
Na primeira década do Século XXI fomos para o Marquês festejar as defesas do Ricardo no jogo contra a Inglaterra, e começámos a encontrar-nos informalmente na solidão da partida de tantos daqueles que nos fizeram assim felizes.
Na segunda década pagamos a Troika, falamos no Facebook, convocamo-nos por SMS e já damos boleia aos filhos uns dos outros porque quase todos já estão na universidade.
As conferências são sempre em Vila Viçosa, não na Sociedade Artística mas no Café Restauração. Também já não levamos bloco e caneta, e não é por termos telemóvel e iPad; é que os tesouros, aprendemos a registá-los no coração e com a tinta indelével dos afectos.
Temos cabelos brancos porque adoramos o tempo que vivemos e nunca precisaremos de assobiar para espantar a solidão porque nos temos sempre presentes.
União...
Na hora de escrever este tema achei que só o poderia fazer a pensar nos meus amigos de Vila Viçosa, únicos e eternos, como tantos outros fantásticos que entretanto foram chegando e unindo-se a mim sem equívocos para ficarem”.
Por todos e pelo incansável toque dos afectos, jamais andaremos pelas esplanadas a camuflar a solidão.
E para que conste e pedindo desculpa se me esqueci de alguém, aqui ficam os nomes que guardo no “Mural da União” desse tempo em que fomos crescendo juntos entre a Porta dos Nós e a Quinta Augusta, entre a Lapa e os Capuchos:
Manuel Almas, João Paulo Silva, Paulo Geadas, Paulo Quinteiro, Pedro Silva, Manuela Silvério, Rosa Silvério, José Maria Barreiros, Zinha Duarte, São Duarte, Lurdes Duarte, Céu Duarte, Fernando Duarte, Rui Duarte, Madalena Barros, Mena Rosa, Célia Costa, Béquim Saúde, Gina Barradas, Jesus Simões, Palmira Calado, São Aurélio, Clara Fonseca, Manuela Baptista, Jorge Lopes, Paulo Serrano, Paulo Ratado, Tina Cravo, Maria José Ramalho, Luísa Valente, Margarida Paulino, Maria José Bexiga, Bela Toscano, Jesus Rosa, Paula Dias, Catarina Dias, São Cravo, Helena Pereira, Joana Pinto, Maria João Nogueira, Ana Cristina Almas, Pedro Pinto, Filipe Bacalhau, Mena Espiguinha, São Ramalho Casco, João Casco, São Penetra, São Toscano, Zé Toscano, Ana Isabel Rocha da Silva, Elsa Grácio, Manuela Caeiro, Manuela Cordeiro, Graciete Reia, Paula Paulino, Paula Almas e, claro, o meu irmão, José Artur Barreiros.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 26 / Letra U / Tema proposto por Eduardo Santos)

terça-feira, 25 de agosto de 2015

TRAVESSEIRO


Na cama dos nossos pais existia um travesseiro a toda a largura da cabeceira, em cima do qual se colocavam depois duas pequenas almofadas individuais que davam uma identidade a cada um dos lados do leito; se bem que a identidade que se impunha era essa indiscutível cumplicidade denunciada por essa muito comprida estrutura cheia de esponja muito colorida e esquartejada em pedaços.
E quando pensávamos que um dia iriamos ser felizes ao lado de alguém, sempre acreditávamos que sim, a vida dar-nos-ia a pessoa ideal do outro lado dessa longuíssima almofada que por vezes ajudávamos a nossa mãe a enfronhar na hora de fazer a cama.
Enfronhar, uma tarefa que não era objectivamente fácil.
Também existiam travesseiros nas camas dos nossos avós e dos nossos tios, e nós também os conhecíamos bem dessas noites que eram especiais porque ficávamos em suas casas para que os nossos pais pudessem ir a alguma festa ou a algum baile, e pudessem regressar depois mais tarde a casa.
Tal como os das camas dos nossos pais, para onde saltávamos a voar nos domingos de manhã, esses travesseiros também eram cúmplices das histórias que nos eram contadas por ali num objectivo que cruzava a distracção com o embalo para mais uns minutos de sono.
E quando já ficávamos donos e senhores dessas camas, então o travesseiro moldava-se por cima da nossa cabeça para sermos um genérico da esfinge, e, garanto-vos eu que um travesseiro bem colocado à esquina de uma cama de ferro forjado resulta num magnífico fosso de orquestra no palco da Eurovisão para que possamos cantar com garra o “Aprés Toi” da Vicky Leandros.
Por tudo o que partilho convosco, é por serem polvilhados de açúcar que os bolos da Periquita, em Sintra, têm toda a legitimidade para se chamarem “Travesseiros”, muito mais até do que pela forma enrolada e comprida da sua massa folhada estaladiça, perfeita ainda morna e que me faz aguentar horas na fila para os degustar.
O açúcar das doces memórias.
Quem me propôs este tema foi o Carlos Trindade, o tal amigo que um dia me ofereceu um caderno vermelho que eu uso para tirar notas e escrever poemas. O Carlos é uma pessoa extraordinária e desde logo ser seu amigo é um privilégio, mas há mais, é que sentados à mesa do café, acabamos sempre a geminar informalmente Vila Viçosa e Beja através das nossas histórias tão iguais.
E eu não tenho a certeza, mas quase que juro que um dia falámos dos travesseiros nas camas dos nossos pais e destas manhãs perfeitas de domingo, quando pela casa já existia um intenso cheiro a “brinhol”.
  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 25 / Letra T / Tema proposto por Carlos Trindade)