sábado, 7 de novembro de 2015

Há beijos que destapam as palavras...

Há beijos que destapam as palavras, os versos que afloram à face visível do que há de mais perfeito nos sentidos.

E aquilo que se vê e lê de um poeta, é pois o riso que extravasa da alma e se escapa do controlo apertado e eficaz da discrição e da razão, no instante em que o desejo se cumpre.

Palavras de amor...

Detalhes de beijos docemente inquietos mas muito pouco daquilo que de verdade se sente.

Ando eu pois pelos teus beijos ganhando o universo que se solta em mim, e tão poucas e pobres palavras vou deixando que falem de nós, daquilo que sinto.

Até ao dia em que as manhãs romperem velhos destinos e a discrição, os cravos de todas as cores enfeitarem as ruas perfumando a liberdade, e eu cale as fronteiras da razão entre mim e a alma...

No instante perfeito do teu beijo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Quem quer aprender a voar e não tem um avião constrói um papagaio de papel...



Quem quer aprender a voar e não tem um avião constrói um papagaio de papel com canas cruzadas, cores garridas, uma cauda longa e solta, e lança-o depois num campo aberto para que as árvores não atrapalhem nunca a sua ousadia.
Quem quer sentir o mar e não o tem por perto sabe que o encontra no canto mais secreto e recôndito de um búzio.
Quem não sente a música nos seus dias compõe-na inspirado pelos gestos e pelas palavras que não desmentem a alma.
Quem quer pão planta trigo ou outro qualquer cereal, e aproveita o vento no alto de uma serra para mover a mó de um moinho.
Quem quer crescer aprende rapidamente que as pedras grandes que se lhe atravessam ao caminho são excelentes e informais degraus que acrescentam “altura”... à vida.
Suicida-se quem não cumpre a fidelidade a si mesmo na festa de ser autêntico.
A fraqueza não mora na derrota, tem domicílio no acto de desistir.

O meu pai faz hoje 75 anos.
Ensinou-me tudo isto.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Os dias aparentemente tristes


Pode parecer argumento de anúncio (“I can see clear now…”), mas uma caneca de café de cevada acabado de fazer é o melhor antídoto para as manhãs de chuva intensa, aquelas em que o vento que empurra a água contra a vidraça parece de caminho empurrar-nos a nós para o recato do edredão, um movimento contrariado eficazmente pelo relógio despertador.
Depois do duche coloco Amina Alaoui na aparelhagem, um apelo aos sons do sul e do mediterrâneo…
Um arco-íris precisa-se, e um quase desespero a chamar pelo sol.
Mas nada, a transparência da janela que habitualmente me dá o mar morreu às mãos das nuvens densas e acinzentadas, e hoje benefício de um espelho gigante que me reflecte assim com um ar meio ensonado.
O mar, se o persigo, só o encontro hoje dentro de mim no tom azul da festa de navegar contigo.
E eu guardo em mim todos os mares.
Bebo mais um gole de café, Amina continua pelo canto em tom de pranto que nós sabemos que o não é, são desabafos da alma para os generosos horizontes do sul…
Há dias aparentemente tristes mas que são “boleias” únicas para fugirmos do óbvio e descobrirmos os segredos que guardamos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tu gostas muito que a noite e o sono te tragam sonhos bons?


- Tu gostas muito que a noite e o sono te tragam sonhos bons?
- Sim.
- Eu também. E gosto tanto que às vezes durante o dia reservo momentos para sonhar tudo aquilo que mais gosto... e vou tirando apontamentos num caderno.
Por acharmos que sabemos tudo, há perguntas que nunca ousamos fazer a nós mesmos, até ao dia em que uma criança nos questiona por entre a enorme vantagem de ser genuíno e não ter filtros.
Foi há pouco tempo numa sessão em Aljustrel que a pergunta surgiu:
- Porque é que as pessoas escrevem livros?
Os demais não sei, mas eu respondi da forma que partilhei acima.
E não o disse na altura, mas aproveito para revelar agora que o poema que publico todos os dias e muito cedo na minha página, são as palavras que entre beijos e em tom de segredo, dou a quem não estando, está sempre ao pé de mim, sendo o primeiro instante do meu despertar.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O teu olhar ergue esquinas no chão dos domingos...



O teu olhar ergue esquinas no chão dos domingos, vértices de praças muito largas que desenhas só para mim, sombras generosas que me abrigam e onde me sento a tecer palavras semelhantes a flores de papel de todas as cores.
Num banco de pedra escavado como quem desce em direcção ao rio…
Palavras debruadas com o mel dos sentidos, que voam de mim para o mundo imitando as gaivotas que não se cansam nunca de beijar as fontes que fizeste borbotar por sobre as calçadas de pedra a preto e branco.
Às vezes solta-se uma imortal canção do Fausto, desfilam memórias de tempos antigos, citamos Herman Hesse, escolhemos uma camisola para o inverno; uma Bola de Berlim em tamanho gigante reduz o chá de cidreira a um discreto e saudável pretexto.
E damos um beijo, em segredo, sem fazer qualquer alarde.
O teu olhar ergue esquinas que são vértices da minha casa perfeita: o domingo à tarde. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Não há duas sem três, insiste a monótona previsibilidade, mas a ousadia faz intuir a melhor sorte e eu acredito: à terceira será de vez


Peço a Molière a pressa no sinal, e às três pancadas, que de improviso, viver sabe sempre melhor, faço subir o pano revelando o cenário que desenhei em tantas luas.
Não há duas sem três, insiste a monótona previsibilidade, mas a ousadia faz intuir a melhor sorte e eu acredito: à terceira será de vez.
O teu respirar perfuma o palco onde as mãos que me ofereces me dão o mundo e também as deixas para infinitas palavras de amor.
As luzes sobem de tom como querendo pintar a sala com a luz do sol.
Há instantes em que sentimos que a vida nos bate palmas.
Somos definitivamente estrelas e foi hoje...
À terceira?
Pouco importa, que a vida tem sempre um dia seguinte.
O argumento?
Apenas nos deixámos ir por onde quiseram seguir as nossas mãos… no palco que sonhámos.

domingo, 1 de novembro de 2015

Rasgámos a terra…



Rasgámos a terra rogando-lhe a pedra que preservará a memória dos nomes em letras desenhadas pelo cinzel...
E os nossos passos dolentes e enfeitados por sinais da cruz e Padres-nossos, exibem uma rota informal pela história que carregamos, nós entre os santos de tantos dias.
Que os santos não são produzidos por decreto, tal como os anjos nunca têm asas.
Os sinos repicam, os crisântemos são brancos da cor da paz que se antecipa do céu, e as lágrimas de saudade são detalhes nossos em estado líquido que escondemos do mundo disfarçando-os nas Ave Marias rezadas aos pés da Senhora da Conceição.
Vila Viçosa, o Castelo, uma tarde de nevoeiro e chuva, Florbela Espanca, os ciprestes, uma amiga que me fala de Virgílio Ferreira e da Aparição, tanta gente...
Um passeio entre os meus mortos?
Não.
Um passeio entre quem nunca deixarei morrer sob a terra rasgada que tomou com ela as mãos dessa gente que nos encheu de carícias.