terça-feira, 24 de novembro de 2015

O Outono assa castanhas na Rua Augusta


O Outono assa castanhas na Rua Augusta, e o fruto descascado e fumegante, ainda aceso pelo rigor da lenha, é um beijo que te ofereço de mão para mão; um beijo doce mas com um intensíssimo sabor a sal.
Pensará mais tarde a chuva já fria de quase Dezembro, que é por mérito seu que nos abrigarmos, que caminhamos os dois num forte abraço…
Puro engano.
Estivesse ela atenta às palavras que trocámos sob o tecto informal das nuvens e do voo das gaivotas, e saberia que esta forma de andar assim, é uma casa que desenhámos cumprindo os preceitos da nossa vontade; uma casa grande, cómoda e com mil janelas com vista para o mar e um jardim, uma casa cuja fachada tem o tom de muitos versos e as salas são aquecidas por lareiras de um imenso amor.
Nós, uma casa de onde às vezes saímos mas apenas por brevíssimos segundos, e para nada mais do que comprar castanhas.
No Outono.
  

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Talvez tão só no mar que espreita à minha janela de Outono enquanto se espreguiça a madrugada



A liberdade será sempre muito mais que uma Lady de bronze na ilha a duas braçadas de Manhattan; tem os aromas da savana no voo picado de Redford e Street, a beleza de Tadzio nas praias do Lido na Veneza de Mann e Visconti, o grito de "captain" no clube dos poetas, vivos ou mortos; tem o rodopiar da jovem bailarina entre o pó e a farinha no armazém de uma padaria de Chicago.
Era uma vez... na América, em África, em qualquer lado.
A liberdade.
Minha, tal qual a certeza de que aprendi a beijar com Mastroianni nas águas da Dolce Vita, na Fontana de Trevi.
E tomei na vida o toque de dança de um Cabaret nas cercanias da Unter der Linder, a gargalhada de Amadeus, a insolência das palavras de Maura ou outra "Chica  Almodovar", o eco das palmas do West End…
A liberdade.
Eu e tu como Adriano e Antinoo nas memórias de Yourcenar ou num muito Queirosiano abraço que veste Lisboa ao fim da tarde.
A liberdade…
Talvez tão só no mar que espreita à minha janela de Outono enquanto se espreguiça a madrugada.

domingo, 22 de novembro de 2015

Entre aquilo que fui e o que sou há uma rua estreita iluminada por um velho candeeiro… dei-lhe o teu nome



Entre aquilo que fui e o que sou há uma rua muito estreita iluminada por um velho candeeiro.
Uma viela de Lisboa a que ofereci o teu nome.
E as janelas da casa aonde eu vivo são altas e ao jeito de tomar pelo olhar o céu; que muito pouco importa a ruína que ficou do outro lado do tempo... e da rua.
Nas noites escuras, quando a lua se esconde por timidez atrás do Castelo e desata e liberta todas as sombras, eu peço ao candeeiro que te acenda o caminho e te acaricie os passos para chegues depressa ao nosso abraço, sem o desperdício de um segundo que seja.
Depois deixamo-nos adormecer por entre as palavras que o sono vai entornando sobre a noite.
E jamais conseguirei dizer quantas vezes nos chamamos "meu amor".

sábado, 21 de novembro de 2015

Os poetas apenas repousam por instantes nos abraços porque o seu destino é caminhar...


Tomo da noite os melhores presságios, e entre a brisa e o luar, eu não duvido, abraça-me a melhor sorte, um bom destino: o mar, quiçá todo o universo.
E nessa estrada onde os quilómetros são o próprio tempo, os impulsos e as minhas vontades; eu leio a parábola escrita nos meus passos, e o universo sou eu numa história de liberdade.
Atrás da casa onde pernoitamos julgando ter chegado, a madrugada revela quase sempre um novo troço que nos pede que caminhemos pelo dia fora sentindo o esplendor ocre e azul das flores do campo.
Porque será sempre primavera.
Os poetas apenas repousam por instantes nos abraços porque o seu destino é caminhar.
Para onde?
Pouco importa.
Seguimos a rota que o sol destapa em cada dia cumprindo o presságio de luz que a noite tem inscrita no luar.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

É a festa de beijar quem a alma nos diz...

A pele de alguém decalcada sobre a nossa criaria um monstro pelo caos e o desencontro das coordenadas de todos os detalhes da face e do corpo...

Os nossos poros esmagados não sentiriam o ar das madrugadas por detrás de uma Burka, com motivações sociais, mais do que religiosas, de alguém que se condenaria a ser sombra matando as suas cores e a sua identidade.


Mata-se o ser.

É ridículo quem se disfarça fora dos dias de Carnaval; é hipócrita quem se esconde atrás dos biombos, dos outros e das paredes; é uma fraude quem tem vergonha de si e instala fronteiras entre o ser... e o parecer.

E é sempre triste.

No outro dia durante uma tertúlia alguém me perguntou o que é para mim ser feliz, e porque é que eu me sinto e escrevo tantas vezes que estou feliz.

Pergunta difícil?

Não. Nem sequer é incómoda.

Afinal de contas ser feliz é apenas deixarmo-nos acontecer no conforto de não ter segundas peles e não ter fronteiras.

É a festa de beijar quem a alma nos diz.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Há homens que escrevem poemas de amor durante as viagens de avião



Nada é mais fiel e mais íntimo que o pensamento, e por isso não estranho que sejas tu quem mais de perto me acompanha de Roma a Lisboa voando num céu de Outono liberto de quaisquer nuvens.
Se há amores de mão cheia, o nosso encheu-me o corpo inteiro… de um não sei quê de céu e de palavras.
Muito próximo de mim há uma mulher que vê um filme Chinês no seu iPad, um Padre espreguiça-se enquanto lê algo em Italiano, a minha colega estuda um pouco... e dirão eles que um homem de barba grisalha e que pediu um sumo de tomate temperado para acompanhar o jantar, não larga o iPhone e escreve durante grande parte da viagem.
Há homens que escrevem poemas de amor durante as viagens de avião.
É aquele não sei quê de céu.
Versos...
Letras decalcadas sobre os pensamentos, como buganvílias a enfeitarem os recantos de todos os instantes.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

É pelo amor que se faz e conta a nossa História

Compus um poema que fala de ti, e que depois desenhei no mármore de um arco triunfal erigido sobre o chão calcado pela persistência dos meus passos.

Que mais poderá ser a pátria de um Homem para lá da terra que os seus pés entregues aos dias abençoam de liberdade?

O destino assumido, uma linha nossa e informal ladeada por pedras que a primavera torna vulneráveis às papoilas.

E um arco triunfal... festa de um definitivo amor por sobre as estátuas de sal que ruíram espalhando-se pelo dias, abrindo esquinas no nosso tempo.

Do lado sul, um artista ensaia o canto pedindo as notas a uma velha lira que as oferece de cor.

Há uma multidão em movimento lento entre o Teatro Marcelo, o Capitólio, e também o Fórum e o Coliseu.


Recomeçaram há pouco a contar o tempo...

E é dia de festa. A eterna Roma, que é quase tão eterna quanto tu és em mim, brilhará pelos séculos nos arcos das vitórias e dos seus amores.

É pelo amor que se faz e conta a nossa História.