segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Um pouco mais de Céu...



Nascida em 1909, a Tia Maria Teodora contava-me que quando criança e por alturas da Primeira Guerra Mundial, ao chegar a novena da Senhora da Conceição, as mulheres iam para a igreja com os mesmos xailes grandes e de cadilhos com que de manhã se abrigavam do frio de Dezembro na apanha da azeitona.
Sem bancos corridos e com as cadeiras reservadas para aqueles que se oferecem estatuto de mais próximos de Deus, restava pois o chão para as mulheres se sentarem a ouvir o pregador, que afortunadamente não falava em latim.
Afinal, o chão nunca é coisa estranha para quem cuida a terra.
Durante esse tempo de serão, em que o cansaço as vencia e elas dormitavam, os rapazes e as raparigas entretinham-se a atar os cadilhos uns aos outros ligando os xailes que caíam todos numa longa linha no instante em que elas se levantavam.
Ontem fui com a minha mãe à novena pisando o mesmo chão mas sentando-nos nos bancos de madeira.
A fé será a mesma de há um século, o castelo, a igreja, o ar frio de Dezembro que corta o adro...
O pregador, o muito estimado Padre Francisco Couto, perguntou a determinada altura da sua intervenção:
- O que é que vos faz vir aqui e procurar Jesus.
À pergunta seguiu-se o silêncio mas eu respondo por aqui:
- Um pouco mais de Céu, tão difíceis andarão as dores dos dias aqui pelo chão.
Hoje como há cem anos em tempos de outras guerras e outros “cadilhos”...

domingo, 6 de dezembro de 2015

Coisas da poesia de um sábado à tarde…



O que poderá unir o Largo de São Carlos, em Lisboa, com o Terreiro do Paço de Vila Viçosa?
Por certo a música, D. João IV era um melómano e foi na sua dinastia, no reinado de D. Maria I, que a casa da ópera de Lisboa foi inaugurada.
Depois a poesia, Fernando Pessoa nasceu numa casa em frente ao teatro, Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa a curtíssima distância do Terreiro do Paço.
Mas no sábado solarengo de um Dezembro do Século XXI, aquilo que une um e outro são os meus passos envoltos na claridade.
Se a riqueza de um homem se mede pelas "cidades" que o abraçam, eu serei então dos mais afortunados do universo.
Deixo que "O retiro" do Rodrigo Leão me envolva nos primeiros quilómetros dos quase duzentos que tenho de percorrer, e o artista, sem o saber, inventou a banda sonora perfeita para a magia dos sobreiros espreguiçando-se ao sol, oferecendo sombra à erva nova que a chuva já semeou.
Depois deixo que o YouTube me faça uma mix muito pessoal, e não estranho que Zeca Afonso e a "Canção de embalar" soem enquanto estaciono em Vila Viçosa à porta de casa dos meus pais... no Terreiro do Paço.
Há um não sei quê de ninar em cada chegada ao chão onde nasci e brinquei em rapaz.
Há tanto mas tanto de mim no chão de Lisboa onde por ti me deixo acontecer.
Coisas da poesia de um sábado à tarde…

sábado, 5 de dezembro de 2015

De quantos abraços foi espelho este rio…



O Tejo é por esta hora sem luar, um imenso manto negro que a ponte ao fundo rasga de luz.
Por isso se revela na brisa, muito mais do que por qualquer detalhe que nos enfeitice o olhar, aqui em frente ao Bugio, onde se entrelaça de paixão com o Atlântico e lhe entrega mil vidas que beijou no seu lento passo entre Albarracin e Lisboa.
De quantos abraços foi espelho este rio...
Na sala em que o soalho range de cansaço pelos anos que já viveu, há um recanto mal iluminado onde um sofá está estrategicamente colocado em frente a uma janela baixa que dá para o Tejo e para o Bugio.
Porque lê aquilo que eu escrevo diariamente, o Eduardo sugere-me aquele local como pouso para a minha escrita, e eu prometo-lhe, a ele e à Ana Isabel...
- Amanhã escreverei sobre este recanto discreto que de longe parece uma despensa.
Conhecemo-nos há trinta e um anos, nós e os quarenta amigos que foram chegando entretanto para jantar.
Os nomes já falham por entre a traição do tempo e da memória, os cabelos mudaram de cor, sendo que os delas foi por opção e os nossos, quando persistem, mudaram por destino...
Parece que só as gargalhadas e as histórias permanecem iguais, coladas à essência e à genética, neste não sei que de afecto que persiste e se revela indestrutível.
Conhecemo-nos tão bem pelo riso, pelas palavras e pelo jeito com que as dizemos.
Somos todos farmacêuticos e despedimo-nos da Faculdade em 1990 para irmos viver ali algures intensamente num breve instante.
Entre Albarracin e Lisboa...
Voltámos ontem para um jantar em frente ao rio, nosso cúmplice no passo entre margens definidas pelo querer, para o mesmo destino que jamais se apagará como o riso e as palavras: o mar.
Nós como o Tejo.
De quantos abraços foi espelho este rio…

