quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Jamais importará qualquer numérico detalhe com que baptizarmos o tempo…



O calendário assinala hoje a mudança de um ano velho para outro que chega com rótulo de novo, sendo tudo tão só e afinal, o fim de um dia e a chegada de outro dia.
Jamais importará qualquer numérico detalhe com que baptizarmos o tempo no lógico e irreversível cumprimento da sua passagem, importa isso sim que os dias tenham o nosso nome inscrito nos benefícios nascidos do usufruto da mais doce liberdade.      
O meu… o nosso tempo.
Perdi-me na contagem dos dias no exacto momento em que chegaste.
Sinto apenas as estações a passarem por nós, palpando-as no frio ou no calor, nos aromas… em tudo o que se vai incorporando na aragem do Tejo, o rio que nos oferece as margens para sonhar.
Sei que entrançámos as nossas histórias na primavera lilás dos jacarandás, sonhámos e tecemos os dias à luz de um pôr-do-sol de verão, partilhámos vontades por entre as castanhas compradas numa banca que o Outono trouxe ao Rossio, ensaiámos passos e abraços à chuva dos entardeceres de inverno, voámos juntos por sobre o próprio tempo quando nos demos um beijo a ver tão pequeno o Chiado e o Carmo do alto do Elevador de Eiffel…
Nunca saberei dizer o tudo que me diz o teu olhar, jamais a minha pele conhecerá a fórmula secreta da expressão da tua quando se beijam.
E as minhas mãos que te adoram...
O calendário assinala hoje a mudança de um ano velho para outro que chega e se faz novo…
Mas eu jamais partirei ou te deixarei partir nas mãos de um tempo qualquer que passa por nós e que às vezes voa.
Num dia qualquer.
Viverei a eternidade de mão dada contigo a sentir o Tejo, a amar-te como nunca e a olhar Lisboa.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

2015



Refugiados, Costa, Esquerda, Direita, Islâmico, Jesus, Paris, Terrorismo, Chocalhos, Corrupção, Sócrates, BANIF…

No primeiro de Janeiro do ano que agora finda propus-me escrever um diário, não deixando passar um dia sem um texto partilhado no Pomar das Laranjeiras.
Missão cumprida.
E de cada mês destaco alguns títulos que resumem o ano que por aqui vivi no privilégio da vossa companhia.

Janeiro
“Je suis Charlie”.
“O aroma das rosas persiste entre os dedos muito para lá dos instantes em que as pétalas voam”.
“O amor é um eterno abraço sem pausas para a solidão”.
“O sofá de um Homem enamorado é um parapeito de vistas infinitas e ilimitados horizontes”.

Fevereiro
“Liberdade, frutos, flores, asas, amor… um rio azul e nós que gostamos tanto de nos ver assim”.
“A laje de onde varremos as cinzas é a mesma que servirá de chão ao lume que nos aquece”.
“Começou a terceira guerra mundial ou a segunda ainda não acabou?”.
  
Março
“O meu país entre o pântano e a tanga”.
“E há flores e beijos perfeitos no fim de todos os invernos”.
“A poesia é o perfume perfeito que se colhe de cada momento que vivemos intensamente pelo prazer de sermos nós”.

Abril
“Viver é o exercício da minha liberdade”.
“A tarde adoptou-nos, calou a orfandade das palavras de amor e passeou connosco por entre a gente e o riso de um domingo de primavera”.
“Os poetas não compram flores”.

Maio
“Há dias que sonhámos muito”.
“Os pássaros e os Homens que gostam de voar”.
“A primavera às vezes encontra-nos campeões”.

Junho
“Os canteiros que o dia me oferece”.
“Portugal… pois claro”.
“Sob o luar de Santo António”.
“Procurem-me sempre entre as palavras que escrevo”.
“Enquanto as hortênsias da Praça se espreguiçavam de cor ao sol do meio-dia”.

Julho
“Para podermos caminhar só precisamos de ter vontade”.
“Porque um marinheiro nunca deixa envelhecer o seu amor pelo mar”.
“Já viste a lua?”
“Lá fora chove… mas é verão”.

