segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Uma nave e o universo


Demos aos dias uma forma que não vem nos compêndios, oferecemos-lhes a geometria do desejo que conflui para um abraço, e construímos com eles uma imensa nave que revestimos de liberdade e de onde conquistamos o universo.
Um caminho de granito sob um tecto de quercos e castanheiros, os nossos passos incendiados pela festa de uma fonte que corre para nos perfumar de água fresca, o toque fugaz na tua pele que tem tanto de seda, “os musguitos”, as palavras de amor que se soltam com a leveza dos mais doces segredos…
E eu voo por sobre um imenso vale bordejado de fruta, de promessas de cerejas, do tom rosado das maçãs, uma casa infinita onde sempre espreita inesperado o alecrim.
Dono do mundo.
Que importa o pouco que os outros possam ver de nós, se eu sinto que o teu abraço é tudo e o tudo perfeito onde eu finalmente aconteço?
Até o banal se apaga na fonte onde corre perfeito um imenso amor.
Uma nave, o universo… dias tão diferentes mas tão nossos.

domingo, 6 de setembro de 2015

Uma tarde de Setembro... e NÓS

Há tardes que enfeitamos com as palavras que fomos colhendo da poesia do tanto que vivemos.

Tardes de Setembro, de um meio-dia em tom de estio, e de um ocaso que chega cedo cumprindo a sina de um inevitável Outono.

Tardes de Setembro, tardes em tom de vida...

E essas palavras são pedaços de nós no retábulo alinhado dos versos que um piano acaricia por entre o gosto doce de uma festa de liberdade... e de verdade.

A festa que se sente de tantos e de todos pela denúncia dos olhares.

Ao lado, a Serra, degrau definitivo para um céu que parece sorrir por nos ver assim a sermos nós.

Muito obrigado aos muitos amigos que ontem se juntaram a NÓS na Covilhã. Um livro acontece ao chegar às mãos de quem com ele se deixará ir pelos sonhos colhendo a poesia guardada nas horas.


sábado, 5 de setembro de 2015

O mundo morreu

Deixamo-nos morrer pelas praias em corpos vestidos de crianças, como pianos abandonados e envoltos pelo silêncio e pela bruma nos areais para onde desterrámos os nossos dias.

O céu rasgado pelo fogo da ira travestido de salmo e cântico a Deus, o chão em brasa na vaidade dos Homens e da conquista, o pó dos berços que foram à nossa casa... e só o mar permanece azul e constante na melodia do vaivém das ondas.

Entre a morte e a morte escolhemos o azul que nos resta, um céu de sal, pedindo que a dor não ultrapasse a dimensão de um suave adormecer.

E depois morremos todos pelas praias calando a poesia do amanhecer e inundando o vento do eco triste que levará o pranto bem para lá dos canaviais...

O mundo morreu.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Sintra e uma noite de lua cheia


Na estrada escura que rasga a serra e tem tecto de carvalhos e pinhos, há entre muros e musgo, e entre os sete e tantos ais das mouras lendas, o eco eterno dos poetas, bênção, voz da Terra a namorar a lua que por estes dias está mais cheia do que nunca.
Depois do Lawrence's de Byron e Eça, abro as janelas; já há muito passou a meia-noite, e no sublime tom das palavras certas eu escuto incessante o teu nome.
Sintra repousa em doces travesseiros e encostada às esquinas enfeitadas por candeeiros e ténues gambiarras, para que do lusco-fusco com ar de mistério possa eclodir o Castelo e a Pena, a "explosão" de uma luz tão intensa e cúmplice da lua.
E o teu nome vai soando...
Será por eu te querer tanto?
Ou será porque tu vives nas sílabas todas dos versos dos poetas?

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Uma alma imensa guardada num castelo de querer de granito



Há almas imensas guardadas em corpos valentes de guerreiros como tesouros em castelos, os heróis completos que não assumem o impossível, aqueles que pela sua enorme fé e de encontro aos seus sonhos jamais soletram qualquer tempo do verbo desistir.
Reencontrámo-nos por um agradável acaso em Budapeste no verão de 1996, e a seu pedido tirámos uma foto na parte velha de Buda. Como sempre tratou-nos por “meus rapazes”, a mim e ao João Paulo, com toda a legitimidade de quem um dia nos ajudou a crescer.
O tempo passara desde os verões quentes dos anos setenta no Alentejo, o muro caíra, a cortina de ferro acabara rasgada, e estando ali os três ironicamente a leste, senti-lhe a voz mais calma do que antes no púlpito quando “gritava” as palavras escritas para a homilia com uma componente guerreira na forma de viver a fé “em tempos adversos”.
Com a perseverança de um fio de água que sabe ser capaz de derrotar até a pedra mais dura.
Ficou comigo esta imagem de guerreiro, simultaneamente com a expressão doce do olhar quando um dia me confidenciou:
- Não ganhas nada em falar de Cristo se não fores a cara Dele, e se não tiveres cara de ressuscitado.
Em Budapeste tinham passado já mais de duas décadas sobre estes dias de Vila Viçosa em que o Padre José Luís foi nosso pároco, e há muito que os três tínhamos deixado Vila Viçosa.
O Padre José Luís partiu para o Céu no passado dia 17 de Agosto.
Persiste em mim o seu abraço, o eco bom dos “meus rapazes”, e renovo o compromisso de ter cara de ressuscitado; por Cristo, pela minha fé, e agora também por ele, da forma de quem nunca deixamos morrer.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

