domingo, 20 de setembro de 2015

Estes dias que tomam a minha cor



A terra cúmplice de tanta História e que já se perdeu na idade, reinventa-se calando o Outono com rosas acesas no tom perfeito que colhe o nome da própria flor.
E bem pode a aragem chamar Outubro, e as laranjeiras espreguiçarem-se ao sol em delírio de verdes frutos que amadurecem para no inverno vestirem a cor a que também dão nome…
O cisne já dorme a um canto do lago cobrindo com a asa o seu imponente pescoço, mas o grilo persiste no seu canto, indiferente ao silêncio nocturno do relógio da Torre do Paço que repousa entre as vinte e duas e as sete horas do dia seguinte.
A média luz e no silêncio do meu quarto de rapaz eu escrevo um poema de amor.
Já me perdi na idade mas persisto a romper os silêncios e as convenções. Ao sol de um amor perfeito, os meus dias jamais deixarão de tomar a minha cor.       

sábado, 19 de setembro de 2015

"Onde correm rios verdes"



As ladeiras diluem-se na vontade de chegar por entre a maior indiferença relativamente às distâncias.
Já conheço as árvores que ladeiam a auto-estrada A6 e tenho as minhas preferidas, conheço as casas, os montes... Deixo que o YouTube faça a "Minha Mix" e entre Zambujo e Abrunhosa, John Grant canta três vezes: "I want to go to Marz"...
"Onde correm rios verdes".
À entrada de Vila Viçosa e como no tempo em que eu era rapaz, há a escultura de uma cegonha junto ao depósito das águas, do exacto sítio de onde se avista o castelo para onde eu hoje tomo caminho.
Tenho amigos à espera e as palavras anseiam por se soltarem como pontes seguras que persistem entre nós.
O sol despede-se da Vila a beijar a Igreja de Nossa Senhora, e eu faço uma foto depois de estacionar o carro e ter percorrido as pedras entre as laranjeiras.
"Onde correm rios verdes".
Marte é às vezes a nossa casa... e a nossa casa é o sítio que nunca sentimos distante.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Nós os dois na eternidade de uma Lisboa que já cheira a Outono


O ar já não desmente o Outono quando Lisboa ao fim da tarde se faz cúmplice do nosso encontro, quando o meu olhar sacia a sede do teu.
Cumprimos a universalidade dos navegadores calando de vez as fronteiras que poderiam ainda persistir entre nós, o teu respirar é o perfume perfeito que me envolve por entre o gosto a mar, e o teu corpo trouxe definitivamente com ele as fórmulas secretas, ocultas especiarias que cumprem o máximo desejo à superfície do meu.
Tu conheces-me bem…
E enquanto as nossas mãos navegam um pelo outro como caravelas na rota de sábios e astrolábios, há palavras que se alinham no épico destino dos versos de um poema; a Odisseia dos amantes…
A Ilha dos Amores no Canto Décimo da arte de Camões.
Nós os dois na eternidade de uma Lisboa que já cheira a Outono.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Nascemos...



Nascemos ao ritmo dos beijos, e depois, deixamo-nos ir com as gaivotas num voo alegre pelo céu de sal da praia deserta.
As asas, tomámo-las do instante em que desistimos da identidade dos nossos braços e nos entrelaçámos um ao outro.
O abraço perfeito e apertado pela vontade.
Só o mar acompanha a música que escolheste para esta tarde em que as palavras se adiam sem remorso, tão nítida é a certeza de que é nosso e imenso todo o tempo que define o futuro.
E fugimos voando os dois na rota que nos leva a nós; por um segredo, por um atalho e um viés no previsível.
Talvez mais além possa um pescador puxar peixe nas redes e as gaivotas desistam de voar.
Mas nós persistiremos.
A voar, a nascer...
Juro que jamais guardarei só para mim o impulso infinito de um beijo que nasça nessas tardes que nos oferecem tudo e um berço; as tardes dos dias perfeitos que começam sempre quando me chamas... meu amor.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Eu, tu e todas as noites



Mudo a História, a poesia, contrario as letras das “velhas” canções e não te peço à noite; sou eu quem incansável te oferece a todas as noites por onde eu passo e aonde eu vivo.
É mais veloz e fiel o pensamento do que qualquer gesto, e por isso tu estás na lembrança, mais do que “ali à mão”, vestindo os segundos todos dessa paz que não se explica nunca com inteira justiça em relação ao tanto que se sente.
Um amor inacessível às palavras e a outros humanos e mundanos detalhes… e nós a cruzarmos abraçados o tempo todo, os dias e as noites, oferecendo a luz que se solta da autenticidade da festa de sermos nós e do despudorado usufruto da mais doce liberdade.
Eu oferecendo-te a todas as noites como quem acende a lua e os luzeiros todos que o céu tem…
Numa nova poesia.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Uma definitiva história



Há um transversal sentido que te faz cruzar comigo todos os segundos
Este amor revestiu de ti cada mais ínfimo recanto do pensamento e da memória

O ranger de uma velha nora insiste em contar o tempo
Enquanto toma da Terra a seiva que mata a sede aos frutos doces do pomar

Segundo a segundo
A água
O pensamento

E nós entretidos a viver uma nova e definitiva história

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Há dias que nascem para que nós cumpramos a festa que devemos à vida…


Há dias que nascem para que nós cumpramos a festa que devemos à vida…
Um chão de mármore resgatado da terra onde brincámos e depois devidamente polido para ser o espelho informal dos círculos de amigos em circunferências de palavras e riso, das rodas dos meninos de mãos dadas a cantar…
Olhares cravejados por carvão no papel ou então moldados de açúcar, os cliques, as fotografias, a pose, a arte e a poesia que têm marca de eternidade…
O ouro dos instantes, das alianças, dos presentes, do tempo que nos passa pelos dedos e permanece…
A fé que cruza a História e nela fica definitivamente tatuada; duas violas, rosas vermelhas e brancas, as vozes, as canções com letras de anónimos poetas, um órgão que dá o tom, os salmos e as palmas…
Um piano rasgando a tarde, um menino que brinca com a paz de um anjo sentado, um brinde que borbulha quando o sorriso disfarça as rugas e o muito que ainda queremos viver nos apaga a idade…
Os beijos e os abraços que não cessam.
Há dias que nascem para que nós cumpramos a festa que devemos à vida, sábados de Setembro em que a muita vida de cinquenta anos se palpa na mais doce memória gravada num muito breve instante.