quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Gosto muito da luz ténue dos fins de tarde de Outono…



Gosto muito da luz ténue dos fins de tarde de Outono, quando a brisa fresca se desinibe, se liberta, e a casa se agradece como refúgio.
Deixo-me estar ao ritmo lento do entardecer e enquanto a penumbra dá o braço ao silêncio para juntos deixarem que anoiteça.
O silêncio é o espaço generoso e completo para todas as palavras que queremos escrever ou dizer, a penumbra devolve-nos o olhar para nós mesmos; e nestas tardes há tanto de verdade e de mim em tudo o que registo no meu "velho" caderno.
Hoje perfumei a casa com o aroma doce de umas gamboas grandes e amarelas que descasquei e pus a cozer numa pequena panela.
Sinto o cheiro que veste os vapores que se libertam agitando a tampa...
E eu continuo a escrever e ainda a resistir a acender o candeeiro.
Vejo-te tão nítido por entre o tudo que há em mim, que não quero que nem por um só segundo algo me distraia e eu possa deixar de te ver.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Todos os poetas cultivam flores



Todos os poetas cultivam flores, palavras como rosas que libertam nas tardes da cidade por entre o voo das pombas do Rossio.
Eu, com o braço direito na tua cintura e descendo o Chiado como quem se beija inteiro, levo comigo, perfeitos, os inéditos aromas dessas pétalas que o teu amor fez despontar.
É Outubro, o vento veloz rouba a água das fontes dando um brilho à calçada onde as pombas repousam atentas.
Depois, uma criança corre de repente e desassossega as asas que irrompem pelo céu, e nota-se um intenso cheiro a flores por entre este incansável redesenhar do céu.
Rosas?
O teu olhar vai ditando palavras de amor com que enfeitamos o nosso beijo enquanto caminha.
Não, são prosas!

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Mua mua


Soa estridente a campainha da porta e um gato com ar Japonês chega ao patamar da escada antes de mim.
Estanca o seu passo, põe um certo ar de mistério e fica por ali curioso a ver o que isto dá… quem é que vem lá?
Eu poupo-me a descer os degraus de pedra e puxo a longa corda que abre o trinco.
- Ainda bem que vieste
- Mua mua
Que é como quem se beija.
O gato mia a pedir que lhe sacies a vontade de uma festa e rebola-se entre as tuas mãos.
Depois entramos para a sala e sentamo-nos os três, nós e o gato, enquanto entre umas sangrias e um Gin tónico me mostras um relógio que canta, uma televisão que dança flamenco e até uma Bimby que vai ao supermercado e consegue comprar aquilo que de mais estranho por lá existe.
Gudgets… e gargalhadas; sopa, grelhados e “abafadinho de castanhas”.
A idade dilui-se sempre na voz de mel, as fronteiras calam-se num estranho falar do Português com salero…
Tu acabas por me contar uma história, eu conto-te a minha história e ficamos inevitavelmente os dois a chorar entre poemas de amor.
Depois, e porque já é tarde, vai cada um para o seu quarto e o gato prefere sempre ficar contigo.
Já deu a meia-noite.
- Mua mua.
- Até amanhã.
E cada um na sua janela acaba sempre a mandar beijos pela lua.

O meu amigo Carlos Lanão (Titin) cumpre hoje o seu aniversário e eu dedico-lhe esta pequena brincadeira tecida de palavras. A corda de abrir a porta existe na casa dos meus pais em Vila Viçosa e ele já se deliciou com ela, o gato existe na casa dele, o “abafadinho de castanhas” é obra do Ângelo, e o resto foi inventado pondo espaços e passos nas palavras que tantas vezes trocamos nas mensagens escritas em que acabamos sempre os dois a falar dos nossos amores.
Carlos, um beijo de parabéns, e por favor não te vás embora. A amizade é como a corda lá de casa e só abre a porta, nunca a fecha.

domingo, 4 de outubro de 2015

Não há sequer um pequeno recanto de mim que não more contigo



O teu amor semeou em mim casas altas como castelos, refúgios, ou tão-só degraus coloridos que são bênção para quem busca o céu.
As janelas estenderam o horizonte que o olhar beija nas manhãs claras de Outono, e o impossível é hoje um lugar aqui tão meu e tão perto.
Solto suspiros pelas chaminés, como fumo, e o céu acode-me nesses instantes trazendo o calor de um abraço acendido pela vontade e um infinito desejo.
Casas altas de cidades sem fim, o céu, e tu que chegas todos os dias ao fim da tarde para a festa das palavras, para contarmos as histórias que nos entrelaçam pelos dias fora.
O teu amor semeou em mim casas altas…
E não há sequer um pequeno recanto de mim que não more contigo.

sábado, 3 de outubro de 2015

Os poetas também gritam golos...

