sábado, 17 de outubro de 2015

Altar de cal, ao sul, a nossa casa...



No Alentejo as estradas são rectas que rumam ao céu, caminhos fiéis ao sol de nascente a poente, sem o pecado de quaisquer sombras.
Somos nós com as palavras, e as fontes que correm soltas num delírio de água fresca, que desenhamos as esquinas onde nos sentamos para descansar...
E se calha a vida tingir-se da sorte de uma paixão, entre aquilo imenso que se sente e o sol tão perto que sempre nos abraça, sentimos que o nosso longo caminhar já tem desde logo e afinal, tanto mas tanto do que tem o céu.
Por isso cantamos:

Saí e dei-te alegres os meus passos
No chão do trigo, louro pão, em brasa
Até ao céu perfeito dos teus abraços
Altar de cal, ao sul, a nossa casa.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Se ao menos eu andasse com castanhas nos bolsos



O táxi tarda e eu vou entretendo o olhar com as cores do Outono que brilham à minha frente.
A casa atrás de mim tem algo de Brideshead, e por momentos eu sou um Charles Ryder / Jeremy Irons revisitando o passado, o dele que influenciou o meu, e acabo a assobiar a música fantástica do genérico da série de televisão.
Atraído pela música, há um esquilo que desenha linhas curvas como ondas sobre o relvado e que se aproxima de mim na esperança de que eu tenha alguma comida para lhe dar para lá do assobio.
Porque é que eu não ando com castanhas nos bolsos...
Brinco com ele um instante junto a uma árvore que me assalta o pensamento com um dos meus sonhos: ter uma casa entre os troncos de uma árvore grande…
Para lá dormir contigo numa noite estrelada, e quiçá escrever uma história que fale de um esquilo assim rebelde como este; que até pode achar-me muito simpático, mas assim, sem nada para roer, despede-se e vai-se embora.
Fico eu e a árvore numa manhã fria que gela as mãos.
Ainda se eu tivesse uma castanha no bolso, assada e quente como as que vendem no Rossio.
O táxi chega e eu despeço-me da árvore.
O meu taxista tem trinta anos, nasceu na Turquia, tem símbolos do Islão na viatura, e um aparelho auditivo que lhe denuncia uma elevada surdez. Percebo que lê os meus lábios no retrovisor para melhor me entender.
Conversamos todo o caminho e no final e enquanto me entrega o recibo, surpreende-me:
- Tenho a certeza de que o seu futuro será feliz.
Agradeço e estendo-lhe a mão.
A mão afinal só aparentemente vazia; porque entre a liberdade de Brideshead, os sonhos de um esquilo e de uma casa na árvore, a tolerância e o afecto...
As nossas mãos vão ganhando o calor e o poder de milhões de castanhas.
Ao ritmo da nossa história e a denunciar a ambição de sermos felizes.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

“Um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo”


Quando Hamlet conversa com o Rei diz-lhe a determinada altura:
- "Pode pescar-se com um verme que se tenha alimentado de um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme."
E perante a pergunta do rei:
- "O que queres dizer com isso?"
Hamlet responde:
- "Nada; apenas mostrar-vos como um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo."
Estar em Inglaterra é conviver de perto com as memórias de William Shakespeare; e lembrei-me desta que é uma das minhas passagens preferidas do Hamlet, a propósito das notícias que vão chegando de Portugal.
Há vermes, peixes, mendigos e soberanos, pescadores, “mendigos com o rei na barriga”…
Autoproclamados, reais, mais ou menos reais, inventados...
Todos em passeio pelos intestinos uns dos outros, e esquecendo-se que o resultado de semelhantes “caminhadas” é sempre o mesmo e já parece sina de um povo.
Se ao menos todos nos lembrássemos que entre nós e o poder, naquele espaço onde transversalmente todos tentam com cambalhotas captar a atenção do público em espectáculos degradantes, há um país e muita gente?
E eu disse e reforço, TODOS.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Inglaterra, uma tarde de Outubro



