terça-feira, 29 de dezembro de 2015

As palavras que dizemos um ao outro são detalhes indistintos entre nós e o céu...



As palavras que dizemos um ao outro são detalhes indistintos entre nós e o céu, o racional sobre o silêncio moribundo das hipérboles, palavras que são alpendre e abrigo onde nos sentamos nas tardes solarengas de Natal.
O aroma de sempre do campo, mas o olhar à mercê da alma que o faz doce, o tempo que se esvai sem misericórdia tornando tão breves os quartos cantados pelo campanário, as lembranças que se vestem do tom vivo de festa das laranjas maduras, e o canto feliz da gente de vidas cruzadas em braços dados à melhor sorte.
O tempo foge e contraria-nos nesta festa imensa de querer ficar assim.
O aroma de sempre do campo, o mesmo chão...
Mas o que importa o chão se nós somos do sonho e do céu.
Os dois vestindo palavras doces.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Cavaleiros sem nome ao redor de uma mesa sem forma



Paredes meias com as incansáveis fontes, há rosas nos canteiros que espalham no ar a paixão dos sonetos de Florbela, recitados ao ritmo dos nossos incansáveis passos, pais do eco que tinge de rebeldia o alvo tom de cal das ruas traçadas a régua e laranjeiras.
As muralhas são varandas que rasgam fronteiras e horizontes, o poiso sublime de onde os olhares saciam a alma de impossível, bebendo dela as palavras e o traço, a arte dos poetas.
Há lendas e heróis tatuados no imaculado mármore cinza do Paço, memórias de Portugal reinventando-se pela bravura, erguendo-se pela fé de um rei que à mãe de Deus deu trono e fez rainha.
E há este chão com instinto de trigo e liberdade que foi terreiro e privilégio onde brincámos, o barro rasgado pelo toque certeiro do pião.
O chão onde crescemos juntos entre a poesia e a fé que nunca se resignam aos horizontes, atirando-nos os olhares para longe, para aquilo que só o sonho alcança.
Cavaleiros sem nome ao redor de uma mesa sem qualquer outra forma para lá daquela que a vontade nos recomenda, às vezes juntamo-nos algures pelos dias frios do Natal.
Somos amigos com o tanto que isso implica de alma, e juntamo-nos paredes meias com as nossas incansáveis fontes...
Em Vila Viçosa.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Temos a história guardada em memórias de vinil e em cassetes gravadas...



Temos a história guardada em memórias de vinil e em cassetes gravadas que arrumámos no fundo das gavetas, memórias disponíveis para uma visita nestes dias curtos de sol do Natal que o sossego e o descanso estendem decisivamente.
O Eurofestival de 1981 realizado em Dublin com a participação do Carlos Paião, como qualquer outro detalhe de um tempo a que legitimamente chamamos nosso, tão intensamente o vivemos, sem qualquer ruído de “disco sound” que nos distraísse do afecto que importa e que nos molda.
É a este tempo que voltamos sempre, com as lembranças vestidas de palavras e gargalhadas a empurrarem a hora das migas e a porem a mãe a desesperar com o pão já partido para que eu as possa comer quentes.
Em Vila Viçosa, no Café Restauração, o sítio onde a conversa acontece à volta da mesa da esplanada numa roda onde cabe sempre mais uma cadeira, um nome e um detalhe da história.
Um beijo ou um abraço como password e as memórias do vinil, soltam-se como raiz de uma verdadeira febre de um sábado de manhã.
Um sábado dos nossos, acendidas as lembranças que guardámos nas gavetas que a cumplicidade e o tempo escancararam.
Que para matarmos saudades do melhor de nós servem estes dias ao redor do Natal.

sábado, 26 de dezembro de 2015

O Natal apaga-nos a idade, entre amigos eternos, e quando o almoço é o minuto zero de uma tarde passada a brincar…



O chão por onde caminho agradece-me reconhecido as carícias imensas das tardes do berlinde, e oferece-me generoso, um rumo a que posso chamar meu, a liberdade.
O inverno debruou a ouro tom de laranjas maduras, o verde que é tecto para os meus passos, a orla de horizonte onde um pássaro ousou desafiar o frio para se juntar mim na manhã doce de Natal.
Depois…
Um café acorda-me as palavras, os amigos fazem com que se soltem entre beijos, abraços e as muralhas do castelo e da fé; beijamos o Deus menino, assinalamos o meio-dia com gargalhadas, e nem sei porque falamos dos cinquenta anos que vamos comemorar no ano que vem…
O Natal apaga-nos a idade, entre amigos eternos, e quando o almoço é o minuto zero de uma tarde passada a brincar.
Tomando balanço no mesmo chão do meu berlinde, o meu sobrinho João põe um avião a acariciar o ar, muito para lá do tecto das laranjas, e como quem busca o céu.
Escuta-se o chilrear do mesmo pássaro e este instante é tecido pela mesma liberdade, que é bênção e herança que tem o seu auge no Natal.
A liberdade que é a forma mais completa de rezar e é o beijo mais doce que se oferece ao Deus Menino.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Esta é a noite em que a memória rasga as dores das ausências causadas pelo tempo...



