sábado, 31 de outubro de 2015

O céu encarnado…



Abraço a tarde no instante em que o sol lavra o céu de encarnado, a lua já se pressente sobre a campina; e entre mim e o horizonte há uma desgarrada ao toque insistente do olhar.
No Alentejo, a terra rasa estende os horizontes e permite-nos espreitar o sol a espreguiçar-se antes de adormecer.
O céu encarnado...
O céu tomou o tom de barro da terra dos meus passos; e sentindo o cheiro dessa mesma terra e com os pés sem pudores beijando a planície, sou eu quem tomou o céu, por ti, no azul perfeito do amor que nos reveste os dias.
Fecho os meus braços escondendo a tarde como quem te abraça.
E deixo-me ficar contigo.
A planície, a lua e o tu… o céu onde não cabem bruxas ou santos, o céu que não se apaga nunca. Nem ao anoitecer.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A casa das coisas de sonhar...

Sim, é verdade que guardo em mim cada mais pequeno detalhe que me ofereces, todos na casa das coisas de sonhar.

Guardo-os para mim como segredos, que o divino posto em palavras ditas ou escritas, morre às mãos da mais mundana e humana condição.

Assim, aquilo que de ti transparece na denúncia do olhar e também às vezes de algum verso que escrevo, aquilo que para a gente parece muito mas que é tão pouco do tanto que guardo, são frutos doces das muito breves distracções da alma enquanto se entretém a brincar com a lua no espaço do infinito a que acedem os poetas...

Quando sonham.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Ser rei...


Não é rei quem se abriga do céu passando a noite num palácio, mas sim aquele que até dentro de si abre espaço para melhor sentir o céu.

Enquanto deixo Lisboa, a noite vai caindo sobre a estrada à minha frente, mas com a lua a não permitir que o breu se instale.

O luar é definitivamente um tanto de luz e de dia que permanece.

Penso no meu almoço e nos dias de liberdade da minha amiga, rezo o terço, escuto Pedro Barroso no Spotify, saboreio contigo um Pastel de Belém e um chá por via do desejo...

O Homem é uma fórmula única mais ou menos secreta com muito daquilo que não cabe em Tabelas Periódicas.

Chego ao hotel depois de atravessar a mata, instalo-me e vou jantar.

À esquerda da mesa aonde me sento em frente a uma jarra de margaridas há um painel que evoca Os Lusíadas e o canto sexto: "A deusa que nos ceos a governava".

É Vénus, a deusa romana do amor.

Releio as palavras todas que me deste, revisito os beijos e as tardes em que penduramos a prudência para sermos nós e maiores num eterno abraço.

O amor dos deuses...

Tenho o céu cá dentro.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O aroma doce e quente do chocolate…


Destapamos cada instante no misto de ousadia e curiosidade que nos impõe a alma, e vamos aos poucos temperando os dias com o aroma doce e quente do chocolate...
Tudo, por sobre os beijos que sabem a morangos maduros lavados com a água mais límpida da mais fresca das fontes.
O sol incendeia de mel a corola das flores chamando até si as abelhas lá para as bandas da primavera; e os lírios juram fidelidade ao campo resplandecentes no seu fato de gala de corte fino, obra de um divino alfaiate.
Cantam cigarras e pássaros perfumando os caminhos…
Tudo isto vi num dia chuvoso de Outono, sentado ao teu lado e em frente a um chá de camomila numa esquina de Lisboa.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O vento...



O vento que parte os troncos das árvores do pomar, é o mesmo vento que mói o trigo no moinho e faz a farinha, precursora do pão.
O vento que nos leva o perfume, é o mesmo que um traz um novo aroma que tomou da giesta, das rosas ou do alecrim.
O vento que seca a roupa no estendal que pusemos na varanda, é aquele mesmo vento que faz chover.
É o mesmo vento que brinca com as nuvens por cima das rotinas e das coisas banais, e com elas desenha as histórias perfeitas para acompanhar quem nunca se cansa de olhar o céu.
O vento...
Como os nossos dias.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O tempo tem ondas e ventos…



Com a folha de um velho jornal dobrado nos lugares e nas medidas certas, construo um barco que faço navegar pelas horas em que espero por ti.
O tempo tem ondas e ventos…
À proa ponho um cravo num tom rosado, enfeito com bandeiras coloridas e soltas todo o corpo da proa à ré, e vou notando que o sol e o tempo, queimam e apagam letra a letra, as histórias impressas na face das notícias que já não são destes dias.
Sobre o espaço em branco surgem agora os detalhes todos de um tempo novo, letras, o nosso tempo, a minha espera…
Tu chegarás um dia, a sorrir com o olhar por me veres aqui, trazendo nos braços infinitas folhas amarrotadas de jornais, recados que fui escrevendo de liberdade enquanto esperava por ti
Os teus braços carregando as carícias todas que me revestem os desejos.