Agosto
“Perdemo-nos na idade por ganharmos uma nova história”.
“O importante é o Homem”.

Setembro
“As tardes de Lisboa são eternas”.
“Os poetas às vezes choram enquanto rezam”.
“Há dias que nascem para que nós cumpramos a festa que devemos à vida”.
“A minha estação preferida”.

Outubro
“Eu irei votar no próximo domingo”.
“Não há sequer um pequeno recanto de mim que não more contigo”.
“O silêncio é a casa onde habitam todas as palavras”.

Novembro
 “Quem quer aprender a voar e não tem um avião constrói um papagaio de papel”.
“Que mais poderá ser o Homem para lá da sua fé”.
“Porque razão resistiria eu a falar de Direita e de Esquerda”?
“Notre coeur est lá liberte”.

Dezembro
“Neste beijo para onde trouxemos a vida toda”.
“Que importa o que não se vê, se o universo está todo naquilo que se sente”.
“O amor é o doce e perfeito sossego que se colhe de dentro de uma alma alegremente desassossegada”.
“Não adianta inventarem mais coisas acerca do Natal, ele é apenas Cristo que acontece”.


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

As palavras que dizemos um ao outro são detalhes indistintos entre nós e o céu...



As palavras que dizemos um ao outro são detalhes indistintos entre nós e o céu, o racional sobre o silêncio moribundo das hipérboles, palavras que são alpendre e abrigo onde nos sentamos nas tardes solarengas de Natal.
O aroma de sempre do campo, mas o olhar à mercê da alma que o faz doce, o tempo que se esvai sem misericórdia tornando tão breves os quartos cantados pelo campanário, as lembranças que se vestem do tom vivo de festa das laranjas maduras, e o canto feliz da gente de vidas cruzadas em braços dados à melhor sorte.
O tempo foge e contraria-nos nesta festa imensa de querer ficar assim.
O aroma de sempre do campo, o mesmo chão...
Mas o que importa o chão se nós somos do sonho e do céu.
Os dois vestindo palavras doces.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Cavaleiros sem nome ao redor de uma mesa sem forma



Paredes meias com as incansáveis fontes, há rosas nos canteiros que espalham no ar a paixão dos sonetos de Florbela, recitados ao ritmo dos nossos incansáveis passos, pais do eco que tinge de rebeldia o alvo tom de cal das ruas traçadas a régua e laranjeiras.
As muralhas são varandas que rasgam fronteiras e horizontes, o poiso sublime de onde os olhares saciam a alma de impossível, bebendo dela as palavras e o traço, a arte dos poetas.
Há lendas e heróis tatuados no imaculado mármore cinza do Paço, memórias de Portugal reinventando-se pela bravura, erguendo-se pela fé de um rei que à mãe de Deus deu trono e fez rainha.
E há este chão com instinto de trigo e liberdade que foi terreiro e privilégio onde brincámos, o barro rasgado pelo toque certeiro do pião.
O chão onde crescemos juntos entre a poesia e a fé que nunca se resignam aos horizontes, atirando-nos os olhares para longe, para aquilo que só o sonho alcança.
Cavaleiros sem nome ao redor de uma mesa sem qualquer outra forma para lá daquela que a vontade nos recomenda, às vezes juntamo-nos algures pelos dias frios do Natal.
Somos amigos com o tanto que isso implica de alma, e juntamo-nos paredes meias com as nossas incansáveis fontes...
Em Vila Viçosa.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Temos a história guardada em memórias de vinil e em cassetes gravadas...