Os dióspiros e a sua essência de Outono persistem na árvore deserta desafiando o Inverno e este Natal ornado pela lua cheia. Vejo-os entre mim e o céu na tarde que calou o nevoeiro e tornou nítidos os contornos todos dos campanários e do horizonte…
À volta da mesa somos três mais a velha receita do “cacau” inventado pela “Pérola Calipolense”, e que ainda continuamos a poder comprar pela Vila; mas o fumo intenso e com o aroma de sempre já não é prenúncio do regresso a casa envolto no xaile que a avó emprestava para que o frio não pudesse desmanchar-nos o rosado tom das faces que o lume aceso e intenso ajudara a criar pelo serão fora.
E caminhávamos lentamente pela avenida e cruzávamos a praça no beneficio de quase dormidos, que os braços dos pais são berços eternos e seguros onde todos os impossíveis se esbatem.
À volta da mesa…
Esta é a noite em que a memória rasga as dores das ausências causadas pelo tempo e resgata pela memória, o riso e a alma daqueles que estenderam para nós os xailes e os braços, aqueles que nos ofereceram os berços que nos trouxeram aqui.
O calor…
Os mestres dos beijos que, mais dos que a lenha, nos ofereceram um tom rosado às faces nas noites perfeitas de Natal.
Um tom que não se apaga nem no mais frio dos invernos.  
São eles os anjos que nos abraçam na festa do Deus menino, com ou sem a cumplicidade da lua, e a paz do Natal é esse encontro entre o melhor de nós com a nossa História.
E nós somos frutos desafiando o tempo e sem nada que nos separe do céu. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Nós somos os presépios que caminham alegres sob a aragem fria das manhãs de Dezembro...



Saiu cedo o poeta numa manhã fria de Dezembro, tomou a aragem e a neblina como abraço do céu que sobre ele se curvava, e a passo decidido foi deixando para trás as ruas debruadas de cal da vila, mergulhando feliz no campo que conhecia bem dos seus tempos de brincar.
Com os pés entretidos no beijo apaixonado ao seu eterno chão, hoje ornado de infinitos cristais da geada; sem temer o frio entregou as mãos à face norte das oliveiras, tomando pedaços do seu manto verde de musgo que foi guardando num cesto que levava consigo.
Parando infinitas vezes, perdeu-se nas horas e nas lembranças, e já desvanecia a neblina, rendida ao sol, quando decidiu regressar a casa, tomando da orla do caminho, um ramo quase seco de azinheira que o vento algures pelo Outono roubara ao tronco onde crescera.
Na casa aquecida, mais pelo beijo da sua mãe do que pela aparência rubra da lareira, procurou o recanto mais nobre da sala, e com tudo aquilo que trouxera do campo inventou uma cama para Jesus.
Era Natal...
Colocou luzes e cor sobre o presépio enquanto se lembrava e trauteava as quadras que o avô lhe ensinou ao som da zabumba nos dias felizes como o de hoje.
E sentou-se depois o poeta, num sofá quase em frente da sua obra, indeciso e sem saber se Jesus estava mais confortável na cama que ele lhe inventara, se na poesia que colhera do campo sob a aragem fria da madrugada que fora mãe desse dia.
Feliz Natal para todos.
Nós somos os presépios que caminham alegres sob a aragem fria das manhãs de Dezembro... 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Depois voaríamos juntos pelas manhãs de Natal que nos fazem poetas…



Dois copos de tinto realçam o charme do fim de tarde de inverno, e ateiam de liberdade as palavras que se soltam furtivas de entre os beijos com que desenhamos a nossa história.
De dentro deste nó onde se cumpre o desejo e a que chamam abraço, é muito difícil acreditar que lá fora Dezembro acontece, e a noite arrasta o frio para lhe fazer companhia.
Mas eu embacio a janela quando te leio uma carta de amor; palavras, gotículas de um ar e vapor de beijos que se instalam entre nós e o inverno.
Sim, estará frio.
Mais um brinde, os teus olhos...
Eu conheço este instante porque fomos nós e um querer imenso quem o inventou aos poucos, há muito tempo.
O tempo por onde fomos deixando perdidos e órfãos, o silêncio e a dor.
Eu desenharia um abraço dos nossos no espaço todo que me oferece a vida; depois voaríamos juntos pelas manhãs de Natal que nos fazem poetas.
Ainda bem que hoje vieste ter comigo meu amor.