quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Nós somos os presépios que caminham alegres sob a aragem fria das manhãs de Dezembro...



Saiu cedo o poeta numa manhã fria de Dezembro, tomou a aragem e a neblina como abraço do céu que sobre ele se curvava, e a passo decidido foi deixando para trás as ruas debruadas de cal da vila, mergulhando feliz no campo que conhecia bem dos seus tempos de brincar.
Com os pés entretidos no beijo apaixonado ao seu eterno chão, hoje ornado de infinitos cristais da geada; sem temer o frio entregou as mãos à face norte das oliveiras, tomando pedaços do seu manto verde de musgo que foi guardando num cesto que levava consigo.
Parando infinitas vezes, perdeu-se nas horas e nas lembranças, e já desvanecia a neblina, rendida ao sol, quando decidiu regressar a casa, tomando da orla do caminho, um ramo quase seco de azinheira que o vento algures pelo Outono roubara ao tronco onde crescera.
Na casa aquecida, mais pelo beijo da sua mãe do que pela aparência rubra da lareira, procurou o recanto mais nobre da sala, e com tudo aquilo que trouxera do campo inventou uma cama para Jesus.
Era Natal...
Colocou luzes e cor sobre o presépio enquanto se lembrava e trauteava as quadras que o avô lhe ensinou ao som da zabumba nos dias felizes como o de hoje.
E sentou-se depois o poeta, num sofá quase em frente da sua obra, indeciso e sem saber se Jesus estava mais confortável na cama que ele lhe inventara, se na poesia que colhera do campo sob a aragem fria da madrugada que fora mãe desse dia.
Feliz Natal para todos.
Nós somos os presépios que caminham alegres sob a aragem fria das manhãs de Dezembro... 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Depois voaríamos juntos pelas manhãs de Natal que nos fazem poetas…



Dois copos de tinto realçam o charme do fim de tarde de inverno, e ateiam de liberdade as palavras que se soltam furtivas de entre os beijos com que desenhamos a nossa história.
De dentro deste nó onde se cumpre o desejo e a que chamam abraço, é muito difícil acreditar que lá fora Dezembro acontece, e a noite arrasta o frio para lhe fazer companhia.
Mas eu embacio a janela quando te leio uma carta de amor; palavras, gotículas de um ar e vapor de beijos que se instalam entre nós e o inverno.
Sim, estará frio.
Mais um brinde, os teus olhos...
Eu conheço este instante porque fomos nós e um querer imenso quem o inventou aos poucos, há muito tempo.
O tempo por onde fomos deixando perdidos e órfãos, o silêncio e a dor.
Eu desenharia um abraço dos nossos no espaço todo que me oferece a vida; depois voaríamos juntos pelas manhãs de Natal que nos fazem poetas.
Ainda bem que hoje vieste ter comigo meu amor.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Ser tio é... ir ao "Toys R Us" ao fim da tarde do dia 21 de Dezembro



Ser tio é... ir ao "Toys R Us" ao fim da tarde do dia 21 de Dezembro.
Primeiro, o prazer de tomar um café e trocar presentes com o Álvaro, com aquele benefício acrescido de adiar o inevitável. Depois, rumar a Cascais.
Filas na A5, estacionamento caótico a exigir a perseguição a peões que se dirigem lentamente para a sua viatura carregados de sacos, uma fotocópia na mão com o pedido expresso pelo João...
Da porta da entrada avista-se a multidão e logo ali pela zona dos jogos, a voz dos fracos e a tentação soa na conversa entre duas amigas:
- Porque é que não desistes e lhe dás dinheiro.
Fracas.
Penso enquanto me encaminho para o corredor da marca do objecto pretendido onde já está o Santiago a fazer uma birra e a soltar gritos e urros.
A primeira constatação é a de que na hora da birra, os Santiagos de Cascais berram exactamente como os Brunos Vanderleis da Musgueira, com as mães Teixeiras da Cunha a serem tão impotentes na gestão do assunto quanto as suas congéneres Lopes.
O petiz até abafa os avisos da instalação sonora…
Não consigo ver a referência que procuro, supostamente de um carro telecomandado, e resolvo pegar no telefone para perguntar ao mano se há alternativas.
Discretamente não vá o rapaz estar por perto e perceber que o tio para além da barba branca também tem o mesmo número de telemóvel do Pai Natal.
Secção presentes é com a Fátima e acaba então por ser a minha cunhada a dizer-me que eu ando à procura de um avião, o que significa que eu ando há minutos a procurar aviões no "parque de estacionamento".
O santiago foi arrastado pela mãe e passa finalmente um assistente a quem eu resolvo perguntar pelo produto, mas já naquela fase em que estou por tudo e já tenho um helicóptero na mão.
Se é para voar…
Sigo-o até um corredor próximo e lá está ele... o avião.
Corro em slalom para a caixa entre Nenucos e camas de bonecas.
A fila é imensa com a sorte de ter à minha frente um casal em acesa discussão. Há pessoas que vivem umas contra as outras e nunca na perspectiva de viverem umas com as outras.
E ainda por cima é Natal.
A rapariga da caixa é estagiária e reage como a uma ofensa quando lhe peço um saco:
- Olhe que são vinte cêntimos...
Eu até pagava mais para sair daqui.
Os dois que discutiam à minha frente quase se matam um ao outro junto aos sensores anti-furto pois os alarmes dispararam.
A funcionária chega e resolve o assunto raspando com uma tesoura os códigos de um sensor.
Mas a mulher ainda diz:
- A culpa foi o tua.
Empatam o caminho a mais pessoas até ao instante em que finalmente conseguimos sair.
Está fresco. Sabe bem.
Missão tio cumprida com êxito.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Nunca ninguém dirá que o amor é velho... ou que é velha a liberdade...