domingo, 25 de outubro de 2015

Enquanto “Roma” parece arder


O mundo não se divide em esquerda e direita, norte e sul, este ou oeste; o mundo… somos todos nós, os seres que nele habitamos, humanos ou não; e aquilo que o faz crescer e o engrandece, é a fé e a convicção com que seguimos os nossos valores e ideais no máximo respeito por todos aqueles que os têm diferentes de nós.
A liberdade é a maior festa, e a tolerância a maior virtude e a regra do “jogo”.
Para que não me alcunhem de um Nero alucinado a tocar a lira de poemas de amor enquanto “Roma” arde, sinto-me quase na obrigação de escrever este texto, por entre uma profusão de palavras “obscenas”, números e memórias do “Youtube” com que toda a gente parece andar a “lutar” arduamente nas redes sociais, virtuais ou não.
Tudo serve como arma de arremesso contra os “diferentes”; e a política que teve sempre como objectivo a conquista do poder é hoje definitivamente um “Jogo da Glória” ao sabor dos dados e por entre o vazio da ideologia.
Onde é que estão e para que é que contam os ideais para um individuo que votou PS, PCP ou BE, por convicção, e agora e sem saber sequer as cedências que estão a ser feitas de parte a parte, defende cegamente o acordo que não conhece?
Da mesma forma, que peso têm os ideais de direita da PàF nos memorandos que se abrem a todos o itens que na campanha eleitoral serviram para arrasar o programa do PS?
A democracia assenta na expressão do voto, e aqui apetece-me recordar que um “democrata” que na noite das eleições e quando conhecidos os resultados, afirma estar de luto, é alguém que despreza a decisão dos demais e que tem de resolver urgentemente o seu conceito de democracia.
Um Presidente da República ou qualquer outro cidadão, não pode em circunstância alguma excluir votos ou gente do jogo democrático. O voto de Cavaco Silva vale tanto como o voto da Catarina Martins ou de qualquer cidadão. Sendo o primeiro magistrado da nação a fazer esta discriminação e exclusão, é emasiado grave.
A maioria de esquerda que se vislumbra no Parlamento e que já elegeu o novo Presidente tem tanta legitimidade para condicionar a vida e as decisões do país, quanto o presidente de decidir dar posse ou não a um determinado governo. O Presidente foi eleito por uma maioria absoluta de votos expressos na sua pessoa e nas suas ideias, para agir por si, e não como intérprete do que se passa no Parlamento. É bom lembrar à esquerda que no Estado Novo e após a “bomba” Delgado, é que a Assembleia Nacional elegia o Presidente.
E a democracia é tudo isto sem que o Homem de direita seja “Fascista” ou o de esquerda seja um artífice de um qualquer Gulag ou um adepto da Coreia do Norte.
O respeito entra sempre neste jogo.
Eu considero que o dia mais importante para a minha geração foi o 25 de Abril de 1974, e a liberdade então conquistada por entre a poesia de uns cravos vermelhos de raiva e querer, é uma “rapariga” um pouco mais nova que eu, mas que eu vi e vejo crescer com o orgulho que se tem com os amigos que nunca nos deixam.
Não ofendam mais esta minha irmã que já tem quarenta e nove anos, que brincou em criança com “Mocas” ou “Muralhas de Aço”, mas que hoje é uma senhora respeitada e que deve dar-se ao respeito.
Quem pensa não precisa que as agremiações partidárias ou outras pejadas de “boys” falem por si, e entre nós e qualquer atitude há sempre um país e muita gente que sofre.
O Presidente teve toda a legitimidade para nomear Passos Coelho como Primeiro-Ministro e a Assembleia da República tem toda a legitimidade para o rejeitar.
Depois…
Que reine o bom senso por entre as “legitimidades” de cada agente político e que se dê rapidamente a voz ao povo para legitimar tudo aquilo que existe hoje em jogo e que não foi sufragado por não existir em cima da mesa antes de 4 de Outubro.
Desculpem o desabafo numa manhã de chuva, chamem-me todos os nomes que entenderem por justos, classifiquem-me como quiserem.
Eu continuarei a ser um cidadão que respeita o Estado Social e as pessoas por tudo aquilo que penso e comprovadamente pelo desconto de mais de 50% do meu salário mensal, continuarei a beneficiar da isenção de nunca ter sido nomeado politicamente para lugar algum, continuarei a pensar pela minha cabeça, a não desprezar ou discriminar ninguém por nada e até pela política, a ser um adepto da liberdade, da diversidade, do meu país…
E a escrever poemas de amor todas as manhãs seguindo o coração na expressão de um amor que é só meu e não cumpre regras, pelo menos as mais conhecidas.
Tenho dito.
Um abraço e bom domingo.