sábado, 24 de outubro de 2015

A solidão, a inevitável pátria dos poetas...



Na solidão, a inevitável pátria dos poetas, os versos que teço são palavras rebeldes em forma de braços, aqueles fortes que eu desejo me envolvam nas noites mais frias de um Outono que será longo.
É mérito dos poetas desenharem na alma a vida com que sonham, vivendo-a na discreta intimidade e no mais secreto silêncio; essa vida tantas vezes sem nada daquilo que deles se espreita à face dos dias banais.
Na minha solidão desenhei um sonho, uns braços iguais aos que me ofereces nas tardes singulares de passeio, e construí cidades com ruas e sem fronteiras, com um porto, barcos, com casas de portadas largas...
Na minha solidão, corto às vezes a rota previsível de todas as noites e paro às esquinas que ousei sonhar para viver contigo, nos teus braços que serão sempre os meus versos... e sou afinal tão pouco do tanto que todos pensam que de mim se vê.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Um velho marinheiro e o Duende na Ilha dos Poetas



Um velho pirata, marinheiro cúmplice dos cabos e promontórios, de todas as esquinas secretas ou mais ou menos discretas dos sete mares, navegava um dia ao sabor do vento, quando lhe apareceu lá ao fundo e mais ou menos envolto pelas nuvens, a montanha acendida por um enorme vulcão.
Será o fim do mundo?
Acelerou a embarcação e chegou cansado a uma praia deserta mas de areia fina temperada de muitas conchas.
Procurou uma fonte onde bebeu água, acendeu uma fogueira, retirou do barco uma mochila e uma esteira, e já se preparava para dormir quando ouviu passos. Primeiro ao longe, depois mais perto, passos pequenos, mas de gente por certo.
Eis então que de repente, por mérito da fogueira e do seu clarão, viu surgir um ser pequeno e a sorrir que lhe disse de pronto:
- Não te assustes velho marinheiro, eu sou um Duende, um dos muitos que há por aqui pela Ilha dos Poetas.
Eu levantei-me para lhe estender a mão, mas ele estendeu-a primeiro, e depois do cumprimento sentámo-nos por ali os dois a conversar.
- Sabes meu querido Duende, talvez eu vá ficar por aqui uns tempos a descansar. Estou velho e algo acabado.
- Velho não estás, talvez estejas só um pouco cansado…
- Sim.
- Então chegaste ao lugar certo. Amanhã subimos os dois por um caminho secreto e mostro-te uma casa a meia montanha, algures entre o mar e o fogo.
E concluiu.
- Vais gostar de lá morar. Não te esqueças que há sempre uma ilha que espera por nós quando nos sentimos a naufragar.
Foi então que no dia seguinte e à hora devidamente combinada o Duende apareceu e mostrou o caminho ao velho que subiu até à casa de madeira mais bonita que ele alguma vez tinha visto.
E pelo caminho ainda lhe disse mais ou menos isto:
- Ali naquele teu recanto feliz chegará também em breve quem te faça sentir a alma e o coração como que em paixão imersos, uma fonte de palavras e dos mais doces versos.
Ao chegar, o velho instalou-se logo por lá, abriu as janelas, cozinhou um almoço, e depois sentou-se na soleira a ver ao longe o mar, e a escrever.
As palavras sobre um papel amarrotado, que alguém um dia poderá ler, são as memórias de um velho pirata a descansar.
O irrequieto Duende todos os dias aparece com o seu irmão na velha casa de madeira, tomam um chá a meio da brincadeira, e ficam por ali às vezes a ouvir as velhas histórias e as lendas que guarda em si aquele velho que nunca se cansou de navegar.

O meu sobrinho João faz hoje dez anos, o que significa que há uma década me ofereceu este privilégio de ser tio, bênção reforçada pouco depois com a chegada do Luís.
Desculpar-me-ão pelo facto de eu dizer que são os dois meninos mais bonitos do mundo, mágicos e duendes inspiradores na vida de uma “velho” pirata de barbas já brancas, um eterno apaixonado que gosta de escrever a olhar o mar.
Um velho… eu, claro; quem mais haveria de ser?