Sentei-me num dos cantos da lareira de onde melhor se espreita o crepitar da lenha. 
Com um bloco assente nos joelhos, escrevo-te como se estivesses aqui comigo à conversa; e o cheiro da madeira quando arde, tempera as palavras de um muito informal e profano incenso.
Já anoiteceu, faz frio, e na gente que sai da igreja após rezar as vésperas, é possível ver gorros de lã.
Vejo-os pela janela enquanto sinto que tu és a minha fé.
O campo que é verde e banquete para as ovelhas que pastam tranquilamente, já se apagou rendido ao ocaso tão precoce.
Mas o mesmo Outono que o fez assim deixou generoso um tapete de folhas com tons entre o vermelho e o castanho, adornos vulneráveis ao vento mas que cobrem os meus passos enquanto caminho.
Vou só, sentindo o aproximar de cada candeeiro pela dimensão da minha sombra... e das sombras vou tirando imagens que um dia poderão ser palavras.
As folhas do Outono conhecem a intimidade dos meus passos, sabem bem para quem caminho.
Faz frio...
Mas com a fé, o incenso, a lenha e o amor que nos entrelaça os passos eu teci uma manta, fi-la como que de retalhos das muitas palavras que te escrevi.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

E a lua conhece-nos bem melhor que o sol...

Cruzo a noite temperada de chuva que parece querer resistir estoicamente ao romper da madrugada.

A música que me tempera o caminho rasga o asfalto da cidade e leva-me para uma estrada de centeio onde os pés descalços beijam a Terra com uma incansável paixão.

E penso em ti...

Tomando das mãos o cheiro semeado pelos beijos das tuas na tarde perfeita que o teu olhar incendeia de paz e prazer nas recônditas galerias da gruta sob os pés do poeta que tão bem nos conhece em tudo e nos segredos.

De noite, só os gatos são todos iguais, pardos; os Homens, são traçados pela sua própria vontade em tudo aquilo que o pensamento denuncia enquanto a cidade se espreguiça e a noite resiste. 

Somos nós entre os segredos, e a lua sabe tudo de nós, conhece-nos muito melhor que o sol.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Haja alguém que me explique...



Haja alguém que me explique porque é que o Bruno de Carvalho, que acha que o Benfica só é bicampeão por pagar refeições aos árbitros, para cumprir a ambição de ver o seu Sporting campeão, recrutou o treinador do rival por valores milionários em vez de comprar a pronto a Churrasqueira do Campo Grande?
Haja ainda alguém que me explique porque é que sendo o PS um partido de esquerda, o seu líder em 2009, José Sócrates, ao ganhar as eleições com uma maioria relativa de 97 deputados não se uniu ao Bloco de Esquerda (16 deputados) e à CDU (15 deputados) para chegar a uma maioria absolutíssima de 128 deputados, e em vez disso escolheu o PSD como parceiro na aprovação dos Orçamentos de Estado e na aprovação dos sucessivos PEC’s até ao tão famoso IV?
Um agradecimento antecipado pelos devidos esclarecimentos.

O meu coração tem janelas rasgadas...



O meu coração tem janelas rasgadas e cheias de luz, à beira das quais nos sentamos num poial caiado, os dois a inventarmos e a oferecer-lhes horizontes.
Entre a paz infinita que nestes instantes se sente no peito, e que o sangue leva a todos os mais recônditos espaços e segredos guardados em mim, fluem palavras e todas as cores, mesmo aquelas que os sentidos guardam só para si; que aquilo que contigo avista o coração, não se alcança com um simples olhar ou qualquer outro humano detalhe.
Voamos pelo infinito numa nave que inventámos só para nós, astronautas num sonho e acenando à lua de passagem, sem nunca deixarmos de perseguir o sol.
Tudo desde as janelas, do coração...
E a paz que se sente é a festa de voarmos juntos num infinito tingido de estrelas que afinal nunca será longe ou impossível; assim de mãos dadas, o universo somos nós.