quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O céu é esse perfume


Não me peçam que ponha os pés no chão, os dois atados aos grilhões do bom senso e escravos cegos da razão.

Para onde eu vou é preciso ter asas, saber voar e não ter medo de às vezes seguir contra os ventos que sopram com a intensidade da voz tenebrosa dos adamastores.

O céu é esse perfume de fazer nossos todos os dias, e as asas, as minhas asas, tomo-as dos abraços que vivemos nas tardes junto ao mar...

Quando as gaivotas tomam de nós o exemplo, moldam a vontade e não se cansam de voar.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O sol descodificado na Lisboa que amanhece

O sol nasce à minha frente deixando-se despir pelas gotas de chuva que timidamente correm do céu para a cidade. 

Prismas informais numa manhã de Outono quando sigo pela Segunda Circular, quando já me despedi do Atlântico e busco o Mediterrâneo para o viver entre as ruas rectas e diagonais, entre as praças octogonais da Cidade dos Prodígios de Eduardo Mendonza, Barcelona.

E Lisboa, a cidade mais bonita do universo, despede-se de mim com beijos de uma chuva de todas as cores.

O sol descodificado.

Há manhãs assim em que o imprevisível nos traz um sol ainda mais intenso e verdadeiro.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Que idade temos...


Que idade temos no instante de cumprir um sonho de rapaz?
Talvez todas as idades, ou quiçá sejamos imperadores coroados pelo melhor de todas as idades…
O mundo fica aos nossos pés e a rosa-dos-ventos é um detalhe de pedra incrustado num tapete de tijolo que o universo teceu para nós.
Trouxemos da vontade e da beira-rio, o abraço que hoje é percorrido pelo vento que ateia de ondas as copas centenárias dos olivos.
O mesmo vento que bebe a paz das ermidas semeadas pelos montes mais altos.
E que importa o norte ou o sul, se eu estou virado para ti e assim me faço acontecer...
Sonhei-te tantas vezes sem saber sequer o teu nome…
Depois damo-nos um beijo, e faz-se tão perfeito o universo que até a lua se esconde para nos deixar adormecer.
  

domingo, 27 de setembro de 2015

Memórias soltas a sobrevoar os Alpes

Jantava muitas vezes em sua casa uma canja que ela enchia de carne migada, porque estávamos a crescer. Depois levava-me a casa atravessando a Praça e parando sempre debaixo de uma laranjeira a que ela fingia encostar-se, mas que efectivamente abanava para que caísse um fruto; e para mim com dois anos as laranjeiras davam "drelin drelins".

Ao chegar a nossa casa dizia sempre "boa noute" e ainda tinha tempo para nos aninhar numa nesga de xaile e às vezes adormecer.

Quando havia festas nas redondezas íamos ver as "luzinhas", pelos meus anos dava-me uma nota de 20 escudos com a efígie do Santo António e foi ela quem me ofereceu o meu livro favorito de "Os cinco", o número 18, "Os cinco na Quinta Finniston"; nas feiras comprava-me torrão; um dia ofereceu-me um copo com a cara da Madalena Iglésias; e é também muito por mérito seu que eu sou Benfiquista tendo um pai adepto do Sporting.

Não se importava com o facto de não ter brincado com bonecas quando era pequena, tinha agora uma muito loura que às vezes levava com ela à cabeleireira para virem as duas penteadas.

A minha Tia Joaquina Rosa faria ontem 100 anos se não tivesse partido em Janeiro de 2002, muito pouco tempo depois de ter aprendido o valor dos Euros em "mil réis", como sempre se referia ao dinheiro.

Por essa altura já eu a levava a passear de carro porque essa era a cura de todos os seus males. Dizia sempre que entretida a ver a paisagem nem se lembrava das dores.

Brincava muito comigo e dizia que depois de morrer eu já não me iria recordar dela. Gosto de a contrariar e escrevo-lhe assim um beijo de parabéns a sobrevoar os Alpes. Mais perto do céu e quase a vê-la a comemorar os golos do Benfica em dia de aniversário.