Temos a história guardada em memórias de vinil e em cassetes gravadas que arrumámos no fundo das gavetas, memórias disponíveis para uma visita nestes dias curtos de sol do Natal que o sossego e o descanso estendem decisivamente.
O Eurofestival de 1981 realizado em Dublin com a participação do Carlos Paião, como qualquer outro detalhe de um tempo a que legitimamente chamamos nosso, tão intensamente o vivemos, sem qualquer ruído de “disco sound” que nos distraísse do afecto que importa e que nos molda.
É a este tempo que voltamos sempre, com as lembranças vestidas de palavras e gargalhadas a empurrarem a hora das migas e a porem a mãe a desesperar com o pão já partido para que eu as possa comer quentes.
Em Vila Viçosa, no Café Restauração, o sítio onde a conversa acontece à volta da mesa da esplanada numa roda onde cabe sempre mais uma cadeira, um nome e um detalhe da história.
Um beijo ou um abraço como password e as memórias do vinil, soltam-se como raiz de uma verdadeira febre de um sábado de manhã.
Um sábado dos nossos, acendidas as lembranças que guardámos nas gavetas que a cumplicidade e o tempo escancararam.
Que para matarmos saudades do melhor de nós servem estes dias ao redor do Natal.

sábado, 26 de dezembro de 2015

O Natal apaga-nos a idade, entre amigos eternos, e quando o almoço é o minuto zero de uma tarde passada a brincar…



O chão por onde caminho agradece-me reconhecido as carícias imensas das tardes do berlinde, e oferece-me generoso, um rumo a que posso chamar meu, a liberdade.
O inverno debruou a ouro tom de laranjas maduras, o verde que é tecto para os meus passos, a orla de horizonte onde um pássaro ousou desafiar o frio para se juntar mim na manhã doce de Natal.
Depois…
Um café acorda-me as palavras, os amigos fazem com que se soltem entre beijos, abraços e as muralhas do castelo e da fé; beijamos o Deus menino, assinalamos o meio-dia com gargalhadas, e nem sei porque falamos dos cinquenta anos que vamos comemorar no ano que vem…
O Natal apaga-nos a idade, entre amigos eternos, e quando o almoço é o minuto zero de uma tarde passada a brincar.
Tomando balanço no mesmo chão do meu berlinde, o meu sobrinho João põe um avião a acariciar o ar, muito para lá do tecto das laranjas, e como quem busca o céu.
Escuta-se o chilrear do mesmo pássaro e este instante é tecido pela mesma liberdade, que é bênção e herança que tem o seu auge no Natal.
A liberdade que é a forma mais completa de rezar e é o beijo mais doce que se oferece ao Deus Menino.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Esta é a noite em que a memória rasga as dores das ausências causadas pelo tempo...



Os dióspiros e a sua essência de Outono persistem na árvore deserta desafiando o Inverno e este Natal ornado pela lua cheia. Vejo-os entre mim e o céu na tarde que calou o nevoeiro e tornou nítidos os contornos todos dos campanários e do horizonte…
À volta da mesa somos três mais a velha receita do “cacau” inventado pela “Pérola Calipolense”, e que ainda continuamos a poder comprar pela Vila; mas o fumo intenso e com o aroma de sempre já não é prenúncio do regresso a casa envolto no xaile que a avó emprestava para que o frio não pudesse desmanchar-nos o rosado tom das faces que o lume aceso e intenso ajudara a criar pelo serão fora.
E caminhávamos lentamente pela avenida e cruzávamos a praça no beneficio de quase dormidos, que os braços dos pais são berços eternos e seguros onde todos os impossíveis se esbatem.
À volta da mesa…
Esta é a noite em que a memória rasga as dores das ausências causadas pelo tempo e resgata pela memória, o riso e a alma daqueles que estenderam para nós os xailes e os braços, aqueles que nos ofereceram os berços que nos trouxeram aqui.
O calor…
Os mestres dos beijos que, mais dos que a lenha, nos ofereceram um tom rosado às faces nas noites perfeitas de Natal.
Um tom que não se apaga nem no mais frio dos invernos.  
São eles os anjos que nos abraçam na festa do Deus menino, com ou sem a cumplicidade da lua, e a paz do Natal é esse encontro entre o melhor de nós com a nossa História.
E nós somos frutos desafiando o tempo e sem nada que nos separe do céu.