Eu sou da idade da espera que olha o mar desde esta janela, a minha preferida; tão velho na eternidade antes do teu beijo, tão breve e tão novo agora nos teus braços, heróis que tão bem sabem apagar o tempo e toda a mágoa.
Eu sou da idade do tanto que me falta e quero viver contigo, por entre aquilo que se vê e o tanto que é só nosso em doce segredo.
Nos teus braços sussurrando palavras como abrigo, rasgando o tempo, galgando as noites, o Outono, pulando para o Inverno... e sentindo sempre que aquilo que muito se deseja nunca envelhece.
Nunca ninguém dirá que o amor é velho... ou que é velha a liberdade.

domingo, 20 de dezembro de 2015

O tempo recorta instantes onde nós nos sentamos confortavelmente a conversar



O tempo recorta instantes onde nós nos sentamos confortavelmente a conversar.
E dizemos o tempo, pelo intenso sabor a destino, esquecendo-nos de que ornámos tantos dias com esta vontade.
Sentamo-nos sempre na plateia; que o palco mesmo quando transparente e permite espreitar o céu, é sempre para os actores entregues às deixas que os outros teceram para os enredos de comédia, drama, de non-sense e tantas vezes até de uma infeliz tragédia.
Na plateia somos nós, sem palmas mas por entre o doce aplauso da maior honestidade com a história, somos nós com as nossas palavras no enredo definido pelo uso e fruto da mais intensa liberdade, quando nos deixamos acontecer, por sermos tanto e quase tudo daquilo que queremos ser.
Na plateia…
Onde os beijos são sempre transparentes e com vista para nós, os dois sentados por entre um imenso céu.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Não adianta inventarem mais coisas acerca do Natal: ele é apenas Cristo que acontece



Não adianta inventarem mais coisas acerca do Natal: ele é apenas Cristo que acontece.
E nem adianta que as palavras dos humanos credos se revistam de ouro nos recantos sumptuosos dos templos ou nas vias imensas e caras das cidades; Cristo mora nas nossas mãos às vezes cansadas, e acontece quando elas se tornam as mãos de quem espera, e semeiam vida.
As mãos e os gestos tão insignificantes e simples como recortar palhaços para enfeitarem uma árvore de cartão.
Numa manhã de sol...
Que a tarde trará uma brisa suave para abençoar os passos da solidão onde o poeta repousa e colhe os seus versos.
Quando as árvores nos abrigam e nem damos pela ausência do céu; tal o tanto de infinito que mora na brisa do beijo que desejamos.
Cristo também mora na honestidade íntima dos afectos.
E entre os gestos e a poesia vai acontecendo o meu Natal.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Há notas que se acotovelam felizes à saída de um piano na expressão da mais inspirada e perfeita melodia



Sobre os escombros da mágoa que ruiu no calor das nossas horas, construí uma casa com varanda e vistas para o desejo, onde os sentidos, todos, se sentam à conversa com o destino, alinhando os seus planos com a vontade expressa nos mais ousados sonhos.
Nas noites de Dezembro, quando o luar intenso disfarça o frio, e as mantas são retalhos de palavras de amor sussurradas ao ouvido; há notas que se acotovelam felizes à saída de um piano na expressão da mais inspirada e perfeita melodia.
Brinda-se ao futuro com o vinho generoso que o sol de Julho adoçou, e por entre vivas e saúdes, jamais vacilará a certeza de que esta sorte tem asas; não para fugir mas para cruzar assim connosco o tempo.
Há rosas, bailes, canções, fado vadio, a voz dos poetas, repuxos de água...
E das janelas vizinhas acena feliz a gente que nos quer bem. Tantos nos conhecem por ali, dos anos todos em que por lá morámos na companhia da mágoa.