sábado, 21 de novembro de 2015

Os poetas apenas repousam por instantes nos abraços porque o seu destino é caminhar...


Tomo da noite os melhores presságios, e entre a brisa e o luar, eu não duvido, abraça-me a melhor sorte, um bom destino: o mar, quiçá todo o universo.
E nessa estrada onde os quilómetros são o próprio tempo, os impulsos e as minhas vontades; eu leio a parábola escrita nos meus passos, e o universo sou eu numa história de liberdade.
Atrás da casa onde pernoitamos julgando ter chegado, a madrugada revela quase sempre um novo troço que nos pede que caminhemos pelo dia fora sentindo o esplendor ocre e azul das flores do campo.
Porque será sempre primavera.
Os poetas apenas repousam por instantes nos abraços porque o seu destino é caminhar.
Para onde?
Pouco importa.
Seguimos a rota que o sol destapa em cada dia cumprindo o presságio de luz que a noite tem inscrita no luar.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

É a festa de beijar quem a alma nos diz...

A pele de alguém decalcada sobre a nossa criaria um monstro pelo caos e o desencontro das coordenadas de todos os detalhes da face e do corpo...

Os nossos poros esmagados não sentiriam o ar das madrugadas por detrás de uma Burka, com motivações sociais, mais do que religiosas, de alguém que se condenaria a ser sombra matando as suas cores e a sua identidade.


Mata-se o ser.

É ridículo quem se disfarça fora dos dias de Carnaval; é hipócrita quem se esconde atrás dos biombos, dos outros e das paredes; é uma fraude quem tem vergonha de si e instala fronteiras entre o ser... e o parecer.

E é sempre triste.

No outro dia durante uma tertúlia alguém me perguntou o que é para mim ser feliz, e porque é que eu me sinto e escrevo tantas vezes que estou feliz.

Pergunta difícil?

Não. Nem sequer é incómoda.

Afinal de contas ser feliz é apenas deixarmo-nos acontecer no conforto de não ter segundas peles e não ter fronteiras.

É a festa de beijar quem a alma nos diz.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Há homens que escrevem poemas de amor durante as viagens de avião



Nada é mais fiel e mais íntimo que o pensamento, e por isso não estranho que sejas tu quem mais de perto me acompanha de Roma a Lisboa voando num céu de Outono liberto de quaisquer nuvens.
Se há amores de mão cheia, o nosso encheu-me o corpo inteiro… de um não sei quê de céu e de palavras.
Muito próximo de mim há uma mulher que vê um filme Chinês no seu iPad, um Padre espreguiça-se enquanto lê algo em Italiano, a minha colega estuda um pouco... e dirão eles que um homem de barba grisalha e que pediu um sumo de tomate temperado para acompanhar o jantar, não larga o iPhone e escreve durante grande parte da viagem.
Há homens que escrevem poemas de amor durante as viagens de avião.
É aquele não sei quê de céu.
Versos...
Letras decalcadas sobre os pensamentos, como buganvílias a enfeitarem os recantos de todos os instantes.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

É pelo amor que se faz e conta a nossa História

Compus um poema que fala de ti, e que depois desenhei no mármore de um arco triunfal erigido sobre o chão calcado pela persistência dos meus passos.

Que mais poderá ser a pátria de um Homem para lá da terra que os seus pés entregues aos dias abençoam de liberdade?

O destino assumido, uma linha nossa e informal ladeada por pedras que a primavera torna vulneráveis às papoilas.

E um arco triunfal... festa de um definitivo amor por sobre as estátuas de sal que ruíram espalhando-se pelo dias, abrindo esquinas no nosso tempo.

Do lado sul, um artista ensaia o canto pedindo as notas a uma velha lira que as oferece de cor.

Há uma multidão em movimento lento entre o Teatro Marcelo, o Capitólio, e também o Fórum e o Coliseu.


Recomeçaram há pouco a contar o tempo...

E é dia de festa. A eterna Roma, que é quase tão eterna quanto tu és em mim, brilhará pelos séculos nos arcos das vitórias e dos seus amores.

É pelo amor que se faz e conta a nossa História.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

E parece que ninguém se predispõe a aprender com a lua...

A onda de choque dos ataques terroristas de Paris preenche a Praça de São Pedro, em Roma, com um aparato policial imenso que contrasta em tudo com a paz da luz do entardecer.

No interior da Basílica cheira a incenso, soa o canto gregoriano de uma celebração junto ao altar mor, há gente ajoelhada nas capelas dos santos da sua devoção...

Sente-se a paz.

Mas para chegarmos aqui tivemos todos de passar a segurança muito apertada, e por estes dias muito atenta. O pórtico da segurança antes do pórtico da Glória e... pesquisa-se a guerra à porta das "casas de Deus" onde mora e onde nós vamos buscar a paz.

À saída, os nossos passos adornam lentamente as calçadas de  milénios e sobre as nossas cabeças os pinheiros brincam com o vento; o sol já se pôs definitivamente, deu lugar à lua de Roma que é igual à de Lisboa, à do mundo inteiro... e que hoje sorri.

A mesma lua e um só Deus...

Um homem oferece Terços a um Euro e "Selfie sticks" a dez. E o segundo item sai bem melhor que a "fila" de Padre nossos e ave Marias.

À saída das "casas de Deus", os Homens também pagam mais para se verem vaidosos com o mais possível de mundo ao redor do que para "levarem" Deus para lá da memória da sumptuosidade das catedrais.

À saída retomamos as "nossas guerras".

E serão estes dias o rasgar cruel de um poema de amor?

Parece que ninguém se predispõe a aprender com a lua...

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Lisboa não é uma cidade, és tu.



Lisboa não é uma cidade, és tu.
As ruas são os teus braços que me envolvem por entre a magia do entardecer.
O Carmo são as tuas mãos cobertas de cravos num gesto de liberdade, a tua voz solta-se no canto de Pessoa, o teu sorriso é a lua que enfeita o Rossio de uma doce claridade, e a tua alma, uma imensa alma, corre fiel buscando o mar e o Bugio num Tejo que nunca se cansa.
E às vezes quando não estás há um silêncio a que chamam saudade, e a brisa chora num cantar triste baptizado com o nome de Amália e o apelido de fado.
Nas ruas desertas, braços caídos sem gesto e sem rota...
E eu que busco incessante o teu abraço.

domingo, 15 de novembro de 2015

No cais...


Trouxemos a lenha nos braços já cansados pelo tempo e o tanto do caminho, e quando descemos para o rio, acendemos uma fogueira ateada pelo muito que nos queremos.
Um abraço.
Conheço bem e de cor todos os recantos e segredos deste modo entrelaçado de estar, identifico todos os aromas, sei onde reclinar a cabeça, entregar o olhar, e sei bem onde beber as palavras que desenharei depois sobre uma simples folha de papel em branco.
Para ti.
Para te ler mais tarde quando as gaivotas já tiverem partido na companhia do pôr-do-sol, e o céu for um muito íntimo instante só entre nós, Lisboa e a lua.
No cais, onde crepitam palavras de um lume infinitamente aceso.