A boneca está um pouco desgrenhada mas mora no meu quarto.



sábado, 26 de setembro de 2015

Um “crime” no Expresso do Oriente


Deixamos Paris e tomamos a rota do velho Oriente Express, que mesmo sem Poirot e sem mistérios, nos deixará muito perto do Pera Palace Hotel, para que dos seus salões de alcatifas cor de mel possamos espreitar Agatha Christie por ali sentada a inventar um crime com tantas punhaladas quanto os suspeitos… e os culpados.
Viemos os dois, “suspeitos” e “culpados” pelo querer que por esta altura já construiu um só império celebrado a beijos partilhados por entre o aroma quente do Narguilé.
Na esplanada de onde se avista o Bósforo há Baklava de pistacho e romã sobre a mesma mesa onde partilhamos um chá de maçã.
Dispensamos o açúcar.
Sentimos a lua a acender-se aos poucos e a tornar inevitável um passeio a pé…
O grande bazar, o mercado das especiarias, o telhado azul da mesquita, Santa Sofia, a cisterna e… paramos para um gelado preparado por um homem entre toques de sinos e malabarismos.
Um gelado com frutos.
- You are a lucky man.
Confidencia-me o Turco.
- Yes, I am.
Respondo.
Como não ser…
Os teus olhos, como punhaladas, “mataram” a má sorte nas carruagens do Expresso do Oriente, e eu renasci nas malhas doces de um novo império.
Sou um homem de sorte, viemos os dois a Istambul.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Da velha Olisipo a Constantinopla…


Um copo de chá de jasmim que guardei do lanche da véspera e que arrefeceu no frigorífico durante toda a noite; um pedaço de pão torrado untado discretamente com manteiga sem sal...
Encosto-me ao móvel da cozinha e entretenho-me a olhar pela janela enquanto tomo o pequeno-almoço. Vejo os últimos detalhes do Tejo, o Bugio, e o Atlântico em curva para o Cabo da Roca, o ocidente máximo da velha Europa.
Nem sequer me sento porque pressinto o trânsito complicado até ao aeroporto; e tenho razão, será uma hora e meia de marcha lenta para percorrer dezoito quilómetros.
Chego ao aeroporto e embarco para Istambul aproveitando os primeiros momentos da viagem para ler uma reportagem da revista Sábado sobre os refugiados na fronteira da Croácia com a Eslovénia.
E sinto…
Há lágrimas semeadas no chão que eu sobrevoo hoje para chegar a Oriente.
Há muros reacendidos travando o passo de quem busca um pouco de céu e a liberdade.
Há a dor lancinante da gente numa marcha lenta onde se perdem muito mais do que apenas horas, em distâncias que envergonham os meus dezoito quilómetros.
Gente do Oriente perdida e a perder vidas em estradas sem fim, gente a servir de fundo nas selfies dos turistas com visto que cruzam as mesmas fronteiras.  
É precisamente a Ásia que eu vejo agora do outro lado do Bósforo, espreitando à janela do hotel enquanto cai a noite na velha Constantinopla.
Do Tejo ao Bósforo, da Olisipo a Constantinopla, voei hoje sobre a Europa, a terra perfeita do meu sonho de liberdade, mas em contramão com o sol e com a dor de muitos.
A Europa...
Cumpre o seu cíclico destino de ser sonho e pesadelo, desfazendo-se em muros onde morremos e morre esmagada a nossa dignidade.
Se ao menos soubesses tomar dos mares a arte e o engenho de unir continentes.
E vou dando pequenos goles num chá fresco com sabor a menta.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Tudo


Um segundo de onde nada se espera traz-nos às vezes o céu e o infinito no discreto toque de um olhar.

Aprendemos a nunca desprezar um instante e a esperar tudo do tempo que o futuro nos reserva.

Quem sabe se há um "palácio" no virar da próxima esquina...

E o tempo pode ser tudo como nós somos tudo; ousados na intensidade com que vestimos um beijo e em simultâneo conservadores na perseverança de um querer que levaremos connosco pela eternidade.

Sentado no aeroporto à espera de um voo para Istambul, escrevo deixando-me levar pela saudade.

Da espera, e sobretudo por ti, nascem sempre palavras.

O tempo pode ser tudo, nós somos tudo, e até a velha Constantinopla é Europa e Ásia ao mesmo tempo.

Vou embarcar.