terça-feira, 20 de outubro de 2015

É o povo todo, e a glória… a liberdade


Embarcar em Lisboa num avião baptizado com o nome de Luís Vaz de Camões, adormecer passados pouquíssimos minutos, ainda algures sobre o Tejo e a Ponte Vasco da Gama; mune a alma de qualquer um, e não só dos poetas, do sacro dedo inspirador das Tágides, as ninfas do rio de Lisboa, e o sonho sai na forma de uma Odisseia em rima como no poema de Homero:

Saímos da Barra tomando os ventos
Velas como braços beijando o mundo
O querer de heróis aceso de alentos
O sonho de um rei, Dom João Segundo
A glória tem alicerce nos tormentos
Maior quando o sofrer é mais profundo
E esta dor em nau que busca a claridade
É o povo todo, e a glória… a liberdade

A minha incursão pela lírica.
Acordo ainda a tempo de ver o avião a rasgar as nuvens fazendo despontar da água as terras do Nordeste da ilha de São Miguel.
Os picos ladeiam as crateras onde a lava descansa sob o silêncio das lagoas, e há caminhos de basalto bordejados de flores.
Depois, aterro já bem desperto como no canto décimo do épico de Camões: a ilha dos amores.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

E nós reinando sobre o tempo... a caminhar



Declaro-te herói de todas as minhas tardes, coroado imperador sentado no trono que o meu desejo vai aos poucos esculpindo no tempo.
E essas tardes em que o sol escreve versos nas nuvens tingidas de chuva, são irmãs do mar que varre de espuma a areia da praia, terreiro de uma nova face oferecido aos nossos passos para o inédito desenhar de uma história feliz.
Ao longe o farol e o porto de abrigo...
E nós reinando sobre o tempo... a caminhar.

domingo, 18 de outubro de 2015

A dolência das gaivotas no feitiço do fim da tarde



A chuva parou a tempo do sol espreitar muito antes de rumar a ocidente, e no areal despido que a duna e os cardos abrigam, há centenas de gaivotas que se alinham numa estranha e inédita formatura; como um imenso castelo com asas que rumará daí a pouco até ao descanso em lugar seguro.
A dolência denuncia o feitiço do fim da tarde...
Ali sentado num velho banco de madeira e olhando-as de longe, eu sou como elas um romeiro que roga ao sol a bênção de uma noite, a casa onde os sonhos e os desejos suplantam tudo aquilo que se vê e palpa à face mais humana dos dias.
E depois voo para ti alinhando-me entre palavras.

sábado, 17 de outubro de 2015

Altar de cal, ao sul, a nossa casa...



No Alentejo as estradas são rectas que rumam ao céu, caminhos fiéis ao sol de nascente a poente, sem o pecado de quaisquer sombras.
Somos nós com as palavras, e as fontes que correm soltas num delírio de água fresca, que desenhamos as esquinas onde nos sentamos para descansar...
E se calha a vida tingir-se da sorte de uma paixão, entre aquilo imenso que se sente e o sol tão perto que sempre nos abraça, sentimos que o nosso longo caminhar já tem desde logo e afinal, tanto mas tanto do que tem o céu.
Por isso cantamos:

Saí e dei-te alegres os meus passos
No chão do trigo, louro pão, em brasa
Até ao céu perfeito dos teus abraços
Altar de cal, ao sul, a nossa casa.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Se ao menos eu andasse com castanhas nos bolsos



O táxi tarda e eu vou entretendo o olhar com as cores do Outono que brilham à minha frente.
A casa atrás de mim tem algo de Brideshead, e por momentos eu sou um Charles Ryder / Jeremy Irons revisitando o passado, o dele que influenciou o meu, e acabo a assobiar a música fantástica do genérico da série de televisão.
Atraído pela música, há um esquilo que desenha linhas curvas como ondas sobre o relvado e que se aproxima de mim na esperança de que eu tenha alguma comida para lhe dar para lá do assobio.
Porque é que eu não ando com castanhas nos bolsos...
Brinco com ele um instante junto a uma árvore que me assalta o pensamento com um dos meus sonhos: ter uma casa entre os troncos de uma árvore grande…
Para lá dormir contigo numa noite estrelada, e quiçá escrever uma história que fale de um esquilo assim rebelde como este; que até pode achar-me muito simpático, mas assim, sem nada para roer, despede-se e vai-se embora.
Fico eu e a árvore numa manhã fria que gela as mãos.
Ainda se eu tivesse uma castanha no bolso, assada e quente como as que vendem no Rossio.
O táxi chega e eu despeço-me da árvore.
O meu taxista tem trinta anos, nasceu na Turquia, tem símbolos do Islão na viatura, e um aparelho auditivo que lhe denuncia uma elevada surdez. Percebo que lê os meus lábios no retrovisor para melhor me entender.
Conversamos todo o caminho e no final e enquanto me entrega o recibo, surpreende-me:
- Tenho a certeza de que o seu futuro será feliz.
Agradeço e estendo-lhe a mão.
A mão afinal só aparentemente vazia; porque entre a liberdade de Brideshead, os sonhos de um esquilo e de uma casa na árvore, a tolerância e o afecto...
As nossas mãos vão ganhando o calor e o poder de milhões de castanhas.
Ao ritmo da nossa história e a denunciar a ambição de sermos felizes.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

“Um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo”


Quando Hamlet conversa com o Rei diz-lhe a determinada altura:
- "Pode pescar-se com um verme que se tenha alimentado de um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme."
E perante a pergunta do rei:
- "O que queres dizer com isso?"
Hamlet responde:
- "Nada; apenas mostrar-vos como um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo."
Estar em Inglaterra é conviver de perto com as memórias de William Shakespeare; e lembrei-me desta que é uma das minhas passagens preferidas do Hamlet, a propósito das notícias que vão chegando de Portugal.
Há vermes, peixes, mendigos e soberanos, pescadores, “mendigos com o rei na barriga”…
Autoproclamados, reais, mais ou menos reais, inventados...
Todos em passeio pelos intestinos uns dos outros, e esquecendo-se que o resultado de semelhantes “caminhadas” é sempre o mesmo e já parece sina de um povo.
Se ao menos todos nos lembrássemos que entre nós e o poder, naquele espaço onde transversalmente todos tentam com cambalhotas captar a atenção do público em espectáculos degradantes, há um país e muita gente?
E eu disse e reforço, TODOS.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Inglaterra, uma tarde de Outubro



Sentei-me num dos cantos da lareira de onde melhor se espreita o crepitar da lenha. 
Com um bloco assente nos joelhos, escrevo-te como se estivesses aqui comigo à conversa; e o cheiro da madeira quando arde, tempera as palavras de um muito informal e profano incenso.
Já anoiteceu, faz frio, e na gente que sai da igreja após rezar as vésperas, é possível ver gorros de lã.
Vejo-os pela janela enquanto sinto que tu és a minha fé.
O campo que é verde e banquete para as ovelhas que pastam tranquilamente, já se apagou rendido ao ocaso tão precoce.
Mas o mesmo Outono que o fez assim deixou generoso um tapete de folhas com tons entre o vermelho e o castanho, adornos vulneráveis ao vento mas que cobrem os meus passos enquanto caminho.
Vou só, sentindo o aproximar de cada candeeiro pela dimensão da minha sombra... e das sombras vou tirando imagens que um dia poderão ser palavras.
As folhas do Outono conhecem a intimidade dos meus passos, sabem bem para quem caminho.
Faz frio...
Mas com a fé, o incenso, a lenha e o amor que nos entrelaça os passos eu teci uma manta, fi-la como que de retalhos das muitas palavras que te escrevi.