quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Uma carta que me transcreve como uma nave solta pelo espaço



Quando o sol se rende ao ocidente e as luzes se acendem pela cidade, abrem-se no céu páginas em branco que esperam por mim e me desafiam.
Ali sentado algures entre os cansaços e a melancolia, envolto pelos silêncios e num certo tom de saudade, pego nas palavras que conheço e reproduzo da alma o sentir, um pouco como se conversasse contigo no lusco-fusco doce do sofá que mergulhou no fim de tarde de Outono.
Palavras… uma carta que me transcreve como uma nave solta pelo espaço e que não reconhece limites nem o absoluto, que no instante em que o sol se põe há sempre alguém que está algures entretido a vê-lo nascer.
E voo contigo, nessa hora, depois… noite fora; e o que fica?
Eu e tu num desenho perfeito de liberdade, de um querer imenso e de mil palavras que leio e releio, e que perdura muito para lá da poesia de cada novo amanhecer.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Entre as letras e as uvas intromete-se às vezes o sol para que as palavras e o vinho ganhem contornos da mais inspirada poesia…


Entre as letras e as uvas intromete-se às vezes o sol para que as palavras e o vinho ganhem contornos da mais inspirada poesia.
Eu escrevo sempre como se o Alentejo estivesse à minha frente e o meu amigo Ilídio Monteiro produz vinho em Trás-os-Montes algures nas encostas do Douro.
Mas do longe se faz perto e um dia trocámos um livro, que foi enviado pelo correio, por uma garrafa de um néctar fantástico que me chegou através da gentileza e simpatia do escritor Transmontano Fernando Calado, que a entregou na FNAC do Chiado precisamente no dia em que eu e o Ângelo Rodrigues apresentávamos o livro “Nós”.
Entregue num dia tão especial, a garrafa foi aberta num outro dia também muito especial; no passado dia 12 para comemorar as Bodas de Ouro dos meus pais. E o vinho é / era pura poesia.
As minhas palavras estarão guardadas num livro algures no Douro, agora entre as vindimas na quinta que eu prometo visitar em breve.   
Entre as letras e as uvas…
E também entre os dias intromete-se sempre o sol para que de aparentemente nada possa nascer uma boa amizade.  
À nossa. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A minha estação preferida


Namoraram durante todo o Verão, e agora as folhas tomaram finalmente do sol, a sua ambicionada cor, e cumprem o sonho de voar deixando-se ir com o vento e passando resvés à minha janela.
Vejo-as nas tardes que suavemente se deixam apagar mais cedo e que pedem a bênção de uma manta para nos oferecerem serões longos de suaves e doces silêncios de onde a alma emerge.
O Outono devolve-me a mim…
E devolve-me às palavras que nascem do conforto da minha vontade para tecerem e darem corpo às histórias inventadas com a ousada cumplicidade rubra das romãs e o doce dos diospiros e das gamboas despidas, cozidas e vestidas de açúcar.
Mais tarde virão as castanhas e as bolotas que assaremos nas lareiras acendidas para o Natal.
E por entre os beijos partilharemos as castanhas quentes e salgadas num misto perfeito de terra e Atlântico; será ali para as bandas do Rossio.   

domingo, 20 de setembro de 2015

Estes dias que tomam a minha cor



A terra cúmplice de tanta História e que já se perdeu na idade, reinventa-se calando o Outono com rosas acesas no tom perfeito que colhe o nome da própria flor.
E bem pode a aragem chamar Outubro, e as laranjeiras espreguiçarem-se ao sol em delírio de verdes frutos que amadurecem para no inverno vestirem a cor a que também dão nome…
O cisne já dorme a um canto do lago cobrindo com a asa o seu imponente pescoço, mas o grilo persiste no seu canto, indiferente ao silêncio nocturno do relógio da Torre do Paço que repousa entre as vinte e duas e as sete horas do dia seguinte.
A média luz e no silêncio do meu quarto de rapaz eu escrevo um poema de amor.
Já me perdi na idade mas persisto a romper os silêncios e as convenções. Ao sol de um amor perfeito, os meus dias jamais deixarão de tomar a minha cor.       

sábado, 19 de setembro de 2015

"Onde correm rios verdes"



As ladeiras diluem-se na vontade de chegar por entre a maior indiferença relativamente às distâncias.
Já conheço as árvores que ladeiam a auto-estrada A6 e tenho as minhas preferidas, conheço as casas, os montes... Deixo que o YouTube faça a "Minha Mix" e entre Zambujo e Abrunhosa, John Grant canta três vezes: "I want to go to Marz"...
"Onde correm rios verdes".
À entrada de Vila Viçosa e como no tempo em que eu era rapaz, há a escultura de uma cegonha junto ao depósito das águas, do exacto sítio de onde se avista o castelo para onde eu hoje tomo caminho.
Tenho amigos à espera e as palavras anseiam por se soltarem como pontes seguras que persistem entre nós.
O sol despede-se da Vila a beijar a Igreja de Nossa Senhora, e eu faço uma foto depois de estacionar o carro e ter percorrido as pedras entre as laranjeiras.
"Onde correm rios verdes".
Marte é às vezes a nossa casa... e a nossa casa é o sítio que nunca sentimos distante.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Nós os dois na eternidade de uma Lisboa que já cheira a Outono


O ar já não desmente o Outono quando Lisboa ao fim da tarde se faz cúmplice do nosso encontro, quando o meu olhar sacia a sede do teu.
Cumprimos a universalidade dos navegadores calando de vez as fronteiras que poderiam ainda persistir entre nós, o teu respirar é o perfume perfeito que me envolve por entre o gosto a mar, e o teu corpo trouxe definitivamente com ele as fórmulas secretas, ocultas especiarias que cumprem o máximo desejo à superfície do meu.
Tu conheces-me bem…
E enquanto as nossas mãos navegam um pelo outro como caravelas na rota de sábios e astrolábios, há palavras que se alinham no épico destino dos versos de um poema; a Odisseia dos amantes…
A Ilha dos Amores no Canto Décimo da arte de Camões.
Nós os dois na eternidade de uma Lisboa que já cheira a Outono.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Nascemos...



Nascemos ao ritmo dos beijos, e depois, deixamo-nos ir com as gaivotas num voo alegre pelo céu de sal da praia deserta.
As asas, tomámo-las do instante em que desistimos da identidade dos nossos braços e nos entrelaçámos um ao outro.
O abraço perfeito e apertado pela vontade.
Só o mar acompanha a música que escolheste para esta tarde em que as palavras se adiam sem remorso, tão nítida é a certeza de que é nosso e imenso todo o tempo que define o futuro.
E fugimos voando os dois na rota que nos leva a nós; por um segredo, por um atalho e um viés no previsível.
Talvez mais além possa um pescador puxar peixe nas redes e as gaivotas desistam de voar.
Mas nós persistiremos.
A voar, a nascer...
Juro que jamais guardarei só para mim o impulso infinito de um beijo que nasça nessas tardes que nos oferecem tudo e um berço; as tardes dos dias perfeitos que começam sempre quando me chamas... meu amor.