As tardes de Lisboa são eternas


Na tarde de domingo no Chiado, entre Portugueses de passeio ou a caminho da missa, estrangeiros que vão ou vêm da Brasileira e comem Pastéis de Nata, o eléctrico 28 e os Tuc-tuc's, paro à esquina da Rua das Flores dando as costas ao Tejo e o olhar à Praça de Camões, onde os desenhos de basalto da calçada são "rasgados" pelo voo rasante dos pombos e os passos de toda a gente.
Um rapaz aproxima-se, senta-se num banco à minha frente e é fácil identificar o livro que traz com ele marcado com post-it's: "L' anno della morte di Ricardo Reis".
E ali se queda por instantes lendo umas páginas e fechando de seguida o livro para continuar o seu caminho, não sem antes consultar o mapa da cidade.
Na tarde de Lisboa sente-se a universalidade de Pessoa e de Saramago à sombra de Camões e de Eça de Queiroz, e também eu por momentos recordo os passos do Dr. Ricardo Reis, heterónimo do poeta de "A mensagem", o médico que viveu exilado no Brasil e que regressa a Lisboa em 1935 para se instalar no Hotel Bragança, “morrendo” no ano seguinte.
Saramago publicou este livro em 1984, o ano precisamente em que eu vim para Lisboa, e fiz dele um livro de bordo de tantas tardes. Tal qual o rapaz Italiano que passou por mim.
As tardes de Lisboa, eternas e universais.
As tardes perfeitas quando acontecem na espera de um beijo.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

XADREZ


O comboio saiu há pouco de Santa Apolónia, o Tejo à minha direita e a velocidade cada vez mais alta. Chegarei a Castelo Branco por volta do meio-dia.
Conforme o estranho convite que recebi, alguém estará à minha espera na estação. A pedido, levo no bolso o rei negro do xadrez com que sempre brinquei em pequeno, e temo que tudo isto seja uma estranha “xarada”.
A mulher ao meu lado veio do Brasil onde esteve emigrada e traz com ela o neto a quem chama de “meu xodó”. O rapaz aí com uns cinco anos toca de forma irritante, um xilofone colorido, e já chorou a gritos soltos quando a avó tentou dar-lhe o xarope para a tosse.
O Ribatejo, a Beira…
O comboio para finalmente na plataforma de Castelo Branco, eu desço e sou de imediato interceptado por um senhor com uma idade algures pelos sessenta anos que se identifica como o meu motorista.
- Tenho uma carrinha lá fora.
- Posso passar pela Casa de Banho?
- Claro. Esperarei por si já no interior da carrinha de cor cinzenta.
Não me demoro, saio do edifício da estação e vislumbro facilmente o homem encostado à carrinha. Entro e fico espantado porque a mulher “Brasileira” também está lá dentro com o neto.
Sorrimos um para o outro e eu percebo que alguma reciprocidade no seu ar de espanto. Sento-me ao lado do condutor e entre mim e a mulher, que segue no banco de trás, há um xaile negro pendurado. Conheço estes xailes das Casas de Fado.
O homem leva-nos pelas estradas à sombra de enormes plátanos, sem que qualquer um de nós ouse dizer uma palavra sequer. Até o rapaz se calou e partilha connosco o ar de mistério. Depois, a carrinha vira para Monsanto e começa a subir até que a meia encosta se detém à porta de um imenso casarão de granito com uma entrada enorme com chão de xisto.
- Chegámos.
Anuncia o condutor.
Saímos um a um e dirigimo-nos para a entrada da casa onde a porta estava aberta e uma rapariga nos esperava.
- Sigam-me que vou levá-los até à senhora.
O corredor era imenso e largo levando-nos até uma sala onde uma senhora com aparência de uns oitenta anos nos esperava sentada junto a uma mesa de jogo. Sobre a mesa um tabuleiro de xadrez.
- Obrigado por terem vindo.
Falou a senhora que vestia de negro e tinha um ar solene.
Continuou:
- Trouxeram as peças?
Eu puxei pelo Rei negro e a minha companheira de viagem pela Rainha, também negra.
O tabuleiro ficou completo.
Depois de nos ter mandado sentar, a nossa anfitriã continuou a falar.
- Há cinquenta anos eu cantava numa Casa de Fado no Bairro Alto e acabei por me envolver em grande paixão com um cliente habitual, o Miguel de Lucena, filho do Conde de Monsanto, o dono desta casa. A paixão levou-o a querer casar comigo mas eu sabia estar grávida de quatro meses, fruto de um relacionamento ocasional com um empregado do restaurante, o Manuel Alentejano. Esperámos pelo parto e viemos os dois viver para aqui. Nasceram duas crianças; um rapaz que entreguei num orfanato em Xabregas e uma rapariga que ficou ao cuidado de umas freiras que viviam no Convento dos Cardais.
E continuou:
-Mas nunca vos perdi de vista até hoje, exactamente um mês depois de ter ficado viúva. A Rainha, a peça mais valiosa, e o Rei, o tal que jamais poderá ficar encurralado num Xeque-mate que mate o jogo.

(“Um mês A GOSTO” / Letra X / A história que me ocorreu com as palavras propostas por Sónia Sevivas, Margarida Garimpo, Patrícia Lopes, Joaquim Sousa, Fernando Pires, Carla Antunes, Antónia Ruivo, José Domingos Ferreira, António Tavares, Mário Ribeiro, João Loureiro, António Augusto)