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Construímos um tecto sobre o Outono...



Construímos um tecto sobre o Outono, pintámo-lo de palavras doces, e adornámo-lo depois com detalhes raros que fomos guardando no baú secreto do que vale a pena.
Pendurámos luzes para alumiar os dias e também as noites, abraçando de sol as árvores despidas das folhas cansadas e vulneráveis ao vento.
Construímos um tecto...
Sobre os dias e sobre todas as estações.
Um tecto que arquitectámos em tons de azul para que nem um só detalhe traísse a essência que tem o Céu.
Eu e tu.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Que importa o que não se vê, se o universo está todo naquilo que se sente?



Há manhãs que calam o horizonte e que nos empurram para dentro de nós.
O mar escondido e triste por detrás da neblina, deixa livres as velas para que naveguemos pelo azul que a alma carrega consigo no amor que a perfuma tão intensamente.
Deixamos para trás Alcácer Quibir e as areias onde o sangue repousa inerte entre a espada e os despojos do gibão.
"O desejado"....
Cumprirá as falas do "profeta" de Trancoso e chegará até nós desmanchando a espera onde estamos recostados há tanto tempo; numa manhã tom de cinza como esta.
A navegar, descubro-te depois em mim na alma e numa ilha vestida de azul, tu e todo o tempo que moldas perfeito...
"O desejado".
Que importa o que não se vê, se o universo está todo naquilo que se sente?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Neste beijo para onde trouxemos a vida toda


Já trocámos o medo pela ousadia, a dúvida pelas palavras certas e tão nossas, e o cinzento tom fatal de um quase inevitável destino pela rota desenhada pelos nossos pés entregues ao caminho…
Colocámos gambiarras acesas nas janelas das casas onde o corpo nos pediu pernoita, candeeiros de luz e alecrim pendurados nos ramos das árvores cujos frutos nos ofereceram pão e abrigo…
Cantámos as velhas canções, a playlist das festas de garagem, mas sem pensarmos que um beijo de amor é coisa de poetas, aquilo que se escreve sem nunca acontecer; lemos Camilo com a certeza de que o destino onde os sentidos nos levam nunca será a perdição, é o amor completo… e quanto muito será a perfeição.
Já não choramos senão apenas porque o olhar não contém sem respirar, a alegria tanta que a alma liberta no instante de uma carícia. E acabamos sempre por chorar naquele sossego de não soluçar.
Já não adormecemos com pressa como que a puxar o futuro, porque tudo acontece agora…
Neste beijo para onde trouxemos a vida toda.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PORTUGAL Sempre!



Jamais te deixaremos adormecer na morbidez de quem se rende à noite, e por ti rasgaremos praças no extremo nobre de todas as terras, construiremos cidades onde pulsará intenso o luar, o céu como nós na festa da mais legítima liberdade.
E dar-te-emos a dimensão imensa da alma que não se cansa, a incessante voz de quem sabe que o sonho só começa em Guimarães, porque Sagres, só um pouco mais ao sul, é uma caravela e o mar é uma estrada para o universo inteiro.
Porque não há impossíveis.
Porque Portugal somos nós, é a nossa alma mais do que aquilo que os mapas todos revelam.
E na pacatez das terras louras de onde emerge o pão, haverá sempre um rei, D. João de Bragança, que do alto da sua… da nossa fé, trepará pelo Alentejo, pela campina, para gritar junto ao Tejo na festa de Lisboa enquanto ainda nasce Dezembro:
- Viva Portugal restaurado.