Trovejou durante toda a madrugada e eu só voltei a adormecer depois da chuva ter caído copiosamente sobre a rua do meu hotel aqui em Barcelona.

Ainda li e escrevi um pouco, espreitei à janela, mas depois não resisti mais e o sono venceu.

Disto falava com um colega ao pequeno-almoço, entre um pão com tomate e presunto, e as saudades do nosso café, que é sempre melhor; saltando depois a conversa para a escrita, para os amigos, os jantares e para o futebol.

O Julian, que é adepto do Werder Bremen, gostou do livro NÓS, ficou encantando com as fotos do Ângelo e pediu-me a tradução para inglês do poema mais romântico para que o possa partilhar com a mulher.

 Prometi fazê-lo.

E a determinada altura comentou:

- Eu que pensava que os poetas só ouviam música clássica, frequentavam livrarias e não iam ao futebol...

Expliquei-lhe que os poetas são seres muito atentos que saboreiam a vida sem menosprezar nada do que ela encerra, os poetas decalcam palavras sobre a própria vida e sobre os dias, e sim... nós os poetas também gritamos os golos por entre a magia de uma festa de milhões de amigos.

O Olimpo é afinal a casa onde vivemos sem menosprezar nenhuma das divisões.

Sorriu e mostrou-me então uma foto com a mulher e a filha de um ano, uma mensagem que tinha recebido esta manhã.

Comentou:

- Então isto é poesia?

Concordei com ele mas disse-lhe que há detalhes de amor onde as palavras não entram por serem demasiado mundanas perante os sentimentos.

Sorriu.

Ficámos assim pela foto e continuámos a falar da poesia que Ronaldo guarda nos pés.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Eu irei votar no próximo domingo...



Eu irei votar no próximo domingo, e aquilo que me move é o meu país; nunca será por mim que ele deixará de ter um futuro.
Com mais ou menos entusiasmo fiz a minha opção de voto entre as muitas que se me apresentaram, com a consciência de quem nunca deixou de cumprir com os seus deveres de cidadania, com a isenção de quem nunca ganhou um cêntimo por via de quaisquer nomeações de âmbito político…
Eu vou votar, e a minha opção também não é influenciada por militância ou simpatia partidária; sou um homem de causas muito mais do que de agremiações ou corporativismos, e por isso ela assenta essencialmente em quem eu acredito que neste momento possa ser motor dessas causas que me movem e que tantas vezes vou partilhando por aqui.
Porque o meu voto é um detalhe muito sério desta relação entre mim e o meu país, recuso-me a entrar no “Reality Show” de campanhas em que a Teresa Guilherme é substituída pelo Correio da Manhã ou pelos posts no Facebook; as nomeações e as chamadas de valor acrescentado das expulsões têm a face de sondagens diárias; a “espontaneidade” é patrocinada; e os confessionários da má-língua se fazem em jantares e almoços de carne assada ou arruadas patrocinadas por excursões das Juntas de Freguesia…
Não gosto dos gritos, gosto das ideias; não gosto de quem quer vencer por demérito dos demais, mais que por méritos seus.
Tudo isso pesou na escolha e tudo isso estará no silêncio da cabine no instante em que eu votar por Portugal.
Depois… logo verei se os meus concidadãos pensaram e agiram como eu; caso contrário, respeita-se a sua escolha e seguimos todos para a Segunda-feira de uma nova semana, porque é isso a essência e o doce da democracia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ao som das liras

No horizonte e muito para lá da montanha, Olimpo informal e circunstancial, os deuses espreguiçam-se com o sol no primeiro alvorecer de Outubro.

Soam as liras, a poesia das palavras ditas ou cantadas, há palmas em tom de festa, o riso, as gargalhadas... que a música, muito mais do que aquilo que se escuta, é tudo aquilo que se sente; é uma paz por entre a sinfonia de todos os sentidos.

Não passará Outubro sem que nos demos beijos a bordo das castanhas assadas no barro onde estala o sal, o fruto que descascamos um para o outro enquanto passeamos. E o vinho novo espreitará para fazer connosco a festa.

Não passará Outubro que sem a tarde nos traga as brisas frias que pedem incessantes abraços fazendo a vontade ao desejo que nos impele um para o outro.

E os deuses, sentados à beira das fontes nos Olimpos informais de todos os dias sorrirão para nós, tal como o sol...

Ao som das liras.

A música e Outubro.