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O silêncio é a casa onde habitam todas as palavras…



O silêncio é a casa onde habitam todas as palavras; tantas palavras, que não há jeito e tempo para lhes dar corpo de letras e um toque pessoal de caligrafia.
Eu tenho guardadas aquelas que tomei do silêncio dos beijos todos que me deste, e com elas e pelos dias fora, fui construindo uma fortaleza com varanda e guarita sobre o mar.
É lá que vivo numa casa de portas e janelas debruadas de encarnado, e é lá que me sento a vigiar o horizonte, pedindo sempre ao sol que faça despontar um dia que te traga com ele, como as gaivotas trazem a sua liberdade inscrita no voo que perfuma todos os céus.
Com saudade, no pranto do amor que tem a métrica e a fé de uma prece.
E às vezes tu chegas ao fim da tarde montado numa hora qualquer para juntos podermos ver chegar a noite.
Instala-se o silêncio que é cúmplice da lua...
O silêncio somos nós com infinitas palavras de amor.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Quando o corpo é apenas um pequeníssimo detalhe da imensa fome de liberdade



Todos os dias escrevo por aqui aquilo que me apraz, as palavras decalcadas do que me pede e dita a alma, sem restrições de qualquer espécie e no usufruto de um dos valores que mais prezo: a liberdade.
A minha liberdade que é exactamente igual àquela que reconheço a toda a gente, incluindo todos os que estão nos antípodas daquilo que eu sou ou de tudo aquilo que eu penso. Porque a liberdade é universal, não é património de esquerda ou de direita, e qualquer território exclusivo e limitado que se lhe crie, qualquer privilégio que se lhe dê ou se lhe retire, mata-a inteira por via da sua essência.
A liberdade morre assim, e sempre, às mãos dos poderosos “Senhores do Monopólio” que compram ruas, as avenidas mais caras, a Companhia da Electricidade, as Estações… e se sentem depois com poder para mandar os outros para a prisão em nome de uma qualquer “Caixa da Comunidade”.
Destes e de todos aqueles que por receberem “dois contos” de cada vez que passam na Casa de Partida, fingem não ver, assobiando para o lado e bem para longe.
Nós não queremos, não é cómodo, mas às vezes é necessário vir para a rua gritar, e é necessário usar a escuridão destas noites que nos oferecem, para que consigamos sonhar juntos, as madrugadas, os dias em que o sol nasce e já nos encontra aos pulos nas ruas a celebrar a liberdade.
Tendo embora a consciência de que a minha voz tem o peso de um grão de areia numa imensa praia, não posso deixar de dizer aqui que apoio a luta de Luaty Beirão, em greve de fome em Angola há mais de um mês.
É dele que falo e da minha… da nossa liberdade.
Resistiremos como flores azuis por entre as cores de qualquer Outono.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

É o povo todo, e a glória… a liberdade


Embarcar em Lisboa num avião baptizado com o nome de Luís Vaz de Camões, adormecer passados pouquíssimos minutos, ainda algures sobre o Tejo e a Ponte Vasco da Gama; mune a alma de qualquer um, e não só dos poetas, do sacro dedo inspirador das Tágides, as ninfas do rio de Lisboa, e o sonho sai na forma de uma Odisseia em rima como no poema de Homero:

Saímos da Barra tomando os ventos
Velas como braços beijando o mundo
O querer de heróis aceso de alentos
O sonho de um rei, Dom João Segundo
A glória tem alicerce nos tormentos
Maior quando o sofrer é mais profundo
E esta dor em nau que busca a claridade
É o povo todo, e a glória… a liberdade

A minha incursão pela lírica.
Acordo ainda a tempo de ver o avião a rasgar as nuvens fazendo despontar da água as terras do Nordeste da ilha de São Miguel.
Os picos ladeiam as crateras onde a lava descansa sob o silêncio das lagoas, e há caminhos de basalto bordejados de flores.
Depois, aterro já bem desperto como no canto décimo do épico de Camões: a ilha dos amores.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

E nós reinando sobre o tempo... a caminhar



Declaro-te herói de todas as minhas tardes, coroado imperador sentado no trono que o meu desejo vai aos poucos esculpindo no tempo.
E essas tardes em que o sol escreve versos nas nuvens tingidas de chuva, são irmãs do mar que varre de espuma a areia da praia, terreiro de uma nova face oferecido aos nossos passos para o inédito desenhar de uma história feliz.
Ao longe o farol e o porto de abrigo...
E nós reinando sobre o tempo... a caminhar.

domingo, 18 de outubro de 2015

A dolência das gaivotas no feitiço do fim da tarde



A chuva parou a tempo do sol espreitar muito antes de rumar a ocidente, e no areal despido que a duna e os cardos abrigam, há centenas de gaivotas que se alinham numa estranha e inédita formatura; como um imenso castelo com asas que rumará daí a pouco até ao descanso em lugar seguro.
A dolência denuncia o feitiço do fim da tarde...
Ali sentado num velho banco de madeira e olhando-as de longe, eu sou como elas um romeiro que roga ao sol a bênção de uma noite, a casa onde os sonhos e os desejos suplantam tudo aquilo que se vê e palpa à face mais humana dos dias.
E depois voo para ti alinhando-me entre palavras.